27 de jun de 2008

A CHAVE (capítulo II)


Não demorou muito para Ana se acostumar com sua nova rotina pós-separação, afinal pouca coisa havia efetivamente mudado em sua vida.

Acordar cedo, fazer o impossível para chegar ao trabalho no horário, voltar para casa, preparar algo para comer, arrumar as coisas para o dia seguinte, dormir e no dia seguinte, tudo igual.

Seu trabalho, como revisora também andava desgastante, sua editora resolvera publicar uma linha de manuais técnicos traduzidos do inglês que além de ser de difícil compreensão significavam que ela precisava ter atenção redobrada para que tudo saísse perfeito.

Sem muitos horizontes nem na editora, sua semana terminava da mesma forma que a anterior e a nova semana começava sem mudanças e embora tenha sentido muitas vezes vontade de sair com sua turma de amigos, para quem sabe, conhecer outra pessoa; Ana não se sentia à vontade, achava que precisava de algum tempo para si mesma antes de partir definitivamente para um novo relacionamento.

A rotina dos últimos meses era completamente previsível, até que a manhã de um determinado sábado, no final de agosto, começou diferente.

O apartamento vizinho, desocupado desde que Ana havia se mudado, estava sendo ocupado novamente e o barulho da mudança despertou-lhe antes do horário de costume.

O pior era que parecia que mais um sábado frio e chuvoso se anunciava, Ana não tinha planos, exceto passar pelo mercado, locadora de filmes e depois, lá pelas 8 da noite, dar um telefonema para o pizza delivery.

Mas já que estava acordada, teve a idéia de aproveitar melhor o dia que, por sinal, dava mostras de que afinal não seria tão ruim, até pequenas frestas de sol se faziam ver e apesar do frio, ela decidiu ir até o centro da cidade, um dos seus programas favoritos.

Deixou o carro em casa, pegou o metrô e foi mais uma vez garimpar nos inúmeros sebos alguma coisa de seu interesse.

Leitora compulsiva, Ana conhecia todas as boas livrarias, onde com muito pouco dinheiro era possível montar uma boa biblioteca.

Tinha herdado aquele hábito de comprar muitos livros de sua mãe, também leitora compulsiva, que a havia apresentado à literatura através de uma irresistível coleção de livros do escritor Monteiro Lobato, que a acompanharam por toda infância.

Depois vieram os livros da escola, Machado de Assis, José de Alencar, todos aqueles escritores que seus colegas liam por obrigação, odiando cada página, Ana lia e relia pelo prazer de deixar sua imaginação viver aquelas tramas recheadas de palavras difíceis que já não se faziam ouvir mais no dia-a-dia.

Gostava tanto de ler, que quando chegou a hora de prestar vestibular optou por letras, já naquela época, um curso pouco concorrido, pois não oferecia muitas opções de emprego.

Ao sair da faculdade, deu algumas aulas em um cursinho, mas não gostava de ensinar e acabou conseguindo um trabalho temporário como revisora em uma conceituada editora.

Apesar do trabalho árduo e do salário pouco convidativo, Ana não tinha nenhuma vontade de mudar de emprego, pois no final das contas, era paga para ler livros, a coisa que mais gostava de fazer na vida.

Quando completou 30 anos sentiu a necessidade de mudar-se da casa dos pais, procurou um apartamento, fez um financiamento e mudou-se tão rapidamente que mesmo anos depois, seu pai ainda a olhava com uma certa estranheza, sem compreender o porquê daquela decisão que ele via como drástica.

Mais uma vez com uma sacola cheia de livros, Ana voltou para casa no final da tarde, pronta para terminar com os outros compromissos de sua “agenda” de final-de-semana, mas para sua surpresa, encontrou uma cesta com flores com um cartão na porta de seu apartamento.

Continua...

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