1 de jul de 2008

A CHAVE (capítulo III)


O cartãozinho, cor de rosa, com pequenas rosas douradas nos cantos, era inconfundível, uma lembrança imediata de seu início de carreira na editora e de Dona Alma, uma velhinha muito simpática, esposa de um de seus autores favoritos:

“Cara Ana,
Passei para vê-la hoje à tarde, mas você não estava em casa. Estou me mudando para o apartamento 514 e gostaria muito de recebê-la para um chá.
Abraços,
Alma Witzinger”

Ana, ainda carregando as sacolas, tocou a campainha no 514, o outro apartamento de seu andar, mas ninguém atendeu.

Resolveu então entrar em casa, ainda tentando ouvir algum barulho que denunciasse a presença de mais alguém naquele andar, mas não havia qualquer movimento e ela acabou adiando um novo contato para o dia seguinte.

Na manhã de domingo, novos ruídos a acordariam, vestiu-se rápido e no vai-e-vem de carregadores que faziam a mudança, finalmente, avistou Dona Alma.

Bem mais frágil do que se lembrava, a velhinha veio a seu encontro: - Querida! Que bom que você está aqui! Agora somos vizinhas!

- Dona Alma! Que surpresa! Como vai o senhor Josef?

- Ah! Querida... meu Josef faleceu no ano passado...

- Sinto muito, Dona Alma, não sabia...

- Avisei a editora, mas parece que você estava de férias na época, pelo menos, foi o que me disseram.

- Tiro férias sempre em junho, gosto de viajar e cheguei à conclusão de que este é o mês ideal para isso.

- Pois é, filha... o meu Josef se foi em junho do ano passado, morreu dormindo, o pobrezinho... passei aqui pelo seu prédio, mas me disseram que você não estava.

- Fui para o sul, Dona Alma, passei 20 dias na Serra Gaúcha, passeando e depois, quando voltei, fiquei em casa reformando minha cozinha que estava com problemas de encanamento. Que pena, ninguém me avisou...

- Mas ele está bem, filha, você se lembra do que ele sempre dizia? Ninguém morre...
Claro, Dona Alma...

Ana continuou ajudando Dona Alma com a mudança e a convidou para almoçar em seu apartamento; não tinha feito supermercado naquela semana, mas era muito criativa e sabia bem se virar, mesmo com poucos ingredientes.

Depois da sobremesa e do café, as duas sentaram-se na sala de visitas para continuar a conversa. Dona Alma gostava muito de falar, era a coisa que mais fazia, Ana lembrava-se de que aceitara alguns convites para tomar chá em sua casa, sempre ouvindo muito mais do que falando.

Dona Alma contava-lhe longas histórias sobre sua juventude na Europa Oriental, numa pequena vila chamada Bled. Foi lá que conhecera Josef, ela ainda era adolescente e ele, um jovem farmacêutico recém-formado e com fama de bruxo.

Seus pais nunca aprovaram o namoro e para conseguir se casar, os dois fugiram da vila, o que causou um razoável escândalo. Depois viria a guerra e o casal, com medo do que estava começando a acontecer na Europa, resolveu pegar um navio e veio para o Brasil.

Aqui, o rapaz conseguiu um bom emprego em um laboratório e pode ter um pouco mais de tranqüilidade. Tentaram ter filhos, mas nunca conseguiram e o tempo foi passando, até que Josef, já aposentado, resolveu começar a escrever livros.

Suas obras eram bastante complicadas, segundo ele, Manuais de Alquimia, que lidos com atenção, serviriam de base para que qualquer pessoa interessada conseguisse ingressar naquela arte.

Para Ana, não faziam qualquer sentido, menos ainda quando eram entregues em suas mãos, ainda no manuscrito original, para serem devidamente digitados e revisados.

Embora complicados, os tais manuais vendiam muito bem e estavam sempre na lista de best-sellers da editora, o que fazia com que todo o staff, Ana incluída, tivesse que seguir recomendações intermináveis dos editores para agradá-los.

Mas isso, para Ana que perdera seus avós muito cedo, nem era necessário, já que simpatizara com o casal, em seu primeiro contato, na editora.

Era sua primeira semana de trabalho e aqueles dois velhinhos, chegaram, apresentaram-se e deixaram em suas mãos um grosso caderno universitário, todo escrito em uma letra miúda, de difícil leitura.

Continua

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