28 de out de 2009

A CHAVE (Capítulo XIV)


Ana desceu as escadas e encontrou Mikhail que já esperava por ela:

- Antes do café da manhã, você pode me acompanhar em uma caminhada?

- Claro! respondeu Ana, notando pela primeira vez que os olhos de Mikhail eram de um tom de azul que ela nunca havia visto antes.

Os dois saíram pela porta da frente e logo o cão que Ana vira pela janela veio ao encontro de Mikhail.

Mikhail começou a conversar com o cão em uma língua que Ana não entendia, mas pela alegria dos dois, teve imediatamente a impressão de estar presenciando um encontro de dois grandes amigos.

- Como é o nome dele?

- Ralf - Mikhail respondeu sorrindo.

- Oi Ralf, que bonitinho você é...

- Agora fica aí, Ralf, vamos Ana, temos muito o que conversar hoje.

- OK!

Os dois seguiram por uma estradinha de terra que contornava a casa principal da propriedade e logo estavam em um belo jardim, onde um grande caramanchão todo florido oferecia sua sombra a um único banco rústico de madeira.

Completando a cena, alguns canteiros de perfumadas flores do campo e mais adiante as plantações de vinha que se estendiam a perder de vista, até os pés da montanha azul.

O sol ainda não havia aquecido aquele lado da propriedade e a sombra da montanha oferecia ao ar um frescor extra que tornava aquele ambiente ainda mais agradável.

Mikhail parou sob o caramanchão, mas ao invés de sentar-se no banco, sentou-se no chão com as pernas cruzadas e Ana o imitou.

- Não se preocupe com a roupa...

- Não estou preocupada.

- Ótimo, este é o melhor lugar para fazer isto... Quero que você feche os olhos e respire profundamente. Sei que você ainda tem muitas dúvidas e que está ansiosa por entender tudo o que aconteceu até agora, mas antes disso é preciso que você esteja aqui comigo integralmente.

Ana seguiu as instruções de Mikhail e logo começou a ter sensações parecidas com aquelas que havia sentido durante o jantar, na noite anterior.

Assustou-se, perdeu a concentração, abriu os olhos e olhou para Mikhail que sorriu para ela.

- Ana, presta atenção no agora; vai, eu sei que você pode.

- Ok, vou tentar de novo...

Ana fechou mais uma vez os olhos e passou a prestar atenção apenas em sua respiração, logo, a sensação de vazio veio e como se uma lâmpada acendesse primeiramente em sua testa e fosse aos poucos iluminando todo o seu corpo.

Aquela luz parecia expandi-la, seu corpo inteiro agora parecia inchar, crescer. A sensação era muito estranha para ela e Ana ficou mais uma vez assustada.

Ela tentava falar, mas não conseguia, queria abrir os olhos e era impossível, não conseguia mover um músculo sequer e logo veio a sensação de pânico.

Até que o grito saiu meio abafado de sua garganta e seus olhos finalmente se abriram.
Mikhail ainda estava lá, olhando para ela e sorrindo.

- Você não sabe o que aconteceu comigo agora, Ana disse ainda meio sem fôlego.

- Calma, foi só uma catalepsia projetiva.

- Uma o que?

- Catalepsia projetiva, um sintoma bastante comum quando se entra em um estado alterado de consciência.

- Espera, não entendi nada.

- Calma, ainda não é hora de entender, só de sentir. Agora já podemos tomar café.


Continua

7 de out de 2009

A CHAVE (capítulo XIII)



Sem saber se foi obra do vinho, ou da viagem cansativa, Ana dormiu profundamente, um sono sem sonhos do qual acordou revigorada, no dia seguinte, com os latidos de um cão.

Um pouco tonta, ainda, foi até a janela e viu Mikhail brincando com um grande labrador amarelo.

Naquele momento, o sonho que teve no avião, começou a fazer sentido, e cenas rápidas dele e de muitos sonhos anteriores começaram a fluir em sua memória.

Logo, o último recado do caderno de Josef, que falava sobre seguir sua intuição, começou também a fazer todo o sentido do mundo.

Ana saiu da janela e pegou o caderno em sua mochila, releu os últimos avisos de Josef e agora, com uma forte impressão de que estava prestes a compreender tudo aquilo que havia acontecido, já que estava plenamente consciente de que sua intuição a guiaria por aquele novo caminho, virou a página:

"Muito bem! Você conseguiu! Agora que você compreendeu que a intuição deve guiá-la, já posso contar-lhe que Mikhail também faz parte de nosso trabalho.

Preciso que você entenda antes de tudo, que nada acontece por acaso. Eu, você e Mikhail fazemos parte de algo muito maior e temos uma missão que se desenrola há séculos.

Somos os guardiões de segredos milenares, passamos a nossa vida colhendo-os, resgatando-os e trazendo-os à luz, para que as próximas gerações, algum dia, tenham novamente a noção correta de suas origens e possam voltar a encontrar seu lugar no Universo.

Somos muitos com esta missão e fazemos isso há muitas vidas. Logo, você resgatará as memórias necessárias para que "A Corrente" siga seu destino e todo o conhecimento, que um dia moveu civilizações, volte a ser de todos."

Aquela era a primeira página do caderno que não tinha nenhuma instrução específica sobre continuar a leitura ou não, Ana sorriu e percebeu que daquele momento em diante, as instruções não seriam mais tão necessárias, sua intuição estava pronta.

Fechou o caderno, vestiu-se e desceu as escadas, sabia que tinha um longo caminho a percorrer e que estava prestes a dar o primeiro passo.

Continua