1 de abr de 2010

A CHAVE (Capítulo XVIII)


Ao contrário do que Ana esperava, a noite foi tranqüila, com Mikhail respondendo calmamente às suas inúmeras perguntas.

Quem visse os três conversando, ao redor de uma garrafa de vinho, na confortável sala de estar, sentados próximos da lareira acesa com um fogo bem baixinho, apostaria que eram amigos desde a infância.

Depois das perguntas, as conversas mudaram para outros assuntos, cinema, música, arte, literatura, vinhos, e Ana sentindo-se cada vez mais relaxada pelo clima agradável da noite.

Quando o sono começou a chegar, Ana decidiu que seria melhor ir deitar-se, o dia havia sido longo e o cansaço já estava começando a vencer a ansiedade; que por sinal, diminuia lentamente, substituida por uma sensação doce de familiaridade.

A deitar-se, o sono veio logo e Ana continuou fazendo pergntas a Mikhail, mas desta vez em sonho e seu mestre, além de responder a cada uma de suas dúvidas, mostrava pergaminhos muito antigos, escritos em línguas estranhas, que, para sua surpresa, eram completamente legíveis, como se estivessem escritos em português.

Em uma grande tela surgiam pinturas com cenas do cotidiano do Egito da época dos Faraós, todas fazendo todo sentido do mundo para Ana.

Naquele instante, um senso de dever e um propósito nobre e maior a invadiu. Ela não só sabia exatamente o que deveria fazer pelos próximos anos de sua vida, como tinha certeza de cada um dos passos, como se estivesse repassando um mesmo script lido e relido muitas vezes.

Mas na manhã seguinte, as lembranças do sonho eram muito vagas, Ana acordou com a impressão de que sonhara com algo importante, mas que era rico demais, cheio de informações e detalhes que estavam longe de sua memória, pelo menos naquele momento.

Mesmo assim, queria muito dividir aquilo que se lembrava com Mikhail, confirmar com ele a impressão de que passaram a noite juntos, dividindo informações preciosas, mas quando chegou à cozinha, a procura do amigo, encontrou apenas Christie, que avisou a Ana que Mikhail havia viajado cedo para Paris, uma decisão repentina provocada pelo fechamento de um contrato de fornecimento de vinho para uma grande e importante rede de lojas.

Aproveitando o frescor da manhã, Ana decidiu caminhar pelo jardim, voltou a sentar-se sob a sombra da mesma árvore com o livro de Mikhail nas mãos para continuar sua leitura.

Mas a leitura mais uma vez não rendeu, imagens do seu sonho, palavras que até então nem sabia que conhecia rodavam como um turbilhão em sua cabeça. Tudo era excessivo, veloz e muito complexo e profundo.

O dia passou rápido, Ana voltou à casa no final da tarde para descobrir através de Christie que Mikhail só retornaria no dia seguinte e que ela deveria aproveitar seu tempo para repetir os exercícios de meditação que havia feito no primeiro dia.

Um pouco desapontada, Ana passou o resto do dia lendo, ligou para sua família no Brasil e recolheu-se mais cedo, pensando em fazer seus exercícios de meditação na cama.

O céu estava coberto de estelas e a areia do deserto estalava sob seus pés. A sua mente precisava estar quieta para o próximo passo, o mais importante até agora, procurava não pensar, apenas seguia o brilho inconstante das chamas das tochas sopradas pelo vento gélido da noite.

Mais alguns passos, mais alguns passos...

Seus olhos se abriram e todas as estrelas desapareceram, dando lugar ao cenário já familiar do quarto em que estava hospedada já há alguns dias, na vinícola de Mikhail, seu mestre. Acostumando seus olhos ao escuro, acendeu o abatjour e viu que ainda eram duas da manhã.

Levantou-se e buscou papel e caneta para anotar tudo o que viu em seu sonho,temia esquecer se não tomasse nota. Queria encher o papel com detalhes de tudo o que vira em seu sonho, mas o sono não permitiu e ela escreveu apenas algumas palavras:

Deserto, areia, tochas, pirâmides

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