27 de ago de 2009

A CHAVE (capítulo XII)


Mikhail não demorou muito no banho. Logo estava de volta na cozinha ajudando a preparar o jantar e uma deliciosa borsch, de cor lilás aveludada que há alguns minutos borbulhava em um pote de ferro, logo era transferida para uma sopeira sofisticada que combinava perfeitamente com as louças, taças de cristal e talheres de prata postos à mesa aparentemente deslocados naquele ambiente rústico, mas que estranhamente combinavam com o clima daquela noite que lentamente,lá fora, transformava seus tons dourados em um céu cristalino iluminado por estrelas cintilantes e a luz prateada da lua cheia.

Tudo se mostrava rico, colorido e exuberante até a garrafa de vinho que os três já haviam consumido ainda durante a preparação do jantar.

Com seu sabor delicado, o vinho também ajudava Ana a relaxar um pouco mais, sentindo-se cada vez mais confiante naquela situação nova e inusitada; justo ela que demorava tanto para sequer falar diante de estranhos, já sentia que estava entre amigos.

Após servirem a sopa em seus pratos, Mikhail e Christie calaram-se e em um gesto idêntico, levantaram a mão direita sobre o prato, enquanto sussuravam algo que Ana não compreendeu.

Imediatamente, Ana lembrou-se de uma fase de sua infância, quando costumava almoçar na casa de seus avós aos domingos. Assim que a comida chegava à mesa, seu avô pedia silêncio e ela e seus primos juntavam às mãos e de olhos fechados ouviam-no dizendo o tradicional: - Que Deus abençoe este alimento que estamos para receber agora.

Aquele ritual de seu avô nunca fez muito sentido para ela, que sempre detestou o molho de tomate forte e apimentado preparado pela avó; mesmo assim, naquele momento, decidiu repetir a benção do avô mentalmente sobre seu prato de sopa.

Com um sorriso nos lábios, Mikhail rompeu o silêncio oferencendo mais vinho da segunda garrafa que acabara de abrir.

- Você deve ter agora muitas perguntas rodando em sua cabeça, mas acho importante que antes delas, você se permita viver este momento. Este é o primeiro exercício que como teu mestre, te proponho... Você pode não perceber, mas nossa mente quase sempre deixa de viver o momento presente, buscando memórias do passado ou roda sem rumo, perdida na ansiedade pelo futuro.

Sem saber se era um efeito do vinho, Ana parecia sentir-se desintegrada da cena; era como se estivesse fora de seu próprio corpo assistindo a um filme que já havia visto mas não sabia exatamente quando.

- Feche os olhos - Mikhail acrescentou - Agora concentre-se em seus sentidos, procure sentir os aromas desta cozinha, as sensações da posição de seu corpo, o som da minha voz, os barulhos da noite lá fora, sua própria respiração...

Ana ia seguindo as instruções de Mikhail e a cada segundo que passava parecia perceber mais aromas e ouvir sons mais claros que vinham de fora da janela.

- Continue com os olhos fechados, continue concentrando-se nos demais sentidos e quando sentir que eles trazem a impressão correta de todo ambiente, você pode abrí-los novamente.

Quando começou a sentir distintamente a diferença entre o ar aquecido pela lareira acesa e o fresco e perfumado que entrava pela janela, Ana sentiu-se pronta para abrir os olhos e quando o fez, notou que percebia detalhes que até então não tinha visto naquela cozinha.

As cores vibravam como nunca, dos tons avermelhados que vinham da lareira ao cristal azulado da paisagem da janela, tudo parecia vivo, respirando.

Agora que abriu os olhos, os sons da conversa entre Christie e Mikhail pareciam não ter qualquer significado e Ana observava as pequenas variações de movimento dos dois enquanto falavam.

Sem compreender como isso acontecia, Ana percebia a história de cada objeto daquele ambiente descortinando-se aos seus olhos, um fluxo de informações corria rápido em sua direção e sentia que sua mente, mais lenta graças ao vinho, tinha uma grande dificuldade de acompanhar tudo aquilo.

Finalmente, sobrecarregada por tantas sensações, Ana colocou as mãos sobre os olhos, decidida a encerrar o exercício.

Mikhail, sem tirar o riso dos lábios, a observava:

- E então?
- O que você fez comigo?
- Nada, você está apenas exercitando uma velha capacidade que andava adormecida e que detalharei mais tarde. Vamos à sobremesa?

Continua

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