11 de out de 2011

Rockstar - Capítulo V


Assim que fez o check-in e foi encaminhada para uma bela suíte, naquele hotel que aparentava ser ainda mais caro e luxuoso do que aquele que acabara de deixar em Nova York, Clara mandou mais uma mensagem de texto para Jack: - Já estou aqui, apartamento 212.

Cansada pelas seis horas de vôo e mais três entre aeroporto e trânsito, Clara queria apenas descansar e conversar com Jack sem precisar fingir nada, tomar um banho e dormir um pouquinho, antes de sair para dar uma volta e aproveitar a tarde na cidade que mais amava no mundo.

- Serviço de quarto, senhora! – era Jack, mais uma vez batendo na porta de seu quarto.

Ela abriu a porta e puxou-o para dentro, beijando-o como se não o visse há anos. Ele correspondeu ao beijo, mas assustou-se um pouco com sua paixão.

- Pelo visto, você está mesmo feliz em me ver – disse com uma expressão marota no rosto.

- Mais do que você imagina – respondeu Clara com um sorriso.

- Estou a sua disposição, senhora. Sou seu objeto sexual, disposto a ser usado e abusado e sempre pronto para realizar cada uma de suas fantasias. - disse Jack, curvando-se para a frente, em uma mesura.

- Ótimo, vou tomar um banho e já continuamos esta conversa.

- Se a senhorita preferir, ela pode ser continuada em minha suíte que, perdoe-me a falta de modéstia, tem pelo menos umas cinco vezes o tamanho desta sua e uma bela piscina indoor onde poderemos passar o resto do dia.

- Ok! Deixa só eu pegar umas roupas na mala...

- Roupas? Acho que elas não serão necessárias. – respondeu Jack rindo.

- Mas eu faço questão, não quero mais ficar andando por corredores de hotéis vestindo apenas um roupão, é embaraçoso.

- Eu não ligo... Por mim, você estaria sempre nua, do meu lado.

- Você é terrível...

- Tenho anos de pratica como sex symbol, senhora jornalista, era sua obrigação saber disso. - respondeu Jack imitando Michael.

Clara caiu na gargalhada e quando já estavam saindo do quarto, ainda teve que ouvir de Jack: - Espere até ver o mordomo desta suíte. É muito mais pervertido que o de Nova York.

Os dois seguiram pelo corredor, Clara carregando uma bolsa com algumas roupas, seu celular e seu notebook. Precisava fazer algumas pesquisas para o livro, começar a preparar as perguntas, afinal estava lá para trabalhar, era a “ghost writer” contratada, que até agora tinha apenas sido a amante de seu patrão.

A exemplo da suíte de Nova York, aquela também ficava na cobertura do prédio, décimo sexto andar, mas era ainda mais luxuosa, com uma decoração moderna, tinha três andares e uma vista estonteante de uma área do parque freqüentada pelas pessoas que praticavam esportes eqüestres.

Uma grande janela que ocupava os três últimos andares do prédio, era uma das paredes da suíte que tinha em seu primeiro pavimento um terraço muito verde, que continha um pedaço da piscina que continuava suíte adentro até próximo a um conjunto de sofás que decorava uma sala de estar confortável e luxuosa.

No segundo andar, uma bela sala de jantar, acomodações para convidados e um bem equipado escritório, com sala de reuniões anexa.

No terceiro andar ficava a suíte master, que tinha um sistema de cortinas controlado eletronicamente, de onde se podia escolher dormir vendo as estrelas ou ficar completamente isolado das janelas, na mais completa escuridão.

- Quanta decadência burguesa, caro senhor Rockstar! Acho que meu partido não aprovaria minha presença neste local. – disse Clara brincando com o controle que abria e fechava as cortinas.

- Espere até começar a pornografia e o sexo selvagem por aqui, senhorita.

- Sexo? Hum, acho que serei obrigada a relatar tudo isso ao meu partido. Será um longo relatório!

- E muito duro também... Vem aqui, vem...

E brincando, os dois tiraram todas as roupas e mergulharam na piscina, dentro da sala e nadaram até a parte de fora.

Mais uma vez fizeram sexo, sublime e luminoso. Clara estava começando a ficar preocupada, sentia-se tão atraída por aquele homem que chegava a achar que estava ficando viciada nele, precisaria ir para uma clínica de reabilitação quando terminasse aquele relacionamento.

Depois do sexo, tomaram um banho e pediram um almoço: Salada, peixe grelhado, vinho, sorvete e frutas.

Depois, Clara passou a usar seu notebook para organizar as informações que precisaria sobre a infância de Jack e também sobre a origem de seus pais.

Encontrou algumas fotos dele e de seus pais, nas pastas que Michael lhe entregou. Começou a sentir uma imensa ternura por aquele garotinho e sua família.

Engraçado, mas aquele menininho, de 2 ou 3 anos, já tinha o mesmo olhar intenso que a observava agora por cima da tela do computador. Depois de olhar as fotos, passou-as para Jack e decidiu que aquele era um bom momento para começar o livro.

Pegou o gravador, colocou as pilhas e ativou a gravação: - Qual a primeira lembrança da sua infância?

- Hum, começamos então? Ah, me lembro de sair com minha mãe para visitar meu pai em uma obra, ele era engenheiro e naquela época tinha sido contratado para construir um novo bairro, casas que abrigariam trabalhadores de uma nova fábrica que estava prestes a ser instalada por lá. Aquela região é chamada de Black Country porque tudo o que existe lá são fábricas e minas de carvão. Eu devia ter uns 2 ou 3 anos e foi a primeira vez que vi uma construção, tábuas, cimento, muitas coisas que um garotinho da minha idade desejava pegar e brincar. Lembro que minha mãe me pegou no colo e eu queria descer, fiquei chorando e me agitando.

- E como eram as coisas em sua casa nesta época?

- Bom, tínhamos um pouco mais do que as outras pessoas, mas não tínhamos luxo, a comida era racionada, era preciso coupons para poder comprar coisas como açúcar, por exemplo, e meus pais se preocupavam muito comigo e com Jane, minha irmã mais velha. Quando eu tinha uns cinco anos e ela uns sete, eu fiquei muito doente, tive um tipo raro de deficiência no fígado, quase morri, fiquei um tempo enorme no hospital de Birmingham, que era a cidade grande mais próxima de Stourbridge. Minha mãe sempre contava essa história para todo mundo, que os médicos me desenganaram, mas que no momento mais difícil, quando eles diziam que eu não chegaria à manhã seguinte, minha irmã disse para mim que não era verdade, que ela havia visto um anjo louro, de cabelos longos e cacheados que cantava perto da minha cama e que ele tinha dito que eu conseguiria me recuperar. O mais interessante é que tempos depois, quando eu falei para meus pais sobre aquilo, eles disseram que ela nunca esteve no hospital, que eles a deixaram na casa da minha avó para poderem ficar comigo. Com o tempo, eu descobri que era apenas um aviso do lado de lá de que aquela não era a minha hora, que eu ainda tinha muito a fazer por aqui...

- Que história linda! Li também por aí que seu pai e seu avô eram músicos amadores...

- Meu avô era músico profissional, tocava violino em um grupo folclórico da região, uma pessoa fascinante meu avô, estudava a fundo as manifestações da cultura celta e tinha um profundo respeito pela natureza, pelas ideias espirituais dos antigos, que nunca abandonaram seus rituais e deuses, mesmo com as ameaças da Igreja, e passavam seus ensinamentos de geração em geração. Tenho pena que essa cultura tenha praticamente desaparecido hoje em dia. Mas sei que se procurarmos bem, lá nos bosques, algum desses maravilhosos contadores de histórias aparecerá, passando adiante todo o conhecimento milenar do povo da floresta.
Já meu pai, nas horas vagas, era o maestro de uma orquestra de bailes local e também tocava piano. Foi ele que me ensinou o que sei. O John Davies, o cara que tocava baixo na orquestra do meu pai, me deu meu primeiro violão e ensinou-me a tocar. Nunca fui muito de praticar, por isso, aprendi só o suficiente dos dois instrumentos para que eu possa mostrar alguma ideia melódica para alguém que saiba tocar de verdade trabalhar em cima e foi mais ou menos desse jeito que muita coisa da minha parceria com o Mersey aconteceu; mas este é um assunto para mais pra frente neste livro, não?

Clara parou o gravador, para não dar chance de Michael ter uma prova de sua intimidade com Jack e disse: - Teria adorado conhecer seu avô, ele me parece um homem tão fascinante quanto você.

- Ah, muito mais! Porque ele era sábio, eu não sou nada perto dele.

- Não para mim. Vou te dizer algo que acho que ninguém nunca te disse, mas que me incomoda um pouco quando te vejo falando por aí...

- O que? Sinceridade agora? Por favor, não! Não mate o encanto com sinceridade – disse ele às gargalhadas, enquanto colocava as mãos sobre os ouvidos.

- Sério... sinto que às vezes você se diminui muito! Se não fosse a sua inteligência e talento musical, a Crossroads não teria saído do lugar, seria uma reunião de virtuoses, sem qualquer carisma e sem alma, tocando melodias com muita técnica, mas sem sentimento.

- Até você? Muita gente já me disse isso, mas não acho que quem me falou conheceu suficientemente Mersey, Silver e principalmente meu amigo Donovan. A banda existia por causa dos quatro, era nosso trabalho, nossa convivência e também a nossa individualidade; eu, por exemplo, queria com todas as minhas forças ser um daqueles brilhantes homens negros de Chicago, que fizeram do blues a mais perfeita forma de arte já criada pelo ser humano. Quando conheci Mersey ele pensava como eu, reconheci nele o mesmo olhar fascinado que eu tinha. Já o Donovan, eu conheci na escola. Eu era um garoto mirrado perto dele, demorei a crescer por causa da doença que tive e acho que ele ficou com pena e passou a me defender dos grandalhões da escola. - disse Jack sorrindo. - Quer saber, senhorita Oberhan, acho que vou ajudá-la a entender melhor esta história, ainda hoje!

- Do que você está falando Jack? – perguntou Clara assustada.

Puxou o celular do bolso e começou a falar bem baixinho de um jeito que Clara não conseguia ouvir.

- Você tem muita sorte, jovem e deliciosa repórter, a lenda do rock, o guitarrista David Mersey e sua esposa Cindy, nos darão a honra de sua presença em um jantar em sua homenagem, que acontecerá nesta noite, nesta mesma suíte de hotel que agora ocupamos. A senhorita estará convidada, mas pagará por seu convite dormindo comigo, seu anfitrião.

- Mas isso não dará problemas com Michael, não será considerado contato não autorizado ou sei lá mais o que...

- Não dê importância às bobagens do Michael, ele é um idiota. Já te disse que quem manda aqui sou eu, não disse?

Clara sentiu uma enorme vontade de beijá-lo por estar proporcionando a ela, antes de tudo uma fã da Crossroads, a chance de conversar com Mersey, alguém que ela tinha também como um verdadeiro gênio da música, mas que sinceramente, desde que lera “Gods and Monsters” tinha para ela algo de sombrio e muitos segredos ainda a serem revelados.

Continua

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