15 de out de 2011

Rockstar - Capítulo X


Londres brilhava sob o sol forte naquela quinta-feira e Jack acordou cedo para ir até o teatro em que tocaria naquela noite, fazer a passagem de som. Clara, por sua vez, aproveitando que a manhã estava linda, vestiu uma roupa esportiva e saiu para caminhar no Hyde Park.

Estava perturbada com as coisas que Jack havia dito a ela na noite passada e imaginando a origem de suas mudanças repentinas de humor. Podia mesmo ser algo ligado a seu processo criativo, como David afirmou, mas existia algo mais ali, uma sombra escura que surgia repentinamente em seu olhar.

Pensou em ligar para Cindy, mas desistiu quando recebeu uma mensagem de texto de Jack que dizia apenas: Eu te amo, queria estar com você.

Voltou para o hotel, tomou um banho e preparou-se para almoçar sozinha, quando o celular tocou novamente. Era Cindy avisando que estava na cidade para fazer compras e que passaria no hotel para almoçarem juntas em um ótimo restaurante francês aberto recentemente na King`s Road, que David não gostava de freqüentar, mas que ela adorava.

Clara trocou rapidamente de roupa, optando por um vestido preto, mais sóbrio e elegante do que o jeans com camiseta que havia vestido para almoçar no hotel, pegou sua bolsa e desceu até o saguão para esperar pela amiga.

Dez minutos depois, chegou uma mensagem de texto de Cindy, avisando que já estava na porta e ela seguiu até a Mercedes esporte prateada da amiga.

- Que bom que você veio, Cindy. Estava achando que passaria o resto do dia sozinha. O Jack está na passagem de som, lá no teatro e eu já estava me preparando para almoçar.

- Eu sei, o David está lá no teatro com ele. O Jack convidou-o para dar uma "canja" no DVD e ele está lá ajudando a preparar as coisas.

- Meu Deus! A platéia vai vir abaixo quando vir os dois juntos, será uma loucura. - disse Clara – Falando em loucura, ontem aconteceu uma coisa muito estranha com o Jack. Eu estava escrevendo um artigo sobre ele para a Rolling Stone brasileira, aproveitando que estive ontem em uma coletiva sobre o DVD, lá na produtora.

- Sei... Como foram as coisas por lá? Queria ter visto a cara do Michael quando você chegou com o Jack.

- Tudo bem, mas depois que eu traduzi para ele o que tinha escrito, ele me perguntou se eu o via mesmo daquele jeito e começou a chorar dizendo que estava velho demais para mim. Precisei jogá-lo na parede, para que ele voltasse a acreditar que o amava. Ah! E antes disso, ele pegou meu caderninho de notas, escreveu algumas coisas, arrancou a folha e guardou no bolso.

- Lindo! Perfeito! Amiga, você acaba de derrubar a última árvore desta floresta e está de parabéns por isso!

- Como? Acho que você não me entendeu, ele ficou todo estranho, como lá no jardim da sua casa, triste...

- Não Clara! Você não entendeu? Ele está caindo na real de que te ama e está lutando contra isso, com todas as forças, é isso o que está acontecendo.

- Mas eu tive que agarrá-lo ontem para ele acreditar que não o achava velho e ridículo.

- Exatamente! Ele estava tentando agarrar-se na última desculpa possível para não se jogar no que sente; a diferença de idade entre vocês.

- Será? Meu Deus!

- Olha, ele me pediu muito para não te contar sobre isso, mas acho que você precisa saber. Bom, te disse no outro dia que você veio para cá a pedido dele e que ele fez de tudo para convencer o Michael e a editora de que você era a escolha certa.

- Sei, fiquei intrigada com a história, mas deixei para investigá-la melhor quando tivesse outra chance.

- Bom, ele te viu nas fotos da contracapa dos livros e enlouqueceu, parecia um adolescente, e começou a pesquisar tudo o que podia sobre você, começou a ler seus blogs e artigos na internet, enfim, tudo o que podia para te conhecer melhor e comemorava cada vez que descobria uma nova informação. Mas o Michael, como você já pode imaginar era contra e eles começaram uma guerra e no final cada um teve que ceder um pouco e o Jack acabou deixando o Michael criar aquele monte de regras bobas para te controlar.

- Sério?

- Ele dizia umas bobagens sobre ser sua alma-gêmea e o David chegou a ficar mesmo preocupado com ele, nos últimos dias de prazo que a editora tinha te dado para responder o convite, ele comprou uma passagem para o Brasil. Foi por isso que fomos ao show de Nova York.

- Mas, por quê? Sou uma pessoa comum, não tenho nada de especial.

- Quem é que sabe? Estas coisas nunca têm uma explicação lógica, têm?

Cindy e Clara desceram do carro, deixando as chaves com o manobrista do estacionamento do restaurante e caminharam até a porta do Chez Montagne, um bistrot francês, que ficava em uma das esquinas mais sofisticadas da King`s Road.

Lugar badalado de Londres, onde sempre alguns paparazzi montavam guarda fotografando a entrada dos clientes ricos e famosos do restaurante.

Quando Cindy desceu do carro, os paparazzi começaram uma certa agitação: - Cindy, quem é sua amiga?

- É a escritora brasileira Clara Oberhan – Cindy respondeu ao fotógrafo.

E todos passaram a fotografar até que as duas desapareceram através da porta.

- Isso nos dará problemas, não?

- Você se preocupa demais, Clara. - respondeu Cindy rindo.

Depois de uma boa refeição e mais algumas horas de conversa com Cindy que contou que Jack sempre foi assim, um romântico que não media esforços para ficar com as mulheres que escolhia, as duas deixaram o restaurante e foram até o teatro encontrar com os rapazes.

Michael estava por lá e embora não tenha dito nada, ainda olhava para Clara com muito desprezo. Jack, notando o mal estar entre os dois, logo pediu a ele para avisar as mudanças que havia feito na setlist para a equipe de iluminação e de filmagens do DVD.

Aproveitando a ausência de Michael, os quatro correram para um pub, vizinho do teatro, pois os rapazes já estavam cansados e com fome depois de passarem toda a manhã ensaiando.

A presença deles chamou alguma atenção entre os clientes do pub, mas logo os dois casais puderam aproveitar o momento de descanso. Jack e David pediram sanduíches e cerveja, enquanto Clara e Cindy preferiram chá gelado; o que eles não contavam é que as fotos, tiradas por alguns fãs dentro do pub, seriam enviadas para uma rede social e causariam um grande furor na internet e uma certa dificuldade para sair de lá no final da refeição.

A parte ruim é que a mídia especializada em celebridades rapidamente começou a buscar informações sobre a garota loura que estava junto com os dois grandes rockstars e alguns repórteres acabaram descobrindo que era a escritora brasileira Clara Oberhan, em visita de férias à Londres, onde foi descoberto mais tarde, já havia participado da entrevista coletiva de Jack Noble, na noite anterior.

Se os dois estavam juntos ou não, era indiferente, para aquele mercado que transformava o que acontecia na vida das tais celebridades em notícia para consumo imediato, o velho rockstar e a jovem escritora, no momento em que retornaram ao teatro, já eram amantes.

- Me desculpa Clara - disse Jack - o pub, nós fomos irresponsáveis.

- Não se preocupem, isso não me incomoda, é tudo bobagem - respondeu Clara - só espero que o Michael não entenda como uma razão para me mandar para o pólo norte só com passagem de ida.

- Você já teve que aturar muita coisa, está na hora de eu colocar o Michael em seu lugar de uma vez por todas.

- Olha Jack, não quero te causar problemas. Ele tem razão, se a imprensa souber o que eu vim fazer aqui, haverá mais falação sobre o fato de você estar saindo com uma ghost writer do que sobre o fato de você estar revelando pela primeira vez tudo o que aconteceu com sua banda, vai roubar completamente a atenção de algo importante por uma coisa irrelevante.

- Como irrelevante? Nosso relacionamento é irrelevante para você?

- Claro que não. Mas isso só interessa para a gente. Para eles tanto faz se você dorme comigo ou com o David.

- Eu amo o David, mas acho que não gostaria de dormir com ele - respondeu Jack rindo.

- Eu sei... - disse Clara sorrindo e acariciando o rosto de Jack - nem eu gostaria que dormisse.

Michael entrou no camarim e fez um gesto discreto para chamar Clara a acompanhá-lo para fora. Jack que naquele instante conversava com David e percebeu toda a ação, pegou-a pelo braço e disse: - Deixa comigo!

Saiu e fechou a porta do camarim, seguindo Michael até o longo corredor que levava até o palco.

- Jack! - Michael disse espantado - O que você está fazendo aqui, eu chamei a Clara.

- Eu sei que você chamou. Mas sou eu quem precisa falar com você agora. Eu e a Clara estamos juntos e eu não quero mais vê-lo tratando-a mal, nem a perseguindo com aquele contrato que eu e você sabemos que não vale nada. Entendeu?

- Mas, ela colocará todo o plano do livro a perder. Não tínhamos chegado à conclusão de que era melhor mantê-la de fora, que isso daria mais autenticidade?

- Eu não me importo com isso. No momento, eu ficaria feliz se ela assinasse sozinha o livro. Estamos entendidos, Michael?

- Cuidado Jack para não pensar só com a cabeça de baixo e colocar tudo a perder...

- Michael, nunca mais repita isso, se você quiser continuar vivo!

Jack caminhou irritado de volta ao camarim e bateu a porta. Clara percebendo que ele estava muito alterado, puxou-o pelo braço, levou-o até o sofá e pediu que Cindy pegasse para ele um copo de água.

- Jack, você está bem?

- O Michael me tirou do sério, mas agora está tudo bem. Podemos sair ali fora e anunciarmos nosso casamento, se quisermos.

- Casamento? Você quer matar o Michael do coração? – perguntou Cindy rindo.

- Só o Michael? E eu? A gente se conhece só há uma semana, Jack e... é claro, mais uma das suas piadas – disse Clara, em tom de preocupação temendo que ele não estivesse mesmo brincando.

David que acompanhava tudo de perto do espelho, do outro lado do camarim apenas observava quieto e com um ar preocupado.

- Bom, agora que está tudo certo, acho que a gente só precisa acertar aquele lance da setlist que ficou faltando.

- Ah! Claro! – disse Jack – o show!

- Acho que estamos atrapalhando Cindy – vamos voltar para o hotel senão esses dois não conseguem trabalhar.

- Não, Clara, pode ficar – disse David – é só uma música que eu sugeri para o Jack e ele ainda não sabe se vai tocar hoje.

- Não vou tocar, é melhor não – respondeu Jack – não quero que comecem de novo os boatos da volta do Crossroads.

- Você que sabe, velhão! O show é seu, o DVD é seu e o uísque é nosso! – respondeu pegando a garrafa e servindo-se de uma dose. – Servidos?

Somente Jack o acompanhou, ainda estava nervoso depois de enfrentar Michael e não conseguia disfarçar.

Às 17 horas, todos já estavam no hotel, David e Cindy também foram para lá, para facilitar a ida ao show e haviam decidido passar a noite por lá mesmo, em um dos quartos anexos da suíte triplex de Jack.

Enquanto Jack estava no andar de baixo, na parte indoor da piscina, relaxando um pouco. Clara, examinava as roupas que havia comprado na loja de Linda pensando no que vestiria para ir ao teatro. Queria estar bonita porque sabia que depois dos comentários sobre sua presença no pub, uma parte da imprensa ficaria de olho nela.

E aí estava o grande problema, não queria aquela atenção. Estava feliz naquele momento e não tinha a mínima intenção de alimentar revistas de fofoca, arrumando-se demais ou de menos para a ocasião.

Enquanto pensava no que vestir, seu celular tocou, era Jonas: - Vocês são loucos? Como vão juntos em um pub e esperam que ninguém veja? Seu namorado não é o Harry Potter, Clara, ele não tem uma capa de invisibilidade para se esconder.

- Calma Jonas! Está tudo certo, o Jack conversou com o Michael e acredito que ele não vai mais se intrometer.

- Tem certeza? Porque já recebi uma dúzia de pedidos de entrevista com você e a assessora de imprensa da editora quer saber o que dizer.

- Diga que não comenta sobre a minha vida pessoal e no momento, estou de férias em Londres, onde encontrei por acaso o senhor Noble que quis me conhecer. OK?

- OK! Divirta-se, mas cuidado... Não acho que o tal do Michael vai aceitar isso muito na boa, não. Cuidado com ele.

- Pode deixar! Vou me divertir muito hoje e estarei com meus olhos bem abertos para tudo que o Michael fizer e o Jack também estará.

- Beijos! Depois me manda um e-mail contando como foi o show...

- Não se preocupe. Beijos.

Sabendo que não importaria muito o que usasse naquela noite, seria criticada do mesmo jeito, Clara resolveu então usar o mesmo vestido cinza do show de Nova York que era vistoso, sofisticado, mas suficientemente neutro e confortável para deixá-la segura.

Jack havia nadado para a parte externa da piscina e estava agora "jogado" em uma das cadeiras do terraço, de olhos fechados, coberto com uma toalha.

Clara olhou-o pela janela e sentiu vontade de ir até ele, estava mais uma vez sentindo falta de estar perto.

Desceu até o primeiro andar da suíte e foi até o terraço. Ele parecia estar dormindo, mas a ouviu chegando.

- Oi, vem aqui meu amor – disse Jack, abrindo espaço na cadeira para Clara sentar-se.

- Oi... Te vi de lá de cima e fiquei com vontade de estar com você. – foi dizendo Clara, enquanto sentava-se ao seu lado e encaixava a cabeça em seu ombro.

- Queria passar o resto do dia de hoje aqui, quietinha, só com você.

- Eu também! Mas você sabe que o show de hoje será importante para mim. Vamos nos preparar que o show tem que continuar. – disse Jack, puxando-a para mais perto e beijando-a.

- Eu sei – respondeu Clara.

Os dois subiram, tomaram banho e vestiram-se. Pontualmente às 18:30 duas limusines estavam na porta do hotel, uma para Jack e Clara e outra para David e Cindy Mersey.

Jack ficou silencioso por todo o caminho do hotel até o teatro e os dois desceram de mãos dadas do carro em meio a um mar de repórteres e fotógrafos para os quais acenaram.

Dentro do teatro, foram para o camarim que estava com outra aparência naquela noite, parecia um bem arrumado cenário para mais uma festa de pós-show.

Mas desta vez, nem Clara, nem Jack tinham intenção de ficar muito tempo por lá, estavam cansados e pretendiam ir novamente para a casa dos Mersey de manhã bem cedo.

Jack pegou um copo de conhaque, sentou-se em uma poltrona e puxou Clara para sentar-se em seu colo. David e Cindy que tinham acabado de entrar também estavam muito quietos.

Quando faltavam apenas 10 minutos para subir ao palco, Jack pediu que um dos roadies levasse Clara e Cindy para o camarote reservado para elas.

A expectativa crescia a cada minuto que passava. No palco, a cortina de veludo fechada parecia indiferente à excitação que vinha da plateia.

Com ingressos esgotados há meses, o show daquela noite havia ganho novas proporções naquela mesma tarde quando Jack foi fotografado em um pub ao lado de David Mersey, o guitarrista de sua antiga banda, que faria uma aparição especial, o primeiro trabalho conjunto dos dois nos últimos dez anos.

Jack escolheu uma roupa toda preta para aquela noite. Camisa de mangas longas, black jeans e botas de cowboy. Os cabelos longos, na altura dos ombros, louros e cacheados voavam com o vento de dois poderosos ventiladores postados estrategicamente na frente do palco, um de cada lado da tela do teleprompter que ele costuma usar para lembrar-se das letras de todas as músicas.

Ele se aproxima do microfone carregando nas mãos um tambor árabe que fornece o único som, um ritmo lento e intoxicante que é aos poucos seguido pelo restante da banda, todos músicos de New Orleans que Jack havia convocado para gravar seu disco de blues com canções de Robert Johnson, um de seus velhos ídolos.
Mas para abrir o show, ele escolheu uma das músicas da Crossroads, sua antiga banda, uma canção estranha e assustadora em sua versão original, tornava-se agora inesquecível com aquela nova roupagem, adaptada pelos músicos que haviam feito com ele seu disco solo anterior.

Sempre conversando com o público, Jack contava pequenas histórias sobre cada canção antes de começar a cantá-las. Com a plateia nas mãos, ele brinca, canta, faz backing vocals, quando o guitarrista John Stronghold canta uma das canções e sorri, para o público, os músicos de sua banda e, algumas vezes, para Clara, sentada ao lado de Cindy em seu camarote.

Na metade do show, Jack puxou o pedestal do microfone de volta ao centro do palco e começou mais uma vez a falar - Está na hora de trazer ao palco alguém que faz parte do meu passado, meu presente e meu futuro, com vocês o fabuloso David Mersey.

Os riffs de "Rockin' Over" encheram os amplificadores e a plateia começou a pular ensandecida. Como se alguém tivesse acionado alguma misteriosa máquina do tempo, aquele teatro, lotado de jovens e velhos fãs, quase todos com as câmeras de seus celulares gravando cada movimento de Jack, agora viajavam com sua tecnologia do século XXI até a década de 70, quando aquela mesma música levantava poeira em apresentações em grandes estádios, parques e ginásios.

Clara poderia jurar que os dois agora brilhavam e voavam alguns metros sobre o tapete oriental que ficava no centro do palco. Mas aquilo não era tudo. Quando a música terminou, os dois se olhavam e sorriam. Jack então puxou mais uma vez o microfone e começou a falar: - Há uma semana, alguém apareceu na minha vida, acendeu novamente todas as luzes e me tornou possível voltar a compor, esta é uma música que vocês ainda não ouviram e eu a dedico a quem me inspirou a escrevê-la: "Unexpectedly"!

Cindy olhou para Clara, que por sua vez já estava com a maquiagem borrada, chorando muito. Jack surpreendeu-a tocando uma música que tinha acabado de escrever e agora, ela não conseguia mais parar de chorar. Cindy abraçou-a e levou-a até o banheiro, para lavar o rosto, já que a equipe de filmagens havia pedido um pequeno intervalo após o final da nova música para acertar o equipamento.

Clara voltou rapidamente para o camarote, mas o show ainda estava parado. Jack estava em um dos cantos do palco, fora das luzes e de olho no que acontecia no camarote, perguntou: - Está tudo bem?

Ela somente balançou a cabeça e sorriu para ele e Jack mandou-lhe um beijo.

- Teremos que fazer novamente "Love In Vain", vamos fingir que ainda não tocamos esta música... pode ser? - Jack perguntou para a platéia que respondeu com gritos.

O show seguiu em frente e no bis, Mersey voltou ao palco para tocar mais um dos grandes sucessos do Crossroads. Mesmo depois das luzes do teatro se acenderem e uma velha balada soul tomar os alto-falantes, anunciando o final do espetáculo, a plateia não arredava pé pedindo por mais músicas.

Enquanto os rapazes saiam do palco, Clara e Cindy seguiam pelos corredores do teatro para chegarem a área do backstage, guiadas rapidamente por um dos roadies. As duas entraram no camarim e Clara foi direto até Jack, que havia tirado a camisa e estava muito suado, conversando com Mersey, enquanto se preparava para entrar no chuveiro.

Clara, puxou Jack e sussurrou em seu ouvido: - Adorei a música e agradecerei por ela mais tarde.

Jack puxou-a pelo braço para dentro do banheiro, fechou a porta e beijou-a.

- Agora vai para o banho que eu preciso de você limpinho... a gente conversa depois – disse Clara, abrindo a porta e saindo sob o aplauso de Cindy, David e mais um grupo de convidados que havia acabado de entrar

- Clara, venha aqui – disse Cindy sorrindo.- Quero te apresentar para algumas pessoas; este é Jack Noble Junior e sua esposa Allison, Mary Jansen, ex-esposa de Jack e Frank Jansen, seu atual marido. Esta é Clara Oberhan, escritora do livro “Crossroads Songbook” e amiga do Jack.

Completamente sem jeito por estar conhecendo a família de Jack naquelas condições, Clara cumprimentou um a um e ficou conversando com eles esperando que Jack terminasse seu banho.

Logo, Jack e David estavam de volta na sala, de banho tomado, com os cabelos molhados e com um enorme sorriso no rosto.

Champagne era servido a todos os convidados que faziam questão de cumprimentá-los, alguns muito felizes de vê-los juntos mais uma vez, como John Burke, webmaster do site de Jack Noble e fã da banda Crossroads.

Depois de cumprimentar algumas pessoas pelo caminho, Jack e David juntaram-se ao grupo onde estava Clara, Cindy e sua família.

- Hum, minhas pessoas favoritas em todo universo, todas juntas! – disse Jack sorrindo, enquanto pegava Clara em seus braços e a puxava para perto de seu corpo.

Michael aproximou-se do grupo com John Burke e pediu que este fizesse fotos de Jack com a família no camarim para postar no website oficial. Clara fez menção de sair dali, mas Jack segurou-a.

Depois fez mais algumas fotos de Jack com David e dos dois com John Stronghold, o guitarrista da banda que o acompanhava.

Daí em diante, a festa tornou-se só para amigos e familiares e ninguém mais estava autorizado a fotografar nada lá dentro.

Clara aproveitou que Jack havia se distanciado para as fotos e passou a observar muito quieta aquelas pessoas, especialmente Mary, a ex-esposa de Jack. Ainda uma bela senhora, de olhos muito verdes, cabelos negros lisos, presos em um rabo de cavalo, alta e esguia como Jack e o filho deles, uma versão morena de Jack, quando jovem, mas com os mesmos olhos verdes da mãe.

Quando Jack reaproximou-se do grupo, trouxe Clara com ele, pela mão.

- Meus caros, a Clara irá me ajudar a escrever meu livro de memórias e dentro de alguns dias, quando voltarmos da casa do David, ela entrará em contato com vocês todos para fazer algumas entrevistas. Espero que vocês a tratem bem e contem a ela tudo o que sabem sobre mim. Porque como vocês sabem, ninguém está ficando mais jovem por aqui e acho que está na hora de escrever antes que me esqueça de tudo.

- Ah, pai... Você não vai querer que a gente conte tudo mesmo para ela, a moça vai correr de volta para o Brasil se fizermos isso. – respondeu Jack Junior, que tinha a voz idêntica a de seu pai.

Brincando, Jack colocou as mãos sobre os ouvidos de Clara enquanto respondia ao filho: - Shiiiii!!!!!! Quer espantar a moça? Não, você não ouviu essa parte da conversa!

Clara caiu na risada e respondeu: - Não se preocupe Jack, descobri que seu pai era maluco poucos minutos após conhecê-lo.

A festa seguiu por algumas horas ainda com a família de Jack contando a Clara algumas histórias divertidas sobre o seu passado. Cada novo detalhe que conhecia acrescentava em seu coração uma dose ainda maior de carinho por aquele homem tão doce. Não conseguia mais vê-lo naquele momento como o Deus do Rock, agora ele era um homem simples e dedicado aos filhos, apaixonado pela esposa e por seus amigos, que nunca mediu esforços para estar perto deles e que sofria terrivelmente quando ia para a estrada trabalhar.

Jack puxou David de lado, conversou por alguns minutos e os dois voltaram para a roda despedindo-se dos convidados, estavam muito cansados e seguiriam cedo para a casa de David, para continuar o trabalho que haviam começado.

Os convidados também já estavam indo embora, Jack e Clara subiram em uma limusine e foram logo seguidos por David e Cindy.

De madrugada, sem trânsito, chegaram rapidamente ao hotel. Subiram para a suíte e foram dormir exaustos, mas com enormes sorrisos em seus rostos. Clara acordou quando os primeiros raios de sol da manhã começaram a brilhar no topo da janela, acima de sua cama.

Levantou-se, fechou as cortinas para que a claridade não incomodasse Jack, foi até o banheiro, tomou um banho e sentia-se tão feliz que resolveu que aquele era o momento certo para voltar a fazer Yoga, uma prática de anos, que ela costumava intensificar nos períodos em que escrevia seus livros.

Estava parada há alguns meses, primeiro teve alguns problemas em um ligamento em seu tornozelo, depois ficara nervosa demais com o convite para trabalhar em um livro com Jack, as dores aumentaram e ela passou a apenas meditar, mas não conseguia fazer todos os dias e não tinha feito nada na última semana.

Revirou sua bolsa para encontrar seu japa mala, pegou seu colchão de yoga, seu iPod e desceu para o terraço da suíte. Estava tão feliz de reencontrar-se consigo mesma que não sentiu nenhuma dor, mesmo forçando algumas posições um pouco mais, para desenferrujar.

A meditação dependia de uma playlist fixa, para a Yoga, ela ativava uma seqüência de mantras gravados por um músico latino americano em homenagem a Krishna, interpretados apenas por voz e violão.

No final dessa gravação havia um sino, um aviso para a mente entrar em silêncio, o aparelho então tocava uma gravação das ondas do mar. Clara naquela manhã conseguiu chegar até o sino final, que trazia sua mente de volta ao mundo.

Daí era o momento de espreguiçar-se, abrir os olhos e levantar-se. Quando abriu os olhos, deu de cara com Jack, sentado na cadeira do terraço, comendo uma maçã e olhando-a com carinho.

- Namastê – disse ele, juntando suas mãos na frente do coração e curvando-se – Quer uma mordida?

- Bom dia, Jack!

- Yoga, hum? Pode me ensinar?

- Não sei, Jack, faço uma seqüência bem simples, mas eu aprendi em uma escola, fiz exames médicos antes. Não conheço o suficiente para ensinar, mas acredito que possamos meditar juntos, o que você acha?

- Perfeito!

- Você sabia que a Mary vem de uma família indiana?

- Eu sei, vocês se casaram muito cedo, não foi?

- Eu tinha só 18 anos quando casei com ela, mas já morava com a família dela há um ano.

- E eles faziam Yoga?

- Não. Acho que eles eram indianos meio desnaturados, só pensavam em ganhar dinheiro.

Clara riu muito das coisas que Jack contava sobre seu convívio com aquela família oriental, seu primeiro contato com uma cultura exótica, coisa que ele passaria a buscar constantemente mais tarde, conhecer culturas diferentes tornou-se uma de suas obsessões.

Clara enrolou seu colchão, pegou seu japa mala, que era uma pequena jóia, com contas de jade e levou tudo de volta para seu quarto. David e Cindy também já estavam acordados, esperando que o mordomo trouxesse o café da manhã, no segundo andar da suíte.

- Você chegou para revolucionar mesmo nossas vidas – disse David.

- Como assim? Revolucionar? – perguntou Clara.

- A Cindy já me disse que quer fazer Yoga como você e também quer que eu faça. – respondeu David.

- Mas nem você, nem o Jack precisam de Yoga, vocês já tem a música. – disse Clara – mas podemos fazer um pequeno grupo de meditação, o que vocês acham?

- Sábias palavras linda Guru! – disse Jack.

- Perfeito! – disse Cindy.

O café da manhã foi animado, e os dois casais partiram em seus carros para a estrada. Jack aproveitou, fez o checkout da suíte e deixou uma parte de sua bagagem para ser recolhida por membros de sua equipe de produção e ser entregue mais tarde em sua casa em Shatterford.

A estrada tinha muito tráfego de manhã até passar pela saída para o aeroporto, onde começava a ficar mais tranqüila, mas isso era apenas poucos quilômetros antes de chegar em sua porção mais estreita.

No caminho, Clara e Jack conversavam sobre música e meditação e Jack quis saber o que ela costumava ouvir durante a Yoga e ela conectou seu iPod no rádio do carro de Jack, que se apaixonou pela gravação.

De vez em quando, Clara trocava uma mensagem de texto com Cindy, sobre as condições da estrada ou fazendo piadinhas sobre os rapazes que mais uma vez estavam a caminho do estúdio para trabalhar em algo que ainda nem eles mesmos sabiam o que seria.

Clara desejava acompanhar tudo de perto, gravando em vídeo todo o processo, nem que tivesse que deixar seu computador e câmera ligados 24 horas por dia.

Chegaram a casa, acomodaram sua bagagem e como o sol estava mesmo convidativo, colocaram roupas de banho e foram para a piscina, que ficava na lateral da casa, ligada a uma outra área que Clara ainda não havia visto.

Os quatro estavam cansados, mas muito felizes com a resposta do publico no show e tinham tanta certeza de que a crítica tinha aprovado a apresentação, que nem se preocuparam em pegar o computador para ler o clipping da assessoria de imprensa. Nem o celular estava por perto, Clara desligou-o assim que chegou na casa de David e deixou-o dentro da bolsa no quarto de hospedes.

Decidiram que precisavam de um dia de descanso e estavam descansando, conversando, divertindo-se ou simplesmente namorando sob o sol que brilhava intensamente naquela manhã.

Na cabeça de Clara, aquele dolce far niente que ela experimentava agora na casa de David era a versão familiar de algo que Jack e David viveram anteriormente na época da Crossroads, quando durante algum tempo moraram juntos em algo que parecia uma estranha comunidade hippie, um hotel na Califórnia, com roadies, groupies, fãs, conhecidos, seguranças e outros que ninguém sabia quem eram, mas que se aproveitavam de sua hospitalidade e daquela fase de total ausência de sobriedade.

Aliás, como fã da banda, Clara delirava muitas vezes com o desejo de fazer parte daquele cenário, mas isso seria impossível, sem o auxílio de uma boa máquina do tempo que pudesse transportá-la até lá; nasceu na época errada, era o que sempre repetia quando alguém estranhava uma garota tão jovem como ela desprezando a música de sua época para ligar-se apenas em velhos dinossauros do rock.

O tempo passa rápido quando estamos nos divertindo e logo o dia já estava terminando, Clara entrou para a casa, tomou um banho e vestiu-se. Naquele dia de descanso, a noite seria de prazer; nenhum trabalho seria feito naquela casa, estavam comemorando a alegria de estarem juntos, em um dia de verão perfeito.

O jantar foi servido na sala de vidro, aproveitando a beleza do pôr-do-sol no jardim, tudo perfeito, comida boa, boa conversa, risos, música suave e mais um dia se encerrava perfeito, fazia uma semana que Clara e Jack se conheceram e do ponto de vista dela, aquela foi a melhor semana de toda a sua vida.

David sempre foi um ávido colecionador de discos de vinil e sua casa tinha uma sala dedicada a sua coleção com estantes cheias de raridades e inúmeros quadros com discos de ouro e platina espalhados pelas paredes.

Clara ficou maravilhada com o que viu, mas sabia que David não veria com bons olhos seu desejo de fuçar seus bem cuidados bolachões.

Na sala, um bom toca-discos com alto-falantes poderosos foi logo ativado trazendo o som dos grandes nomes do blues, de que Jack tanto gostava.

Enquanto ele contava suas aventuras em New Orleans em busca dos personagens daquele estilo que tanto amava; Clara apenas o via, olhos brilhantes, cabelos louros despenteados soltando-se de um rabo de cavalo, os braços longos agitados para todos os lados; o retrato de um louco, um homem apaixonado pela música que o movia.

David também observava a cena e interrompeu a narrativa de Jack com uma pergunta para Clara: - Como você imaginava que o Jack era antes de conhecê-lo?

Surpresa com a pergunta, Clara parou um pouco para pensar e respondeu: - Tenho uma longa “carreira” como fã do Jack e de sua música, na minha cabeça esse personagem dele já mudou inúmeras vezes, quando o vi pela primeira vez acreditei no clichê do rockstar vaidoso, um “pavão” em forma humana, daqueles que não vão nem ao banheiro sem usar uma limusine. Achei mesmo que teria grandes dificuldades para trabalhar com ele, que ele me trataria como um lixo.

- Nunca! Você já se olhou no espelho garota? – disse Jack rindo.

- Por isso mesmo, sou uma mulher comum, sem atrativos. Ninguém me olha quando estou andando na rua.

- Só posso entender que os homens brasileiros são todos cegos! – respondeu Jack.- Mas gostei da parte em que você falou que me achava um pavão.

Todos riram na sala, vendo Jack fingindo ser um homem afetado que olhava para todos com desprezo.

- Sabe o que eu estava pensando aqui? Como será o livro, você já sabe como começar? – perguntou Cindy.

- Ainda não, estou colhendo informações sobre a cidade em que o Jack nasceu, tenho planos de ir até lá sentir o lugar, ver com meus próprios olhos, acho que isso faz muita diferença, respirar um pouco o ar, ouvir os sons.

- Mas faz tanto tempo que eu nasci que tudo mudou muito por lá...

- Claro que mudou Jack, mas ao mesmo tempo tenho certeza de que quando nós dois formos até lá, o clima, o ambiente da tua infância vai trazer de volta para você uma porção de memórias que construirão, na frente dos meus olhos, o pequeno Jack, que um dia você foi.

- É até difícil imaginar que estes dois grandalhões um dia foram dois menininhos pequenos. – disse Cindy.

- Vi fotos de Jack pequeno, parecia um anjinho, com o cabelo cheio de cachinhos loiros. Lindo! - Clara respondeu sorrindo.

- Você nunca se casou, Clara? – perguntou David.

- Não, mas tive um relacionamento sério no final da faculdade com um colega, chegamos a morar juntos por três anos, mas não funcionou porque ele me traiu profissionalmente. Tínhamos feito um estágio no mesmo jornal e ele falou mal de mim para um dos editores que tinha gostado do meu trabalho e queria me contratar. Ele ficou com a vaga, mas perdeu a namorada.

- Sorte minha – disse Jack, beijando Clara no rosto.

- Bom, já que estamos fazendo perguntas hoje, quanto do livro do Clive Stewart é verdade? –perguntou Clara com medo da resposta.

David e Jack riram um para o outro diante da pergunta inesperada e Jack começou a respondê-la com outra pergunta: - Se fossem fazer um livro sobre você, quem você gostaria que entrevistassem?

- As pessoas com quem eu convivi acho. Meus pais, meus irmãos, professores, editores, sem esquecer de mim mesma.

- Pois é, meu amor, mas esse cara foi falar só com gente que não prestava. Pessoas que nos roubaram, exploraram e destruíram o ambiente ao nosso redor. – disse Jack com ar triste.

- Enfim, é como fazer um livro entrevistando a ex-mulher de alguém e não só acreditando em todo o veneno que ela destila, como ainda inventando um monte de bobagens aproveitando-se da ignorância de fanáticos religiosos que vêem o demônio em tudo o que olham. – continuou David.

- E ele não foi nada honesto com a gente, imagina que até viajou algumas vezes com a banda e o recebemos em camarim, hotel. Aproveitando-se disso ele ainda ligou para mim quando descobriu as informações mais escandalosas e tentou nos chantagear para manter algumas coisas de fora do livro. - disse Jack – Eu estava em uma fase muito ruim da minha vida, tinha perdido meu melhor amigo, minha banda tinha terminado e meu casamento tinha se transformado em um caos, a publicação desse livro foi uma espécie de gota d’ água.

- O Jack não queria nem falar comigo, achava que sua carreira tinha acabado, chegou até a cortar os cabelos para procurar um emprego careta nessa época. – disse David. – estava muito deprimido e esse cara veio com o livro dele para piorar tudo. Por isso eu fiz tudo o que estava a meu alcance para tirá-lo do caminho e agora ele está lá em Washington no meio das ratazanas iguais a ele.

- Nossa! Não fazia a menor idéia, quero dizer vocês nunca tentaram contar o lado de vocês da história e por isso o que todo mundo sabe é o que ele disse. Posso dizer que eu li o livro, não confiei muito em seu conteúdo, mas não tinha outra fonte para consultar.

- Sei o que você quer dizer e por isso decidi escrever minhas memórias. Acho que quando nosso livro sair ele acaba de vez com a moral desse palhaço.

- Tenho certeza, Jack. – disse Clara com carinho, erguendo-se da poltrona onde estava sentada e indo em sua direção, beijando-o no topo da cabeça – não gosto nem de te imaginar triste.

- Bem, crianças, eu acho que agora está na hora de sairmos desta seção de apreciação musical e verdades dolorosas para descansarmos um pouco e amanhã voltarmos a brilhar no estúdio.

- Tem toda razão, senhor Noble, precisamos do descanso para termos outro dia maravilhoso como este. – disse Clara puxando-o pela mão.

- Nós também vamos nos recolher, teremos um dia cheio amanhã. – disse Cindy. Imitando o gesto de Clara e puxando David para o quarto.

- Boa noite para vocês – disse Clara aos amigos. – E você, senhor Noble, me acompanhe, pois tenho umas coisinhas para te dizer, lá no quarto.

Os dois subiram abraçados e assim passaram a noite toda, não fizeram sexo, mas o envolvimento dos dois fez com que tivessem o mesmo sonho, em que conversavam e dançavam sob a luz da lua no coreto do jardim, iluminado por pequenas lâmpadas brancas, que quando vistas mais de perto, eram pequenos vaga-lumes que voavam ao seu redor enquanto giravam de rosto colado. De repente, Clara parou de dançar e olhou para a mais bela lua cheia que já tinha visto na vida.

- Você sabe voar também? – ela perguntou para Jack, enrolando mais uma vez os dedos em seus cabelos.

Ele respondeu que sim e os dois decidiram ir até a lua, atravessaram nuvens e sentiam o ar cada vez mais frio ao seu redor, mas se olhavam e sorriam, brincando naquele longo caminho pelo céu.

Clara acordou sorrindo após o sonho. Sentou-se na cama e ficou observando o rosto de Jack iluminado pelo luar que entrava pela janela. As lágrimas brotavam em seus olhos sem qualquer explicação, estava muito feliz e apaixonada.

Não conseguia mais dormir e resolveu levantar-se. Eram quatro da manhã e ela foi até a mala, pegou seu material para fazer Yoga, seguiu pelo corredor e instalou-se na sala de vidro para fazer sua prática.

Fez todos os asanas e começou a meditar. Desejava estar com Jack naquele instante e por isso teve uma grande dificuldade para acalmar sua mente, mas quando o sino tocou em seu iPod pela segunda vez, tudo o que ela via era a imagem de Jack sorrindo para ela, em seu sonho.

Recolheu o colchão e um pouco mais relaxada, decidiu assistir ao nascer do sol. O dia já amanhecia e começava a dispersar a neblina pesada que recobria o gramado.

Sabia que Jack passaria o dia inteiro no estúdio, sentiu ciúmes de sua música, naquele dia ele teria pouco tempo para ela. Arrependeu-se então de ter ido meditar, pegou suas coisas e voltou para o quarto, onde Jack ainda dormia.

Tirou todas as roupas e deitou-se novamente ao seu lado. Ele abriu os olhos por um momento, puxou-a mais para perto e beijou-a. Toda a ternura que havia sentido por ele naquela noite se transformou em desejo pela manhã e os dois fizeram sexo desesperadamente, como se a própria continuação de suas vidas estivesse em jogo.

Quando o sol estava batendo ainda mais forte na janela, os dois encontraram forças para sair da cama, Jack e Clara estavam muito calados naquela manhã. Cindy estranhou, mas logo entendeu que Jack estava apenas ansioso para voltar a trabalhar e Clara tinha ciúmes, como ela mesma, já que naquele dia, não importava o que fizessem ou dissessem, as duas, para eles, seriam apenas pequenas marcas no caminho para a única coisa que importava: a música.

David já estava no estúdio, acordou mais cedo, nem tomou café da manhã correu para a sua amante, como Cindy chamava sua guitarra.

Clara desceu com Jack, levando nos braços seu equipamento, câmera, tripé, notebook, bloco de anotações e sua garrafinha d'água. Ela precisava muito concentrar-se no trabalho que estava fazendo e um retorno aos seus hábitos normais de vida, como a Yoga e uma alimentação mais saudável eram coisas de que ela necessitava com urgência.

Não queria intrometer-se na vida de ninguém, mas achava que Jack e David bebiam demais e, se ela seguisse o ritmo deles, estaria em pouco tempo transformada em alcoólatra.

Mais uma vez arrumou tudo para ficar o mais longe e quieta possível; não tinha a mínima intenção de ficar entre eles e sua música. Ligou o computador, ajeitou a câmera no tripé, daquele momento em diante sentia-se como aqueles biólogos que entram em uma floresta e passam dias sobre uma árvore, atrás de camadas e camadas de folhas filmando lindos animais selvagens fazendo apenas aquilo que fazem habitualmente, vivendo.

Cindy também desceu, mas preferiu ficar na sala de controle, de onde podia entrar e sair a qualquer momento, sem interferir em nada e onde, segundo palavras dela, "era permitido respirar".

Clara acertou a câmera, sentou-se no computador e decidiu colocar tudo em dia, abriu seus e-mails e percebeu um movimento bem acima da média; mesmo para quem havia deixado de abrir o computador por um dia, 500 mensagens era um pouco demais.

Uma boa parte delas era de editores que costumavam publicar artigos de Clara e agora pediam para ela resenhas dos shows de Londres e Nova York ou artigos contando tudo o que ela sabia sobre o que Jack e David pretendiam fazer daquele momento em diante. Para não irritar Michael ainda mais, ela limitou-se a responder a todos que naquele momento estava de férias e que durante este período não escreveria artigos para ninguém, nem mesmo para seu próprio blog, onde simplesmente postou um desenho que encontrou na internet de uma rede entre dois coqueiros sob o sol, onde se lia: "De Férias!"

Jonas preocupado ainda com o contrato assinado pelos dois com Michael, mandou links de algumas notinhas de fofocas que comentavam sobre o show e apontavam Clara como a nova fonte de inspiração de Jack. Como resposta, Clara apenas escreveu: "não se preocupe, está tudo sob controle."

E depois de colocar sua correspondência em dia, ela pode finalmente buscar por matérias sobre o show, resenhas, artigos e entrevistas feitas em vídeo, na noite antes do show. Tirou o fone de ouvido que estava usando, colocou outro ligado ao computador, clicou para abrir a entrevista do site do programa Entertainment Tonight e teve uma surpresa; Jack contava para a repórter que seu novo relacionamento havia trazido de volta sua vida e dado a inspiração para voltar a compor.

A repórter então arriscou e perguntou quem era essa mulher misteriosa. E Jack respondeu simplesmente: "Ela não vai gostar que eu diga o nome dela, desculpem!" Mas pedindo que a câmera se aproximasse Jack ainda disse: - Se você estiver vendo isso aqui, querida, quero que saiba que preciso que você me entenda e me escute!

Clara não sabia o que fazer, seus olhos lacrimejavam, mas ela decidiu disfarçar torcendo para que ninguém percebesse daquela vez. Saiu da internet, puxou as imagens da câmera para o computador e decidiu que iria concentrar-se somente no trabalho de registrar aquilo que estava acontecendo no estúdio.

Ele havia assumido publicamente o relacionamento dos dois, mas era cedo demais para isso... Eles mal se conheciam, aquilo era uma loucura e estava acontecendo rápido demais. Levantou-se, fechou o zoom da câmera no rosto de Jack concentrado na melodia que saia da guitarra de David, olhos fechados mais uma vez tentando acompanhar com sua voz aquilo que a guitarra fazia.

Balançava a cabeça, parecia estar em transe, assim como David que tocava agora uma melodia linda, na superfície tinha algo de espanhol ou seria árabe? As fronteiras eram muito tênues entre os dois. Clara estava toda arrepiada e procurou no gelo do ar condicionado uma justificativa lógica para isso.

Repetiu mais uma vez para si mesma que estava lá para trabalhar, era uma jornalista especializada em música que teve acesso a maior história de sua vida e precisava agir de acordo; desligar o botãozinho da emoção e ligar a todo vapor o do espírito crítico.

Bebeu água, olhou no relógio e ficou feliz em constatar que era quase uma da tarde e logo, os dois parariam o trabalho para almoçar, condição imposta por Cindy que agora pulava dentro da cabine de controle avisando que o almoço estava pronto.

Jack percebeu a agitação de Cindy e sinalizou para David, que parou de tocar e acenou de volta para ela, rindo. Os dois se levantaram dos banquinhos, colocaram os instrumentos de lado e chamaram Clara que por sua vez, já estava desligando seu equipamento.

Jack veio em sua direção e perguntou-lhe o que estava achando e ela disse que estava amando estar ali, embora estivesse com muito frio. Jack pegou em suas mãos geladas e a abraçou para aquecê-la.

- David, precisamos regular esse ar condicionado, ou vamos congelar a Clara - disse rindo para o amigo.

Subiram, almoçaram, mas voltaram correndo para o estúdio, David queria trabalhar em mais uma idéia que teve naquele mesmo dia, durante o banho.

Desta vez Clara preferiu não descer, ainda queria ver mais alguns vídeos de entrevistas da noite anterior e mostrar o vídeo do Entertainment Tonight para Cindy.

- Nossa! Nos 10 anos que eu conheço o Jack, nunca o vi tão entregue a alguém, como ele está se entregando a você, amiga!

- Ah! Não fala isso porque você está me deixando ainda mais confusa. Eu adoro aquele homem tanto, que tenho medo do que sinto, parece algo grande demais para mim.

- Boba! Você acha que ele é desse jeito com qualquer mulher que aparece? Como já te disse, nestes últimos 10 anos, ele saiu com uma porção de mulheres, mas era uma coisa diferente, sexo, companhia, status e mais nada. A ex dele, a Mary, a mãe dos filhos dele, era a única mulher no mundo que eu já o vi tratando como ele te trata agora e vou te dizer uma coisa, o David me contou que quando ela o largou, na década de 80, ele achou que o Jack ia morrer, de tão arrasado que ele ficou.

As palavras de Cindy estavam apenas deixando-a mais e mais nervosa. Para tentar acalmar-se, Clara decidiu dar um passeio pelo jardim, pegou sua câmera fotográfica, queria aproveitar o sol para fazer algumas fotos de flores, um dos seus hobbies ocultos e uma espécie de refúgio dos problemas sempre que não encontrava uma resposta, recorria primeiro à meditação, quando esta não funcionava, pegava a câmera e ia a um parque fotografar flores até chegar a uma conclusão sobre o que fazer.

Naquele momento, Clara estava sentindo dificuldade para respirar, estava confusa sobre o que sentia, por alguns instantes entendia que era apenas uma forte atração, potencializada pelo fato dele ter sido durante toda a sua vida a sua imagem de homem ideal e em outros, toda a sua teoria caia por terra quando uma ternura e um carinho que nunca havia sentido antes por ninguém a invadiam e estes sentimentos incendiavam seu coração.

Continua

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