10 de dez de 2009

A CHAVE (capítulo XVII)


Ana olhou novamente para Mikhail, mas desta vez sentiu medo, um quase pânico que a tomou de asalto, paralisando seus movimentos.

Com mil cenários estranhos rodando em sua mente, ela demorou ainda alguns segundos para perceber que deveria seguí-lo pelos degraus estreitos.

Suas pernas não obedeciam e seus joelhos pareciam prontos para falhar, de tanto que tremiam. Em uma tentativa de disfarçar seu nervosismo, Ana passou a respirar fundo, com vergonha de que Mikhail estivesse notando que poderia desmoronar a qualquer momento.

Mas suas preocupações sobre o que encontraria no andar de baixo, foram trocadas quase imediatamente por surpresa e admiração, quando chegando ao pé da escada, Ana encontrou uma enorme porta de metal dourado, cheia de detalhes entalhados, que brilhava muito, refletindo toda a luz do ambiente.

De cada lado do portão, ardiam tochas acesas, emprestando ao cenário um ar verdadeiramente sobrenatural.

Mikhail parou na frente do portão, esperando que Ana se recuperasse da surpresa e não disse nada até sentir que sua respiração havia retomado o ritmo normal.

- Este portão leva à próxima etapa de nosso trabalho, porém, receio que ainda não esteja pronta para ela.

Ana ficou ainda mais nervosa do que estava antes:

- Por que? O que tem aí dentro?

- Ah, a curiosidade! Essa filha direta da ansiedade que nunca te abandona...

- Mas... Será que você não me entende?

- Muito mais do que você imagina, Ana. Por hora, vamos retornar ao laboratório, porque ainda não chegou o momento de prosseguirmos. Não se preocupe porque ele vai chegar.

- Ok... - respondeu sem muita certeza - Eu prometi seguir suas instruções, não foi?

- E deve seguí-las, pelo menos por enquanto.

Os dois subiram pelas escadas circulares e logo estavam novamente no laboratório.

- E já que estamos aqui, vou pegar o livro que comentei com você. Procure lê-lo ainda hoje, pois amanhã cedo, retomaremos nossa meditação, ok?

- Claro. - respondeu Ana, bastante decepcionada.

- Você entende inglês?

- Sim, claro.

Mikhail, então voltou-se para a estante de livros e de lá, sacou um pequeno exemplar de capa de couro preta, sem marcas e entregou-o a Ana.

Abrindo o livro, Ana pode finalmente ler seu título: "The Projection of the Astral Body by Silvan Muldoon and Hereward Carrington". Não era um volume muito grande, mesmo assim, ela duvidava que conseguiria lê-lo até a manhã do dia seguinte.

Logo após mais algumas considerações de Mikhail, que ouviu com muita atenção, Ana estava livre para sentar-se à sombra de uma das árvores do jardim com o livro nas mãos.

Demorou um pouco para conseguir concentrar-se no que estava lendo, sua imaginação criava cenas malucas de salas cada vez mais estranhas, mas a leitura revelou-se surpreendente.

O livro descrevia as experiências com viagem astral feitas por dois pesquisadores, no início do século XX e ajudava a explicar os sintomas que havia sentido de manhã, durante a meditação.

Aquela sensação terrível de não conseguir mover-se e o pânico de achar que estava morrendo, para finalmente conseguir soltar um grito abafado e assim, sair daquela situação.

Lendo o livro, Ana ainda lembrou-se de um período de sua infância, em que tinha muitos pesadelos que começavam com aquela sensação ruim de paralisia e seguiam com monstros horríveis invadindo seu quarto.

O horizonte agora assumia tons cada vez mais dourados e uma brisa forte e gélida começava a soprar seus cabelos.

Sem conseguir concentrar-se mais na leitura, Ana fechou o livro e mais uma vez buscou com os olhos a montanha que brilhava cada vez mais bela naquela luz de final de tarde.

Ao longe, o ronco do jipe de Mikhail, aproximando-se da casa principal da propriedade serviu como um sinal para Ana erguer-se de seu refúgio no jardim e caminhar de volta ao encontro de seus amigos.

Ainda sentia medo do que poderia acontecer, mas estava curiosa demais para não deixar que acontecesse.

Continua

26 de nov de 2009

A CHAVE (capítulo XVI)


- Laboratório? Perguntou Ana tentando conter o riso.

- Claro! Todo alquimista tem um, você não sabia?

- Não, quero dizer, não sei... Achei que isso tudo fosse uma coisa meio metafórica, sei lá, da imaginação popular, sabe...

- Não é, lembra, os alquimistas já foram até considerados cientistas...

- Eu sei, claro... Só que quando você falou em laboratório, pensei em alguma coisa do tipo Dr Jekyll e Mr Hyde.

- Então vamos lá, que o Mr Hyde quer te conhecer - respondeu Mikhail com um sorriso vago.

Ana seguiu Mikhail até o fundo da casa e os dois saíram pela porta da cozinha, atravessaram o gramado e chegaram a um pequeno chalé de pedras.

Mikhail abriu a porta e Ana, mais uma vez, achou que estava em uma outra época.

Uma bancada simples, de madeira escura, servia de apoio para uma série de tubos de vidro, potes de porcelana, e até mesmo um grande e escurecido caldeirão de metal que não teria lugar em qualquer ideia de laboratório moderno, asséptico, destes que têm paredes azulejadas e luz branca artificial.

Atrás da bancada, um grande armário, parecia ter saído diretamente de um antiquário com suas muitas pequenas gavetas.

O olhar de Ana varria aquela sala estranha, onde ainda havia um varal com diversos tipos de ervas penduradas:

- Muito bem, então este é o laboratório! - Ana disse com uma expressão de espanto - Me parece mais o cenário de um filme de época.

- Sim, é natural que assim pareça; foi construído seguindo as instruções de um livro escrito no século XIII.

- Mesmo? Nossa! E o que você faz aqui?

- Estou buscando a Pedra Filosofal.

- Você só pode estar brincando...

Percebendo uma mudança repentina no semblante de Mikhail, Ana procurou retratar-se rapidamente, afinal ela sabia que o senso de humor dos europeus era bem diferente dos brasileiros e Mikhail poderia estar recebendo sua reação como uma ofensa.

- Eu quero dizer, bem, para mim essas coisas sempre foram lendas: Mago Merlin, duendes, bruxas...

- Sei, mas não são! O que você está vendo agora, naquela bancada, é o resultado de muitos séculos de trabalho de cientistas que dedicaram suas vidas a esta busca.

- Mas uma pedra ou o que for com o poder de transformar chumbo em ouro...

- Sim e também que serve como base para a elaboração de um elixir que possibilita a vida eterna...

- Ah! Isso também! Desculpe minha sinceridade, mas acho que não acredito nestas coisas.

- Você também não acreditava nos livros do Josef...

A frase de Mikhail fez Ana lembrar-se de tudo o que havia acontecido em sua vida nos últimos tempos e naquele momento ela teve que admitir para si mesma que estava diante de um grande mistério.

- Falando muito sério Ana, eu trouxe você aqui para que comece a familiarizar-se com algumas coisas que farão parte de sua vida, de agora em diante.

- Claro, desculpe, mas ainda tudo isso é muito estranho para mim.

- Entendo, agora venha até aqui, por favor. - Disse Mikhail enquanto se aproximava de uma parede lateral do laboratório coberta por uma enorme estante de livros.

Ana aproximou-se de Mikhail que estendeu a mão e tocou na cabeça de uma estátua de esfinge que segurava um conjunto de livros.

Imediatamente ouviu-se um estalo e a estante moveu-se como uma porta.

Ana não conseguia acreditar em seus olhos, mas atrás da estante havia uma outra sala, iluminada por uma tocha presa na parede e o início de uma pequena escada em espiral que descia e de onde vinha uma estranha luz dourada.

Continua

7 de nov de 2009

A CHAVE (capítulo XV)



Depois do café da manhã, Mikhail levou Ana para uma visita a área de fabricação de vinhos.

Por alguns momentos, ela sentiu-se em uma outra época, poucos camponeses moviam-se lentamente em um longo galpão onde a luz do sol, que entrava por janelas muito altas, fazia brilhar o topo de grandes recipientes de metal.

Mikhail explicou-lhe detalhadamente cada uma das etapas da fabricação do vinho, e como cada uma delas influenciava no resultado final que se obtinha, desde a colheita da uva e ela ficou um pouco desapontada ao descobrir que as uvas não eram mais amassadas pelos pés dos camponeses, mas prensadas em máquinas modernas.

Uma segunda construção ao lado, aparentemente mais antiga e feita toda de pedra, abrigava grandes barris, onde o vinho "dormia" seu sono alquímico, antes de ser engarrafado, em um outro galpão anexo.

Ver todo o processo, deixou Ana ainda mais apaixonada pelo vinho que provou no final da "excursão", no escritório da vinícola, onde alguns turistas conversavam animadamente com a recepcionista.

- Meu pai sempre foi contra isso - sussurrou Mikhail apontando discretamente para os turistas - Achava que muita gente circulando na vinícola perturbava as vinhas.

- E você não concorda?

- Não. Acho que a presença das pessoas ajuda no crescimento delas, dá uma razão às vinhas, que são plantas orgulhosas para sentirem-se mais amadas e admiradas.

- Você fala das plantas como se elas fossem gente.

- Elas não são gente, mas têm consciência e sentimentos. Percebem tudo o que acontece ao seu redor e falando nisso, acho que está na hora de você saber uma coisa muito importante, tudo, absolutamente tudo no Universo é energia e está interconectado.

Disso, ela se lembrava, havia lido em um dos primeiros livros de Josef a afirmação de que "matéria é energia condensada" e que nada, nem mesmo as rochas mais sólidas estavam realmente paradas, sempre existia movimento entre as pequenas partículas que compunham seus átomos.

Na época em que leu esta parte do livro, Ana correu até uma biblioteca e descobriu em livros de física que a ideia de Josef não era tão maluca assim e estava bem demonstrada em trabalhos de físicos importantes, que haviam mudado a "cara" da ciência na primeira metade do século XX.

- Nada no Universo está realmente fixo, tudo vibra! - Respondeu Ana, lembrando-se do que havia lido.

- Exatamente! Que bom que você já sabe disso - disse Mikhail sorrindo.

- Sei... cheguei até a pesquisar em livros de física sobre este assunto. Mas ainda não sei o que me aconteceu hoje de manhã, no jardim.Fiquei com medo, achei que estava morrendo.

- Ah! A catalepsia projetiva! Não se preocupe, tem um bom livro sobre isso na minha biblioteca. Agora vamos voltar para casa porque o almoço já deve estar pronto.

Christie já estava esperando pelos dois com uma deliciosa refeição pronta, uma boa salada verde com tomates e queijo chèvre e salmão grelhado com um delicioso molho de frutas.

Na sobremesa, uma fatia de torta de frutas e uma taça de licor, que Ana teve dificuldade em identificar do que era feito.

Na verdade, a refeição correu praticamente em silêncio, com o ritual habitual de Mikhail e Christie a antecedendo e Ana, repetindo mentalmente a oração da casa de sua avó.

Logo após o almoço, os dois ajudaram Christie com os pratos na cozinha e coube a Mikhail finalmente quebrar o silêncio:

- Agora, depois que te apresentei ao mundo maravilhoso do vinho, já está na hora de você conhecer o meu laboratório. Vamos? - disse ele estendendo a mão para Ana.

Continua

28 de out de 2009

A CHAVE (Capítulo XIV)


Ana desceu as escadas e encontrou Mikhail que já esperava por ela:

- Antes do café da manhã, você pode me acompanhar em uma caminhada?

- Claro! respondeu Ana, notando pela primeira vez que os olhos de Mikhail eram de um tom de azul que ela nunca havia visto antes.

Os dois saíram pela porta da frente e logo o cão que Ana vira pela janela veio ao encontro de Mikhail.

Mikhail começou a conversar com o cão em uma língua que Ana não entendia, mas pela alegria dos dois, teve imediatamente a impressão de estar presenciando um encontro de dois grandes amigos.

- Como é o nome dele?

- Ralf - Mikhail respondeu sorrindo.

- Oi Ralf, que bonitinho você é...

- Agora fica aí, Ralf, vamos Ana, temos muito o que conversar hoje.

- OK!

Os dois seguiram por uma estradinha de terra que contornava a casa principal da propriedade e logo estavam em um belo jardim, onde um grande caramanchão todo florido oferecia sua sombra a um único banco rústico de madeira.

Completando a cena, alguns canteiros de perfumadas flores do campo e mais adiante as plantações de vinha que se estendiam a perder de vista, até os pés da montanha azul.

O sol ainda não havia aquecido aquele lado da propriedade e a sombra da montanha oferecia ao ar um frescor extra que tornava aquele ambiente ainda mais agradável.

Mikhail parou sob o caramanchão, mas ao invés de sentar-se no banco, sentou-se no chão com as pernas cruzadas e Ana o imitou.

- Não se preocupe com a roupa...

- Não estou preocupada.

- Ótimo, este é o melhor lugar para fazer isto... Quero que você feche os olhos e respire profundamente. Sei que você ainda tem muitas dúvidas e que está ansiosa por entender tudo o que aconteceu até agora, mas antes disso é preciso que você esteja aqui comigo integralmente.

Ana seguiu as instruções de Mikhail e logo começou a ter sensações parecidas com aquelas que havia sentido durante o jantar, na noite anterior.

Assustou-se, perdeu a concentração, abriu os olhos e olhou para Mikhail que sorriu para ela.

- Ana, presta atenção no agora; vai, eu sei que você pode.

- Ok, vou tentar de novo...

Ana fechou mais uma vez os olhos e passou a prestar atenção apenas em sua respiração, logo, a sensação de vazio veio e como se uma lâmpada acendesse primeiramente em sua testa e fosse aos poucos iluminando todo o seu corpo.

Aquela luz parecia expandi-la, seu corpo inteiro agora parecia inchar, crescer. A sensação era muito estranha para ela e Ana ficou mais uma vez assustada.

Ela tentava falar, mas não conseguia, queria abrir os olhos e era impossível, não conseguia mover um músculo sequer e logo veio a sensação de pânico.

Até que o grito saiu meio abafado de sua garganta e seus olhos finalmente se abriram.
Mikhail ainda estava lá, olhando para ela e sorrindo.

- Você não sabe o que aconteceu comigo agora, Ana disse ainda meio sem fôlego.

- Calma, foi só uma catalepsia projetiva.

- Uma o que?

- Catalepsia projetiva, um sintoma bastante comum quando se entra em um estado alterado de consciência.

- Espera, não entendi nada.

- Calma, ainda não é hora de entender, só de sentir. Agora já podemos tomar café.


Continua

7 de out de 2009

A CHAVE (capítulo XIII)



Sem saber se foi obra do vinho, ou da viagem cansativa, Ana dormiu profundamente, um sono sem sonhos do qual acordou revigorada, no dia seguinte, com os latidos de um cão.

Um pouco tonta, ainda, foi até a janela e viu Mikhail brincando com um grande labrador amarelo.

Naquele momento, o sonho que teve no avião, começou a fazer sentido, e cenas rápidas dele e de muitos sonhos anteriores começaram a fluir em sua memória.

Logo, o último recado do caderno de Josef, que falava sobre seguir sua intuição, começou também a fazer todo o sentido do mundo.

Ana saiu da janela e pegou o caderno em sua mochila, releu os últimos avisos de Josef e agora, com uma forte impressão de que estava prestes a compreender tudo aquilo que havia acontecido, já que estava plenamente consciente de que sua intuição a guiaria por aquele novo caminho, virou a página:

"Muito bem! Você conseguiu! Agora que você compreendeu que a intuição deve guiá-la, já posso contar-lhe que Mikhail também faz parte de nosso trabalho.

Preciso que você entenda antes de tudo, que nada acontece por acaso. Eu, você e Mikhail fazemos parte de algo muito maior e temos uma missão que se desenrola há séculos.

Somos os guardiões de segredos milenares, passamos a nossa vida colhendo-os, resgatando-os e trazendo-os à luz, para que as próximas gerações, algum dia, tenham novamente a noção correta de suas origens e possam voltar a encontrar seu lugar no Universo.

Somos muitos com esta missão e fazemos isso há muitas vidas. Logo, você resgatará as memórias necessárias para que "A Corrente" siga seu destino e todo o conhecimento, que um dia moveu civilizações, volte a ser de todos."

Aquela era a primeira página do caderno que não tinha nenhuma instrução específica sobre continuar a leitura ou não, Ana sorriu e percebeu que daquele momento em diante, as instruções não seriam mais tão necessárias, sua intuição estava pronta.

Fechou o caderno, vestiu-se e desceu as escadas, sabia que tinha um longo caminho a percorrer e que estava prestes a dar o primeiro passo.

Continua

27 de ago de 2009

A CHAVE (capítulo XII)


Mikhail não demorou muito no banho. Logo estava de volta na cozinha ajudando a preparar o jantar e uma deliciosa borsch, de cor lilás aveludada que há alguns minutos borbulhava em um pote de ferro, logo era transferida para uma sopeira sofisticada que combinava perfeitamente com as louças, taças de cristal e talheres de prata postos à mesa aparentemente deslocados naquele ambiente rústico, mas que estranhamente combinavam com o clima daquela noite que lentamente,lá fora, transformava seus tons dourados em um céu cristalino iluminado por estrelas cintilantes e a luz prateada da lua cheia.

Tudo se mostrava rico, colorido e exuberante até a garrafa de vinho que os três já haviam consumido ainda durante a preparação do jantar.

Com seu sabor delicado, o vinho também ajudava Ana a relaxar um pouco mais, sentindo-se cada vez mais confiante naquela situação nova e inusitada; justo ela que demorava tanto para sequer falar diante de estranhos, já sentia que estava entre amigos.

Após servirem a sopa em seus pratos, Mikhail e Christie calaram-se e em um gesto idêntico, levantaram a mão direita sobre o prato, enquanto sussuravam algo que Ana não compreendeu.

Imediatamente, Ana lembrou-se de uma fase de sua infância, quando costumava almoçar na casa de seus avós aos domingos. Assim que a comida chegava à mesa, seu avô pedia silêncio e ela e seus primos juntavam às mãos e de olhos fechados ouviam-no dizendo o tradicional: - Que Deus abençoe este alimento que estamos para receber agora.

Aquele ritual de seu avô nunca fez muito sentido para ela, que sempre detestou o molho de tomate forte e apimentado preparado pela avó; mesmo assim, naquele momento, decidiu repetir a benção do avô mentalmente sobre seu prato de sopa.

Com um sorriso nos lábios, Mikhail rompeu o silêncio oferencendo mais vinho da segunda garrafa que acabara de abrir.

- Você deve ter agora muitas perguntas rodando em sua cabeça, mas acho importante que antes delas, você se permita viver este momento. Este é o primeiro exercício que como teu mestre, te proponho... Você pode não perceber, mas nossa mente quase sempre deixa de viver o momento presente, buscando memórias do passado ou roda sem rumo, perdida na ansiedade pelo futuro.

Sem saber se era um efeito do vinho, Ana parecia sentir-se desintegrada da cena; era como se estivesse fora de seu próprio corpo assistindo a um filme que já havia visto mas não sabia exatamente quando.

- Feche os olhos - Mikhail acrescentou - Agora concentre-se em seus sentidos, procure sentir os aromas desta cozinha, as sensações da posição de seu corpo, o som da minha voz, os barulhos da noite lá fora, sua própria respiração...

Ana ia seguindo as instruções de Mikhail e a cada segundo que passava parecia perceber mais aromas e ouvir sons mais claros que vinham de fora da janela.

- Continue com os olhos fechados, continue concentrando-se nos demais sentidos e quando sentir que eles trazem a impressão correta de todo ambiente, você pode abrí-los novamente.

Quando começou a sentir distintamente a diferença entre o ar aquecido pela lareira acesa e o fresco e perfumado que entrava pela janela, Ana sentiu-se pronta para abrir os olhos e quando o fez, notou que percebia detalhes que até então não tinha visto naquela cozinha.

As cores vibravam como nunca, dos tons avermelhados que vinham da lareira ao cristal azulado da paisagem da janela, tudo parecia vivo, respirando.

Agora que abriu os olhos, os sons da conversa entre Christie e Mikhail pareciam não ter qualquer significado e Ana observava as pequenas variações de movimento dos dois enquanto falavam.

Sem compreender como isso acontecia, Ana percebia a história de cada objeto daquele ambiente descortinando-se aos seus olhos, um fluxo de informações corria rápido em sua direção e sentia que sua mente, mais lenta graças ao vinho, tinha uma grande dificuldade de acompanhar tudo aquilo.

Finalmente, sobrecarregada por tantas sensações, Ana colocou as mãos sobre os olhos, decidida a encerrar o exercício.

Mikhail, sem tirar o riso dos lábios, a observava:

- E então?
- O que você fez comigo?
- Nada, você está apenas exercitando uma velha capacidade que andava adormecida e que detalharei mais tarde. Vamos à sobremesa?

Continua

15 de abr de 2009

A CHAVE (capítulo XI)


Depois do banho, Ana desceu as escadas e encontrou-se com Christie na cozinha, onde ela cortava legumes para um ensopado.

Um prato simples e rústico que parecia combinar perfeitamente com aquela ambientação campestre e sem luxos da casa.

Enquanto comentavam a loucura do que havia acontecido no povoado à tarde, onde a explosão de um gerador, causada por uma simples sobrecarga de energia havia causado pânico na multidão e muitos feridos pela correria desordenada que se seguiu à ela; Ana não podia deixar de pensar no que teria acontecido com ela se Mikhail não tivesse aparecido no momento certo.

Mesmo sabendo que Mikhail era a pessoa que ela deveria encontrar, para Ana, tudo parecia ainda muito cercado de mistérios e sua curiosidade levou-a a encher Christie de perguntas, um verdadeiro interrogatório que simpáticamente foi respondido questão a questão:

- Esta é a Vinerie Saint Jaques, uma tradicional produtora de vinhos que foi comprada pelos avós de Mikhail, logo após a Segunda Guerra e que se tornara o "negócio da família", depois que eles deixaram o Leste Europeu fugindo do nazismo.

Mikhail é filho único, fez faculdade em Paris, mas antes de terminar o curso aconteceu algo muito estranho, de um momento para o outro ele resolveu pegar uma mochila e viajar pelo mundo. Seus pais ficaram muito contrariados, ameaçaram até deserdá-lo, mas ele parecia muito decidido.

Durante esta viagem, ele foi até a Eslovênia, onde conheceu Josef e depois de algum tempo, voltou para a Vinerie completamente mudado.

Passou a focar-se completamente nos negócios da Vinerie e aprendeu tudo o que podia com seu pai, por conicidência, assim que ele começou a tomar a frente nos negócios, seus pais morreram em um trágico acidente de avião. O que mais você que saber? - perguntou sorrindo Christie, para Ana que sentiu-se ainda mais sem graça por fazer tantas perguntas.

Ana não sabia bem o que dizer, mas o barulho de Mikhail entrando em casa salvou-a do constrangimento.

- Boa noite, senhoras! Como está o jantar?

- Ainda demora algum tempo para chegar à mesa - respondeu Christie enquanto cortava algumas ervas para tempero.

- Bem, então ainda há tempo para um banho, com licença, volto rápido. Podem voltar a discutir meus dados biográficos, enquanto isso...

O comentário de Mikhail provocou risos em Christie e um leve rubor em Ana, que não conseguiu reagir a ele e passou a procurar algum objeto da cozinha para manter o foco de sua atenção, agora que estava completamente envergonhada de sua curiosidade.

Seu olhos pousaram imediatamente sobre um belo vaso com as mais linda orquídeas que ela já havia visto em sua vida, e finalmente depois de longos cinco minutos em silêncio, ela tinha encontrado outro assunto para discutir: flores e seu cultivo.

Continua

16 de mar de 2009

A CHAVE (capítulo X)


Ana esboçou uma tentativa de sorriso, mas agora que o carro tinha começado a andar de verdade, percorrendo uma estrada estreita que ía na direção das montanhas, uma voz dentro de sua cabeça quase a deixava em pânico.

"E se não fosse esse o mestre?" - a mente de Ana viajava mais rápido do que o jipe e o medo de estar caindo em algum tipo de armadilha não a deixava nem ver a paisagem, nem encontrar perguntas apropriadas para testar a veracidade de Mikail.

Mas Mikail quebrou o silêncio - Não faça isso com você mesma. Se você está em dúvida sobre mim, por que não me faz perguntas?
Sentindo-se flagrada pelo mestre, Ana esboçou outro sorriso sem graça - Não... imagina... é que, bom foi tudo tão estranho, tão rápido.

- Mas você acreditou em mim, quando me apresentei a você, não foi? Por que você acreditou naquele momento e agora está duvidando?

- Não sei, quando você veio conversar comigo tive impressão de que já te conhecia, mas agora uma vozinha lá no fundo da minha cabeça me diz que fui precipitada, fica me dizendo que fui maluca de acreditar em um completo estranho, naquela situação em que a gente se encontrou.

Sem tirar os olhos da estrada, Mikail sorriu: - A sua primeira impressão é a voz da sua intuição. Quando você a escuta, tem a vantagem de estar ouvindo também a opinião de uma parte do seu eu que é mais esperta e muito mais perceptiva do que essa sua segunda voz, aquela que precisa de provas e explicações razoáveis para tudo.

- Mas, e se você fosse algum maluco, um sequestrador, ladrão, golpista?

- A sua intuição teria te dito. Acho melhor você aprender a ouví-la e quando ela te disser algo, preste muita atenção e tome cuidado para não trocá-la pelos seus medos.

Ana respirou fundo e resolveu dar uma chance para Mikail, mas decidiu que estaria sempre alerta.

Enquanto isso a paisagem que eles percorriam ia mudando, Mikail entrou em uma estrada estreita de terra, ladeada por belas árvores que faziam sombra, a temperatura ficou um pouco mais amena, a tarde já estava quase terminando, mas o sol havia deixado uma leve sensação de ardor em seu rosto, os cabelos presos em um rabo de cavalo, se agitavam ao bater do vento.

A estrada parecia se estender até o sopé de montanhas majestosas que tomavam boa parte do horizonte daquela paisagem. Uma visão de tirar o fôlego naquele final de tarde, mas o melhor ainda estava por vir, na próxima curva, ficou visível uma casa centenária, toda de pedra, rústica e coberta de plantas, que floriam aqui e ali, manchando o verde escuro da folhagem, com gotas de cores berrantes.

As portas de madeira escura, cuidadosamente entalhadas, se abriram para um ambiente aconchegante, paredes brancas, estantes de madeira escura cheias de livros e poltronas confortáveis pareciam transformar aquela sala no melhor lugar do mundo para alguém apaixonada por livros, como ela.
Naquele ambiente, era quase uma decepção constatar que a lareira estava apagada, mesmo no calor daquela tarde de verão.

Mesmo impressionada com a beleza daquele lugar, a mente de Ana ainda não estava tranquila, seu cérebro criava explicações cada vez mais complicadas para aquele seu encontro com Mikail; em todas elas, chegar ali, naquele lugar completamente isolado, era exatamente a pior de todas as situações, mesmo que aquela casa não se parecesse em nada com aquilo que esperava.

Ciente das desconfianças de Ana, Mikail havia decidido por ficar quieto, imaginou que quanto mais falasse, mais a assustaria e até mesmo achava a situação engraçada, a "paranóia" das pessoas andava atingindo níveis realmente assustadores ultimamente.

- Você vai ficar no quarto de hóspedes, enquanto você se instala, darei uma saída rápida e retorno para o jantar, fique a vontade.... Ah! Esta aqui é a Christie, minha secretária, se precisar de alguma coisa, peça a ela, ok? - disse Mikail, apontando para uma garota loura, muito magra, que havia entrado no quarto sem fazer qualquer ruido.

- Olá!

- Christie é alemã, mas já viveu em Portugal e por isso fala perfeitamente sua língua, você não terá problemas para comunicar-se com ela... Bom, preciso ir agora...

Ana começou a instalar-se e esta foi a senha para que Christie se retirasse de seu quarto; assim que ela saiu, Ana trancou a porta por dentro e lembrou-se de procurar por um telefone disponível para seu uso. Não precisou procurar muito, no criado mudo, um aparelho com aparência de antigo, mas que deu sinal ao ser tirado do gancho indicava que ela podia relaxar um pouco.

Mas antes disso, ela resolveu dar mais uma olhada no caderno de Josef, repassou todo o capítulo que falava sobre seu encontro com o mestre e pela primeira vez ousou virar para a página seguinte: "Não se preocupe, você está no lugar certo. Você terá uma prova do que digo amanhã. PS: Só continue até a próxima página quando compreender que deve confiar em sua intuição."

Continua

22 de fev de 2009

A CHAVE (capítulo IX)



A manhã não poderia estar mais bela, Ana olha ao redor e tudo parece perfeito, até o ventinho frio que vem do lago e bate em seu rosto suavemente; como para lembrá-la de abrir ainda mais os olhos para aquela paisagem deslumbrante.

As águas calmas servem de espelho para um céu sem nuvens e um horizonte emoldurado por gigantes montanhas azuis se estende ao longe e se duplica em detalhes dentro do lago.

Ela se afasta um pouco das águas e caminha até a sombra de uma árvore, eram assim quase todos os dias daquele longo verão; estava pronta para aprender mais, mas desta vez, não era Josef quem a aguardava.

O rosto era familiar, mas ela não conseguia lembrar-se de onde o conhecia; as roupas não poderiam ser mais comuns: calças jeans, camiseta branca, botas, nada que entregasse de verdade a origem daquele homem.

Ela caminhava em sua direção tentando lembrar-se onde vira aquele sorriso antes?

- Ana, acorda agora!

Ela abriu os olhos e precebeu que sentia uma dor muito forte na cabeça, estava deitada em uma calçada, tudo estava revirado à sua volta, o som de sirenes tomava conta de tudo.

Perto dela, um rosto muito familiar a olhava com preocupação: - Você está bem? Perguntava em português com um certo sotaque indefinível.

A dor de cabeça era muito forte, ainda sem entender direito o que tinha acontecido, ela se esforça para se levantar, olha ao redor, tentando localizar sua mochila e percebe que ela está nas mãos daquele homem estranho que agora conversa com ela.

- Não se preocupe, suas coisas estão aqui. Nada disso estava previsto, mas sou eu aquele que você deveria encontrar. Josef era meu amigo.

Ao ouvir esta frase, Ana estremeceu e por um instante pareceu que aquela cena, aquele momento, já havia acontecido antes. Fazia tempo que não tinha aquela sensação, mas os dejavús sempre estiveram presentes em sua vida.

O homem estendeu a mão, ajudou-a a levantar-se e a puxou por uma estreita rua lateral que descia na direção de um vale. A confusão ainda era grande, mas ela só queria agora afastar-se dela.

Parecendo advinhar seu pensamento, o homem levou-a até um jipe, estacionado em outra viela, mais adiante, pousou sua mochila no banco detrás e abriu a porta da frente para que ela subisse no carro.

- Desculpa, já sei que você é a pessoa que eu estava procurando, mas você ainda não me disse seu nome - disse Ana, com um sorriso que mal disfarçava sua sensação de insegurança.

- Pode me chamar de Mikail. - O homem respondeu, estendendo a mão e abrindo um belo sorriso - Coloca o cinto...

O carro se movia ainda lentamente pelas ruas estreitas cheias de gente.

- Você sabe o que aconteceu?

- Não, mas acho que não devemos ficar pensando nisso agora....

Continua