16 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XI


Depois de fazer mais de uma centena de fotos de rosas, orquídeas e de pequenos detalhes arquitetônicos de Heathcliff Hall, Clara sentia-se mais calma para retomar seu trabalho de escrever a autobiografia do rockstar Jack Noble.

Após o exercício puramente estético no jardim, Clara conseguiu obter momentaneamente o distanciamento necessário para conseguir arrancar de documentos e velhas fotos as primeiras frases para seu livro.

Acabou colocando tudo de lado e decidiu que começaria pelo final, o Jack de hoje procurando encaixar sua voz em meio a um fraseado de guitarra inacreditavelmente sofisticado criado por David; o sonho dos fãs de vê-los trabalhando juntos novamente estava se tornando uma realidade e desta vez, não com a finalidade de reviver o passado, mas com os olhos um pouco perdidos no horizonte em um projeto que neste momento nem ele, nem David sabiam o que era, mas que seguia em frente.

O truque era encontrar naquele homem o que tinha sobrado do garoto que nasceu e cresceu no Black Country, procurando por sua identidade, enquanto fugia das aulas para reunir-se no topo de uma colina com os outros meninos como ele para ouvir a música que o fascinava e que agora seguia uma regra muito importante em sua vida, a de nunca deixar as pedras sob seus pés criarem limo.

Será que ele ainda tinha alguma coisa em comum com aquele garoto? Tinha que ser assim, nenhum homem com sua idade cronológica é tão inquieto, nem tem tanta vontade de buscar nas profundezas de seu coração a música com potencial para transformar-se em luz.

Depois de alguns parágrafos, o distanciamento já havia desaparecido novamente. Clara então passou a preparar a lista de perguntas para as pessoas que entrevistaria na cidade em que Jack nasceu cujos nomes estavam no caderno fornecido por Michael, mas só poderia seguir com essa parte do trabalho quando Jack estivesse disposto a acompanhá-la. Para ser uma "ghost writer" eficiente, era necessário buscar contar a história com as palavras dele.

Sentia-se presa naquela casa, à sua maneira, Clara também era inquieta e não esperava o limo aparecer. Fechou o computador e foi atrás de Cindy, que estava no escritório falando ao telefone com seu sócio no escritório de arquitetura de Londres.

- Entra... Vou terminar aqui em um minuto e a gente já conversa.

O que eles chamavam de escritório era na verdade uma biblioteca enorme, com estantes feitas de madeira escura, entalhadas, cada uma delas verdadeiras jóias do século XVIII. A escrivaninha também era do mesmo período e todos os equipamentos modernos que ficavam sobre ela, como o belo monitor de 30 polegadas que Cindy usava para trabalhar em seus projetos, pareciam não pertencer àquele ambiente, iluminado por enormes janelas, onde um belo mural pintado sobre a lareira atraia todos os olhares.

- Pronto! O que você quer fazer hoje, Clara?

- Não sei mais... Comecei a escrever, mas tudo ainda está soando muito falso, não consigo me distanciar de tudo o que sinto pelo Jack e acabo parecendo uma fã desesperada, daquelas que mandam cartas com milhões de coraçõezinhos colados no papel.

- Sei o que você quer dizer - respondeu Cindy sorrindo. - Vou te ajudar e contar para você agora como eu conheci os dois malucos, quem sabe a "magia" se desfaz e você começa a enxergar o Jack Noble real. Eu sou arquiteta, isso você já sabe, e há 10 anos trabalhava para o Governo Britânico em uma equipe especializada em restaurar prédios antigos com valor histórico, como esta casa onde nós estamos.
Numa bela manhã de inverno, Michael Peters entrou no meu escritório perguntando se eu aceitaria um cliente particular que pagaria muito bem para transformar um casarão do século XVIII que acabara de comprar em um lugar novamente habitável. A entrada daquele cliente, naquele momento, era tudo o que eu queria. Estava sobrecarregada e precisava sempre lutar pela liberação de verbas para trabalhos que se arrastavam por anos, décadas... Enfim... A burocracia me matava.
Não me comprometi a nada, a princípio, mas me apaixonei pela casa a primeira vista. Estava bem estragada por anos de abandono causado por uma briga judicial e seu novo dono desejava torná-la seu lar. Eu aceitei o projeto, mas naquele ponto não sabia nem quem era a pessoa que viveria aqui; já que apenas negociava com Michael. Fiz meu preço até bem mais alto do que o de costume por isso. Você conheceu a figura e toda vez que aquele homem aparecia aqui, ou no meu escritório, ele conseguia estragar meu dia.
O projeto continuou e estava indo tudo muito bem, especialmente porque o tal cliente misterioso não tinha medo de gastar seu dinheiro e liberava quanto eu pedisse para repor pisos de mármore, madeiras nobres entalhadas, peças de acabamento em ouro para lareiras; enfim, depois da obra terminada, Heathcliff Hall seria novamente um palácio digno da nobreza de sua história. Mas houve um pequeno incidente no meio desta história de sucesso; eu estava em meu escritório naquela tarde negociando por telefone a compra de algumas maçanetas originais com antiquários de Londres quando Michael entrou aos berros pela porta. Desliguei o telefone na cara de colecionadores sensíveis, que nunca mais se dispuseram a negociar comigo para tentar entender o que aquele pedante queria e ele apenas me disse, que eu deveria ir até a obra naquele instante e liberar a entrada da equipe do engenheiro de som, porque ele tinha vindo de não sei onde nos Estados Unidos e precisava fazer uma pré-avaliação para a montagem do estúdio naquele instante.

Clara riu imaginando a situação de Cindy, que imitava seu olhar de surpresa diante da revelação de que a casa teria um estúdio, no meio de uma restauração que afinal de contas, ela era a responsável.

- Contei até dez, me arrependi de ter pedido só o dobro do que o trabalho valia, respirei fundo e respondi com toda a paciência do mundo: - Que estúdio?

- Meu cliente fará um estúdio de gravação no subsolo, ao lado da adega, na parte em que existe agora um depósito, aproveitando aquela parede de pedras que tem um pé direito bem alto. Ele me respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo a se fazer em uma casa do século XVIII, temos aqui a sala de estar, os quartos e o estúdio de gravação, arquiteta desinformada! - disse rindo. - Desci, peguei meu carro e segui a Mercedes dele até o portão da casa, onde estava o David e a equipe de um engenheiro americano, todos barrados pelo time contratado por mim.
Dei algumas broncas no meu time pelo rádio e todos entramos esperando o veredicto do tal engenheiro de som, que amou a ambiência daquele porão que ainda acumulava décadas de descaso naquela época e já começou a passar instruções para a minha equipe do que precisava ser feito ali para possibilitar a construção do tal estúdio. Parei tudo na mesma hora e disse que enquanto não conversassem comigo, a responsável por aquilo tudo, minha equipe não se mexeria do lugar.
Foi aí que David veio na minha direção, pediu desculpas e nós começamos a conversar. Sinceramente, não o reconheci de imediato, era o completo oposto do Michael, falava baixo, era educado, divertido, inteligente e apaixonado por arte e arquitetura, como poucas pessoas. E só entendi quem ele era realmente, depois de vê-lo no palco tocando com Jack, em um dos últimos shows da turnê conjunta dos dois em Manchester. Lá, ele me apresentou ao Jack, que na época estava namorando com uma modelo americana.
Nós começamos a sair juntos, eu e o David, e o Michael voltou a pegar no meu pé. Tomei broncas homéricas dele, até que o David mandou-o procurar algo de útil para fazer longe da casa e eu passei a lidar diretamente com ele. Foi aí que encontrei uma antiga planta do projeto original da casa que incluía a sala de vidro e nós dois resolvemos juntos reconstruí-la.

- Esta casa é mesmo impressionante, um trabalho lindo. Fiquei algumas horas no seu jardim fotografando alguns pequenos detalhes. É algo que faço quando preciso tirar minha cabeça de algum assunto que insiste em não sair dela.

- Que bom! Quero ver as fotos! - sorriu Cindy. - Bem, repentinamente, quando eu e o David já estávamos morando juntos, no apartamento de Londres, o Jack foi jantar em nossa casa, estava muito chateado porque a tal da americana tinha dado um fora nele e apareceu por lá bêbado e muito nervoso. Com muita paciência, o David começou a conversar com ele, mas ele só repetia que não podia mais, estava acabado para a música, não conseguia mais resumir o que sentia em três minutos de música e que por isso nunca mais trabalhariam juntos porque ele se recusava a cantar noite após noite sempre as mesmas músicas. Eu, que mal o conhecia, comecei a achá-lo uma pessoa muito estranha, instável, estava quase sempre bêbado, era inconveniente, ligava de madrugada, aparecia em casa sem avisar ou ser convidado e parecia alguém vazio até encontrar seu novo projeto; um disco de regravações de músicas antigas sugeridas pelo David, por sinal. Só comecei a entender de verdade qual era o problema dele depois de conhecê-lo por uns três ou quatro anos.

- E qual era o problema dele? - perguntou Clara com uma indisfarçável preocupação na voz.

- Paixão! Ele é o homem mais apaixonado que conheço, não sabe fazer nada sem mergulhar de cabeça.

- Por favor, Cindy... Não fala isso. Se existe uma coisa que eu não preciso neste momento é de mais uma razão para amá-lo e acabo de descobrir que temos mais isso em comum, eu também tenho o costume de pular de cabeça naquilo em que acredito.

- Isso é muito bom, vocês dois são passionais, dá para perceber que foram feitos um para o outro e o resto não importa muito mesmo.

- Mas fiquei curiosa, ele parou de compor porque terminou com a tal modelo americana?

- Não. Eu até achei que era isso em um primeiro momento, mas não foi, era um daqueles relacionamentos sem muita importância mesmo. Foi uma outra coisa que descobri só um tempo depois que ele parou de trabalhar com o David; você não vai acreditar, mas ele se irritou com um crítico musical que disse que os dois juntos era para os fãs da Crossroads uma espécie de volta ao passado de segunda classe, porque faltava o Michael Silver e uma inspiração real nas novas canções e que Jack precisava ir além da tentação de soar exótico.

- Meu Deus, que idiota!

- Pois é! Quando o David me explicou tudo isso, um tempo depois, fiquei morrendo de pena dele ter perdido tanto tempo reinventando tudo o que fazia só por um comentário estúpido de um crítico com vontade de aparecer.

Clara também sentiu muita pena dele. Parecia sempre estar em fuga da sombra do Crossroads, em um primeiro momento chegou até a gravar discos de música eletrônica, uma estranha combinação ouvir a voz que havia levado o rock para um novo patamar, acompanhada apenas por teclados, fazendo música pop.

Ele foi refazendo seu caminho de volta aos poucos até o rock, voltou a tocar com Mersey, mas no final da turnê do segundo disco com o guitarrista, largou tudo novamente e recomeçou do zero. Agora mergulhava no passado, no blues, a música que o tirou de casa em sua adolescência, agora o levava de volta para a sua relação musical mais duradoura, sua parceria com Mersey.

- Espera, Cindy, você não vai me contar nenhuma história que me ajude a ver o Jack como uma pessoa um pouco mais comum, você não sabe de nenhum podre dele?

- Bom, nestes últimos anos ele parou de fumar, diminui drasticamente as drogas, mas nunca deixou de beber nem um dia em sua vida, acho que se você precisa mesmo encontrar um defeito nele, você pode começar por este.

Sabia disso, já tinha notado este problema, a bebida estava sempre por perto, mas até aquele momento ela estava dentro do contexto, ele estava conhecendo uma pessoa nova e voltando a compor, depois de dez anos, junto com um velho parceiro e logo a sombra do Crossroads estaria novamente voando sobre a sua cabeça.

Embora Cindy tenha dito aquilo numa tentativa de arranhar a imagem de homem perfeito que Clara tinha de Jack, não funcionou porque ela não só conseguiu boas justificativas, como sentiu dentro dela uma imensa vontade de buscar soluções para ajudá-lo a sair daquela situação.

Aquele ainda não era o momento, teria que esperar um pouco, mas certamente iria interferir, tinha essa característica que algumas pessoas podiam até considerar um defeito, mas precisava ajudar as pessoas próximas.

Já era o final da tarde e as duas resolveram descer para o jardim e aproveitar a luz ainda forte do sol para fazer mais algumas fotos, desta vez de alguns detalhes do coreto e retratos das duas, que decidiram naquele momento trocar as fotos de seus perfis no Facebook.

Cindy perguntou se Clara não mudaria seu status de solteira para namorando e ela respondeu que achava muito cedo para isso.

As duas jantaram sozinhas e sabiam que não veriam os rapazes tão cedo, mesmo assim desceram ao porão com garrafas de champagne e copos. Já que sua presença apenas não os faria parar o que estavam fazendo, as duas vestiram-se como se fossem a uma festa, pegaram algumas garrafas de champagne e as agitaram na frente do vidro da sala de controle.

David, que tinha acabado de levantar-se atrás de um copo de uísque, foi até a porta da sala de controle e as trouxe para dentro do estúdio. Jack estava parecendo muito cansado, mas comemorou a chegada das duas correndo na direção de Clara e quase derrubando as taças que ela carregava.

- Estou feliz de que você ainda lembra de mim. – disse rindo.

- Sim, fizemos mais duas músicas hoje! Como vocês sabiam que nós queríamos comemorar?

- Nós queríamos comemorar, trocamos nossas fotos no Facebook hoje e achamos que isso merecia uma comemoração. – respondeu Cindy.

- Estou vendo – disse David com um sorriso cínico. – Estão até vestidas para uma festa.

- Isto? É uma coisinha velha que estava na minha gaveta – respondeu Cindy estendendo uma taça de champagne para David.

- Acho que estamos sendo convocados para outros afazeres, David, sinto que não poderemos continuar o trabalho mais por hoje. – disse Jack

- Bom, senhoras, vosso desejo é uma ordem, vamos deixar tudo por aqui e continuamos amanhã do ponto onde paramos. - sorriu David.

Sem mais conversar, Jack e Clara subiram as escadas até seus quartos, Jack foi direto para o chuveiro tomar um banho, estava cansado, mas ainda tinha planos para aquela noite. Clara estava muito confusa, mas as taças de champagne e a visão de Jack saindo do banheiro, com os cabelos molhados, a barba por fazer e usando apenas uma toalha ao redor da cintura, deixou-a com uma certeza súbita de que nada mais importava.

A noite foi mais uma vez intensa e Jack demonstrava ser o amante gentil, atento e apaixonado que sempre foi. Já Clara sentia medo de tanta entrega. Para ela, que tinha passado o dia buscando distanciar-se do que sentia para conseguir trabalhar, aquela sensação de tê-lo em seus braços, parecia estranha.

Não entendia por que aquele, o homem com quem sonhara por toda a sua vida, parecia tão feliz, em meio às chamas de um sentimento que parecia consumi-lo?

- Estou pensando em começar o livro falando desse seu projeto atual com o David. Vocês já sabem o que vão fazer com as músicas? - perguntou Clara, tentando soar casual para que Jack não percebesse sua preocupação com o andamento de seu livro.

Jack levantou-se da cama nu, serviu uísque para ambos e voltou para a cama.

- Hum, parece interessante quebrar com aquela ordem do nasci, cresci e hoje sou assim. Além disso, como você está acompanhando este momento da minha vida bem de perto, pode ser mesmo mais fácil de ganhar o leitor logo no primeiro capítulo. Mas por que isso agora?

- Nada, é só uma idéia em que eu pensei hoje e como não pudemos conversar, achei que a gente precisava discutir isso, assim não me sinto tão atrasada.

- Não se preocupe, ninguém vai ficar pegando no seu pé com prazos, além do mais, aquilo que eu estou fazendo com o David...

- Eu sei, é a sua música, você achou ela de novo... Não quero atrapalhar seus planos, nem queria ir até o estúdio, foi a Cindy que insistiu.

- Então você não queria estar aqui comigo agora?

- Não, Jack. Eu adoro estar com você, só não quero me colocar entre você e a sua música. Eu sei o quanto isso que vocês estão fazendo lá no porão é importante para você.

- É, mas não é...

- Como assim?

- Aquilo lá só está acontecendo porque isto aqui está acontecendo. Há muito tempo que não me sinto tão feliz como agora e isso me deixa livre e pronto para criar de novo.

Clara foi tomada repentinamente por uma nova onda de carinho, ela então colocou o copo de uísque de lado e encostou a cabeça no ombro de Jack.

Jack beijou seus cabelos e a abraçou ternamente; Clara foi pegando no sono aos poucos, em seus braços, enquanto enrolava os dedos em seus cachos louros.

Continua

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