7 de jul de 2008

A CHAVE (capítulo IV)


Depois de alguns dias, Ana agora já havia se acostumado novamente à presença constante de Dona Alma e seus convites para um chá e muita conversa, encontros que devolveram a ela uma sensação de “vida em família” que já não sentia há muito tempo.
Em uma destas ocasiões, Dona Alma entregou a Ana um caderno com mais escritos de seu marido, supostamente um livro inédito em que ele estava trabalhando na época de sua morte.

Junto com o livro, um pedido para que Ana desse sua opinião profissional sobre aquele material, afinal, Josef não teve tempo de decidir se deveria ou não revelá-lo ao mundo.

Por intuição, Ana preferiu esconder da editora a existência daquela obra inédita; tinha medo que a publicassem, independente de seu conteúdo, simplesmente por razões comerciais, já que as obras de Josef sempre vendiam muito bem.

Não era de seu feitio adiar as solicitações que recebia, especialmente as de Dona Alma, mas o fato é que ela não tinha vontade de iniciar aquela leitura naquele momento; guardou o caderno em seu guarda-roupas e passou a inventar compromissos inadiáveis, sempre que sua vizinha mencionava o livro.

O pior é que não havia uma razão concreta para este comportamento, apenas sentia que ainda não era o momento de abrir aquele caderno e que a hora certa estava se aproximando.

Uma nova semana de trabalho correu e ela nem teve muito tempo para pensar, mas notou que Dona Alma não havia entrado em contato nenhuma vez, talvez ela tivesse percebido que estava se esquivando da tarefa, sentiu vontade de devolvê-lo. Foi até o armário em que o guardava, pegou-o e naquele instante, seu coração deu um salto.

E ainda sem saber porque, sentiu que aquele era um sinal, estava na hora, aquele era o momento de finalmente abrir o caderno.

A Chave

"Ana, só você deve ler este livro, você foi escolhida para ser o novo elo da Corrente e deve, a partir de agora, comprometer-se com este conhecimento milenar, desenvolvê-lo a seu modo, e mais tarde, quando o momento chegar, buscar o próximo elo, que permitirá que a corrente siga adiante, após a sua morte.

Este é o livro necessário para a compreensão de todos os meus livros anteriores, sim, você estava certa quando os criticava, dizendo que parecia que faltava algo neles; aqui você tomará conhecimento das coisas que faltam e assim, terá condições de dar continuidade a Grande Obra.

E para que isto seja possível, é necessário antes que você saiba que junto com este legado de conhecimento, também existe um legado de poder.

Use-o quando for necessário, mas antes de usá-lo, compreenda-o, o que te entrego agora é o resultado de um estudo que já dura milhares de anos, uma tradição que custou a vida e o destino de muitos sábios e que se mal usado pode trazer verdadeiras catástrofes para a humanidade.

Você tem o discernimento, compreende como ninguém as necessidades humanas e por isso foi escolhida. Agora é sua vez de dar continuidade a este trabalho, o tempo irá te mostrar seu sucessor.

Escolha certo e o mundo continuará a salvo, escolha errado e, bem, você já sabe, já viu os resultados das escolhas erradas em seus estudos no mundo astral. Faça o seu caminho e trabalhe sempre no seu melhor, seu espírito sabe o que é seu melhor, use-o sempre que uma escolha se fizer necessária e estará tudo bem.

Sei que está agora olhando para este caderno estarrecida, sem compreender nada, mas posso te provar o que estou te dizendo com um truquezinho barato, mas que te dará duas coisas importantes: os meios para fazer o que é necessário e a prova de que digo a verdade.

Sei que está imaginando que este texto que agora está lendo é apenas um delírio de meus últimos momentos na Terra, mas tenho certeza de que sua intuição lhe diz que há muito mais do que seus olhos agora enxergam.

Respire fundo, feche os olhos e quando estiver pronta, vire esta página. Após fazer isso, siga passo a passo minhas instruções e verá com seus próprios olhos."

Com as mãos suando e sem saber exatamente o que fazer, ou pensar, Ana virou a página e quando o fez, sentiu seu coração disparar.

Continua

1 de jul de 2008

A CHAVE (capítulo III)


O cartãozinho, cor de rosa, com pequenas rosas douradas nos cantos, era inconfundível, uma lembrança imediata de seu início de carreira na editora e de Dona Alma, uma velhinha muito simpática, esposa de um de seus autores favoritos:

“Cara Ana,
Passei para vê-la hoje à tarde, mas você não estava em casa. Estou me mudando para o apartamento 514 e gostaria muito de recebê-la para um chá.
Abraços,
Alma Witzinger”

Ana, ainda carregando as sacolas, tocou a campainha no 514, o outro apartamento de seu andar, mas ninguém atendeu.

Resolveu então entrar em casa, ainda tentando ouvir algum barulho que denunciasse a presença de mais alguém naquele andar, mas não havia qualquer movimento e ela acabou adiando um novo contato para o dia seguinte.

Na manhã de domingo, novos ruídos a acordariam, vestiu-se rápido e no vai-e-vem de carregadores que faziam a mudança, finalmente, avistou Dona Alma.

Bem mais frágil do que se lembrava, a velhinha veio a seu encontro: - Querida! Que bom que você está aqui! Agora somos vizinhas!

- Dona Alma! Que surpresa! Como vai o senhor Josef?

- Ah! Querida... meu Josef faleceu no ano passado...

- Sinto muito, Dona Alma, não sabia...

- Avisei a editora, mas parece que você estava de férias na época, pelo menos, foi o que me disseram.

- Tiro férias sempre em junho, gosto de viajar e cheguei à conclusão de que este é o mês ideal para isso.

- Pois é, filha... o meu Josef se foi em junho do ano passado, morreu dormindo, o pobrezinho... passei aqui pelo seu prédio, mas me disseram que você não estava.

- Fui para o sul, Dona Alma, passei 20 dias na Serra Gaúcha, passeando e depois, quando voltei, fiquei em casa reformando minha cozinha que estava com problemas de encanamento. Que pena, ninguém me avisou...

- Mas ele está bem, filha, você se lembra do que ele sempre dizia? Ninguém morre...
Claro, Dona Alma...

Ana continuou ajudando Dona Alma com a mudança e a convidou para almoçar em seu apartamento; não tinha feito supermercado naquela semana, mas era muito criativa e sabia bem se virar, mesmo com poucos ingredientes.

Depois da sobremesa e do café, as duas sentaram-se na sala de visitas para continuar a conversa. Dona Alma gostava muito de falar, era a coisa que mais fazia, Ana lembrava-se de que aceitara alguns convites para tomar chá em sua casa, sempre ouvindo muito mais do que falando.

Dona Alma contava-lhe longas histórias sobre sua juventude na Europa Oriental, numa pequena vila chamada Bled. Foi lá que conhecera Josef, ela ainda era adolescente e ele, um jovem farmacêutico recém-formado e com fama de bruxo.

Seus pais nunca aprovaram o namoro e para conseguir se casar, os dois fugiram da vila, o que causou um razoável escândalo. Depois viria a guerra e o casal, com medo do que estava começando a acontecer na Europa, resolveu pegar um navio e veio para o Brasil.

Aqui, o rapaz conseguiu um bom emprego em um laboratório e pode ter um pouco mais de tranqüilidade. Tentaram ter filhos, mas nunca conseguiram e o tempo foi passando, até que Josef, já aposentado, resolveu começar a escrever livros.

Suas obras eram bastante complicadas, segundo ele, Manuais de Alquimia, que lidos com atenção, serviriam de base para que qualquer pessoa interessada conseguisse ingressar naquela arte.

Para Ana, não faziam qualquer sentido, menos ainda quando eram entregues em suas mãos, ainda no manuscrito original, para serem devidamente digitados e revisados.

Embora complicados, os tais manuais vendiam muito bem e estavam sempre na lista de best-sellers da editora, o que fazia com que todo o staff, Ana incluída, tivesse que seguir recomendações intermináveis dos editores para agradá-los.

Mas isso, para Ana que perdera seus avós muito cedo, nem era necessário, já que simpatizara com o casal, em seu primeiro contato, na editora.

Era sua primeira semana de trabalho e aqueles dois velhinhos, chegaram, apresentaram-se e deixaram em suas mãos um grosso caderno universitário, todo escrito em uma letra miúda, de difícil leitura.

Continua