12 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo final)


Quando desligou o telefone teve uma sensação estranha e, seguindo os conselhos de Ivan, decidiu concentrar-se apenas em organizar o material que levaria para as entrevistas do dia seguinte.

Depois de fazer uma checagem cuidadosa de cada item, programou o telefone para tocar às 6 da manhã, ligou a TV, programou o timer e decidiu relaxar.

Aquele final tinha sido muito chocante para ela, ter a consciência de que tinha sido capaz de tirar a própria vida deixou-a triste e decepcionada consigo mesma.

Sabia que estava longe de ser perfeita, mas suicida? Pelo menos sentia que desta vez nada conseguiria deixá-la chegar àquele ponto.

No dia seguinte, ela comeu um sanduiche com as sobras do seu jantar e esperou pelo micro-ônibus da produção na porta do hotel.

Mais um dia lindo estava amanhecendo e embora não deixasse transparecer, Clara sentia-se como uma criança pois estava indo ver de perto aquele mundo mágico do bruxinho inglês. Fez o que podia para parecer fria e crítica, mas por dentro estava em festa.

Voltou para o hotel só no final da tarde, ainda mais apaixonada por aquela profissão que havia escolhido como saída para sua vontade de escrever.

Algumas entrevistas que ainda estavam pendentes foram confirmadas para sexta-feira e o seu retorno para o Brasil já estava marcado para o sábado à noite, restava para ela decidir agora se tentaria encontrar a loja de antiguidades na Portobello Road ou se desistiria de vez de descobrir mais sobre aqueles personagens que estavam cada vez mais próximos dela e de Ivan.

O sábado chegou rápido, Clara foi até a feira de antiguidades e foi refazendo o roteiro da sua primeira passagem com Ivan. Desta vez, não teve dificuldade para encontrar a loja, que por sinal exibia em sua vitrine o candelabro dourado com o leão.

Lá dentro, um rapaz de cabelos ruivos e longos, amarrados em um rabo de cavalo veio prontamente atendê-la.

Horas depois, Clara estava aguardando o momento de seu embarque em Heathrow, escrevendo rapidamente em seu notebook. Agora sim, sua história estava completa.

Quando Clara chegou no domingo de manhã, Ivan a estava esperando no aeroporto. Tentando disfarçar sua preocupação, ele carregava um lindo arranjo de flores.

- Que saudades! Você está bem?

- Melhor do que nunca - respondeu Clara - com um sorriso que o deixou intrigado.

No caminho até o carro, ela comentava detalhes de suas entrevistas e de como tinha sido divertida aquela semana, Ivan por sua vez, contou que tinha finalmente achado o lugar ideal para seu consultório, só faltava ela dar uma olhada para fechar negócio.

Ela não disse nada, mas gostou daquela atenção, o momento era muito especial para ela. Só faltava saber como ele iria encarar as últimas descobertas dela.

Depois de um banho e de reorganizar sua bagagem, ela estava pronta para conversar. Nas mãos uma caixa de presente, para Ivan, rapidamente aberta.

- Não entendi? Você voltou naquela loja?

- Voltei... conversei com o vendedor, queria mais informações sobre os candelabros, não te disse nada, mas vi os dois nos meus sonhos, eles ficavam no palácio...

- No quarto, em cima da lareira...

- Você também viu?

- Claro! Bom, vou te explicar o que está acontecendo...

- Espera, deixa eu te contar o que descobri no antiquario. O rapaz que vendeu os candelabros para nós disse que pertenciam a família dele há anos. Chamou até o avô dele para conversar comigo sobre eles. Bem, ele disse que ficavam na casa da avó dele, na Escócia e que a avó dele sempre dizia como a mãe dela tinha ganho aqueles candelabros da Rainha Vitória, pouco depois da morte do príncipe Albert.

- Mas não me consta que ela tenha se suicidado e tenho certeza que ela teve vários filhos...

- Sim, depois eu procurei pela história dela na internet e vi que essa parte do sonho não se encaixava, foi aí que me ocorreu uma coisa.

- O que?

- Que o inconsciente é poderoso, mas que ele podia estar mostrando para mim uma idéia, uma vontade dela naquele momento de dor, algo que nunca aconteceu. E também tem a questão do tempo, não sei quanto a você, mas não senti como se anos tivessem se passado, nem vi nada sobre filhos e olha que ela teve nove!

- Isso é verdade, pareceu que tudo aconteceu muito rápido, talvez meses após a cena na casa perto do lago...

- Sandrigham... eu pesquisei...

- E você? O que tinha para me dizer?

- Depois que você me contou sobre o sonho do suicídio, fiquei preocupado e conversei com o Dr Marco Aurélio, lembra dele?

- Seu velho "guru"...

- Sim, ele me disse que não me preocupasse, estávamos resgatando aquilo tudo porque éramos muito teimosos e precisávamos de uma razão sobrenatural para admitirmos que queríamos ficar juntos e que isso provocou esse monte de sincronicidades, mas que se fosse tudo analisado como deve, se nós tivessemos a capacidade de fotografar tudo o que vimos, notaríamos que tudo não passa de uma criação de nossas mentes.

- Pode ser... mas quer saber? Não importa, a vida continua! Se nós estávamos mesmo lá, se éramos aqueles dois e vivemos tudo aquilo, tanto faz! O que interessa mesmo é o agora.
Não temos como provar o que aconteceu, como o maluco do Dr Marco disse, não podemos fotografar, nem filmar tudo o que vimos e mesmo que tivessemos, as pessoas ainda iam achar que era algum truque, iriam tentar empurrar suas crenças e dogmas e distorcer tudo o que mostrássemos.

- Então, o que você vai fazer?

- Nada... vou publicar o livro como ficção e pronto... a história vai estar lá, como se fosse um produto da minha imaginação.

- Mas vai chamar atenção...

- Espero mesmo que chame, quero que seja um sucesso, mas como ficção e se alguém me perguntar, como perguntavam sobre os personagens do rockstar, eu respondo que é ficção.

Clara passou os próximos meses aperfeiçoando sua ficção, quase não saia do escritório, não sabia como aquela história terminava, mas sabia que no quarto ao lado, alguém que tinha escolhido há muito tempo, continuava por perto, compartilhando novamente sua vida.

11 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XV)


Clara deu uma olhada no relógio e percebeu que eram só duas da tarde, pegou o mapa da cidade e procurou a estação de metrô mais próxima, tinha tido uma idéia, não sabia muito bem se daria certo, mas era um começo.

Comprou uma passagem, conferiu novamente onde precisaria trocar de linha e seguiu para Portobello Road, onde tentaria encontrar a loja onde Ivan comprou o candelabro.

Como nunca tinha pensado nisso antes? Só naquele instante ela tinha percebido que ele estava presente em vários daqueles sonhos, talvez fosse esse o elemento que faltava para compreender completamente aquilo que estava acontecendo.

Encontrar a loja de onde saiu o candelabro seria uma tarefa um pouco mais complicada do que ela imaginava, mesmo com as ruas livres, sem as barracas da feira, era difícil tentar localizar um entre diversos antiquários que funcionavam naquela área.

Para piorar a situação, alguns estavam fechados, porque só abriam nos finais de semana. Clara acabou desistindo, tinha agora duas opções: ligava para checar se Ivan ainda tinha o cartão da loja com o endereço ou voltava no final de semana para ver se conseguia encontrar a loja sozinha.

Preferiu a segunda, já que não queria deixar Ivan preocupado, nem chamar a atenção dele para o fato dela ter se lembrado do candelabro.

Andou mais um pouco, entrou em duas ou três lojas de antigüidades e decidiu voltar para o hotel, tinha que ficar em contato com sua revista porque algumas das solicitações de entrevistas ainda estavam pendentes.

Passou no mercado, comprou algumas coisas para jantar e sentou-se na cama, com o notebook no colo. Resolveu pesquisar na internet e jogou algumas palavras aleatórias nos sites de busca como candelabro, 1840, unicórnio, Londres.

A única coisa que descobriu foi que o unicórnio estava, ao lado do leão, no brasão das armas inglês e que lá simbolizava a Escócia.

Buscou por mais informações, mas nada surgiu de concreto; olhou para o relógio, abriu a última página de seu livro, fechou os olhos e procurou relaxar, enquanto procurava em sua memória: - Ele está morto, o que acontece agora?

Ela não conseguiu ir ao funeral, seu médico aconselhou que descansasse, ou também acabaria pegando a febre. Voltou em seguida para Londres, foi a pior viagem de toda a sua vida, ao voltar para casa, mandou doar todas as suas roupas, encomendou novas, todas na cor preta.

Passaram-se semanas, meses e ela continuava ali, como anestesiada, nem conseguia perceber tudo o que acontecia à sua volta. Deixou de sair de casa, passava seus dias entre a biblioteca, onde sentava-se na poltrona à frente da lareira e o jardim, onde podia passar horas a fio próxima das roseiras.

A cada dia mais calada, os empregados temiam por sua sanidade, sem filhos, os parentes próximos tentavam uma aproximação de olho na herança e naquele ponto, não encontrariam qualquer resistência.

Foi assim, que um primo distante de seu marido arrumou argumentos legais para tomar o palácio de Londres. Sem forças para lutar, ela mudou-se para a casa do lago.

Até que em uma madrugada de janeiro, ela levantou-se no meio da noite, foi até a biblioteca, escreveu uma carta e antes que qualquer um pudesse impedir, atirou-se em suas águas geladas.

Com lágrimas nos olhos, Clara procurou pelo telefone e ligou imediatamente para sua casa, Ivan, que estava chegando naquele momento demorou a atender.

- Eu sei como termina!

- Sério? O passeio no parque então deu certo?

- Não, não escrevi nenhuma linha no parque, tive que voltar para o hotel e agora eu vi o final da história.

- E?

- Bom, ela ficou muito triste depois que ele morreu, só vestia luto e largou mão de tudo, até perdeu o palácio de Londres.

- Sério?

- Daí ela foi morar naquela outra casa, na beira do lago, até que numa noite, ela se atirou no lago e morreu.

- Nossa! Que trágico! Você viu tudo isso?

- Vi, foi horrível!

- Você está bem?

- Estou, não se preocupe, tenho muito trabalho por aqui, amanhã vou ao set de filmagem do Harry Potter, entrevistar a JK.

- Não gostei desse seu sonho de hoje. Você tem certeza que está bem?

- Por que?

- Por nada – disfarçou Ivan – não esquece de pedir para ela autografar os livros.

- Claro que não! Você sabe que a gente podia ficar rico vendendo esses livros autografados pela internet?

- É mesmo! Não tinha pensado nisso. Mas voltando ao seu sonho, me promete uma coisa?

- O que Ivan?

- Esquece seu livro por enquanto, não tenta escrever o que você viu, nem mexe com isso enquanto estiver aí. Ok?

- Ok... você vai me explicar o porquê?

- Assim que você voltar, eu te explico.

CONTINUA

10 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XIV)


Mas esse era seu maior problema, Ivan tinha se mudado para seu apartamento e os dois passaram os últimos dias de férias procurando por um consultório para alugar, já que pela primeira vez, depois de formado, ele tinha decidido começar a trabalhar como analista.

Clara estava feliz, mas ainda tinha um livro para terminar, como não conseguia, aceitou voltar para sua rotina de freelas e colaborações em revistas, jornais e sites. Não era o ideal, mas pelo menos, não deixava muito tempo livre para preocupar-se.

A música tinha voltado ao seu cotidiano e, repentinamente, surgiu um convite para que Clara fosse até Londres fazer algumas entrevistas para inaugurar a sessão de vídeos online do site de uma das revistas em que colaborava. Aceitou no mesmo momento, embarcaria dali a dois dias e ficaria uma semana por lá.

Ivan não gostou muito da idéia, queria o apoio dela naquele momento especial que estava vivendo, finalmente tinha compreendido que a vida era muito curta para ser vivida correndo atrás de dinheiro.

Ao mesmo tempo, sua curiosidade em desvendar os labirintos da mente humana estava mais aguçada do que nunca, todas as expectativas que tinha desde a adolescência e que o levaram a cursar a faculdade de psicologia ressurgiram em seu horizonte.

Clara tinha várias entrevistas marcadas para o próximos dias e não podia falhar. Ao mesmo tempo, voltava para a cidade onde tudo tinha começado.

Ela desceu do avião, pegou o metrô e foi correndo para o hotel onde seu primeiro entrevistado, o cantor Robert Plant recebia a imprensa.

A entrevista coletiva era sobre a decisão da banda Led Zeppelin se reunir para uma única apresentação, no final do ano. Além de participar da coletiva também estava acertada uma entrevista exclusiva, falando do evento, que ela gravaria em vídeo.

O encontro com o ídolo foi emocionante, mas Clara estava cansada, assim que a entrevista terminou, ela pegou sua bagagem e foi até o mesmo hotel em que tinha ficado com Ivan há poucos dias, fez o check-in, tomou um banho e deitou-se com o notebook nas mãos para conferir o material que tinha conseguido.

Respondeu alguns e-mails, estava muito cansada, mas ainda resolveu ligar para saber como tinha sido o dia de Ivan.

- Oi, tudo bem por aí?

- Tudo, e por aí? – respondeu Ivan rindo.

- Estou acabada! A minha entrevista ficou por último, na minha vez de gravar, o Plant já estava com uma bolsa embaixo dos olhos do tamanho da minha mão! Mesmo assim ele é lindo! Você ficaria chateado se eu pedisse ele em casamento?

- Ele é velho e não funciona mais!

- Pára! Ele é perfeito, meu sonho de consumo desde sempre!

- Escuta aqui, Clara, você ligou para mim só para dizer que quer dar para essa bicha velha? – respondeu Ivan entre gargalhadas que mal disfarçavam seus ciúmes.

- Há! Tá com ciúmes! Adorei! – riu Clara – Mas estou ligando só para te dizer que já cheguei ao hotel, o número do quarto em que eu estou é 517 e se você precisar entrar em contato comigo...

- Eu mando um e-mail que sai mais barato...

- Tá! Bom, agora vou dormir, estou muito cansada, avião sempre acaba comigo... Toda essa correria hoje e amanhã eu tenho o dia livre, só depois de amanhã é que vou entrevistar a JK Rowling.

- Ok! Pede umas dicas para ela para usar no seu livro.

- Que bonitinho! Está achando que é engraçado! – riu Clara – Mas falando sério, amanhã vou aproveitar para escrever um pouco, estava pensando nisso no caminho até aqui... Vou levar meu notebook no St James e ver o que acontece.

- Talvez dê certo, mas cuidado, não confio nem um pouco naqueles pelicanos. – brincou Ivan.

- Depois dessa, só desligando o telefone! Estou com saudades, queria que você estivesse aqui!

Colocando o fone no gancho, Clara também desligou o notebook e deitou-se para dormir. Ligou a TV na função timer, para tentar apressar um pouco o processo, truque infalível que ela tinha aprendido há muito tempo.

O sol já estava alto quando ela acordou, isso significava que tinha perdido o café da manhã do hotel e precisaria ir até alguma lanchonete para comer e de lá andou até o parque, estendeu um pano na grama e sentou-se. Como ela teve medo de carregar o notebook até lá, apenas tirou da bolsa a caneta e o bloco de anotações.

Ficou lá por horas e nada surgiu, nenhuma idéia, nenhuma lembrança; talvez ela estivesse precisando mesmo das tais dicas da Rowling ou pior, talvez ela estivesse precisando de uma nova história.

CONTINUA

8 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XIII)


A semana passou e como Clara tinha previsto, sem nenhum sinal de Ivan. Quando chegou ao Brasil, os sonhos realmente cessaram, parece que as portas da memória estavam fechadas mais uma vez.

O livro continuava a ser escrito, as anotações eram a base, mas em seu computador, a história ganhava cada vez mais cores. Enviou os primeiros capítulos ao seu editor e alguns dias depois, recebeu um telefonema marcando uma reunião, para o jantar do dia seguinte, em um restaurante próximo da casa de Clara.

Esse não era um bom sinal, só podia significar uma coisa, a editora não queria aquele livro e ela teria que encontrar outra história rapidamente, quem sabe alguma coisa mais contemporânea, falando de música.

Para não ficar maluca pensando, resolveu relaxar, descobriu que o músico que inspirou seu primeiro livro estaria fazendo um show em um barzinho próximo de sua casa e achou uma boa idéia ir dar uma olhada, já estava muito cansada.

Passou uma noite muito divertida, ao lado dos velhos amigos e quando finalmente voltou ao seu apartamento, o dia já estava amanhecendo.

Ela foi até a lareira, pegou o candelabro com o unicórnio, acendeu uma vela, desceu as escadas e seguiu para o jardim; seu palácio agora estava abandonado, vidros quebrados, cortinas rasgadas voavam embaladas pelo vento. O corredor era o mesmo, mas as paredes estavam escurecidas, entalhes e espelhos quebrados, folhas de árvores, brincavam na água suja empoçada no chão.

A porta para o jardim parecia ter sido arrombada e nuvens cinza chumbo eram o toque final naquela cena de devastação. O que antes era gracioso e cuidado, agora estava amarelado, queimado e tomado pelo mato. A fonte estava seca e esverdeada pelo limo, o banco onde sempre se sentava estava quebrado.

O interfone tocou, Ivan estava na porta, precisava conversar com ela imediatamente.

- Ok, deixa ele subir, Valdomiro.

- Oi Clara, a gente precisa conversar...

- Entra, eu fui pra balada ontem, acabei de acordar.

- Desculpa vir tão cedo! Andei conversando com o professor Souza e ele me deu umas dicas sobre o que aconteceu com a gente, disse que era bem incomum, mas que teoricamente poderia acontecer com qualquer um.

- Espera, Ivan, esse é aquele cara que você tinha ficado de agendar.

- É, estive no consultório dele e nós conversamos....

- E?

- Bom, ele achou a mesma coisa que eu, nossas memórias podem ser reais, coisas que aconteceram em uma vida anterior e que lembramos agora porque nós dois precisávamos de um empurrãozinho para deixar o medo de lado e ficarmos juntos...

- Não acho que seja isso - interrompeu Clara – deve ter alguma outra explicação, mas quer saber? Não me importa mais, quero esquecer de tudo isso, foi tudo uma enorme bobagem desde o princípio. Não importa mais, estamos aqui, vivendo no século XXI. Não somos mais aquelas pessoas. Elas estão mortas!

- Eu sei disso...

- Então, você não precisa se preocupar mais com elas, não tem nenhuma obrigação de ficar por aqui, se você não quiser...

- Mas... espera! E se eu quiser ficar?

- Como?

Ivan puxou Clara em sua direção e beijou-a. – Será que agora você entendeu que eu não quero ir para nenhum lugar?

Clara passou o dia inteiro com Ivan e resolveu levá-lo para o tal jantar com Roberto Antunes, se fosse para levar um chute da editora, ao menos ela teria o ombro de Ivan para chorar.

Quando os dois chegaram ao restaurante, o editor já estava lá.

- Boa noite, Antunes, demoramos?

- Não, eu é que estou adiantado.

- Você já conhece o Ivan, não é?

- Claro, meu futuro autor... você ainda está me devendo um livro sobre Jung.

- Deixa essa coisa de literatura para a Clara, eu estou pensando em abrir um consultório.

Sem conseguir conter mais a ansiedade, Clara interrompeu a conversa casual dos dois: - E aí? O que você achou do meu livro?

- Vou ser muito sincero, Clara, não é o que a editora esperava...

- Sabia! Viu o que eu disse, Ivan? Era tudo uma bobagem...

- Não, longe disso, o que eu quis dizer é que não esperávamos por uma história sobre reencarnação, mas o livro, até onde eu li é perfeito, vai vender até mais do que o primeiro. Vai já para casa e termina logo essa história!


CONTINUA

7 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XII)


Clara não disse nada, mas ficou chateada por Ivan ter sugerido a antecipação do retorno, para ela aquela idéia só poderia significar uma coisa, apesar de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, Ivan estava prestes a abandoná-la mais uma vez.

Ivan, por sua vez, estava mesmo impressionado com aquele fenômeno e buscava quase desesperadamente uma explicação racional. Não disse nada para Clara, foi até um cybercafe próximo ao hotel para enviar um e-mail a um professor de sua faculdade, pedindo ajuda para interpretar o ocorrido.

A resposta chegou no dia seguinte, na forma de um convite para os dois comparecerem juntos ao consultório do tal professor para que ele pudesse examinar melhor o caso.

O embarque para o Brasil foi bem complicado e os dois foram acomodados em lados opostos dentro da cabine.

Depois de tentar assistir o filme de bordo e ler alguma coisa dos livros que comprou em Londres, Clara resolveu tentar dormir um pouco, tarefa quase impossível nas diminutas poltronas da classe econômica.

Ivan também estava inquieto, mas Clara percebeu que ele já estava dormindo na metade do filme. Desembarcaram, passaram rapidamente pela alfândega e pela Free Shop e sem trocar muitas palavras chegaram ao saguão do aeroporto.

Clara teve a nítida impressão que aquela era a última vez que via Ivan, por isso, resolveu concentrar-se dali em diante em listar mentalmente todos os seus defeitos; enquanto que Ivan não entendia por que Clara estava tão distante. E o silêncio entre os dois durou quase toda a viagem de ônibus até o hotel na Avenida Paulista.

Se despediram, combinando que Ivan avisaria sobre o agendamento da consulta com o tal analista.

Clara foi andando até o seu apartamento, largou a mala no chão, tomou um banho e ligou o computador para dar uma olhada nas novidades.

Naquele momento, queria esquecer que Ivan existia, mas não podia, tinha um livro ainda para escrever sobre um casal que nem a morte separou, mas que naquele instante, o fantasma de lembranças distantes e suas implicações estavam separando.

Resolveu desfazer a mala, estava cansada da viagem, mas não suportava a idéia de ver seu apartamento todo bagunçado. A primeira coisa que veio parar em suas mãos foi o candelabro. Achou que ficaria bem sobre a mesa da sala de jantar.

Uma peça tão linda! Só aquele maluco mesmo para me dar um presente como esses... bom, fica de despedida, esse não volta nunca mais!

Ao mesmo tempo, ocorreu pela primeira vez para Clara a idéia de pesquisar sobre aquele fenômeno estranho na Internet.

Deixou momentaneamente a arrumação de casa e se jogou de cabeça nos sites de busca. Encontrou algumas coisas sobre TVP, Jung, muitas bobagens sobre almas gêmeas, mas nada parecido com aquilo que os dois tinham vivido.

- Vai ver a resposta é muito simples, vocês já estiveram juntos antes, não façam isso de novo! Acho que esse é o tal recado do inconsciente que o Ivan tanto fala – Clara dizia para si mesma tentando superar a revolta que estava sentindo naquele instante.

Tirou aquele dia para descansar e colocar a casa em ordem. Depois de dormir um pouco à tarde, decidiu passar no mercado e depois ligou para a mãe, para finalmente avisar que já estava em São Paulo.

À noite, foi jantar na casa dos pais, para levar os presentes que tinha comprado e contar sobre a viagem. Era óbvio que guardaria segredo sobre a história dos sonhos, não queria que sua família descobrisse que ela era uma maluca que, quando dormia, vivia a vida de outra pessoa no século XIX. E que ela tinha tido um caso com seu melhor amigo que tinha acabado muito mal, com ele correndo como o “diabo foge da cruz”, porque ela era maluca.

O jantar foi ótimo, reencontrar sua família foi o primeiro momento de alegria para Clara desde que tinha ficado com Ivan. Ela mostrou as fotos, distribuiu presentes e ficou de voltar no Domingo, para passar o dia todo.

Voltou para casa, sentou-se mais uma vez na frente do computador, mas desta vez ela estava com o primeiro de seus bloquinhos na mão.

Escreveu até de manhã, acrescentou detalhes, leu e releu o texto e cortou algumas bobagens. E por mais que aquilo tudo doesse, ainda era uma bela história de amor.

CONTINUA

6 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XI)


O café da manhã foi rápido e logo seguiram para a exposição de Tutankamon. Uma fila enorme os aguardava, mas os dois ainda pareciam muito longe dali, cada um tentando compreender a seu modo tudo o que estava acontecendo.

Cenas do passado se misturavam com cenas do presente e os olhos de Clara pareciam cheios d’água quase o tempo todo. Ivan não estava muito diferente, embora buscasse algum tipo de explicação racional para o que estavam vivendo, também tinha que lutar contra o turbilhão de imagens que rodavam cada vez mais velozes em sua cabeça.

- Você está muito quieto hoje. - Clara comentou na esperança de tentar entender o que estava acontecendo com ele.

- Você também. Será que eu posso te ajudar de alguma forma? - respondeu Ivan em tom preocupado, enquanto acariciava os cabelos longos de Clara.

Clara suspirou, olhou nos olhos de Ivan e sorriu: - Está tudo bem! Não se preocupe!

Não era exatamente a verdade, ela ainda queria uma explicação, racionalmente falando, as coisas não poderiam estar melhores. Tinha conseguido as duas coisas que mais desejava no mundo, uma história para seu segundo livro e Ivan em seus braços.

Além disso, eles tinham mais alguns dias em Londres para conversar sobre aquelas experiências estranhas e isso significava nenhum tipo de interferência externa, só os dois, sem parentes, amigos, compromissos, horários e aquela lista infinita de desculpas que damos quando não queremos nos envolver.
Mas a intensidade dos sonhos continuava crescendo e mexendo muito com ela, algo estava muito errado e ela não sabia dizer o que era.

Depois de andar o que pareceram quilômetros de corredores, os dois pararam em uma lanchonete para almoçar, uma chuva forte começava a cair e eles decidiram voltar ao hotel.

Chegaram encharcados, tomaram banho, vestiram roupas secas e resolveram descansar um pouco no hotel. Clara, mais uma vez, decidiu que precisava abrir o jogo.

- Você ainda não leu este capítulo do livro – estendendo seu bloco de notas para Ivan
Ele pegou o bloco, começou a ler e parou. Colocou o bloco sobre a mesa e foi na direção de Clara. Sem dizer nada, ele a puxou pela mão e os dois sentaram-se em sua cama.

- Acho que a gente precisa conversar, tinha resolvido não te dizer nada, mas acho que seria errado te deixar no escuro. Ainda mais depois de tudo o que aconteceu aqui neste quarto.

La vem bomba! Pensou Clara, tinha certeza que não ia durar, sabia do pavor que Ivan tinha de compromisso, ainda mais com uma pessoa que estava às portas da loucura, como ela.

- É sobre os seus sonhos, retrocognições ou sei lá como chamar isso que está acontecendo com você.

- O que tem eles?

- Estão acontecendo comigo também, eu também tenho passado todas as minhas noites no século XIX.

- O que?

- No início, achei que era da minha cabeça, que estava ficando influenciado pelo que você me dizia, me mostrava do seu livro. Mas a impressão começou a ficar mais forte e esta cena que você me mostrou agora...

- Qual cena? A morte dele?

- É... eu a vivi. Estava muito doente, com muita febre e de repente me vi em um labirinto escuro, não sabia o que tinha acontecido, mas fez sentido agora, depois que li a sua descrição da morte dele.

- Mas como pode? Se nós somos eles, por que estamos revivendo isso tudo? Estou ficando com medo, acho que vou jogar fora todos esses bloquinhos, posso escrever outra coisa para o livro.

- Não faça isso! Pirou? Não joga nada fora, não precisa ter medo, nós estamos vivendo uma experiência estranha, mas não vejo nenhuma razão para ter medo. Como eu te disse antes, o nosso inconsciente quer nos mostrar alguma coisa, precisamos descobrir o que ainda não estamos vendo.

- Mas eu estou ficando apavorada!

- Não fica – disse Ivan suavemente, enxugando as lágrimas que começaram a cair dos olhos de Clara.

- Eu sou um terapeuta, mas não acho que vou poder ajudar desta vez, também estou envolvido. Estava pensando lá na exposição que tudo começou quando chegamos aqui nesta cidade.
Acho que seria melhor irmos embora, vamos voltar para o Brasil e acho que tudo vai voltar ao normal.

- Ok, então! Liga para a companhia e pergunta quando é o próximo vôo.

CONTINUA

5 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo X)


Cansados da viagem, os dois passaram ainda muitas horas conversando até que pegaram no sono e dormiram abraçados, na cama de Ivan.

Nos primeiros raios da manhã, uma luz tênue começou a tomar conta do quarto, ela deixou seu marido na cama e começou mais uma vez a caminhar sozinha pelos corredores largos do palácio. Desceu, de novo os degraus, descalça e descabelada, que levavam até o jardim e lá, esperando com um sorriso nos lábios estava Ivan.

Clara abriu os olhos e percebeu que Ivan estava lá, com os braços ao seu redor e quando seus olhos se encontraram ele se aproximou mais e beijou-a nos lábios.

De uma forma suave e apaixonada, enquanto a luz do dia ia aos poucos clareando e deixando ver todos os detalhes do quarto, os dois começaram a se despir e embora aquela fosse a primeira vez que seus corpos se encontravam, ela parecia reconhecer cada detalhe, como se já tivessem estado um nos braços do outro há muito tempo.

A emoção estava a flor da pele, cada um dos sentidos se ampliava, as palavras e os sons desapareciam e os dois se tornaram um só.

Sem olhar para o relógio, eles passariam o dia todo ali, não fosse a fome. Saíram no final da tarde para comer alguma coisa e seguiram para um dos melhores passeios que a cidade oferecia, a roda-gigante chamada London Eye, uma vista privilegiada e mais romântica que nunca no por-do-sol de mais um dia perfeito.

No retorno para o hotel, passaram pelo mercado e compraram champagne. Tinham ingressos para a exposição sobre o Faraó Tutankamon para o dia seguinte, mas não estavam preocupados, passaram mais uma noite em estado de graça.

O nevoeiro era muito espesso e a noite estava muito escura, sebes altas pareciam escurecer ainda mais a cena, apenas o candelabro em suas mãos permitia que enxergasse seus próximos passos.

A sensação era estranha, algo ou alguém o observava no escuro, mesmo assim, ele sentia que deveria seguir, mas antes precisava encontrar seu caminho através daquele labirinto vivo.

O vento começou a soprar o nevoeiro para longe e ele se esforçava para continuar mantendo a vela acesa. Logo, o céu começou a se abrir e ele podia ver as estrelas brilhando sobre o veludo do céu noturno e a lua cheia surgiu por cima das sebes, com sua luz branca prateada iluminando todos os detalhes.

Ele parou bem no centro do labirinto, onde existia um banco de jardim e de onde quatro diferentes corredores partiam, para quatro direções opostas.

Não sabia para onde deveria seguir, sentou-se no banco, apenas um daqueles corredores levaria à saída. Ao longe ouvia lágrimas, pela primeira vez em dias, tinha deixado de sentir as dores da febre que o acometia, sentia-se bem finalmente, mas estava triste por sentí-la triste.

Ivan levantou-se mais uma vez antes do despertador, com cuidado, para não despertar Clara. A tristeza que sentiu em seu sonho ainda o envolvia e sem saber por que, começou a chorar. Tudo era muito estranho naquele momento, não podia deixar que ela percebesse que seus sonhos também revelavam coisas de um passado distante, ao lado dela.

CONTINUA

3 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo IX)


O passeio por Londres continuou no mesmo ritmo pelos próximos dias, Clara e Ivan percorriam todos os pontos turísticos da cidade e aproveitavam para descobrir os segredos que estavam reservados só para quem a percorre sem pressa, com atenção.

Mas se o momento era feliz durante o dia, as noites traziam para Clara situações muito estranhas, agora, seus sonhos diários com aquele casal do século XIX, ao mesmo tempo que forneciam o material para que seu novo e romântico livro fosse escrito, deixavam-na cada vez mais confusa.

Enquanto ela enchia blocos de papel com o cotidiano do casal de amantes, Ivan parecia cada vez mais calado e distante. E este distanciamento deixava Clara ainda mais perdida.

Para o final de semana seguinte, os dois tinham reservado um passeio fora da cidade, para isso, compraram uma excursão de ônibus com o tema Castelos e Jardins da Inglaterra.

Lá fora o visual era deslumbrante, mas a tensão crescia entre os dois amigos e eles não trocavam mais do que dez palavras por dia. Ivan fez amizade com um grupo de brasileiros no ônibus e só via Clara na hora de dormir, enquanto que esta se isolava cada vez mais, escrevendo em ritmo frenético sempre que podia.

O percurso era longo, mas cada uma de suas paradas fazia tudo valer a pena, com o sol de verão brilhando constantemente naqueles três dias, as paisagens enchiam os olhos.

Chegaram em Londres, no final da noite de domingo, voltaram ao mesmo quarto que estava reservado para mais uma semana, tomaram banho, assistiram TV e nem conversaram. Clara agarrada a seus blocos de papel e Ivan, com a câmera nas mãos, conferia mais uma vez as fotos que havia tirado no final de semana.

Confusa e cansada do silêncio, Clara respirou fundo, colocou bloco e caneta sobre a cadeira, levantou-se e foi na direção de Ivan.

- O que houve?

- Não entendi.

- A gente não conversa mais, você me deixou de lado a semana inteira.

- Eu?

- É sim, você. Qual é o problema?

- Nenhum, te vi tão envolvida na sua história que não quis atrapalhar.

- Mas, você me deixou sozinha quase a semana inteira.

- Sozinha? Como sozinha? Eu estava aqui o tempo inteiro, tudo o que você precisava era falar comigo, mas parece que você não estava nem me enxergando mais.

- Eu preciso entender o que está acontecendo comigo, desde que viemos para cá parece que estou vivendo duas vidas diferentes e isso está me enlouquecendo.

- Você quer mesmo saber? Tem certeza?

Clara balançou a cabeça, abraçou Ivan e caiu em um choro compulsivo. Seu corpo todo agora tremia e ela sentia que o muro que havia crescido entre os dois nos últimos anos, estava começando a ruir.

Os dois sentaram-se na cama de Ivan e continuaram abraçados, em silêncio, até que Clara se acalmasse um pouco.

- No começo eu achei que estava inventando aquelas pessoas, aquela casa e por isso comecei a colocar no papel esperando que eles fossem a grande idéia que eu tanto precisava para cumprir o meu contrato com a editora.

- Eu também tive essa impressão, Clara, estava tudo naquele seu sonho com o jardim, o unicórnio, você saiu de dentro de si mesma e buscou a inspiração.

- Isso, mas eu comecei a ver aquele casal e de repente, eu estava lá, vivendo ao lado de um homem que eu nem sei quem é, mas que eu amo, quer dizer, a personagem, ah, não sei mais nada, acho que eu sou ela...

- E talvez seja, não queria te contar para não influenciar, mas acho que você está resgatando memórias de uma vida anterior.

- O que? Mas como? Por que?

- Alguma coisa, está trazendo estas memórias direto do seu subconsciente. Quando sonhamos o nosso inconsciente nos mostra, quase sempre em linguagem simbólica, o que fazer para resolver as situações que não estamos conseguindo solucionar quando estamos acordados.

- Sim, mas você não está entendendo, não são sonhos, é como se eu vivesse a vida de outra pessoa durante a noite.

- Mas e se esta outra pessoa fosse mesmo você, talvez em uma vida anterior e seu inconsciente estivesse agora colocando estas memórias diante de seus olhos para te ajudar a resolver seu conflito atual.

- Qual confilto?

- Não sei, é aí que entra o que está acontecendo de verdade, com você. O que se passa aqui - Ivan aponta pra seu coração - e aqui - aponta para sua cabeça.

- Então, eu estou ficando maluca.

- Não, ao contrário, você está se curando.

CONTINUA

2 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo VIII)


O domingo começou bem cedo, o telefone tocou antes do programado, uma ligação do irmão de Ivan acordou os dois um pouco antes das 7 da manhã.

Quando Clara percebeu do que se tratava, apenas virou-se na cama, decidida a continuar dormindo mais um pouco. Aliás a voz de Ivan, falando bem baixinho para não incomodá-la serviu para embalar seu sono.

Era necessário levantar-se, tinha muitos compromissos naquele dia, precisava de soluções e não podia contar com ninguém naquele momento. Ainda estava escuro, ergueu-se, foi até a lareira, pegou um candelabro, acendeu a vela e desceu até a biblioteca, usou a escada em espiral, não queria que ninguém a seguisse naquele momento.

O que posso fazer? Não posso contar com ninguém, só comigo.

Sentou-se mais uma vez na escrivaninha de mogno, pegou uma folha de papel em uma gaveta, retirou a pena do tinteiro e quis começar a escrever. Estava muito escuro, precisava de mais luz, foi até a lareira da biblioteca, precisava de mais velas, pegou mais um candelabro, levou-o até a escrivaninha e o acendeu; o ar estava muito frio, seus pés estavam descalços, seus cabelos longos presos em uma trança, não podia fazer barulho, ninguém poderia vê-la naquelas condições, mas ela precisava de uma saída.

A escada em espiral se iluminou, era seu marido vindo com outro candelabro na mão.

- O que houve? Problemas?

- Meu discurso de hoje é muito importante, preciso que aquele homem perceba que não pode fazer o que bem entender, ele não pediu meu consentimento e preciso deixar isso muito claro...

- Não se preocupe, tudo vai dar certo.

Ele estendeu sua mão na direção dela, que apenas sorriu, pousando a pena de volta em seu tinteiro. Soprou as velas e aceitou seu braço. Mesmo com o mundo ruindo sob seus pés, ela não podia deixar de sentir-se feliz ao lado daquele homem. Era tudo o que importava naquele momento.

- Bom dia! O telefone te acordou, né? Era o Júnior me pedindo para levar um CD para ele...

- Oi... Você?

- Quem você esperava o Harry Potter?

- Não... é que eu... ah... esquece!

- O que foi? Outro sonho estranho?

- Muito... Preciso do meu bloquinho, antes que me esqueça de algum detalhe, ele está por aí?

- Está em cima da cadeira, aí do lado.

- Obrigada... enquanto eu escrevo por que você não se prepara para o café?

- Hoje não tem pressa, pensei até em voltar para a cama, está chovendo.

- Droga! Íamos ao Jardim Zoológico hoje, mas vamos ter que mudar de planos. - disse Clara enquanto colocava no papel com muito cuidado, tudo o que tinha visto em seu sonho.

Os dois se arrumaram, vestiram jaquetas impermeáveis e como não tinham guarda-chuvas, correram até a estação de metrô. Desceram em Picadilly Circus, atrás do CD encomendado pelo irmão de Ivan. Nas proximidades do famoso cupido de Picadilly ficavam algumas das maiores e melhores lojas de CDs de Londres e esse seria um bom programa para aquele dia chuvoso.

Na hora do almoço, os dois optaram por uma lanchonete ali por perto. A manhã tinha sido bem divertida, Clara tinha aproveitado para comprar mais um bloquinho, o seu já estava terminando.

Aproveitou que estava em uma papelaria e comprou uma porção de cartões postais. Lembrou-se de outro lugar que era próximo dali que eles poderiam visitar à tarde, sem se molhar; o Rock Circus.

CONTINUA

O CANDELABRO (capítulo VII)


Depois de andar muito pela feira, os dois resolveram pegar o metrô para voltar para Victoria, não queriam chegar tarde, tinham intenção de passar no mercado para mais um jantar no quarto do hotel, quando avistaram em uma rua lateral, um lugar chamado Irish Pub.

Ficaram curiosos e decidiram passar por lá mais tarde, para comemorar seus achados na feira e a volta da inspiração de Clara.

Em pleno sábado à noite, o local estava cheio, mesmo assim, os dois conseguiram uma boa mesa. O pub não podia ser mais tradicional, com direito a bandeiras da Irlanda espalhadas por toda a casa.

Mas o que chamava mais atenção ali eram os vitrais coloridos, imitando janelas, em um deles, via-se Bono Vox retratado com seus famosos óculos pretos.

O ambiente "fervia", pelo jeito, haviam encontrado a melhor balada do bairro. Como faziam em São Paulo, pediram Guiness e uns sandwiches que pareciam muito apetitosos na foto do cardápio e simplesmente curtiram a noite.

- Sempre achei que não fosse gostar de Londres, mas estou adorando.

- Posso saber por que?

- Achei que seria sombria, monótona, chuvosa... sei lá, quando a gente não conhece um lugar acaba acreditando naquilo que os outros dizem.

- Nossa! Eu nem imagino quem seria capaz de achar Londres monótona, só poderia recomendar internação para um "ser" desses – respondeu Clara rindo.

- Com certeza! Eu assino embaixo da sua recomendação porque quem me disse isso foi a Márcia, minha ex.

- Não é possível! Os sintomas de esquizofrenia estavam lá para qualquer um ver e você nem percebeu, fico imaginando o que diria o Dr Jung nesta situação.

- Ele diria que somente um bom psicanalista credenciado pode recomendar internações, se bem que aquele ser humano precisava mesmo era de uma boa sala acolchoada e tratamento de choque a cada três horas.

- Às vezes eu fico pensando se eu também não preciso, fiquei tanto tempo sentanda na frente do computador em São Paulo, escrevia duas ou três páginas e depois apagava. Estava na minha casa, sozinha e não saía nada. Cheguei aqui e parece que as portas se abriram.

- Esse é o seu processo, não tem como brigar com ele, você precisa de um empurrãozinho externo para alcançar o que tem aqui dentro – disse Ivan enquanto passava as mãos pelos cabelos de Clara. Por exemplo, o que te fez escrever o primeiro livro?

Estava feita a pergunta que Clara não queria responder, em seu coração a vontade de responder simplesmente “você”, mas ela respirou fundo, disfarçou e respondeu de uma forma convincente: - Acho que foi o desemprego.

E continuou: - Quando eu saí da Fly Away queria voltar para minha área, escrever, fiz uns freelas para a Rolling Stone, fiquei meio chateada porque tive a impressão de que nunca mais conseguiria um emprego com carteira assinada na vida. Continuei tentando, escrevi para um montão de sites, fiz um blog e nada rolava, foi aí que comecei a colocar no computador minhas “memórias” do mundo do rock.

- Você gostava muito daquele cara, o tal rockstar, não é? - Ivan fez outra pergunta que Clara não tinha a intenção de responder.

- Hoje eu sei que não, mas naquela época em que o livro se passa, eu teria feito qualquer coisa por ele.

As noites em Londres terminavam cedo, não demorou muito para que o sino do bar, avisando que o serviço estava sendo encerrado soasse e logo, Clara e Ivan já estavam de volta ao hotel.

Clara, pegou novamente o candelabro tentando ver melhor seus detalhes.

- Ele é lindo, você é maluco Ivan, deve ter custado uma fortuna.

- Nem tanto, deve ser falso, como o gato egípcio que comprei para a Sandra.

- Mas parece verdadeiro, olha, aqui embaixo tem uma inscrição, 1840?

- Deixa eu ver. É mesmo.... e tem umas letras, você consegue ler?

- Não, ainda não consegui decifrar, mas devem ser as iniciais do artista que fez o candelabro.

- O vendedor tinha razão, devia ter comprado o par.

- Par? Tinha mais um igual a este?

- Não era igual, o outro tinha um leão ao invés do unicórnio.


CONTINUA

1 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo VI)


Depois de um café da manhã britânico típico, os dois já estavam novamente nas ruas, tinham que pegar o metrô para ir até a feira de Antigüidades de Portobello.
Uma tarefa simples, mas que poderia ser complicada se não prestassem atenção e não fizessem a troca de linha na estação correta.

Aquela feira era uma “instituição” inglesa de pelo menos uns 200 anos, acontecia todos os sábados e cobria uma área vasta que se estendia por toda a Portobello Road e várias de suas travessas. Lá podia-se encontrar de tudo, de medalhas e condecorações militares a coleções de selos, latas de cerveja e caixas de fósforos.
Muitos objetos de decoração, louças e até jóias. A idade e o preço dos objetos variavam infinitamente.

Clara não gostava de comprar objetos usados, ela achava que junto com eles estava levando também um “pedaço” da energia de seus antigos possuidores, o que lhe causava uma certa aflição que ela não sabia explicar muito bem.

A única parte de que ela gostava na feira era a de “objetos” culturais, por assim dizer, livros, CDs, vinis, DVDs e até fitas VHS podiam ser encontrados em quantidade e com bons preços por lá.

Naquele dia, seu primeiro “achado” foi uma edição francesa do livro, “Memórias, Sonhos e Reflexões” de Carl Jung, que ela comprou imediatamente, e escondeu em sua mochila.

Enquanto isso, Ivan procurava por pequenos objetos de decoração que pudessem transformar-se em bons souvenirs para distribuir aos amigos quando voltasse ao Brasil.

Com as mochilas já carregadas de pacotes, os dois seguiram pela feira até encontrar um Pub onde serviam uma porção farta de fish'n’chips por apenas uma libra.

- E aí? Comprou muita coisa?

- Só uns CDs, e você?

- Tem muita coisa bonita, cara, mas bonita... comprei um gato para minha irmã.

- Gato? Ah! Aquela sua irmã maluca ainda coleciona gatos?

- Pois é, segundo o vendedor é uma antigüidade egípcia... acredito que ela vai gostar.

- Egípcia? Uau! Onde você achou?

- Em uma lojinha, do outro lado da rua. Vamos lá depois do almoço que eu preciso te mostrar algumas coisas que iam combinar muito bem com seu apartamento.

- Isso me lembra que você não apareceu mais lá, agora está bem mais bonitinho, tem até sofá.

- É, me enrolei demais naquela faculdade, só arranjei dor de cabeça, acho que não nasci para ser professor, nem para namorar a sério.

- Como assim?

- A Márcia era muito ciumenta, não me deixava nem respirar, você acredita que a gente terminou porque um dia, eu peguei ela me seguindo, depois que sai da casa dela?

- Nunca te disse nada, mas me afastei de você por causa dela, não gostava do jeito que ela me olhava. Então minha intuição estava certa, ela era mesmo uma psicopata?

- Pois é, só queria ter percebido isso antes de me envolver. Por isso, de agora em diante, não namoro mais, só fico.

Clara não queria ter ouvido aquela frase, mas ao mesmo tempo, ficou feliz por perceber o amigo, de novo, tão próximo.

- Sabe aquela história em que eu estava pensando ontem? Do casal, na época vitoriana?

- Sei, já escreveu alguma coisa?

- Já, peguei meu bloquinho e antes de dormir coloquei tudo no papel.

- Está aí?

- Sim, o que você acha? - Disse Clara estendendo o bloquinho para que Ivan pudesse pegá-lo.

- Ótimo! Você descreve essa casa tão bem que parece que a estou vendo, vai ser assim mesmo, em primeira pessoa?

- Ainda não te disse, mas eu sonhei com eles e no meu sonho, eu era a personagem.

- O que? Você?

- É, eu estava lá, bordando, dei ordens para a "criadagem", depois fui até a biblioteca e comecei a escrever uma carta.

- Hum! Interessante! Você vai aproveitar essa cena no livro?

- Não sei, você acha que eu devo continuar trabalhando nessa história?

- Acho que sim, me deu vontade de ler desde a primeira frase e você sabe que eu não ligo muito para ficção. Bom, eu comprei uma coisa para você, ia te dar só quando chegássemos no hotel, mas acho que este é o momento.

E depois de revirar sua mochila, estendeu uma caixa de papelão para Clara. Ela a abriu e tirou de lá de dentro o objeto mais lindo que já tinha visto, um delicado candelabro dourado, com certeza muito antigo que consistia em uma flor delicada ao lado de um imponente unicórnio.

Ela ficou alguns momentos sem saber o que dizer, não sabia explicar, era como se estivesse tendo um dejá vu, aquele objeto tinha um formato idêntico à escultura da fonte que viu em seu sonho, como isso era possível?

- Gostou? - Perguntou Ivan, parecendo preocupado.

- Amei! Nem sei o que te dizer, ele é idêntico a escultura da fonte, do meu sonho.

- Eu imaginei que fosse, por isso fiz questão de comprá-lo. O vendedor me disse que é do período vitoriano, não sei se é autêntico, mas achei que valia a pena.

CONTINUA