12 de out de 2011

Rockstar - Capítulo VII


Já de manhã, Clara sonhou novamente com o lago onde ela e Jack nadavam, mas desta vez seu fundo estava escuro e contrastava com a luz do sol que fazia brilhar sua superfície.

Jack mergulhava cada vez mais fundo, parecia querer fugir da luz, enquanto ela, preocupada com ele, teve a idéia de buscar os raios de sol da superfície e levá-los com ela para o fundo. E como se tivesse poderes mágicos, subia na superfície, pegava a luz com as mãos e a levava até o fundo, até conseguir iluminá-lo completamente e ele brilhava como a superfície, mas agora Jack havia desaparecido. Ela acordou assustada, com o coração disparado e sentiu-se aliviada ao ver Jack dormindo tranquilamente ao seu lado.

A terça-feira havia amanhecido chuvosa e embora Clara tenha ouvido de Michael que Jack tinha o hábito de calar-se neste dia da semana, para poupar a voz, ele havia decidido que aquela semana estava sendo especial demais para desperdiçá-la com regras bobas, mesmo que fossem as suas regras bobas.

Havia combinado fazer uma visita a David e os dois trabalhariam em mais algumas ideias musicais, Clara foi convidada para ir junto e registrar todo processo com sua câmera, mas ela deveria ficar o mais quieta possível, para não distraí-los. Novas melodias eram efêmeras e podiam desaparecer como surgiam.

Jack pediu para um de seus empregados trazer seu jipe até o hotel e os dois foram com ele para a estrada; a casa de David ficava a uma hora de viagem da cidade; um verdadeiro esconderijo que para ser alcançado dependia de uma longa estrada bem movimentada que terminava em uma menor e estreita que cortava um bosque ao meio.

Era a primeira vez que Clara via Jack em um carro mais rústico, estavam cercados por verde de todos os lados e até mesmo a temperatura ali era alguns graus mais baixa do que na cidade. Clara sentia que aquele era seu verdadeiro ambiente, onde ficava mais a vontade, embora naquele momento, além da concentração na estrada ainda molhada, ela sentia uma certa energia de ansiedade e insegurança que nunca havia percebido nele; sempre iluminando os lugares que freqüentava com o charme irresistível de seu carisma, ele mostrava agora um outro lado que nunca imaginava que pudesse ter.

É claro que era um homem sensível, já o vira chorando inúmeras vezes naqueles poucos dias de convívio e tinha uma obra musical capaz de emocionar as próprias pedras do chão, mas aquela ansiedade o deixava quieto demais e Clara sentia-se desconfortável.

Depois de alguns minutos naquela estrada estreita, chegaram a um grande portão de ferro que se abriu para a passagem do jipe de Jack.

A casa era um verdadeiro palácio, construída no século XVIII, pomposa e elegante tinha cinco andares e muitas janelas. Na frente, uma grande fonte com um chafariz onde estátuas de mulheres dançavam ao redor de um lindo cavalo alado, de pé, em suas patas traseiras, com as asas abertas.

Era uma daquelas casas que tinham nome, que havia pertencido à aristocracia por muitas gerações, mas que acabou sendo vendida a David em um leilão há uns 10 anos atrás.

- Bem-vinda a Heathcliff Hall, senhorita Oberhan! – disse David em português, enquanto ajudava Jack a pegar alguns cases com instrumentos no jipe.

- Humpf! Português? Se você fizer gracinhas para Clara, em português, eu saberei ok?

- Foge enquanto é tempo, Clara! – disse David em português, às gargalhadas.

- Ele me disse que devo fugir de você Jack! Você sabe por que ele diria uma coisa dessas?

- Ele está certo, sou maluco mesmo... É melhor você correr enquanto pode. – disse Jack rindo.

Entraram na casa que era ainda mais impressionante por dentro do que por fora. Suntuosa em cada detalhe e decorada com quadros, cortinas de veludo, enormes lustres de cristal e algumas armaduras, brasões e espadas.

Clara sentiu-se entrando em uma outra época, uma espécie de museu perfeitamente preservado de um tempo de graça e romantismo. Sentia que Jane Austen, uma de suas autoras favoritas poderia aparecer naquele salão a qualquer momento.

- Me sinto em Pemberley! - disse para David quando este lhe mostrava a sala.

- Acho que é da mesma época. – disse David. - Vou mostrar o quarto de hóspedes que já está preparado para vocês, lá em cima. Não sou muito bom nisso, mas quando a Cindy voltar de Londres, ela pode levá-la para fazer a tour completa da casa.

- Quanto a você, Velhão, o estúdio já está pronto, nos esperando... Vamos lá para baixo que tenho umas melodias para te mostrar que são a sua cara. Vocês têm apenas cinco minutos para um amasso e vamos trabalhar, antes que eu tenha que fazer o chicote soar!

Os dois riram muito enquanto colocavam suas malas no quarto para segui-lo. Continuando no mesmo tom de piada, Jack aproximou-se de Clara e a agarrou: - Ordens do patrão!

- Jack, espera um minuto.

- O que foi?

- Eu te amo! – disse Clara beijando-o

Os dois desceram as escadas de mãos dadas e seguiram até o estúdio que ficava no porão da casa, ao lado da adega.

Uma sala ampla cheia dos equipamentos mais modernos que destoava completamente de todo o restante da casa, mas dava para compreender a razão da escolha daquele ponto em particular já que ele aproveitava a ambiência proporcionada por uma sólida parede de pedras e um inacreditável pé direito alto, uma raridade que havia sido utilizada como refúgio pelo alto comando do exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

Clara instalou sua câmera no tripé e a ajustou para registrar o trabalho dos dois novamente. Ligando-a para ir gravando automaticamente, sem que ela precisasse se agitar muito dentro da sala, para não roubar a atenção dos dois no trabalho.

Jack e David ligaram os equipamentos e começaram a trocar ideias, mostrando um ao outro trechos de música que poderiam ser trabalhados em conjunto. O processo continuou até que David tocou um riff contra o qual Jack sentiu que podia colocar sua voz.

A princípio era apenas o som dela contra o da guitarra e aos poucos ele começou a improvisar uma letra. Soava como um blues denso e Jack fazia aqueles sons que as pessoas costumavam associar com gemidos sexuais, mas que eram apenas provocações que fazia à plateia, já que depois de terem transado algumas vezes durante os últimos dias, Clara sabia que na cama, a exuberância de seu personagem de palco dava lugar a um homem doce e experiente, completamente entregue e atento à sua amante.

Mas para ela, que passara boa parte de sua vida ouvindo aqueles sons de Jack como gemidos de um verdadeiro "Deus do Sexo", era difícil evitar excitar-se. Queria jogar tudo para cima e puxá-lo de volta àquele quarto onde acabaram de deixar suas malas, aquela melodia lenta, parecia um primitivo chamado para as fêmeas de sua espécie para a reprodução, sentia seu útero pulsando por ele.

Eles continuaram o processo e Jack tirou um caderninho e uma caneta do bolso. Anotava rapidamente alguma coisa para não esquecer, enquanto sinalizava para David recomeçar do início:

You have a lot of nerve, woman, woman
Treating me like you dooooooooo
Woman, woman

You drive me crazy
Makin me so blueeeeeee

You’re the pain that I feel
Every time that I breath

Woman, woman

E começaram novamente a melodia, testando o encaixe da letra… Uma cena fascinante para ela...

I want you, woman I want you

A cada nova frase, adicionada, Clara ficava mais impressionada com o que ouvia. Jack agora soava de verdade como aqueles bluesmen do passado; inventando letras que soavam mais e mais sexys a cada minuto que passava.

Aliás, o blues era um ritmo que tinha tudo a ver com sexo, como não podiam falar abertamente o que queriam, os velhos bluesmen disfarçavam suas intenções nas letras com um código que as deixava fora do alcance da crítica dos chamados guardiões da ordem e dos bons costumes da época, mas que atingiam seu público alvo em cheio.

Devil woman, I want to be your man

Era o que Jack fazia agora, atingindo-a em cheio, fazendo-a pensar apenas em uma coisa, entregar-se a ele.

Woman woman

Naquele momento, Cindy apareceu na sala de controle acenando para avisar que estava em casa, mas parece que a única pessoa que tinha condições de responder ao aceno era Clara.

Jack agora tocava sua gaita de boca com os olhos fechados e improvisava acompanhando o que David fazia com sua guitarra. Pareciam em transe e a música que os dois faziam era um longo e sinuoso lamento, que ecoava através dos fones de ouvido que Clara usava como nada que ela tenha ouvido antes, intenso, profundo e genial como só as grandes obras primas conseguiam ser.

Quando David achou que a música estava pronta, parou de gravar e Jack, completamente extenuado, simplesmente tirou os fones de ouvido e deitou-se no chão de madeira, com os braços abertos.

Clara parou a câmera e foi até ele, preocupada: - Você está bem?

- Melhor do que nunca! - disse erguendo-se - Você ouviu aquilo?

- Sim, foi impressionante! - respondeu.

David, que ainda estava com os fones nos ouvidos, levantou-se para pegar uma bebida. Clara aproveitou a oportunidade para mostrar que Cindy já estava em casa, apontando para a sala de controle do estúdio.

Ele sorriu e avisou então para todos: - Pausa! A patroa chegou! Vamos almoçar?

Saindo do estúdio, Jack e David passaram antes pela adega, onde pegaram algumas garrafas de vinho e subiram. O almoço seria servido em um anexo que ficava atrás da casa, um salão de vidro, unido a ela por um corredor também de vidro.

A chuva batia leve, nos vidros, soprada por uma brisa suave. A vista ao redor do tal salão era de puro verde. Gramados, árvores, flores... Mesmo com as chuvas aquele jardim muito bem cuidado convidava a um longo passeio. Para Clara, depois dos dias na Suíte Versalhes, em Nova York, era irônico conhecer uma versão britânica dos jardins do palácio de mesmo nome.

O almoço foi leve, saladas, salmão, batatas assadas, frutas e queijos. Clara comeu pouco, bebeu algum vinho e conversou com o casal Mersey.
Já Jack estava diferente, depois de almoçar ergueu-se da mesa e afastou-se do grupo; foi até uma das paredes de vidro e ficou com o olhar perdido no jardim, com uma das garrafas de vinho na mão, que bebia no gargalo.

Clara aproximou-se dele carinhosamente perguntando se estava com algum problema. Ele apenas balançou a cabeça, parecendo muito triste.

David veio na direção dela e a puxou discretamente pelo braço, esclarecendo: - O que aconteceu lá embaixo hoje, foi muito intenso para ele, compor é mexer diretamente com a nossa emoção e às vezes, no processo, encontramos com alguns fantasmas que achávamos que já tinham sumido de nossas vidas. Não se preocupe que daqui a pouco ele voltará a ser o mesmo maluco de sempre.

Clara também tinha um trabalho criativo e algumas vezes sentia na pele as dores das personagens que criava, mas nunca tinha sentido nada tão intenso como Jack parecia estar sentindo naquele momento.

Resolveu então ajudá-lo; pegou-o pela mão, abriu a porta do salão de vidro que dava para o gramado e puxou-o para fora.

- O que você está fazendo, Clara? – perguntou Jack.

- Vem, vamos dar uma volta, quero ver o jardim. – respondeu puxando-o para fora,

- Ok! Vou com você, mas está chovendo...

- Eu sei, mas eu quero andar na chuva, nós nunca andamos juntos na chuva, vem.

Sem perceber, Jack voltou a sorrir novamente, ao ver o esforço da garota para reanimá-lo.

- Sabe o que nós nunca fizemos também? – disse Clara já começando a sentir frio sob as gotas de água que agora caiam mais grossas.

- Nunca pegamos uma pneumonia juntos? – disse Jack já às gargalhadas enquanto a puxava para um coreto que ficava alguns metros além no gramado.

- Não consigo te ver triste, dói muito, definitivamente não consigo!

Ele a abraçou e beijou com paixão e alguns minutos depois, viram ao longe, David, Cindy e dois empregados, aproximando-se deles com guarda-chuvas, toalhas e mais algumas garrafas de vinho.

- Achamos melhor nos juntarmos a esta diversão molhada de vocês. –disse Mersey rindo. – Mais vinho, Clara?

Percebendo que tinha exagerado, Clara apenas pegou uma das garrafas e começou a bebê-la no gargalo, como todos os demais. Era preciso comemorar a vida, a amizade e a volta de um dos melhores “casamentos musicais” da história.

Sentaram-se no chão e voltaram a conversar animadamente, com Jack em seu humor habitual. Ficaram por lá mais algum tempo, enrolados nas toalhas e quando as garrafas de vinho terminaram, pegaram os guarda-chuvas e voltaram para a sala de vidro.

Jack e David desceram novamente para o estúdio e Cindy levou Clara na prometida “tour da casa” contando histórias sobre a família de aristocratas alemães que vivia ali, antes da casa ser tomada deles pelo governo na época da Primeira Guerra Mundial.

- Quando o David comprou esta casa diziam que ela era assombrada pelo fantasma de uma mulher que cruzava o jardim nas noites de lua cheia, mas nem eu, nem o David nunca vimos nada.- disse Cindy sorrindo.

- Lá no jardim, me comportei como uma idiota, Cindy. Desculpa, apenas senti muita dor ao vê-lo daquele jeito.

- Esses dois são assim mesmo, Clara. Demora um pouco para entendê-los; conheço-os há 10 anos e ainda me surpreendo com as coisas que os vejo fazendo. Como artistas são “forças da natureza”, geniais e difíceis de conviver com todas as pequenas e grandes esquisitices que parecem vir embaladas junto com o talento; mas como homens, podem ser doces, atenciosos e totalmente dedicados a você, isso quando você não se coloca entre eles e sua música.

Clara entendeu o recado. Viver e deixar viver sempre e, nunca, em nenhum momento, tentar competir com a música, esta sim, a maior amante de homens como eles. Uma adversária muito pior do que qualquer groupie ou ex-mulher ou até mesmo do que seus filhos.

Continua

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