10 de out de 2011

Rockstar - Capítulo IV


Chegaram rapidamente ao hotel e o celular de Clara tocou, era uma mensagem de texto de Jack dizendo que tinha saído para despachar Michael de volta para a Inglaterra, mas que quando voltasse, bateria em sua porta para os dois poderem aproveitar juntos o que restava daquele dia glorioso.

Jonas que estava com ela e percebeu sua alegria, ficou com medo das possíveis represálias de Michael e foi logo pedindo; - Tenham cuidado, porque o tal do Michael é ainda pior do que eu imaginava e se ele perceber o que anda acontecendo neste hotel...

- Já sei, Jonas, vamos para a prisão perpétua em Guantanamo, eu e você, meu amado sócio. – disse Clara caindo na risada.

- Está avisada... Depois não diga que não sabia! – sorriu também Jonas. - E já que tivemos dois dias maravilhosos em Nova York, agora vou para meu quarto, arrumar as coisas para partir no vôo de hoje à noite, de volta à aprazível São Paulo, antes que Romeu e Julieta sejam descobertos e eu tenha que presenciar o banho de sangue.

- Não se preocupe, Jack é o patrão daquele imbecil e não ao contrário. – respondeu Clara com toda a tranquilidade de quem em breve estaria nos braços deste patrão, adorando cada segundo.

- Cuide-se! Acho que só nos veremos daqui a alguns meses, ou dias, se o grande dragão das leis e regulamentos descobrir que quebramos cada uma de suas preciosas regras. Sério, não é o melhor contrato do mundo, mas é uma oportunidade ótima de ganhar uma boa grana e curtir um pouco a vida fazendo alguma coisa que será facilmente um sucesso no mundo inteiro... não joga isso fora... Por favor!

- Tchau Jonas, dá um beijo no cachorro e um chute nas crianças!

Jonas aproximou-se e deu um beijo na testa de Clara, partindo rápido pelos corredores do hotel.

Clara estava com fome, mas preferia esperar que Jack voltasse da rua para comer algo com ele. Resolveu navegar um pouco pela internet e ver o que falavam dele por lá. O que mais a impressionava é que não importava o dia ou horário, sempre que buscava pelo seu nome no twitter, encontrava dezenas de elogios a ele e a sua música, declarações de amor, links para vídeos novos e antigos; coisas escritas por pessoas de todo o mundo, em todas as línguas que atestavam sua popularidade até mesmo entre os que não tinham nem nascido na época em que a banda terminou.

Encontrou algumas fotos do show da noite passada, alguns vídeos e entre eles, o do momento em que anunciava “Love You Forever” e a dedicava a ela. Baixou o vídeo para seu computador e o assistiu várias vezes, bem como algumas entrevistas dele, novas e antigas.

Levou um susto quando bateram na porta repentinamente e ela ouviu a voz de Jack: - Serviço de quarto, senhora.

Ela levantou-se correndo da cama e foi abrir a porta. Como se tivesse lido seu pensamento, ele carregava em suas mãos sacolas com comida chinesa.

- É por isso que eu te amo, Jack... e o puxou para dentro do apartamento, antes de começar a beijá-lo.

- Deus, é só comida chinesa, mulher. Espere até comer o meu “purê com salsichas” – disse Jack rindo.

Clara parou para rir, pegou a comida dividiu-a nas caixinhas em que vieram, pegou uma garrafinha de bebida para cada um no frigobar e apreciou aquela refeição, comida com palitinhos, sobre sua cama de solteiro, em um quarto de hotel, como uma das melhores de sua vida.

Notando o computador ligado, Jack puxou-o para mais perto e começou a ver o que tinha nas janelas abertas recentemente. Viu o vídeo de “Love You Forever” e disse: - Cada palavra que eu disse era sincera; preciso de você, da sua amizade e de sua paciência.

Clara aproximou-se dele e sem dizer nada, apenas o abraçou, como se fosse um velho amigo, que não via há anos. E ficaram assim, abraçados, quietos por alguns minutos. Ela sentia por ele um carinho tão intenso que mais uma vez começou a chorar, e ele, percebendo suas lágrimas, emocionou-se e também ficou com os olhos molhados.

- Ótimo! É contagioso! Agora sou eu quem vai ficar com desidratação! – disse Jack, tentando acabar com a choradeira. - Vamos sair um pouquinho, agora que comemos, podemos ir até a Rua 47, onde eles têm essa loja de discos esplêndida, vamos, vem comigo, nunca tenho ninguém com quem dividir meus achados.

- Ok! Mas como vamos sair juntos por aí, sem chamar atenção, você sabe, o Michael... – respondeu Clara.

- Ele trabalha para mim, mas não se preocupe, tenho alguns disfarces, o meu boné, os óculos de sol. Além disso, aqui é Nova York, as pessoas por aqui não acham nada cool perseguir celebridades pelas ruas.

Clara subiu com Jack para a suíte Versalhes, onde os dois vestiram roupas mais confortáveis rapidamente e desceram mais uma vez diretamente pelo elevador.

- Você vai gostar muito dessa loja, eles têm muitas raridades, tudo em vinil.

- Vinil? Sério? – respondeu Clara.

- Claro! Tem outra sonoridade, outra profundidade. A música do vinil sempre foi mais próxima da música ao vivo do que aquelas porcarias de CDs e MP3.

E ficou um tempão explicando coisas sobre a qualidade do som dos velhos vinis de que ele gostava tanto. Era lindo vê-lo assim, empolgado, sinceramente apaixonado quando o assunto era música.

Chegaram à loja, realmente um lugar incrível com muitas prateleiras de discos em vinil, mas também com CDs e DVDs, um paraíso para pessoas que como eles não conseguiam viver sem música.

Os dois ficaram horas garimpando e, como Jack previu, ninguém os perturbou e puderam ter a mais perfeita das tardes, caminhando depois pelo parque de mãos dadas para voltar ao hotel.

- Só uma pergunta técnica, Jack. Quando nós vamos para Londres?

- Amanhã à noite. Deixa tudo pronto que eu te ajudo a ficar longe dos pitbulls do Michael.

Clara e Jack voltaram para o hotel e mais uma vez passaram a noite juntos, na suíte Versalhes, jantaram, assistiram a um filme na TV, sentados na cama e depois dormiram abraçados ternamente.

No entanto, mais uma vez, Clara acordou um pouco antes do nascer do sol e foi assisti-lo do terraço da suíte, mas desta vez, levou Jack com ela. Os dois deitaram-se na mesma cadeira e ficaram assistindo em silêncio a cada mudança nas cores do céu, até que rosas, amarelos e vermelhos deram lugar ao mais profundo dos azuis.

E quando o sol começou a aquecer verdadeiramente o terraço, estava na hora de tomar um bom café da manhã.

- O que eu peço para você? Café? Chá? Ovos? Bacon? – perguntou Jack com o telefone nas mãos.

- Hum... chá, torradas, manteiga, queijo, presunto, melão e suco de laranja. – respondeu Clara rapidamente.

- Gostei! Acho que vou querer o mesmo! Serviço de quarto, café da manhã para a suíte Versalhes, para duas pessoas, por favor: Chá, torradas, manteiga, queijo, presunto, melão e suco de laranja. Obrigado.

- Acho melhor nos vestirmos, aquele mordomo que veio aqui ontem, tinha cara de pervertido – acrescentou Jack. Mais uma de suas piadinhas que provocavam gargalhadas em Clara.

- Você é maluco! – disse Clara rindo.

- Você acabou de descobrir o segredo mais bem guardado do show business! Perfeito! O que pretende fazer com esta informação? Vendê-la ao Wikileaks?

- Não seu doido e pára de piadinhas agora que o pervertido já deve estar chegando com nosso café da manhã, vamos vestir alguma coisa que não diga: Rockstar e jornalista promovem orgia em quarto de hotel de luxo... Vem...

Clara puxou Jack pela mão e o levou até o quarto. Perguntou onde estavam suas roupas e ele apontou para uma das paredes, que da mesma forma que a porta do banheiro, escondia a entrada para um enorme closet.

- Poxa! Agora me sinto no mundo dos ricos e famosos... Vou te vestir... Vem comigo...

Procurou no armário e escolheu uma camiseta branca, uma calça jeans surrada e um par de tênis pretos, com cara de chuteira e entregou-os ao amigo.

Foi até sua bolsa, deixada em um canto do quarto e separou roupas idênticas às dele. - Pronto... Seremos gêmeos hoje, idênticos, senhor rockstar... Qual a pena que o Michael reserva para quem imita seu estilo?

- Você é maluca mesmo, não é? Escolhi a mulher certa!

- Mulher certa? Para que?

- Para ser minha voz! - disse Jack, a caminho do banho - Você não vem também?

- Ok!

Os dois tomaram banho e vestiram-se rapidamente para o café da manhã. Quando saíram do quarto, o mordomo já estava esperando por eles na sala de estar e os serviu com a pompa habitual.

Naquele domingo de manhã, tudo o que Clara queria era aproveitar o sol do verão novaiorquino no parque. Antes de sair, ainda completaram o visual com rabos de cavalo, prendendo seus longos cabelos louros e os de Jack, vestiram alguns colares coloridos, que achou nas gavetas de Jack, pegou chapéus, os óculos de sol e os dois saíram atrás de algum lugar onde pudessem alugar bicicletas.

Circularam pelo parque, procuraram por uma área mais tranqüila, sentaram-se no gramado, sob uma árvore frondosa, e ficaram lá por horas, relaxando e trocando histórias de suas vidas. Clara falou de seu país, de como sempre estava em crise, mas as pessoas nem ligavam muito, tinham coisas mais importantes em suas vidas, como o Carnaval, o Futebol e até os tais churrascos de final de semana. E Jack contou como foi crescer em um lugar muito frio e sombrio, onde ele só encontrou alegria na música que vinha das rádios instaladas pelos americanos durante a Segunda Guerra Mundial.

O tempo foi passando e os dois precisavam voltar ao hotel, deixar tudo pronto para ir ao aeroporto onde o vôo para Londres já estava marcado para as 10 da noite. Tinham que chegar muitas horas antes, aeroportos americanos eram agora uma sofisticada forma de tortura sempre prontos para deixar irritado até o mais paciente dos mortais e enlouqueciam pessoas que, como eles, tinham profundo desprezo por regras tolas.

Depois de recolher tudo na suíte Versalhes, Clara desceu para seu quarto e arranjou as poucas coisas que tinha trazido para a viagem. Antes de conhecer Jack, ela tinha planos de comprar mais algumas roupas em Nova York, mas não teve muito tempo para isso, agora teria que fazer compras em Londres onde tudo era bem mais caro.

Mas não tinha o que reclamar, ia embora com a mala cheia de pastas de documentos e fotos, um caderno com milhões de regras sem sentido e a bagagem de mão mais preciosa de todas: um novo melhor amigo, que também era o melhor amante que já teve em sua vida e por acaso um dos maiores rockstars do mundo.

Aeroportos eram junto com shopping centers os piores lugares do mundo para alguém famoso passar despercebido, em poucos minutos apareciam duas ou três dúzias de fãs, paparazzi e outras tantas pessoas comuns com câmeras, celulares, canetas e caderninhos. Lá seria muito arriscado para os dois chegarem juntos, então foram em carros separados e combinaram de encontrarem-se no avião, onde viajariam lado a lado.

A chegada de Jack ao aeroporto causou a agitação esperada e Clara pode vê-lo quando passava pelo corredor de vidro, que levava até a sala VIP. Ficou na fila, mas também foi para lá, ficando tão longe dele quanto podia.

De lá observava as pessoas ao seu redor, pareciam felizes de o estarem vendo ao vivo, pediam para tirar fotos, assinar autógrafos e, com toda a paciência do mundo, ele atendia. Clara pegou um caderninho e anotou que deveria lembrar-se de perguntar de onde vinha tanta boa vontade com aqueles estranhos, que sorriam, acenavam e pediam fotos, autógrafos, abraços e beijos.

Quando chamaram os passageiros do vôo 268 para Londres, Clara ergueu-se e moveu-se rápido pelo finger, deixando-o para trás. Entrou no avião, sentou-se na maior e mais estranha poltrona que já havia visto em sua vida, puxou uma revista qualquer e começou a lê-la, tentava disfarçar seu nervosismo, mas em apenas alguns minutos começou a perceber que ninguém se importava de verdade.

As pessoas que viajavam na primeira classe, executivos e endinheirados prestavam atenção única e exclusivamente em seus próprios umbigos, então ela podia ser ela mesma e esperar pela única pessoa no mundo com quem se importava naquele momento.

E logo ele veio, alto demais para os corredores daquele avião, encontrou seu assento, ao lado do de Clara, cumprimentando-a com um cordial "boa noite", como se nunca a houvesse visto na vida.

- Boa noite - respondeu Clara educadamente, sem tirar os olhos da revista. E os dois foram relaxando aos poucos, até que durante a madrugada, quando todos dormiam, puderam conversar mais naturalmente e pegaram no sono, nas poltronas que se transformavam em camas, de mãos dadas, sob as mantas de lã fornecidas pela companhia aérea.

Quando o avião se aproximava de Londres, os dois voltaram para seus papéis de desconhecidos, esperando que todos à bordo tenham cuidado de suas próprias vidas ao invés de ficarem de olho no que se passava aonde o grande rockstar estava sentado.

Novamente foi um desembarque individual, mesmo porque a fila de checagem de passaportes para cidadãos europeus era diferente da de outras origens.

Jack passou rapidamente por todo o processo e foi embora com o motorista que habitualmente prestava serviço para ele quando chegava a Londres, Clara precisou novamente de uma pasta cheia de documentos para provar que não estava lá para lavar pratos em um restaurante, ou prostituir-se, já que aparentemente é isso o que se espera que uma jornalista e escritora de sucesso faça na Europa, só porque seu passaporte diz que nasceu no Brasil.

Depois da chatice da imigração, encontrou Khaled, o motorista marroquino que trabalhava para o escritório britânico de Michael que a levou até um bom hotel, próximo ao Hyde Park. E, se em Nova York, Clara tinha uma limusine a sua disposição, em Londres, ela tinha uma bela Mercedes preta, com vidros escuros.

Ele entregou nas mãos de Clara um envelope com as instruções que deveria seguir nos próximos dias: Passar a noite no hotel e no dia seguinte, às 9 da manhã, pegar o trem em Paddington para Worcester, a estação mais próxima de Shatterford uma pequena vila na fronteira com o País de Gales.

Lá, Lambert, o assistente pessoal de Jack Noble estará esperando por ela, pronto para conduzi-la até a casa do cantor, onde ela poderia começar a trabalhar na quarta-feira, quando ele lhe dará sua primeira entrevista.

Considerando o volume de documentos que recebeu e a necessidade de manter-se dentro da propriedade, ele imaginava que aquele era tempo suficiente para que ela, jornalista experiente, preparasse perguntas relacionadas à infância e adolescência do senhor Noble, que terá prazer em iniciar os trabalhos relacionados à preparação de sua autobiografia.

- Você não imagina como – disse Clara em português.

- Desculpe senhora, algum problema? – respondeu o motorista em inglês.

- Não, está tudo perfeito até agora.

- Ok! Estaremos no hotel em alguns minutos, o trânsito desta cidade todas as manhãs é terrível e todas as vias de acesso já estão paradas desde as sete da manhã.

- Sem problemas, Khaled, gosto tanto desta cidade que nem o trânsito me incomoda. – respondeu.

Seu celular tocou, avisando uma nova mensagem de texto, era de Jack, perguntando em que hotel eles a haviam colocado.

- Qual é mesmo o nome do hotel, Khaled?

- É o Four Seasons Over the Park, senhora.

- Obrigada!

Clara digitou o nome no celular e enviou uma mensagem de texto para Jack, que respondeu com: - OK! Já estou aqui te esperando.

Vendo a mensagem, ela sorriu, pensando como estava sendo fácil contornar a vigilância de Michael, como ele sem querer a atirava mais e mais nos braços de Jack, sem todos os problemas que isso representava; o assédio da imprensa, a invasão de privacidade.

Depois do final de semana mais perfeito de sua vida, a sua segunda-feira também prometia, contanto que os dois conseguissem continuar escondidos dos olhos da imprensa e do público, assim como todo o projeto, que não tinha ainda uma data certa para terminar, mas seria totalmente controlado pelo “dragão das regras”.

Continua

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