13 de out de 2011

Rockstar - Capítulo VIII


As duas desceram até o porão e ficaram algumas horas na sala de controle acompanhando o trabalho através de fones de ouvido.

Agora, Jack tocava uma melodia no piano enquanto David tentava acompanhá-lo em uma guitarra acústica.

Novamente, os dois pareciam estar em um mundo paralelo, onde só existia aquela música, uma melodia mais rápida que soava folk e era a mais alegre que ouvira Jack tocar nas sessões de gravação que havia presenciado.

Foram mais algumas horas no processo de escrever aquela canção, Jack improvisando algumas palavras, tentando encontrar a letra enquanto David apenas a tocava, com muita energia.

Vendo o ritmo de trabalho dos dois, Cindy avisou à Clara que não esperasse vê-los fora daquele estúdio antes de amanhã.

- Sério? Você acha que eles não vão sair daí hoje, jantar, dormir? – espantou-se Clara com o que Cindy dizia.

- Olha só para eles! Estão fora deste planeta e só voltam quando a “nave-mãe” pousar novamente na Terra. – respondeu rindo – estamos sozinhas, amiga!

Mais algumas horas e Cindy chamou Clara para jantar. Fizeram uma refeição bem leve e partiram para um dos quartos da casa que havia sido adaptado para tornar-se uma confortável sala de cinema em miniatura.

A sala tinha uma grande tela embutida em um painel de madeira na parede e também painéis de madeira nas laterais que eram, na verdade, grandes gavetas que escondiam uma sofisticada aparelhagem moderna de blu-ray e uma coleção enorme de filmes e boxes de seriados.

Escolheram assistir a “Notting Hill”, uma comédia romântica estrelada por Hugh Grant e Julia Roberts, o tipo de filme que elas só poderiam assistir tranquilamente longe dos rapazes que certamente torceriam o nariz para aquela escolha.

Assim que o filme terminou, as duas desceram até o estúdio, entraram na sala de controle e encontraram Jack e David ainda trabalhando. Cindy estava certa, eles nem as perceberam acenando do outro lado do vidro.

- Viu? Não disse? Só quando a “nave-mãe” pousar!

- Seria engraçado, se não fosse trágico. Pelo jeito terei que dormir sozinha hoje!

- Vai se acostumando, porque depois das gravações vêm os ensaios e depois deles, as turnês, as semanas de divulgação em Nova York, as participações em projetos de outros artistas, as fundações pelas criancinhas, animais, movimentos pela libertação do Tibet e o pior de todos eles: o futebol no final de semana. – disse Cindy rindo.

- Mas você nunca o acompanha nos shows?

- Às vezes tiro alguns dias de folga e vou, mas prefiro não ir. A estrada não é lugar para esposas e namoradas, nunca foi e nunca será.

- Por que? Eles ainda usam drogas?

- Não, essa fase passou há muito tempo, mas tem o resto da banda, os roadies, tour managers, contratantes, produção, groupies, fãs, imprensa... Enfim, é gente demais cada um pedindo um pouco de atenção, você não quer ser mais uma na lista, quer?

- Acho que não... Mas você não gosta da música que ele faz e da chance de viajar, ver o mundo?

- Não dá para ver muita coisa de dentro de um quarto de hotel. Os roteiros são corridos demais, acordar, voar até a próxima cidade, fazer o show, voltar ao hotel, dormir e recomeçar tudo no dia seguinte. Sempre a mesma coisa, noite após noite. Mas você verá isso com seus próprios olhos nos próximos dias. O Jack tem alguns shows agendados aqui para o Reino Unido neste mês e provavelmente vai querer te levar para ajudar no livro. É uma vida solitária, mas você vai adorar! – disse Cindy sorrindo – Já vi muita gente dizendo que tirei a sorte grande por ter me casado com um “Deus do Rock”, mas deuses não deixam suas esposas e namoradas sozinhas, pelo menos é o que eu acho.

- Falando nisso, meu “Deus do Rock” me deixou também sem internet, meu notebook está ali na sala de gravação, junto com a câmera.

- Usa o meu! Tenho usado mais o iPhone nestes últimos meses, é mais prático. Vem, vamos subir e dar uma navegada para ver o que anda acontecendo por aí.

As duas subiram e Cindy pegou o notebook e seu iPhone e elas fizeram uma busca por novidades em seus sites favoritos.

Clara tinha uma preocupação extra, saber se ela e Jack haviam sido vistos ou fotografados por algum paparazzo em Nova York e ficou aliviada quando não conseguiu encontrar nenhuma foto ou notinha de fofoca, em nenhum site.

Cansada, Clara despediu-se de Cindy e disse que iria recolher-se. Foi para o quarto de hóspedes, tomou um banho, mandou um torpedo para sua família dizendo que estava indo dormir e deitou-se.

Acordou de madrugada, foi até o banheiro e depois de manhã bem cedo... Nem sinal de Jack no quarto... Então é isso... Ele tem um defeito afinal, não sabe parar de trabalhar e por isso, precisa de uma babá constantemente em seu pé, para não morrer de fome ou cansaço.

Quando finalmente desistiu de tentar dormir novamente e levantou-se, Jack entrou no quarto. Estava cansado, cheirando a suor e uísque, passou rapidamente por ela, tomou um banho e desabou na cama.

Clara levantou-se, vestiu uma roupa esportiva e desceu para tomar café da manhã. Cindy já estava na cozinha e as duas comeram coisas leves e saíram pelo jardim ensolarado naquela manhã, para caminhar.

A propriedade era enorme, tinha uma segunda fonte tão grande quanto a primeira na parte de trás, um bem cuidado jardim de rosas e uma estufa com uma bela e exótica coleção de orquídeas.

Clara sentia-se cansada do ritmo dos últimos dias e aquela caminhada pelos jardins era uma boa forma de reenergizar-se. Queria retomar sua prática de Yoga, mas achou mais interessante aproveitar a companhia de Cindy. Não estava trabalhando no livro, quebrava cada uma das regras impostas pelo empresário de seu empregador e agora dormia todas as noites com ele; um conflito e tanto para ela que sempre mantivera uma postura impecável em sua carreira.

Sua cabeça girava um pouco e ela queria culpar o excesso de bebida, o fuso horário e os dias cheios que estava tendo desde a última sexta-feira, mas o que realmente estava prestes a derrubá-la, se ela deixasse, eram as emoções. Estava muito confusa, mas como separar os sentimentos de admiração e desejo por alguém que foi seu ídolo a vida inteira dos sentimentos que estavam surgindo agora que o estava realmente conhecendo.

O que tornava mais difícil é que de perto, ele era ainda mais doce e atraente do que sua "lenda" havia propagado e isso, para ela, era irresistível.

Mas havia outras questões a considerar e a conversa que teve com Cindy na noite anterior havia ajudado a lembrá-la de alguns aspectos que com o tempo, certamente levariam embora todo o encanto.

- Tem uma coisa que eu queria te perguntar, a dona da loja, aquela hippie da Carnaby Street, ela teve um caso com o Jack, não teve?

- A Linda Monsoon?

- Essa!

- Mais do que isso, Clara. Ela era uma groupie e os dois têm um filho que tem uns trinta e poucos anos agora.

- Filho?

- Sim... Quando ela engravidou, correu para casar com um namoradinho da cidade dela. Mas quando o moleque nasceu, era a cara do Jack. O marido registrou a criança e o Jack deu para ela a loja na Carnaby Street.

- Mas e a esposa dele, a Mary? Ela não tinha ciúmes?

- Olha, sinceramente, sei que ele e o David tiveram muitos filhos por aí com fãs e groupies, nunca me preocupei mas parece que o casamento dele com a Mary começou a ruir por causa de um desses filhos.

Clara sentiu ainda mais ciúmes de Jack do que tinha sentido na loja, mas preferiu disfarçar e mudar de assunto:

- Cindy, será que posso descer ao estúdio agora? Preciso pegar meu notebook, minha câmera... Vou tentar trabalhar um pouco e acho que aquele coreto de ontem é o lugar ideal para isso.

- Claro querida... Os rapazes agora vão dormir até o final da tarde, não se preocupe com eles.

As duas foram juntas até o estúdio, no subsolo, que no momento estava passando por uma faxina, pegaram o equipamento de Clara e subiram até o jardim com ele. Clara perguntou se existia alguma tomada para recarregar as baterias e Cindy disse que o coreto tinha tomadas porque eles costumam enfeitá-lo com lâmpadas quando dão festas no jardim.

Lá, cercada de verde por todos os lados, Clara começou o processo de elaboração do livro, transcreveu as gravações que havia feito e decidiu usar em sua escrita as palavras de Jack, sentia que desta forma obteria mais autenticidade e que os fãs, que conhecem sua forma de expressar-se, o reconheceriam no livro.

Sentou-se no coreto, com uma garrafinha de água providenciada por sua anfitriã e buscou na internet tudo o que podia sobre os pais e avós de Jack e sobre a região onde ele nasceu.

Mandou alguns e-mails, para sua família e para Jonas e depois assistiu aos vídeos que registravam o trabalho de Jack e Mersey no estúdio. Definitivamente tinha algo naquelas músicas que ela não sabia explicar, mas que mexia com suas emoções.

Perto do meio-dia, Jack apareceu no gramado, usando apenas uma calça jeans surrada e seus óculos de sol, para chamá-la para o almoço.

- Ah, como estamos hoje, cara ghost writer? Muita ressaca? - disse apontando para a garrafinha de água que estava em sua mão.

- Nenhuma caro Rockstar... E o senhor? Muita ressaca? - respondeu sorrindo

- Sempre! Por isso, estou confiscando esta água para entregá-la aos mais necessitados... Eu, por exemplo!

- Você não existe! - respondeu Clara, abraçando Jack e beijando-o. - Não se usa mais roupas nesta casa?

- Estou vestido assim com o simples propósito de seduzi-la e levá-la para nosso quarto. - respondeu sussurrando em seu ouvido, o que fez os joelhos de Clara falharem.

Meu Deus, este homem ainda me mata! - pensou Clara, enquanto recolhia seus equipamentos.

O almoço foi novamente na sala de vidro, mas o sol fez uma grande diferença naquele dia. Todos estavam mais felizes e tranquilos e não houve o excesso de vinho do dia anterior.

Jack falava animadamente sobre o show que faria no dia seguinte em Londres, que seria gravado em DVD e avisou que teria que reunir-se com Michael na cidade naquela noite para acertar alguns detalhes, conhecer a equipe de filmagens e provavelmente dar algumas entrevistas para serem editadas como extras e para divulgação do projeto.

Clara tinha curiosidade de acompanhar todo o processo, mas ao mesmo tempo, tinha medo de que se Michael descobrisse o que estava acontecendo entre os dois, acabaria mandando-a de volta ao Brasil. Antes de dizer a Jack sobre seu desejo de acompanhar as gravações, Clara achou melhor pedir a opinião de Cindy .

- Não vejo nenhum problema aí, Clara, de verdade. O Michael é meio exagerado, mas o que ele quer é proteger o Jack dele mesmo.

- Mas será que ele não vai me despachar, como uma fã inconveniente?

- Do jeito que o Jack está agindo agora, não acredito que o Michael tenha alguma chance se fizer algo contra você.

Com sua autoconfiança restabelecida, Clara decidiu pedir a Jack para acompanhar as gravações.

- Não acredito que você tenha considerado em algum momento me deixar ir para Londres sozinho. Você não acha que vou conseguir fazer o show se você não estiver na plateia, acha?

- Mas e o Michael? Ele não vai me mandar para alguma masmorra, na Torre de Londres?

- Deixa ele para mim e fica tranqüila. Veste alguma coisa bem bonita, que nós vamos fazer um DVD, baby...

- OK!

Jack ligou para Michael e disse que passaria no hotel de Clara, em Londres, para pegá-la, pois queria que ela acompanhasse o processo todo da gravação daquele DVD, também disse que a levaria consigo para a casa de Mersey onde ficariam hospedados alguns dias depois da reunião de hoje e também pediu que colocasse na lista de convidados o casal Mersey, seu filho, nora, sua ex-esposa e o atual marido dela.

Michael quis saber por que ele iria carregar a tal repórter para a casa de Mersey e recebeu um porque sim, de resposta.

Clara estava assustada, mas iria ver tudo de perto. Jack pediu que levasse o caderninho de anotações, o notebook e o gravador porque daria para ela uma entrevista exclusiva sobre o DVD e o novo disco, naquela noite, no estúdio da produtora.

Estava tudo decidido e ela, mais uma vez, só podia admirar suas atitudes.

Passaram o resto do dia conferindo informações que ela encontrou online sobre as origens da família dele e buscando personagens ligados à sua infância para entrevistar.
Depois foram tomar banho e colocar as malas no carro, partiram para Londres, antes das 5 da tarde já contando com as complicações do trânsito do final do dia.

Jack parecia muito feliz, os dois dias na casa do amigo e a noite no hotel haviam rendido seis novas músicas para um trabalho que estava só começando e pela primeira vez sem pensar no passado, sem trazer o fantasma da volta da Crossroads e terminava também um recesso criativo que o fez passar os últimos cinco anos de sua vida só fazendo regravações de material obscuro que garimpava em seus velhos discos.

Uma nova estrada se abria para ele, com possibilidades infinitas mais uma vez, como antes, quando tudo era mais simples e ele ainda tinha sua banda.

Continua

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