26 de nov de 2009

A CHAVE (capítulo XVI)


- Laboratório? Perguntou Ana tentando conter o riso.

- Claro! Todo alquimista tem um, você não sabia?

- Não, quero dizer, não sei... Achei que isso tudo fosse uma coisa meio metafórica, sei lá, da imaginação popular, sabe...

- Não é, lembra, os alquimistas já foram até considerados cientistas...

- Eu sei, claro... Só que quando você falou em laboratório, pensei em alguma coisa do tipo Dr Jekyll e Mr Hyde.

- Então vamos lá, que o Mr Hyde quer te conhecer - respondeu Mikhail com um sorriso vago.

Ana seguiu Mikhail até o fundo da casa e os dois saíram pela porta da cozinha, atravessaram o gramado e chegaram a um pequeno chalé de pedras.

Mikhail abriu a porta e Ana, mais uma vez, achou que estava em uma outra época.

Uma bancada simples, de madeira escura, servia de apoio para uma série de tubos de vidro, potes de porcelana, e até mesmo um grande e escurecido caldeirão de metal que não teria lugar em qualquer ideia de laboratório moderno, asséptico, destes que têm paredes azulejadas e luz branca artificial.

Atrás da bancada, um grande armário, parecia ter saído diretamente de um antiquário com suas muitas pequenas gavetas.

O olhar de Ana varria aquela sala estranha, onde ainda havia um varal com diversos tipos de ervas penduradas:

- Muito bem, então este é o laboratório! - Ana disse com uma expressão de espanto - Me parece mais o cenário de um filme de época.

- Sim, é natural que assim pareça; foi construído seguindo as instruções de um livro escrito no século XIII.

- Mesmo? Nossa! E o que você faz aqui?

- Estou buscando a Pedra Filosofal.

- Você só pode estar brincando...

Percebendo uma mudança repentina no semblante de Mikhail, Ana procurou retratar-se rapidamente, afinal ela sabia que o senso de humor dos europeus era bem diferente dos brasileiros e Mikhail poderia estar recebendo sua reação como uma ofensa.

- Eu quero dizer, bem, para mim essas coisas sempre foram lendas: Mago Merlin, duendes, bruxas...

- Sei, mas não são! O que você está vendo agora, naquela bancada, é o resultado de muitos séculos de trabalho de cientistas que dedicaram suas vidas a esta busca.

- Mas uma pedra ou o que for com o poder de transformar chumbo em ouro...

- Sim e também que serve como base para a elaboração de um elixir que possibilita a vida eterna...

- Ah! Isso também! Desculpe minha sinceridade, mas acho que não acredito nestas coisas.

- Você também não acreditava nos livros do Josef...

A frase de Mikhail fez Ana lembrar-se de tudo o que havia acontecido em sua vida nos últimos tempos e naquele momento ela teve que admitir para si mesma que estava diante de um grande mistério.

- Falando muito sério Ana, eu trouxe você aqui para que comece a familiarizar-se com algumas coisas que farão parte de sua vida, de agora em diante.

- Claro, desculpe, mas ainda tudo isso é muito estranho para mim.

- Entendo, agora venha até aqui, por favor. - Disse Mikhail enquanto se aproximava de uma parede lateral do laboratório coberta por uma enorme estante de livros.

Ana aproximou-se de Mikhail que estendeu a mão e tocou na cabeça de uma estátua de esfinge que segurava um conjunto de livros.

Imediatamente ouviu-se um estalo e a estante moveu-se como uma porta.

Ana não conseguia acreditar em seus olhos, mas atrás da estante havia uma outra sala, iluminada por uma tocha presa na parede e o início de uma pequena escada em espiral que descia e de onde vinha uma estranha luz dourada.

Continua

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