12 de out de 2011

Rockstar - Capítulo VI


- Jack, você sabe onde eu posso comprar algumas roupas aqui em Londres? Trouxe poucas coisas do Brasil porque tinha intenção de fazer compras em Nova York, acho que vou passar muito tempo por aqui e preciso de mais algumas coisas.

- Sei... Não se preocupe, vou te levar em uma loja onde você vai achar tudo que precisa. A dona é minha amiga e vai nos ajudar, qual tamanho você usa?

- No Brasil, meu número é 38... – respondeu Clara. - Aqui... 10 ou 12... Acho que é isso...

- Ok! Vou ligar para ela, Linda vai te ajudar.

- Linda? Hum... Porque sinto que tenho razões para ter ciúmes desta tal de Linda?

- Digamos que se você tiver mesmo razões para ter ciúmes de alguém isso se estenderá para muitas mulheres. O que dizer? Não pertenço a ninguém, só me casei uma vez, tentei ser fiel do meu jeito, mas o divórcio para mim foi tão traumático que me fez decidir que eu nunca mais me casaria, nem me preocuparia com fidelidade. Estamos juntos, está muito bom até agora, mas eu entenderei se você achar outra pessoa e espero que você me entenda também, ok?

- Ok! - respondeu Clara um pouco surpresa pela sinceridade - Mas eu estava brincando.

- Brincando? Então você não liga para mim? Sou um mero brinquedinho em suas mãos, senhorita Oberhan! Michael, o cruel, gostará de saber disso.

- Liga logo, seu maluco, vamos para lá agora!

- Pronto para servi-la, madame!

Ele ligou e os dois foram até uma boutique em Carnaby Street, a última loja que havia conseguido conservar alguma coisa do antigo ar hippie, de quarenta anos atrás.

Linda veio recebê-los na porta, uma senhora com mais de cinqüenta anos, cabelos longos, tingidos de vermelho escuro, olhos muito azuis e pele muito clara. Quem a visse, usando jeans, chinelos, uma colorida bata indiana e muitas pulseiras e colares, diria que acabou de sair de Woodstock.

Jack e Linda abraçaram-se como velhos amigos que não se viam há muito tempo. Linda, ainda agarrada a Jack estendeu a mão para Clara: - Então, você é a garota tamanho 10 de que o Jack estava falando?

- Olá, meu nome é Clara. - Respondeu sem jeito - desculpe o incômodo, mas tenho pouco tempo disponível e o Jack me disse que eu poderia encontrar as coisas que procuro em sua loja.

- Sim, querida! Acho que temos o que você procura aqui, roupas, sapatos, acessórios, mas acho que 10 ficará muito grande em você, 8 é seu número... Tenho tudo o que deixará uma bela moça como você ainda mais linda!

- E aquelas coisas que encomendei? Já chegaram? - perguntou Jack

- Claro querido. Você vai adorar! - Respondeu Linda.

Os dois seguiram Linda até o segundo andar e lá Clara comprou mais algumas roupas para o dia-a-dia e um belo vestido de festa negro, liso, com alças finas que seria complementado muito bem por um sári indiano legítimo vermelho, com bordados em ouro.

Prestou muita atenção e quis até anotar as instruções de como vestir o sári, mas Jack lhe disse para não se preocupar, pois ele a ajudaria.

- Está perfeito, mas falta uma coisa. - disse Jack, olhando-a pelo espelho.

- O que? - Perguntou Clara, intrigada?

- A minha encomenda, Linda!

- Sim... Está aqui, Jack.

- Nas mãos de Linda um estojo de veludo negro com belas jóias indianas: um conjunto de colar e brincos de ouro, com diamantes e rubis.

- Que lindo, Jack, mas não tenho tanto dinheiro assim... Prefiro algo ao meu alcance, como aquele bracelete de prata, ali.

- Não se preocupe com dinheiro, é um presente meu.

- Nem pensar, Jack. Isso é muito caro, não vou te deixar gastar todo esse dinheiro, não faz sentido. Não!

- Mas vai ficar lindo em você, olha só - disse ele colocando o colar ao redor do pescoço de Clara. - Eu tenho dinheiro saindo pelos orifícios do meu corpo. Você não vai me negar a alegria de te dar um presente, vai?

Clara respirou fundo e fez questão de pagar pelas roupas com seu cartão de crédito. Jack, feliz da vida por conseguir convencê-la, pagou pelas jóias com um cheque e logo os dois estavam de novo no carro, retornando ao hotel.

- Jack, você não deve ficar me comprando coisas assim... Sinto-me constrangida, é muito caro e a gente mal se conhece.

- Vem mais perto de mim, vem.

Clara, aproximou-se dele e Jack pegou sua mão. - Não se preocupe, dinheiro para mim não significa nada... Não fique constrangida, apenas quero ter você comigo, enquanto me aturar, ok?

- OK, então. - respondeu Clara sorrindo e beijando suas mãos.

- Acho que estou me apaixonando por você, menininha teimosa - respondeu Jack.

- Ah Jack! Eu nem tenho um nome para o que estou sentindo agora! - disse Clara beijando-o.

Ali, nos braços de Jack, com Londres passando pelas janelas do carro, Clara sentia-se a pessoa mais feliz do mundo. Todas as suas preocupações haviam ficado para trás. Enquanto estavam juntos, seu celular avisou a chegada de uma nova mensagem de texto: “Tudo ok! Dinheiro já está no banco. Beijos, Jonas”.

- Eba! - disse Clara em português.

- Eba? O que isso significa? - perguntou Jack.

- Estou feliz, meu sócio me avisou que o dinheiro já está no banco e poderei pagar meu cartão de crédito. - respondeu Clara com um sorriso nos lábios.

- Eba! Gostei! - respondeu Jack rindo. - Será que você não podia me ensinar algumas palavras em português para que mais tarde eu possa apavorar o Mersey? Ele já foi casado com uma brasileira e até morou uns tempos no seu país, sabia?

- Não. - respondeu Clara - Mas acho que isso será engraçado!

E voltaram enfrentando o trânsito infernal de Londres, conversando e anotando palavras e frases em português foneticamente em um caderninho para que Jack as decorasse.

Chegando no hotel, Clara tomou um banho rápido e pediu que um cabeleireiro a atendesse na suíte. Enquanto seus cabelos eram arrumados, discutia as opções de refeições para um jantar mais sofisticado com Jack e os dois concordaram em um exótico jantar japonês, que seria preparado e servido pela equipe de sushimen do restaurante japonês Hikonori, o mais sofisticado de Londres, que aceitou a encomenda de última hora feita por Jack.

O mordomo da suíte subiu com uma equipe de garçons que providenciaram todo o resto e Clara não fez muito mais do que maravilhar-se com a eficiência e a rapidez com que tudo foi feito.

Jack vestiu uma bela camisa de seda preta, de mangas longas, um terno da mesma cor e uma gravata de seda roxa, lisa. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e Clara colocou o vestido preto que acabara de comprar e teve a ajuda de Jack na hora de vestir o sári vermelho por cima.
Ele colocou em seu pescoço o colar e entregou os brincos em suas mãos. Os cabelos haviam sido cuidadosamente arrumados, estavam soltos e lisos e a equipe do hotel também havia enviado um maquiador e uma manicure à suíte.

- Você está linda! - disse Jack, beijando-a na testa.

Ela não conseguia reconhecer-se no espelho, nunca se sentiu assim, nunca havia se vestido com tanta elegância. Sentia-se a mais realizada das mulheres.

Pontualmente às oito da noite, a campainha da suíte soou anunciando a chegada de David e Cindy Mersey. Ele estava agora com seus cabelos todos brancos, era alguns anos mais velho do que Jack e alguns centímetros mais baixo também. Já sua esposa, Cindy, era bem pequena, menor ainda do que seus 1,62m, muito magra e aparentando ser alguns anos mais velha do que Clara era uma bela anglo-oriental.

Já na porta, Jack começou sua brincadeira de falar português: - Boa noite, meu amigo!

- Boa noite! Falaremos português, hoje?

- Olá Cindy. - estendeu a mão para a esposa de Mersey que começou a rir.

- Esta é minha amiga a escritora brasileira Clara Oberhan. Bem-vindos!

Clara, rindo muito, pediu desculpas pela brincadeira de Jack e em bom inglês cumprimentou os dois.

- Nós a conhecemos em Nova York, Jack.- disse David rindo - na festa depois do show, no teatro, lembra?

- É mesmo! - respondeu Jack

- Olá Clara, tudo bem? - disse Mersey, em bom português.

- Agora, é ele quem está tentando me deixar maluco, Clara - disse Jack.

- Não liga, ele é maluco desde que o conheço, nasceu assim - disse Mersey em português.

Os quatro sentaram-se na sala de estar do primeiro andar, onde conversaram sobre muitos assuntos; em algum momento da conversa existia uma divisão entre homens e mulheres, Jack e Mersey comentando a rodada do Campeonato Inglês de Futebol, do dia anterior e Cindy dizendo à Clara que havia lido e gostado muito de seus livros e que os lera há alguns meses, quando Jack ficou obcecado com a idéia de pedir sua ajuda para escrever uma autobiografia.

Clara teve um choque quando ouviu isso. A história que Jonas tinha contado a ela era completamente diferente: a editora Golden Books havia oferecido a Jack um adiantamento de dez milhões de dólares e que diante de sua indecisão, o diretor da Golden, que tinha publicado a versão inglesa do seu livro nos EUA, sugeriu-a como uma boa escritora e conhecedora da banda, para ser sua Ghost Writer.

Mas na verdade, que Cindy contava agora, Jack havia pedido por ela diretamente ao editor, quando sugeriram que escrevesse o livro.

- Era até um pouco estranho, ele andava com uma versão pocket de seu livro por todos os lados e reclamava com o Michael, perguntando por que você ainda não tinha respondido a proposta.

Ao ouvir aquilo, Clara procurou os olhos de Jack através da sala, um tanto assustada com o que sentia naquele momento por ele e preocupada por saber de tudo isso. Talvez precise de um tempo, talvez existam razões que ela não gostaria nem de imaginar.

E quando Clara se preparava para tentar fazer com que Cindy falasse mais sobre o assunto, o mordomo chegou à sala e anunciou que o jantar estava pronto.

Durante o jantar, os assuntos variaram e ela não teve chance de fazer mais perguntas. Jack tinha ensaiado mais algumas palavras em português e já estava fazendo o brinde mais enrolado de sua vida:

- A dois velhos amigos e seus novos amores. Saúde!

- Saúde! – responderam todos na mesa.

- Jack, agora manda o garçom trazer a bóia – disse David em português arrancando gargalhadas de Clara, que traduziu a frase para todos.

- Vou aprender português, você verá – respondeu Jack em tom de desafio ao amigo.

- Eu te avisei, Clara... Maluco! – disse David em português rindo.

- Estes dois são muito engraçados quando estão juntos, parecem até um casal gay de meia idade, um sempre cutucando o outro, mas sempre juntos. – disse Cindy sorrindo.

O jantar seguiu, terminando com uma deliciosa sobremesa feita com sorvete e frutas e um bom champagne, que foi servido no terraço, que naquele momento recebia uma gostosa brisa anunciando a aproximação de uma chuva de verão.

Clara ainda pensando nos verdadeiros motivos para estar ali, queria uma oportunidade para continuar fazendo perguntas à Cindy, mas não conseguia mais já que os rapazes haviam decidido capitalizar a conversa, relembrando histórias de suas passagens pelo Brasil, na década de 70, em férias na Bahia e depois, nos anos 90 em um festival de música, durante uma turnê que fizeram juntos.

Enquanto falavam sobre suas peripécias, comendo comida apimentada e jogando futebol no Rio com um time de artistas locais, Clara lembrou-se que Jack havia também passado pelo país com um show de sua turnê solo, uns dois anos antes e que ela fez parte da plateia dos dois shows.

- Me lembro como se fosse hoje, briguei com meus pais para ir ao show com meus amigos, tinha só 15 anos na época, cheguei ao estádio e uma banda de rock pesado tinha acabado de tocar. Os fãs brasileiros desse tipo de música tendem a ser muito loucos; lembro que muitos deles saiam do estádio naquele momento, enquanto eu e meus amigos chegávamos. Era uma noite de verão, mas um ventinho delicioso começava a bater como este, agora.
De repente, Jack estava no palco e fez um dos shows mais lindos que vi em toda a minha vida. Chorei feito criança quando ouvi algumas músicas da Crossroads. E chorei de novo quando ele cantava músicas de sua carreira solo, que eu nem conhecia, mas que também eram lindas, intensas, e as pessoas não pareciam querer ouvir e ficavam pedindo, gritando nomes de músicas da Crossroads. Fiquei triste por você, Jack.

- E eu, estava no palco feliz da vida. Já estava calejado dos fãs sempre pedirem outras coisas e mesmo assim, fazia exatamente o que queria e aquele público brasileiro é mesmo louco. Fico arrepiado de lembrar aquelas pessoas pulando e gritando. Os shows no Brasil sempre me impressionaram muito.

- Eu lembro que quando você voltou falava que eu precisava ir para lá tocar. – disse David rindo. – E eu fui! Não toquei, mas casei com uma brasileira.

- E agora eu namoro com uma brasileira. Acho que o Brasil é um lugar genial. Quanto às setlists, só tem uma coisa que me tira do sério é cantar sempre as mesmas músicas noite após noite. – respondeu Jack sorrindo, enquanto pegava mais champagne.

- Isso é verdade. O Jack queria sempre mudar a setlist em nossas turnês conjuntas e isso era um pesadelo porque na primeira delas tinha uma orquestra tocando junto com a gente e dava o maior trabalho cada vez que trocávamos alguma música.

Ao longe, raios começavam a cortar o céu, seria uma madrugada chuvosa e os dois casais aproveitavam o espetáculo noturno para namorar.

Cindy surpreendeu a todos, entregando seu celular para o garçom e pedindo a ele para fotografá-los, queria colocar as fotos em seu Facebook, mas isso deixou Clara em pânico e ela gentilmente pediu que não divulgasse as fotos pois precisavam manter o namoro em segredo por razões contratuais. Mesmo assim, ela adoraria receber as fotos por e-mail, em particular.

Com a intensificação do vento, eles entraram na sala de estar e a conversa continuou noite adentro, enquanto Clara só pensava que deveria pegar o trem, no dia seguinte, às nove da manhã, para ir para a casa de campo de Jack.

De repente, começou a chover muito forte e um raio, que caiu próximo do hotel, provocou um blecaute.

O mordomo e os garçons acenderam as velas dos candelabros e agora, os Mersey, que já estavam de saída, precisavam esperar a luz retornar se quisessem evitar descer 16 andares de escadas.

- Esta suíte é enorme, tem uma suíte anexa no segundo andar, vocês podem passar a noite aqui. – ofereceu Jack.

- O que você acha, Cindy? Ficamos?

- Por mim ficamos! Está chovendo muito e nós já bebemos mais do que a nossa cota de saquê e champagne.

- Perfeito! – disse Jack – Uma festa do pijama com as minhas pessoas favoritas no mundo! Vou pegar uns violões.

Clara não acreditava no que via: Jack e David juntos, sentados no chão da sala de estar, tocando e cantando velhos blues, iluminados apenas por velas. Queria poder gravar aquele momento em vídeo para rever sempre que estivesse triste ou se sentisse sozinha.

De repente, sem maiores avisos, Jack levantou-se do chão e correu para pegar seu celular. Escreveu uma mensagem nele e voltou para a roda com sua gaita, pediu que Clara trouxesse e ligasse a câmera, pois ele acabara de ter uma idéia para uma nova canção e assim ela poderia registrar aquele momento e talvez até usá-lo no livro.

Além da câmera, Clara também trouxe seu gravador e um bloco de notas, para registrar suas impressões.

Enquanto montava a câmera no tripé, seu celular tocou, tinha recebido uma mensagem de Lambert, assistente pessoal de Jack, avisando que sua viagem para a casa de campo do senhor Noble estava cancelada, que deveria permanecer no hotel em Londres, aonde ele mesmo iria procurá-la para levá-la à sua casa de campo, pois naquele momento estaria engajado com outros compromissos.

Clara teve vontade de beijar Jack, estava nervosa e frustrada por ter que deixá-lo naquele momento tão especial para ir à casa de campo dali a algumas horas. Quis que ele soubesse que a salvara de uma viagem que não queria fazer e simplesmente sussurrou de longe: - Eu te amo!

Ele sorriu, entendendo imediatamente do que se tratava e começou a mostrar a David a balada mais linda que já tinha ouvido em sua vida e a letra falava que o amor era algo inesperado, que nos surpreende e muda tudo, traz de volta a luz que havíamos perdido pelo caminho. Que sua alma havia acordado naquela madrugada enquanto todos dormiam e encontrado o mais belo par de olhos que já havia visto, dormindo ao seu lado:

Love comes unexpectedly
Surprises you
And will turn your life around.
Brings the light back
The light we lost in the road.

My soul woke up tonight
And while everyone is sleeping
Fast and peacefully everywhere
I found the most beautiful pair of eyes

Here sleeping by my side
Here sleeping by my side

I can't help but smile
Your love brought me back to life
Your love
Your love
Your love

A melodia, que Jack explicava para David era um blues lento. Clara sentia-se presenciando um momento histórico, Jack não compunha com David há pelo menos dez anos, embora eventualmente os dois se encontrassem para algumas apresentações especiais e estivessem sempre em contato.

Quando Jack terminou a música, ergueu-se do chão e foi na direção de Clara, que chorava muito. E sua emoção intensa também o fez chorar. Os dois ficaram no meio da sala, abraçados, enquanto David e Cindy aplaudiam.

E todos aplaudiram ainda mais quando as luzes retornaram. David e Cindy, então decidiram voltar para casa e deixar os dois a sós, para que pudessem aproveitar aquilo que estava acontecendo entre eles.

Continua

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