14 de out de 2011

Rockstar - Capítulo IX


Chegaram pontualmente às 7 da noite no estúdio onde Michael já esperava por eles. Clara percebeu seu olhar de reprovação quando desceu do carro de Jack.

Ele decidira chamar a imprensa para uma pequena coletiva com apenas alguns veículos escolhidos a dedo para falar sobre a gravação do DVD e se algum repórter notasse a presença de Clara, Michael temia que começassem a fazer perguntas que não poderiam ser respondidas sem desvalorizar consideravelmente o livro que seu cliente lançaria em breve.

- Michael, onde está a imprensa? – perguntou Clara.

- No galpão anexo do estúdio. - respondeu – por quê?

- Vou para lá, assim não chegamos juntos e eu posso acompanhar tudo e até fazer perguntas.

- Ótimo, senhorita Oberhan! – disse Jack – agradeço sua presença aqui.

- Eu que agradeço senhor Noble, está sendo uma honra.

Clara atravessou o estacionamento, conversou com um segurança que havia acabado de receber por rádio, a inclusão de seu nome na lista de jornalistas convidados para a coletiva; recebeu um presskit com informações sobre o show, sobre Jack e seu projeto de regravações de músicas de Robert Johnson e um simpático pendrive no formato de gaita de boca, com todas as músicas do disco e fotos feitas em um estúdio por um fotógrafo famoso.

Mesmo ali, em Londres, a dinâmica dos jornalistas chegando a uma coletiva era muito parecida com aquilo que acontecia no Brasil. As pessoas que se sentavam na primeira fila passavam a ser vistas pelos colegas como fãs, ou groupies, sem qualquer seriedade, enquanto aqueles que optavam por sentarem-se no fundo da sala, estavam lá apenas para aproveitar as duas ou três horas fora da redação.

E também existia a turma dos que se achavam mais importantes do que as pessoas que deveriam entrevistar, estes se sentavam onde arrumassem público interessado em ouvir suas reclamações por não terem conseguido uma exclusiva ou o outro lado da mesma história, onde diziam que estavam lá apenas a passeio, porque a exclusiva, direito natural dos que tinham sua importância, já estava garantida.

Clara ria sozinha na primeira fila, sem precisar preocupar-se com sua reputação pela primeira vez na vida, sentia-se completamente livre daquele monte de bobagens. Pegou o presskit, leu tudo e passou a anotar suas perguntas.

Duas jornalistas jovens sentaram-se ao seu lado perguntando qual era seu veículo.

- Rolling Stone Brasil, respondeu Clara. – E vocês?

- Somos da BBC – respondeu uma delas - Você veio do Brasil e ele não vai te dar nem uma exclusiva?

- Não... Mas acho que a coletiva já vai resolver meu problema. Só de estar na mesma sala que Jack Noble já vale a viagem, não é meninas.

- Sim, ele ainda é um Deus. Ficava com ele agora!

- Ele já passou um pouco da idade – disse a segunda garota – Mas ainda é um gostosão.

- E a voz? – perguntou Clara – completamente sexy!

- Olá garotas! Prontas para entrevistar sir Noble? - perguntou um rapaz louro de cabelos longos que já as conhecia – Você, eu não conheço – disse estendendo a mão para Clara.- Jack Trussin, Time Out.

- Clara Oberhan, Rolling Stone Brasil.

- Espera, de onde conheço seu nome... Ah, a escritora? - lembrou-se Trussin.

- Eu mesma.

- Nossa! É mesmo? E ele não vai nem te dar uma exclusiva? Que idiota!

- Não me preocupo com isso, estou aqui, vou ao show amanhã, já estou feliz.

- Você se contenta com pouco, ele vai dar exclusivas depois da coletiva para todas as TVs e sites que publicam vídeo.

Neste momento, Michael, Ricky Tornhill, o diretor do DVD e Charles Hutton, assessor de imprensa de Jack entraram na sala, o que fez todos os jornalistas sentarem-se em seus lugares.

- Boa noite - disse Charles. - Estamos aqui para falarmos sobre a gravação do DVD do novo show de Jack Noble e sua banda the Princes of New Orleans, que por sua vez terá como repertório base seu disco mais recente “Love In Vain”, em que interpreta clássicos do blues compostos por Robert Johnson.

- Aqui ao meu lado estão Michael Peters, empresário do senhor Jack Noble e Ricky Tornhill, diretor do DVD que será gravado amanhã. Apenas para organizar peço que os senhores levantem o braço quando quiserem fazer uma pergunta, esperem que o microfone chegue a suas mãos e se identifiquem e ao veículo onde trabalham.
Peço aos senhores fotógrafos que se posicionem aqui ao lado, para a photo call e gostaria de lembrá-los que durante a entrevista não serão permitidas fotos com o uso de flash. E se isso funcionar bem e todos respeitarem as regras pedirei ao senhor Noble uma segunda rodada de fotos. OK?

- Senhoras e senhores, com vocês, Jack Noble!

Os flashes e a iluminação de inúmeras câmeras de TV clarearam o galpão.

Jack seguiu até uma parede onde um banner que reproduzia a capa de seu disco estava. Depois de alguns minutos, ele seguiu até a mesa e pegou o microfone.

- Boa noite!

A moça que estava sentada ao lado de Clara, que já havia solicitado o microfone antes seria a primeira a perguntar:

- Claire Jones, BBC Radio 2 , senhor Noble, seus últimos três discos foram exclusivamente de regravações, por que o senhor não tem composto mais?

- Claire, é apenas uma coincidência, encontrei algumas músicas em velhos discos que diziam exatamente o que eu queria dizer e quanto ao “Love In Vain” é um projeto que acalantei pela vida inteira e que agora, finalmente, consegui transformar em realidade.

Aproveitando a proximidade do microfone, Clara levantou o braço pedindo a palavra.

- Clara Oberhan, Revista Rolling Stone Brasil – Senhor Noble, o blues americano teve um grande impacto sobre os artistas ingleses de sua geração. Gostaria de saber o que o senhor viu neste ritmo que o levou para a música?

- Boa pergunta, Clara! Para mim, o blues era uma sonoridade exótica que chegou através de uma rádio americana instalada durante a Segunda Guerra, que me fascinou imediatamente porque era muito diferente de tudo o que tocava nas nossas rádios. Foi amor à primeira audição.

- Johnny Pressel, London Times – E sua parceria com David Mersey? Quando vocês voltarão a trabalhar juntos?

- Johnny, o David é meu melhor amigo e tenho uma boa novidade para vocês, tenho passado os últimos dias com ele no estúdio e depois de dez anos sem escrever nada, compusemos seis novas músicas nos últimos três dias.

- Anthony Baker, New Musical Express – Você acabou de dizer que tem trabalhado com o David Mersey, quais os planos para as músicas novas que estão compondo? Um novo disco conjunto?

- Anthony, ainda é muito cedo para dizer, não temos a menor ideia.

- Sebastian Clark, Melody Maker – Como foi a escolha de repertório para este show? Existem músicas da Crossroads programadas na setlist?

- Sebastian; Sim, é claro que teremos algumas músicas, mas com novos arranjos que as tornam novas mais uma vez para mim. Mas não vou contar quais são, quero ver caras surpresas na plateia amanhã.

Sentada na primeira fila, Clara notou algumas vezes o olhar de Jack a observando e a entrevista seguiu por cerca de trinta minutos, com o rockstar tratando de forma amável e bem humorada a todos os repórteres presentes. Nestes trinta minutos, ele pode falar do show, do DVD, de internet e de futebol.

No final agradeceu a presença de todos e disse que iria revê-los no dia seguinte, no show.

Enquanto Jack posava para mais uma seção de fotos, Michael sinalizou para Clara que ela teria a última exclusiva da noite e que Jack já havia deixado avisado que daria uma carona para ela de volta ao hotel, para que ela pudesse pegar sua bagagem e seguiriam para a casa de David Mersey.

Clara apenas balançou a cabeça, pegou suas coisas e foi até o corredor da sala onde aconteceriam as exclusivas.

Notando sua presença na fila, Jack Trussin veio até ela conversar: - Você também conseguiu? Que bom!

- Pois é, deve ser algum sistema de cotas para países pobres – riu Clara.

- Esse cara é uma lenda, mas é muito estranho! Por que será que ele não aceitou aquela grana toda para voltar com a banda para a estrada?

- Não tenho a mínima idéia! - respondeu Clara.- Eu acho que ele faz isso só para deixar os fãs malucos.

- Só pode ser!

- Senhor Trussin, revista Time Out – chamou Charles Hutton – O senhor é o próximo, por favor me acompanhe.

Clara ficou aliviada por vê-lo ir bem antes dela, quando ainda faltavam 3 jornalistas.

Um a um foram sendo chamados, até que chegou sua vez: - Senhorita Oberhan, é a sua vez, a senhorita tem cinco minutos.

Clara entrou na sala onde estava apenas Jack e foi logo surpreendida por um beijo carinhoso; - Jack! Você está maluco? E se o Michael entra aqui e pega a gente se beijando?

- Relaxa, ele deve estar lá fora despachando todos os jornalistas para que nós possamos ir embora. Eu não sei quanto a você, mas já estou morrendo de fome.

- Eu também! Vamos jantar no hotel?

- Sim, na verdade, eu queria falar com você sobre isso. Vamos passar a noite e o dia de amanhã no hotel e voltamos para a casa do Mersey só depois do show. O que você acha?

- Perfeito para mim, a nossa bagagem está no carro. Acho melhor você descansar, porque gravações de DVD são sempre demoradas e é muito provável que amanhã esta também será.

Neste momento, Charles Hutton abriu a porta e avisou que o tempo de Clara estava terminado e com ela, se encerravam as entrevistas.

Charles indicou a Clara a porta de saída, onde ela encontrou-se com Michael, que discretamente levou-a até o carro de Jack, pedindo que ficasse abaixada no banco de trás.

No mesmo instante, Jack saia pela porta da frente e atraia todos os repórteres e fotógrafos. Ele seguiu até o carro, abriu a porta, entrou e saiu de lá rapidamente.

- Você está aí? – perguntou

- Sim, aqui atrás.

- Ótimo, vamos descansar! – disse seguindo direto para o hotel.

De volta à suíte triplex do Four Seasons Over the Park, os dois pediram uma refeição leve ao serviço de quarto. Clara sentou-se no escritório com o notebook e preparou rapidamente uma matéria que falava sobre o show de Nova York, a atual fase de sua carreira e transcrevia algumas das perguntas da entrevista coletiva, além de comemorar o fato de dois dos maiores compositores do rock estarem novamente trabalhando juntos em algo que nem eles mesmos sabiam ainda o que seria.

Escreveu o texto em português, leu e releu em voz alta para ter certeza de que fazia sentido e o traduziu para Jack, que naquele momento também estava do outro lado da mesa, com seu próprio computador aberto, respondendo alguns e-mails e escrevendo para Mersey.

Sem sair de trás da tela do computador, Jack parou de digitar e perguntou a Clara: - É assim que você me vê?

- Acho que sim... - respondeu ela - cada palavra que escrevi aqui é sincera e vem da minha percepção do que ouvi nestes últimos dias. Sempre fui e continuo sendo uma fã de seu trabalho, da sua voz e do seu talento. Por quê?

- Estou lisonjeado, eu não me vejo assim. Sou um artista em decadência, muito longe de tudo o que já fiz e sei que não existe criatividade ou talento capaz de impedir que eu envelheça e vá perdendo cada uma das qualidades que você aponta aí, pequena repórter! Sei que você me ama, mas ainda tenho espelhos em casa e sei que a cada dia que passa perco mais e mais.

Clara sentiu que precisava abraçá-lo, ergueu-se da cadeira e foi até ele. Puxou sua cabeça para perto de seus seios e os dois ficaram ali, abraçados e em silêncio por alguns minutos. Jack levantou-se da cadeira e beijou-a. Os dois estavam com os rostos molhados e foi esta a primeira vez que Clara chorou sem que Jack fizesse uma piada sobre isso.

Voltou para sua cadeira, anexou o texto e mais algumas fotos de divulgação que estavam no pendrive que recebeu na coletiva e mandou a matéria para o editor da Rolling Stone, no Brasil.

Desligou o computador, pegou Jack pela mão e levou-o para o quarto. Clara sentou-se na cama e Jack deitou-se em seu colo e os dois ficaram algum tempo daquele jeito, quietos. Jack levantou-se, pegou uma caneta, o bloco de notas de Clara e começou a escrever algumas palavras.

- É melhor ir dormir, amanhã preciso estar inteiro para gravar o tal do DVD e não me sentir um velho ridículo e decadente, como me sinto agora.

- Você é o homem mais fascinante que já conheci. Velho? Decadente? Onde? E vem logo deitar por que estou viciada em você, estou começando a tremer por sentir sua falta na cama, do meu lado.

- Mesmo? Você me surpreende. Tenho filhos mais velhos do que você e netos. Quando você nasceu, eu já era casado e rodava o mundo cantando.

- E isso quer dizer?

- Que você não deveria estar aqui, perdendo seu tempo comigo.

Clara levantou-se da cama, e foi na direção de Jack. Mesmo sendo uma mulher pequena, empurrou-o com força contra a porta do banheiro, beijando-o enquanto abria sua camisa.

Jack então a pegou no colo e jogou na cama e os dois tiveram novamente uma noite perfeita e romântica.

Continua

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