9 de out de 2011

Rockstar - Capítulo III


Ainda era muito cedo e Clara ficou contente ao lembrar do mecanismo do elevador que não permitia que ele parasse no caminho. Estava com muita vergonha de estar vestida apenas com um roupão, carregando as roupas da noite anterior nos braços. Desceu no andar de seu quarto e correu para ele, assim que o elevador abriu as portas.

Quando fechou a porta e se viu sozinha no quarto sentiu-se aliviada. Tomou um banho, vestiu roupas confortáveis, mas embalou um terninho mais formal que usaria na reunião da editora em uma sacola, junto com as suas nécessaires.

Passaria a manhã com Jack e não estava se importando mais com aquilo que passava em sua cabeça, de que era apenas mais uma das centenas de groupies em sua cama que logo seria "despachada", assim que ele se cansasse e nem com as implicações daquele envolvimento sobre seu trabalho.

Para ela aquela era uma experiência surreal; Clara era uma escritora de ficção, tinha uma imaginação muito fértil e uma facilidade imensa para criar enredos românticos irreais, com personagens que não existiam, mas repentinamente estava vivendo algo que mais parecia ter saído de sua cabeça; conviveria por algumas semanas com alguém que em sua imaginação era o homem perfeito e mais do que conviver, eles poderiam tornar-se amigos íntimos, já que ele passaria os próximos dias lhe contando todos os detalhes de sua história de vida, chorariam e ririam juntos e principalmente passariam todas as noites na mesma cama movidos por uma atração poderosa e inexplicável.

Sabia que esta atração era a melhor parte da experiência, mas era a que mais a comprometia. Uma tolice qualquer poderia transformar o príncipe em sapo, colocando tudo a perder. Ela estava sendo contratada por sua editora para ajudá-lo a escrever suas memórias, não deveria ter deixado tudo chegar tão longe, mas já que aconteceu, ela deixaria rolar.

E foi com esta ideia que ela pegou o celular e ligou para o celular de Jack, que foi buscá-la em seu andar para voltarem juntos à suíte Versalhes. Subiram, tomaram café da manhã e aproveitaram o sol, sentados no terraço, Clara descansava enquanto Jack navegava com seu notebook.

O celular tocou às 10 da manhã, era Jonas preocupado em saber onde Clara estava já que não estava atendendo ao telefone de seu quarto no hotel.

- Você sumiu Jonas. Onde você foi parar ontem na festa?- Clara disparou antes que Jonas começasse a fazer perguntas embaraçosas.

- Não, quem sumiu foi você. Te procurei pela festa, mas como não consegui te achar, liguei para o Daniel e ele me trouxe de volta. Só depois que eu cheguei aqui fui ver aquele torpedo avisando que você pegou carona com o Jack.

- Ele me viu nervosa na festa porque não te achava e me ofereceu uma carona. - Clara disse com certa naturalidade, mas mudou rápido de assunto - E a reunião? Está tudo certo?

- Sim, o Daniel passa aqui às 13 horas. Não vai se atrasar...

- Não... Estou só andando um pouco e já volto para o hotel, preciso tomar um banho e me vestir ainda.

- Claro... Diz para o Jack que o show de ontem foi maravilhoso!

- Jack? Quem te disse que eu estou com o Jack?

- Deixa pra lá.. Beijos e até daqui a pouco.

Ele sabia... Talvez tenha sumido a pedido de Jack. Mas isso não importava agora, ela lidaria com esta situação mais tarde. Jack estava lendo o clipping que sua assessoria de imprensa havia lhe enviado por e-mail. Mesmo depois de quarenta anos de carreira, ele continuava sendo assunto para capas de revistas e páginas e mais páginas de jornais do mundo inteiro. Não por que se esforçasse por este destaque, mas porque ainda era alguém fascinante.

- Oi Jack. – disse acariciando os cabelos dele.

- Oi querida... Tudo bem com o Jonas?

- Sim, ele me disse que a reunião de hoje está confirmada. Você também estará lá, não é?

- Claro... Mas, bom, acho melhor te avisar. - disse Jack puxando Clara para sentar-se em seu colo.

- O que?

- Meu agente, o Michael. Ele é um cara muito chato e uma espécie de "control freak". Tive que fazer tudo isso, de trazê-los para o mesmo hotel, enviar a limusine, enfim, conhecer você e o Jonas antes, pelas costas dele. Ele só pensa em advogados, processos e tem um medo danado de imprensa, paparazzi, escândalos... Esse tipo de bobagem e, hoje, aquela reunião será só sobre ele e suas regras de privacidade.

- Sei... Isso é bem comum hoje em dia. Privacidade é importante também, você sabe, com a internet, as notícias se espalham em segundos, pelo mundo inteiro - respondeu Clara ainda incerta sobre o que ele dizia.

- É, mas, hoje, na reunião, você e o Jonas nunca me viram na vida, ok? Porque eu vou fingir que nunca vi vocês e fazer o que sempre faço; aparecer com meus óculos de sol, balançar a cabeça algumas vezes, sorrir para as fotos com as secretárias, assinar alguns autógrafos e rua...

- Ok! - respondeu Clara rindo, imaginando a cena. – Mas, espera como isso foi possível? Eu quero dizer, o Michael não estava lá no teatro ontem?

- Não... Mandei-o para Londres cuidar de um DVD que eu quero lançar com o show. Vamos gravar por lá na próxima semana e ele foi acertar uns detalhes com a equipe de produção.

- Hum, espertinho, você - disse Clara, enrolando os dedos nos cabelos cacheados de Jack.

- Você não imagina como e aproveitando que você está aqui, no meu colo, acho melhor a gente admitir que se conhece - disse Jack beijando seu pescoço e acariciando seu corpo.

Os dois voltaram para a cama e passariam o resto do dia nela, se não precisassem ir a tal reunião na editora. Clara programou mais uma vez a campainha do celular para as 12 hrs, para não perder a hora e quando ela tocou, os dois foram tomar banho juntos, vestiram-se e comeram um sanduíche rápido.

Clara desceu ao saguão pontualmente às 13, encontrou-se com Jonas e os dois subiram na limusine que naquele sábado cruzava a cidade ensolarada rapidamente, sem nada que lembrasse o trânsito infernal da noite anterior.

- E aí? Como foi? - perguntou Jonas que não conseguia mais segurar sua curiosidade.

- O que? - disfarçou Clara, sem qualquer vontade de contar ao amigo que havia cometido uma grande burrice.

- Vai me dizer que ele só te levou para o hotel e não rolou nadinha entre vocês?

- Foi isso, ele estava cansado do show e eu também...

- E você foi para o seu quarto e dormiu tanto que não ouviu meu telefonema hoje cedo...

- Não! Acordei cedo e sai para andar perto do hotel - mentiu Clara com toda a convicção que lhe restava.

- Está bom, então...pelo jeito você ligou o módulo "negar até a morte"! Vou deixar você me contar quando estiver disposta então. - respondeu Jonas rindo.

Clara fingiu não ter percebido a ironia na última frase de Jonas e também sorriu. Daniel já estava estacionando o carro na porta da editora e os dois precisavam descer.

Com seu terninho de executiva, cabelos presos em um coque, óculos de sol e uma pasta com documentos, Clara lembrava muito mais uma secretaria executiva, ou advogada aproveitando o sábado ensolarado para resolver negócios pendentes.

Jonas também estava de terno, óculos de sol e pasta na mão; caminhava ao seu lado, abrindo a porta do prédio comercial para ela e seguindo até a recepção, onde os dois tiveram suas fotos tiradas e precisaram mostrar seus passaportes para subir ao andar da editora.

Assim que chegaram, a secretária os guiou até a sala de reuniões, apresentando-os a Michael Peters, empresário de Jack, John Cathe, diretor da Golden Books, John Mallone e Klaus Dorbyn advogados da editora e Jack Noble, que conforme o prometido fingiu que os estava conhecendo naquele instante.

O advogado Mallone, que representava a editora leu rapidamente o conteúdo do contrato de edição do livro e estendeu os papéis para a assinatura dela, de Jonas e de Cathe, o responsável em nome da editora.

Estranhamente, depois de assinado o contrato, Cathe e Mallone deixaram a sala. Jonas olhou para Clara, que começou a ficar nervosa.

- O que foi? Algum problema com o contrato? - perguntou Jonas.

- Não, esta é a parte da reunião em que cuidaremos para que o livro seja um sucesso, mas que seja um projeto que não invadirá a privacidade de meu cliente sem necessidade. - disse Michael, erguendo-se e entregando a Clara e Jonas um segundo contrato, um verdadeiro calhamaço de folhas, que demorariam dias para serem lidas.

- Mas como posso assinar isso tudo sem ler? - perguntou Jonas, com a voz já alterada de quem está ficando bem nervoso.

- No contrato apenas está a versão legal de algo que deixarei muito claro para vocês; a partir do momento em que assinaram com a editora, vocês aceitam que trabalham para o senhor Noble neste projeto de escrita e entrega do livro que será editado como sua autobiografia.

- Nem ele, nem sua família ou amigos devem ser perturbados em nenhum momento com contatos indesejados, embora você tenha todo acesso a seus números de celular, telefones e e-mails, fica proibida de iniciar este contato.

- E para que terei estes números, então? - respondeu Clara, começando a irritar-se com a prepotência que Michael transpirava.

- Porque seria impossível escondê-los de você, já que Jack estará em contato constante, seja pessoalmente ou por meios eletrônicos de comunicação.

- Entendo - respondeu Clara.

- Como estava dizendo, quando surgir alguma dúvida, sobre algum assunto, ou houver a necessidade de marcar alguma entrevista com algum personagem do relato biográfico, eu sou a pessoa para quem ligar. Aqui está meu cartão com todos os meus contatos.

- Ok! - disse Jonas

- Ainda não terminei - respondeu Michael secamente.

- Bem, existem algumas partes de sua vida que meu cliente não gostaria de ver no livro, os assuntos que não devem ser perguntados estão neste caderno que agora entrego em suas mãos. Ele também tem uma lista de nomes e contatos de pessoas que podem ser entrevistadas para o projeto; mas repito que quando a senhorita quiser fazer as entrevistas deve entrar em contato com meu escritório para que ele faça o agendamento.

- Mas... - disse Clara, preocupada com a integridade jornalística de seu trabalho.

- Mas o que, srta Oberhan? - disse Michael.

- Ele vai publicar uma autobiografia sem contar nada? Porque aqui na lista estão coisas importantes, de interesse público, como a morte do Donovan, as brigas com o Mersey.

- De novo, srta Oberhan, este livro será assinado pelo senhor Noble e ele não deseja tocar nestes assuntos. Suas primeiras páginas devem ser entregues para verificação nas próximas duas semanas, tempo este em que a senhorita será acomodada na residência de campo do senhor Noble, na Inglaterra, onde deve permanecer discretamente, já que se trata de uma cidade muito pequena, onde gente estranha é rapidamente notada e cercada em uma questão de poucas horas por toda a imprensa britânica que queremos longe do projeto, já que a senhorita é uma "Ghost Writer" e não uma groupie.

E continuou...

- E já que estou falando no assunto groupies, a senhorita não deve portar máquinas fotográficas, filmadoras, web câmeras ou qualquer equipamento que permita o registro de imagens do senhor Noble durante a execução do projeto. Também não dará entrevistas, nem citará sua atual função em redes sociais, ou qualquer tipo de mídia existente ou que venha a ser criada durante e após sua execução.
Não quero ver fotos ou insinuações na mídia de que a senhorita tenha qualquer tipo de relação com meu cliente, por isso, a senhorita está proibida de ir a eventos públicos relacionados a carreira do meu cliente, como shows, festas de lançamento, entrevistas coletivas, gravações ou qualquer outro tipo de evento, bem como os relacionados ao próprio livro.

O homem falava tanto e com tal desprezo por ela e por sua presença ali, que Clara começou a sentir-se como um inseto; um ser indesejável, sujeito à fúria de qualquer um com um chinelo nas mãos.

Se ao menos ele soubesse que o “seu cliente” tinha passado a noite inteira e a manhã em seus braços e até desfilado nu em sua frente... Naquele calhamaço do contrato isso renderia certamente pena de morte ou prisão perpétua.

- Além disso, todas as terças-feiras, por recomendação médica, meu cliente não fala com ninguém. - continuou Michael, completamente alheio às imagens que passavam pela cabeça de Clara naquele momento.

- Como assim? - perguntou Jonas.

- Todas as terças feiras, ele faz um descanso vocal e todo e qualquer questionamento feito a ele neste dia da semana será respondido por e-mail ou mensagem de texto. Confio que entendam que ele não recebe ninguém em sua casa ou hotel em que estiver hospedado.

- Talvez eu tire uma folga toda terça-feira - disse Clara olhando maliciosamente para Jack.

- E aos sábados e domingos também, quando meu time costuma jogar, se estou na Inglaterra, vou ao estádio, quando não estou, prefiro ficar sozinho para assistir aos jogos. Aliás, só estou aqui hoje porque nesta semana, excepcionalmente, o jogo será amanhã. Estamos nos entendendo, senhorita Oberhan?

- Sim, claro - respondeu Clara, abaixando a cabeça para disfarçar o riso.

- Alguma pergunta? Senhorita Oberhan? Senhor Castro?

- Como será esta verificação do trabalho? Devo mandar os capítulos para alguém?

- Em duas semanas nós esperamos pelo manuscrito, não será enviado por e-mail, esta caixa contem um pendrive que nos será enviado por courier a cada duas semanas de trabalho, com todas as anotações, transcrições de entrevistas e tudo relacionado ao andamento do trabalho, incluindo uma previsão de quanto tempo ainda falta para terminá-lo.

- Devo, no entanto, avisá-los que o não cumprimento de qualquer uma destas exigências, não apenas causará o encerramento imediato deste contrato, como serão tomadas todas as medidas legais cabíveis, que não só os colocará em terríveis problemas com a justiça, como em uma lista negra do show business, que impedirá os senhores de conseguir qualquer novo contrato do mesmo tipo com qualquer artista de renome em todo o mundo.

- E podemos ser muito vingativos, quando contrariados. – continuou Michael com um sorrisinho que Clara só havia visto antes em vilões de filmes de terror.

- Assim que os senhores assinarem este contrato, o trabalho começa; o senhor Castro fica livre para voltar ao Brasil ou tirar uns dias para visitar a América. O pagamento será feito em duas partes; 500 mil dólares, transferidos por banco para a conta da empresa Web Books, do senhor Castro, na segunda feira. E a segunda parte, também de 500 mil dólares, será transferida para a mesma conta, assim que tivermos o manuscrito final do livro, pronto para o prelo. Por isso, senhores, o quanto antes assinarem, antes tudo começa e também antes os senhores ficarão um milhão de dólares mais ricos.

Clara sentia-se muito mal com o tom de Michael, mas assinou com a certeza de que Jack a protegeria de sua fúria, caso ela cometesse alguma bobagem prevista naquele regulamento absurdo, que a tratava como lixo.

Já Jonas, ficou um pouco inseguro a princípio, mas acabou assinando ao vê-la tão disposta a aceitar aquelas imposições.

Com os papéis assinados e as cópias entregues aos dois, Jack ergueu-se da cadeira, despediu-se formalmente de Jonas e foi na direção de Clara. Charmosamente, pegou sua mão e a beijou: - Foi um prazer fazer negócio com a senhorita, espero que nosso trabalho conjunto seja um grande sucesso.

Clara teve que conter-se muito para não cair em uma gargalhada e colocar tudo a perder.

Jonas e Clara continuaram esperando e receberam algumas pastas com fotos e documentos, em cada uma, papéis que documentavam a vida daquele homem fascinante, por quem Clara começava a apaixonar-se.

Quando os dois saíram do escritório ainda encontraram no caminho algumas secretárias e recepcionistas felizes, revendo fotos de Jack em suas câmeras e celulares. Clara não conseguia parar de sorrir.

Jonas e Clara subiram novamente na limusine para voltar ao hotel; a reunião havia sido longa e ela estava morrendo de fome, mas aceitou brindar com Jonas com o champagne que encontraram no bar do carro.

Tudo havia funcionado maravilhosamente, os contratos estavam assinados, metade do dinheiro estaria na conta na próxima segunda feira e ela já estava pronta para começar a escrever o livro mais importante de sua vida.

Continua

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