10 de dez de 2009

A CHAVE (capítulo XVII)


Ana olhou novamente para Mikhail, mas desta vez sentiu medo, um quase pânico que a tomou de asalto, paralisando seus movimentos.

Com mil cenários estranhos rodando em sua mente, ela demorou ainda alguns segundos para perceber que deveria seguí-lo pelos degraus estreitos.

Suas pernas não obedeciam e seus joelhos pareciam prontos para falhar, de tanto que tremiam. Em uma tentativa de disfarçar seu nervosismo, Ana passou a respirar fundo, com vergonha de que Mikhail estivesse notando que poderia desmoronar a qualquer momento.

Mas suas preocupações sobre o que encontraria no andar de baixo, foram trocadas quase imediatamente por surpresa e admiração, quando chegando ao pé da escada, Ana encontrou uma enorme porta de metal dourado, cheia de detalhes entalhados, que brilhava muito, refletindo toda a luz do ambiente.

De cada lado do portão, ardiam tochas acesas, emprestando ao cenário um ar verdadeiramente sobrenatural.

Mikhail parou na frente do portão, esperando que Ana se recuperasse da surpresa e não disse nada até sentir que sua respiração havia retomado o ritmo normal.

- Este portão leva à próxima etapa de nosso trabalho, porém, receio que ainda não esteja pronta para ela.

Ana ficou ainda mais nervosa do que estava antes:

- Por que? O que tem aí dentro?

- Ah, a curiosidade! Essa filha direta da ansiedade que nunca te abandona...

- Mas... Será que você não me entende?

- Muito mais do que você imagina, Ana. Por hora, vamos retornar ao laboratório, porque ainda não chegou o momento de prosseguirmos. Não se preocupe porque ele vai chegar.

- Ok... - respondeu sem muita certeza - Eu prometi seguir suas instruções, não foi?

- E deve seguí-las, pelo menos por enquanto.

Os dois subiram pelas escadas circulares e logo estavam novamente no laboratório.

- E já que estamos aqui, vou pegar o livro que comentei com você. Procure lê-lo ainda hoje, pois amanhã cedo, retomaremos nossa meditação, ok?

- Claro. - respondeu Ana, bastante decepcionada.

- Você entende inglês?

- Sim, claro.

Mikhail, então voltou-se para a estante de livros e de lá, sacou um pequeno exemplar de capa de couro preta, sem marcas e entregou-o a Ana.

Abrindo o livro, Ana pode finalmente ler seu título: "The Projection of the Astral Body by Silvan Muldoon and Hereward Carrington". Não era um volume muito grande, mesmo assim, ela duvidava que conseguiria lê-lo até a manhã do dia seguinte.

Logo após mais algumas considerações de Mikhail, que ouviu com muita atenção, Ana estava livre para sentar-se à sombra de uma das árvores do jardim com o livro nas mãos.

Demorou um pouco para conseguir concentrar-se no que estava lendo, sua imaginação criava cenas malucas de salas cada vez mais estranhas, mas a leitura revelou-se surpreendente.

O livro descrevia as experiências com viagem astral feitas por dois pesquisadores, no início do século XX e ajudava a explicar os sintomas que havia sentido de manhã, durante a meditação.

Aquela sensação terrível de não conseguir mover-se e o pânico de achar que estava morrendo, para finalmente conseguir soltar um grito abafado e assim, sair daquela situação.

Lendo o livro, Ana ainda lembrou-se de um período de sua infância, em que tinha muitos pesadelos que começavam com aquela sensação ruim de paralisia e seguiam com monstros horríveis invadindo seu quarto.

O horizonte agora assumia tons cada vez mais dourados e uma brisa forte e gélida começava a soprar seus cabelos.

Sem conseguir concentrar-se mais na leitura, Ana fechou o livro e mais uma vez buscou com os olhos a montanha que brilhava cada vez mais bela naquela luz de final de tarde.

Ao longe, o ronco do jipe de Mikhail, aproximando-se da casa principal da propriedade serviu como um sinal para Ana erguer-se de seu refúgio no jardim e caminhar de volta ao encontro de seus amigos.

Ainda sentia medo do que poderia acontecer, mas estava curiosa demais para não deixar que acontecesse.

Continua

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