7 de out de 2011

Rockstar - Capítulo I


Como escritora, Clara já havia experimentado dias de maior notoriedade, convites para participar de programas de TV, entrevistas em revistas e jornais e até pequenas turnês de divulgação e autógrafos em livrarias e feiras de livros pela Europa.

Mas agora tudo estava um pouco mais calmo, sua carreira que tinha começado há cinco anos, quando o primeiro livro de sua série "Songbooks", com histórias inspiradas em suas músicas favoritas dos Rolling Stones foi lançado. Naquele momento, tudo foi muito modesto, mas depois de procurar por diversas editoras, ela encontrou em Jonas Castro a chance que procurava para colocar seu livro no mercado.

Jonas possuía um website onde escritores podiam vender diretamente seus livros ao público, sem depender da aprovação dos velhos profissionais do setor que sempre acabavam usando critérios estranhos na hora de escolher o que publicar.

O sucesso do primeiro livro trouxe um contrato com uma grande editora e um convite para escrever uma série que passou a ser traduzida e distribuída pelo mundo inteiro e foi aí que ela passou para o "lado de lá" da barreira, ela que era jornalista especializada em entretenimento, tornou-se por algum tempo, o alvo da curiosidade de câmeras e microfones.

É claro que sua aparência ajudou, os longos cabelos louros e cacheados, sua baixa estatura e traços delicados caíram no gosto da mídia e, especialmente depois do sucesso de seu livro baseado nas músicas da banda Crossroads, que trazia histórias carregadas de muita magia e misticismo, como as letras da própria banda, ela passou a ser conhecida como a "Fada do Rock".

Fã da Crossroads desde sempre, Clara agora estava quase em pânico por ter recebido há cerca de um mês um convite para discutir com Jack Noble, o vocalista da banda, a possibilidade de colaborar como "ghost writer" na autobiografia que o artista havia concordado em lançar através da editora americana Golden Books.

E mesmo tendo uma larga experiência como repórter na área de cultura, passando muito tempo nos salões onde circulavam os chamados ricos e famosos e tendo plena consciência de que aquelas eram pessoas iguais a todas as outras; sua situação naquele momento a preocupava muito.

Passo a passo pela grande avenida onde ficava o escritório de Jonas, seu editor, ela pensava na resposta que daria para a melhor proposta que já tinha recebido em sua vida.

Mesmo assim, ela precisava de mais argumentos em favor do projeto que a assustava muito mais do que animava e, por isso, primeiro adiou o quanto pode uma decisão e quando não podia adiar mais, seguiu até o escritório de Jonas para mais uma vez conversar sobre o assunto:

- Posso saber por que você ainda não respondeu o convite da Golden Books? Eles só querem conversar... Não irão arrancar pedaço, pelo menos por enquanto - disse Jonas já quase sem paciência.

- Nem eu sei. Passei a noite toda meditando e não consegui descobrir por que. É um milhão de dólares, por uma coisa que eu sei fazer, que fiz a minha vida inteira, serão só entrevistas e algumas pesquisas que me ajudarão a contar a vida de um cara que eu sempre admirei, mas eu não sei, estou com medo... Acho que é isso, medo. - respondeu Clara com a expressão de quem se encontra já sem desculpas para continuar dizendo não.

- Medo? De que? Posso saber?

- De não ser boa o suficiente! De ele me odiar à primeira vista...

- Mas isso não é um “encontro às escuras” e você não vai até Nova York para casar com o cara, você só vai lá para saber o que ele quer.

- Jonas, você nunca teve um ídolo em sua vida, não é? Você sabe por que eu escrevi o livro dos Rolling Stones antes de escrever o da Crossroads?

- Não sei. Você nunca me disse. – respondeu Jonas sorrindo.

- Porque eu gostava tanto da Crossroads que nunca achava que aquilo que eu estava escrevendo era suficientemente bom.

- Mas você acabou conseguindo, não foi?

- É, mas sabe aquela coisa toda da obrigação do jornalista de ser imparcial e ter distanciamento...

- Sei... mas agora você não precisa disso, pelo contrário, você vai ser uma ghost writer, precisa convencer de que é o Jack Noble escrevendo e não acho que ele conseguiria ser imparcial sobre ele mesmo.

- Mas você não está me entendendo. Eu sou uma “paga-pau”, uma fã enlouquecida desse cara. Tenho certeza de que se eu tivesse nascido uns trinta anos antes, teria pego o primeiro avião e me tornado uma das tais groupies que não largavam do pé dele. Você não sabe o que é isso. Não tem ninguém nesse mundo que se você encontrasse algum dia, sentiria seu coração vir na boca e que daí em diante seria muito difícil dizer duas palavras, quanto mais negociar qualquer coisa?

- Acho que não... Talvez o Pelé... Mas, espera aí, você não é aquela que vive entrevistando as celebridades por aí e depois diz para todo mundo que eles são só gente comum, com um holofote em cima?

- Sou, já entrevistei até o Pelé, muito gente boa, por sinal. Mas é uma responsabilidade muito grande...

- Que será muito bem recompensada. Pensa bem, mesmo que o livro fique horrível; será o nome dele lá, não o seu!

Já não sobravam mais argumentos contra a idéia e agora só lhe restava aceitar. Queria dizer que não iria porque temia desmanchar a ilusão de que Jack Noble não era como as outras pessoas, mas sabia que Jonas riria de sua tentativa de manter intacta a imagem do último de seus ídolos.

A preparação para a viagem foi rápida, uma semana após responder ao convite da editora, Clara já embarcava para Nova York ao lado de Jonas, que passara naquele momento a atuar como seu agente literário.

Para ler a bordo, “Gods and Monsters” a biografia não autorizada da banda Crossroads. Escrito pelo jornalista americano Clive Stewart, o livro tornou-se assunto proibido nas entrevistas com os membros da banda que passaram a perseguir seu autor judicialmente, tentando até mesmo tirar o livro das prateleiras das lojas.

Histórias de que Clive havia sido demitido da revista Rolling Stone, por pressão dos músicos e que teria sofrido tantos boicotes na área de cultura, que passara a cobrir política, também passaram a fazer parte da lenda.

Na verdade, Clive pintava a banda como uma espécie de Sociedade Secreta, comandada por seu guitarrista David Mersey, um gênio da música, já conhecido quando a banda começou, mas também um cruel manipulador que teria sido a real razão por trás do suicídio de Richard Donovan, o baterista da banda.

Segundo o livro, depois da morte do baterista, Jack Noble teria rompido relações com o restante da banda e negava-se a sequer falar com Mersey. Pegou um velho jipe da época da Segunda Guerra e seguiu com ele até Marrocos, onde passaria um ano inteiro, segundo ele, gravando e pesquisando a música das tribos do deserto.

Michael Silver, o baixista da banda, teria sido internado em uma clínica para dependentes e depois da desintoxicação, passou a trabalhar exclusivamente como músico de estúdio, fugindo de qualquer contato com os antigos fãs da banda e nunca dando entrevistas.

Quanto a Mersey, o livro diz que teria até feito audições para arrumar um novo baterista e depois de algum tempo, sem o apoio dos outros músicos, desistiu da Crossroads e voltou aos palcos sozinho, gravando alguns discos solo ou como guitarrista convidado de inúmeros projetos.

Mas o livro não era completo; ele terminava em 1985, cinco anos após a morte de Donovan, quando Noble e Mersey já tinham feito as pazes.

Além disso, ele passava muito rapidamente por fatos importantes da carreira da Crossroads para concentrar-se quase exclusivamente nos escândalos, brigas e abusos de drogas e bebidas que culminariam no drama de Donovan.

Não era um bom livro, mas os outros livros escritos até com a autorização da banda não iam muito além dos shows, sessões de gravação e premiações que a banda realizou em sua carreira, sendo assim, não existiam muitas outras fontes e quase todas as histórias que a imprensa repetia exaustivamente sobre o Crossroads, acabavam saindo de suas páginas.

Ela não havia pensado nisso até agora, mas o livro que escreveria a quatro mãos com Noble seria a primeira versão oficial de uma história que todos os fãs de rock ainda consideravam cheia de mistérios.

Alta madrugada, sem conseguir pregar os olhos, depois de jantar e filmes a bordo, Clara pegou seu iPod e começou a ouvir algumas músicas do "Crossoads"; algo que se revelaria desastroso. Agora estava com insônia e em pânico.

E se ele fosse um idiota? Como o vocalista da Joker, aquela banda de New Jersey que teve que entrevistar para um programa de TV há cinco anos? O tal cantor era insuportável e respondeu a todas as suas perguntas com monossílabos. A única vez em seus doze anos de carreira em que perdeu a paciência com um entrevistado e antes que os cinco minutos que tinha para fazer a entrevista se esgotassem, ela já o havia deixado falando sozinho.

Indignada com a atitude do artista, Clara pediu ao cinegrafista para ficar atento, no que resultou em um flagrante dele maltratando seus fãs; coisa que quando foi ao ar acabou por enfurecer a ele e a sua gravadora e colocou o nome de Clara em uma lista negra por algum tempo. Mas ao menos havia conseguido mostrar a verdade ao público.

Cansou do iPod e resolveu arrumar sua bolsa de mão, começou a agarrar-se a uma outra esperança, a da eterna má vontade dos agentes de imigração dos Estados Unidos com latino americanos.

Mas a chance disso acontecer era mínima, estava com um kit completo de documentos, que incluía até uma carta da prestigiada editora Golden Books que a apresentava como uma de suas autoras de sucesso, em visita ao país para negociação de um novo contrato de exclusividade.

Mesmo assim ela ainda torcia para que a mão do destino, a devolvesse ao Brasil no próximo avião; mas não foi desta vez, na verdade o agente da imigração foi muito simpático com ela e com Jonas, revelando que havia lido e gostado muito do livro que ela havia escrito sobre as canções do Crossroads e perguntando se era verdade que o cineasta neozelandês Albert Jones preparava-se para transformar suas histórias em filme.

Um arrepio subiu pela espinha quando ele mencionou a banda e ela chegou a ficar irritada quando Jonas imitando o sotaque do agente passou a dizer que aquela reação dos habitualmente robóticos agentes da imigração era um sinal do destino confirmando que estavam no caminho certo.

Ao chegarem finalmente ao terminal de passageiros do aeroporto JFK, um homem segurando uma placa com seus nomes escritos aguardava por eles, era Daniel, um motorista de limusine brasileiro contratado para transportá-los ao hotel.

Os dois não podiam acreditar, mas estavam mesmo em uma longa limusine a caminho de um dos melhores hotéis de Manhattan. Não conseguiam mais falar, ou raciocinar. Demorou alguns minutos até Clara lembrar-se de que deveria abrir o envelope entregue em mãos pelo motorista ainda no aeroporto.

Dentro, uma carta impressa sobre papel timbrado da Golden Books dava as boas vindas aos dois e marcava a sua primeira reunião com Noble, seu agente Michael Peters e John Cathe, o diretor da editora para o dia seguinte, às 14 horas, na sede da editora.

Mas havia outras coisas no envelope, um bilhete escrito à mão e assinado por Jack Noble convidando Jonas e Clara para seu show no Beacon Theater, naquela noite, e dois ingressos.

Clara pegou o bilhete nas mãos e esta foi a gota d’ água que abriu uma espécie de represa que ela havia segurado firme em seus olhos até então.

Começou a chorar tanto que assustou Jonas: - O que foi? Está passando mal?

- Não, Jonas, você não entenderia o que esse cara significa para mim, tentei me segurar por todo esse tempo, esconder o quanto eu gosto de tudo que ele já fez, por isso não queria vir, conhecê-lo pessoalmente pode estragar tudo...

- Como estragar? Você vai trabalhar com o cara, vai sair daqui com um milhão de dólares na sua conta, isso não é estragar, é tirar a sorte grande!

Já mais contida e secando as lágrimas com um lenço de papel, Clara percebeu que Jonas não dividiria com ela aquela preocupação por estar prestes a transformar um dos grandes heróis de sua vida em mais um ser humano comum, com qualidades e defeitos.

A limusine parou no hotel às 9 horas da manhã e Daniel, avisou aos dois que estaria de volta para levá-los ao teatro às 6 e meia da tarde. O show era às 8, mas o teatro não era muito perto e o trânsito de Nova York costumava ser infernal às sextas-feiras.

Ainda nervosa Clara fez rapidamente o check-in no hotel e pegou o cartão-chave de sua suíte, já ansiosa por ficar sozinha por algumas horas e tentar acalmar-se. Com tudo o que havia acontecido nos últimos dias, Clara havia se esquecido completamente de que tinha lido na internet tudo sobre esta nova fase da carreira de Noble.

Ele havia mergulhado de vez no mundo do blues mais tradicional e com sua nova banda, um grupo de músicos veteranos de New Orleans escolhidos a dedo, gravou um disco somente com clássicos de Robert Johnson, uma antiga ambição do cantor e uma das grandes influências de sua antiga banda que com seu nome homenageava a mais conhecida das músicas de Johnson.

Assim que o disco saiu, ele partiu para uma longa tournê pelos Estados Unidos, que por sinal, estava recebendo, junto com o disco, as melhores críticas de toda a sua carreira.

Clara subiu ao seu quarto e mesmo sentindo-se exausta, ainda concentrou-se por alguns momentos para deixar suas coisas arrumadas e tomar um banho, tentando deixar para trás a noite de expectativas que passou dentro do avião.

Ligou o notebook, enviou um e-mail para sua família com todas as informações sobre o hotel onde estava. Pegou o telefone do quarto e ligou para o apartamento de Jonas avisando que só sairia para almoçar lá pelas duas da tarde porque iria dormir um pouco.

Desligou tudo, deixou as roupas que usaria no almoço sobre a outra cama do quarto, deitou-se e programou o celular para despertá-la às 13:30. Dormiu tão profundamente que nem se lembrava de ter sonhado, quando a campainha tocou avisando que já era hora do almoço.

Ainda custava a ela acreditar em tudo o que estava acontecendo, abriu a cortina do quarto e olhou pela janela de onde via o movimento frenético da cidade, naquela sexta-feira, emoldurada pelos raios dourados do sol.

Foi até o banheiro, lavou o rosto, amarrou os longos cabelos louros e cacheados e colocou um vestido preto, com botões na frente, bem confortável, pois tinha planos de após o almoço dar uma caminhada ao redor do hotel, não podia demorar muito, ainda teria que preparar-se para o show e estar pronta antes das 6:30.

Saiu do quarto, checou novamente sua bolsa para ver se estava com o cartão que servia como chave da porta e foi até o elevador.

Quando esperava pelo elevador, recebeu uma mensagem de texto; era Jonas, sempre adiantado, perguntando por que estava demorando tanto.

Riu mais uma vez da neurose do amigo com horários e quando as portas do elevador se abriram, seguiu até o saguão e viu Jonas de longe, sentado em um sofá, acenando.

No momento em que acenou, um outro homem, sentado em uma poltrona próxima dele, ergueu-se e ela percebeu de longe que era Noble.

Continua... 

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