15 de ago de 2008

A CHAVE (capítulo VI)


O jantar transcorreu em clima tenso, com Dona Alma contando histórias que pareciam absolutamente sem importância para Ana, que não conseguia se concentrar na conversa.
E o vinho contribuiu para a sensação de que o mundo girava em alta velocidade, produzindo um zumbido desagradável em seus ouvidos.

Já na sobremesa e em uma última tentativa de buscar explicações para tudo o que estava acontecendo, Ana achou que era o momento de seguir o plano de Josef:

- Dona Alma, sobre o livro do Sr Josef...

- Sim, você acha que deve ser publicado, filha?

- Não... na verdade, ele pediu que não fosse.

- Como? Não entendi...

- Bom, tem um bilhete no caderno, escrito por ele, pedindo que esse livro não seja publicado e eu não gostaria de contrariar sua vontade.

- Está bem, filha. Antes de morrer, ele me disse que não abrisse este caderno por nada neste mundo, que apenas o entregasse a você e que aceitasse a sua decisão.

- Pois bem, Dona Alma, ele me deixou uma tarefa a ser cumprida e eu decidi cumprí-la. Eu nunca disse nada, mas não acredito nestas coisas; para mim, aquilo que a ciência não explica, simplesmente não existe.

- Não se preocupe, filha, eu sei exatamente do que você está falando... O Josef me disse tudo isso, em sonho, no dia em que te entreguei o caderno. Ele me falou que para você aceitar seu destino, seria necessária uma prova...

O coração de Ana pulou novamente. Como Dona Alma podia saber de todas estas coisas? Ela nunca havia dito nada disso para ninguém, eram preocupações que ela mantinha em segredo, precisava da imparcialidade em sua vida profissional.

- Ele me disse, que hoje, eu teria esta prova. Me pediu para preparar este jantar, fazer uma aposta na loteria e ligar a TV, exatamente às 22hrs, em um canal que eu nem conheço direito. Faltam cinco minutos, acho melhor ligar o tal canal.

- Filha, independente do que acontecerá agora, quero que você entenda uma coisa, se ele te escolheu para continuar este trabalho, é porque você é a pessoa certa. Não duvide de você...

As mãos de Ana tremiam na direção do controle remoto, o número do canal anotado em um papelzinho em seu bolso, junto com o bilhete da aposta.

Era um novo canal de notícias, mas naquele momento o programa exibido era sobre turismo: falava sobre Bled, a cidade natal dos Witzinger. Será que esta era a prova?

Mas o letreiro com as notícias do dia continuava passando no rodapé da página e logo ele indicava: "Apenas um ganhador na Mega-sena acumulada, o prêmio, de 20 milhões de reais vai para quem apostou nos números: 02 15 17 42 47 51."

Sem entender direito e com o coração na boca, Ana anotou os números em um papel rapidamente e com as mãos trêmulas, percebeu que estavam todos em sua aposta.

Continua

13 de ago de 2008

A CHAVE (capítulo V)


"Desculpe ter que usar este truque, mas sei que você, neste momento, quer e precisa de provas. Siga minhas instruções e você as terá."

Sem saber exatamente se deveria, seguiu cada uma das instruções escritas naquela página e quando finalmente voltou para casa, não podia deixar de sentir-se um pouco tola por isso.

Seguir instruções escritas em um caderno, por um velhinho que nunca disse "coisa com coisa" - Ah! Eu devo mesmo estar ficando maluca! - repetiu para si mesma, enquanto olhava ansiosamente para o relógio, pendurado na parede da cozinha.

A ansiedade havia levado completamente sua fome e embora ela tivesse comprado todos os ingredientes para fazer um bom jantar, seguindo as ordens de Josef, ela sabia que não conseguiria sequer pensar em comida naquele momento, quanto mais fazê-la.

Demorou mais alguns minutos, que mais pareceram horas, para que Ana finalmente decidisse que era hora de começar a preparar o jantar, nem que fosse para sair um pouco daquela confusão que rodava o tempo inteiro dentro de sua cabeça.

Começou cuidadosamente aquele ritual de preparar os ingredientes que mais tarde seriam apreciados por ela e sua convidada, Dona Alma, para quem havia ligado antes de sair de casa.

- Bom, se nada acontecer, pelo menos terei mais uma história maluca para contar - continuava numa tentativa de convencer a si mesma de que tomara a melhor decisão.

O jantar já estava quase pronto e Ana foi tomar um banho e preparar-se para receber Dona Alma, que pontual, como sempre, apareceu em sua porta carregando flores e uma garrafa de vinho.

- Oi, filha... Trouxe para você.

- Obrigada, Dona Alma. São lindas! Vou colocá-las em um vaso.

- Então, hoje é o dia, não é?

Enquanto caminhava até o armário para procurar um vaso, o coração de Ana saltou novamente diante da pergunta de Dona Alma. O que será que ela sabe?

- Não entendi, Dona Alma, o que a senhora disse?

- Falei com Josef nesta noite, em um sonho, e ele me disse que hoje é o dia.

- Não sei, Dona Alma. Mas tenho algumas coisas para contar para a senhora. Só preciso que, por enquanto, a senhora esqueça sobre este assunto. - Disse Ana, quase em pânico, com a certeza de que o que estava vivendo jamais poderia ser explicado.

Continua