16 de mar de 2009

A CHAVE (capítulo X)


Ana esboçou uma tentativa de sorriso, mas agora que o carro tinha começado a andar de verdade, percorrendo uma estrada estreita que ía na direção das montanhas, uma voz dentro de sua cabeça quase a deixava em pânico.

"E se não fosse esse o mestre?" - a mente de Ana viajava mais rápido do que o jipe e o medo de estar caindo em algum tipo de armadilha não a deixava nem ver a paisagem, nem encontrar perguntas apropriadas para testar a veracidade de Mikail.

Mas Mikail quebrou o silêncio - Não faça isso com você mesma. Se você está em dúvida sobre mim, por que não me faz perguntas?
Sentindo-se flagrada pelo mestre, Ana esboçou outro sorriso sem graça - Não... imagina... é que, bom foi tudo tão estranho, tão rápido.

- Mas você acreditou em mim, quando me apresentei a você, não foi? Por que você acreditou naquele momento e agora está duvidando?

- Não sei, quando você veio conversar comigo tive impressão de que já te conhecia, mas agora uma vozinha lá no fundo da minha cabeça me diz que fui precipitada, fica me dizendo que fui maluca de acreditar em um completo estranho, naquela situação em que a gente se encontrou.

Sem tirar os olhos da estrada, Mikail sorriu: - A sua primeira impressão é a voz da sua intuição. Quando você a escuta, tem a vantagem de estar ouvindo também a opinião de uma parte do seu eu que é mais esperta e muito mais perceptiva do que essa sua segunda voz, aquela que precisa de provas e explicações razoáveis para tudo.

- Mas, e se você fosse algum maluco, um sequestrador, ladrão, golpista?

- A sua intuição teria te dito. Acho melhor você aprender a ouví-la e quando ela te disser algo, preste muita atenção e tome cuidado para não trocá-la pelos seus medos.

Ana respirou fundo e resolveu dar uma chance para Mikail, mas decidiu que estaria sempre alerta.

Enquanto isso a paisagem que eles percorriam ia mudando, Mikail entrou em uma estrada estreita de terra, ladeada por belas árvores que faziam sombra, a temperatura ficou um pouco mais amena, a tarde já estava quase terminando, mas o sol havia deixado uma leve sensação de ardor em seu rosto, os cabelos presos em um rabo de cavalo, se agitavam ao bater do vento.

A estrada parecia se estender até o sopé de montanhas majestosas que tomavam boa parte do horizonte daquela paisagem. Uma visão de tirar o fôlego naquele final de tarde, mas o melhor ainda estava por vir, na próxima curva, ficou visível uma casa centenária, toda de pedra, rústica e coberta de plantas, que floriam aqui e ali, manchando o verde escuro da folhagem, com gotas de cores berrantes.

As portas de madeira escura, cuidadosamente entalhadas, se abriram para um ambiente aconchegante, paredes brancas, estantes de madeira escura cheias de livros e poltronas confortáveis pareciam transformar aquela sala no melhor lugar do mundo para alguém apaixonada por livros, como ela.
Naquele ambiente, era quase uma decepção constatar que a lareira estava apagada, mesmo no calor daquela tarde de verão.

Mesmo impressionada com a beleza daquele lugar, a mente de Ana ainda não estava tranquila, seu cérebro criava explicações cada vez mais complicadas para aquele seu encontro com Mikail; em todas elas, chegar ali, naquele lugar completamente isolado, era exatamente a pior de todas as situações, mesmo que aquela casa não se parecesse em nada com aquilo que esperava.

Ciente das desconfianças de Ana, Mikail havia decidido por ficar quieto, imaginou que quanto mais falasse, mais a assustaria e até mesmo achava a situação engraçada, a "paranóia" das pessoas andava atingindo níveis realmente assustadores ultimamente.

- Você vai ficar no quarto de hóspedes, enquanto você se instala, darei uma saída rápida e retorno para o jantar, fique a vontade.... Ah! Esta aqui é a Christie, minha secretária, se precisar de alguma coisa, peça a ela, ok? - disse Mikail, apontando para uma garota loura, muito magra, que havia entrado no quarto sem fazer qualquer ruido.

- Olá!

- Christie é alemã, mas já viveu em Portugal e por isso fala perfeitamente sua língua, você não terá problemas para comunicar-se com ela... Bom, preciso ir agora...

Ana começou a instalar-se e esta foi a senha para que Christie se retirasse de seu quarto; assim que ela saiu, Ana trancou a porta por dentro e lembrou-se de procurar por um telefone disponível para seu uso. Não precisou procurar muito, no criado mudo, um aparelho com aparência de antigo, mas que deu sinal ao ser tirado do gancho indicava que ela podia relaxar um pouco.

Mas antes disso, ela resolveu dar mais uma olhada no caderno de Josef, repassou todo o capítulo que falava sobre seu encontro com o mestre e pela primeira vez ousou virar para a página seguinte: "Não se preocupe, você está no lugar certo. Você terá uma prova do que digo amanhã. PS: Só continue até a próxima página quando compreender que deve confiar em sua intuição."

Continua

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