26 de dez de 2008

A CHAVE (capítulo VIII)


A ansiedade de Ana era tão grande que a longa viagem de trem de Paris a Saint Jean Pied de Port quase não foi sentida.
As paisagens pareciam passar depressa demais pela janela, campos verdes, grandes montanhas azuis, animais em imensos pastos, aos seus olhos não eram mais do que manchas de tinta em uma imensa tela.

Abraçada ao caderno, ela só estava concentrada naquilo que estava por vir. Tão concentrada por sinal, que mal notou o movimento enorme e barulhento de turistas na pequena estação de trem onde desembarcou.

Andando por ruas que mais pareciam um cenário de algum filme sobre a Idade Média, ela só percebeu que as coisas seriam ainda mais complicadas do que ela esperava quando começou a ouvir música tocando ao longe.

Na tal praça principal, cenário em que esperava ver apenas alguns poucos turistas e mochileiros iniciando a peregrinação para Santiago de Compostela, uma multidão multicolorida dançava ao som hipnótico de DJs.

O volume parecia fazer tremer as pedras das antigas construções ao redor e por um momento, Ana sentiu-se tão desamparada que chegou a considerar retornar para a estação de trens e fugir dali naquele mesmo momento.

O pior é que ela nunca gostou de multidões, sentia-se mal quando tinha que enfrentá-las já que vivia em uma grande cidade e elas acabavam aparecendo sempre em seu caminho, apenas procurava evitar estas ocasiões.

Sentia que deveria atravessar a grande praça para chegar a um café com mesas na calçada, que ficava do outro lado, onde as coisas pareciam um pouco mais tranquilas.

Foi pelo fundo, atrás da multidão e bem lentamente. Ao chegar, sentou-se em uma mesa e pediu um refrigerante, enquanto esperava, tentava observar atentamente cada uma das pessoas, procurando algo de familiar nelas, já que Josef havia escrito que ela reconheceria seu mestre de imediato.

Enquanto ela buscava um olhar na multidão, uma explosão próxima ao palco, fez com que a multidão começasse a correr em todas as direções. Ela nem sabe muito bem o que aconteceu, mas o fato é que no espaço de alguns segundos, tudo escureceu.

Continua

4 de dez de 2008

A CHAVE (capítulo VII)


Nos dias que se seguiram, Ana sentia-se estranhamente tranqüila, no meio de um verdadeiro furacão.

Tudo mudava ao seu redor e inúmeros preparativos eram providenciados para que a próxima fase dos planos de Josef pudesse acontecer, a idéia era a de começar a estudar a tal ciência, que ela deveria desenvolver e passar adiante, como o legado de sua vida.

Mas ela teria apenas dez dias de prazo para deixar tudo em ordem em sua casa e partir para a Europa, onde vivia aquele que teria a missão de ensiná-la. O complicado seria chegar lá, já que nem mesmo um passaporte ela tinha e para piorar, a Polícia Federal já estava há mais de um mês em greve, e o documento só era fornecido em casos de urgência.

Embora para Ana existisse certamente uma urgência, dificilmente ela conseguiria provar isso para policiais grevistas mal humorados, que mantinham o serviço de emissão de passaportes funcionando precariamente.

Mas Ana sabia que isso não seria necessário, aos poucos ela percebia que a rede de pessoas que pertencia à "corrente subterrânea" estava em todos os lugares e em apenas dois dias, o seu documento estava emitido e pronto para a viagem.

Para Ana tudo ainda era muito estranho, mas todos os obstáculos de seu caminho desapareciam como se o universo inteiro estivesse em um esforço concentrado para que ela pudesse cumprir com seu compromisso.

Tudo foi muito rápido e na data combinada, Ana estava na poltrona de um avião, fazendo a primeira viagem internacional de sua vida, indo rumo a Paris, de onde seguiria por trem para um pequeno vilarejo na fronteira da França com a Espanha chamado Saint Jean Pied de Port.

Lá, uma pequena cidade, a primeira da rota do famoso "Caminho de Santiago", ela deveria encontrar o homem a quem Josef chamava apenas de "Mestre".

Estranhamente, naquele mundo de certezas que sua vida havia se tornado, o tal Mestre era a única coisa que deixava Ana insegura.

Não sabia seu nome ou seu endereço, sequer sabia se ele falava sua língua; no caderno apenas uma anotação que não dava muitas pistas:

"Dia 18/07 às 16 hrs, você deve ir ao encontro do Mestre, ele a espera em Saint Jean Pied de Port, na praça principal da cidade.

Lembre-se de que deve obedecê-lo cegamente, somente assim poderá aproveitar tudo o que ele tem para ensiná-la.
PS: Não se preocupe, você conseguirá reconhecê-lo assim que o vir."

Como? Não sabia, mas se o tal vilarejo era mesmo pequeno, talvez fosse quase deserto, se resumisse a apenas uma casinha e uma Igreja, como já ouvira falar de alguns lugares que faziam parte do famoso "Caminho de Santiago", uma rota medieval de peregrinação, que um escritor brasileiro havia popularizado.

Após o jantar a bordo, Ana adormeceu com o caderno de Josef nas mãos e teve um sono bastante agitado, imagens iam e vinham em sua mente, até que começou a sonhar com um enorme cão labrador amarelo, que se aproximava dela e roubava o caderno de suas mãos. Acordou assustada, ainda no meio da madurgada, quando percebeu que o caderno que segurava havia caído no chão.

Depois de acordar, teve dificuldade em pegar no sono novamente e apenas fechou os olhos até que o cheiro do café da manhã e o barulho dos comissários dessem a ela a chance de movimentar-se pelo avião novamente, sem achar que estaria incomodando o sono dos outros passageiros.

Assim que terminou o café da manhã, o comandante já anunciava que o pouso no aeroporto Charles de Gaulle aconteceria dentro de alguns instantes e agora era hora de concentrar-se para conseguir pegar o trem a tempo de encontrar o Mestre, quem quer que fosse ele, na hora marcada.

Continua