11 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XV)


Clara deu uma olhada no relógio e percebeu que eram só duas da tarde, pegou o mapa da cidade e procurou a estação de metrô mais próxima, tinha tido uma idéia, não sabia muito bem se daria certo, mas era um começo.

Comprou uma passagem, conferiu novamente onde precisaria trocar de linha e seguiu para Portobello Road, onde tentaria encontrar a loja onde Ivan comprou o candelabro.

Como nunca tinha pensado nisso antes? Só naquele instante ela tinha percebido que ele estava presente em vários daqueles sonhos, talvez fosse esse o elemento que faltava para compreender completamente aquilo que estava acontecendo.

Encontrar a loja de onde saiu o candelabro seria uma tarefa um pouco mais complicada do que ela imaginava, mesmo com as ruas livres, sem as barracas da feira, era difícil tentar localizar um entre diversos antiquários que funcionavam naquela área.

Para piorar a situação, alguns estavam fechados, porque só abriam nos finais de semana. Clara acabou desistindo, tinha agora duas opções: ligava para checar se Ivan ainda tinha o cartão da loja com o endereço ou voltava no final de semana para ver se conseguia encontrar a loja sozinha.

Preferiu a segunda, já que não queria deixar Ivan preocupado, nem chamar a atenção dele para o fato dela ter se lembrado do candelabro.

Andou mais um pouco, entrou em duas ou três lojas de antigüidades e decidiu voltar para o hotel, tinha que ficar em contato com sua revista porque algumas das solicitações de entrevistas ainda estavam pendentes.

Passou no mercado, comprou algumas coisas para jantar e sentou-se na cama, com o notebook no colo. Resolveu pesquisar na internet e jogou algumas palavras aleatórias nos sites de busca como candelabro, 1840, unicórnio, Londres.

A única coisa que descobriu foi que o unicórnio estava, ao lado do leão, no brasão das armas inglês e que lá simbolizava a Escócia.

Buscou por mais informações, mas nada surgiu de concreto; olhou para o relógio, abriu a última página de seu livro, fechou os olhos e procurou relaxar, enquanto procurava em sua memória: - Ele está morto, o que acontece agora?

Ela não conseguiu ir ao funeral, seu médico aconselhou que descansasse, ou também acabaria pegando a febre. Voltou em seguida para Londres, foi a pior viagem de toda a sua vida, ao voltar para casa, mandou doar todas as suas roupas, encomendou novas, todas na cor preta.

Passaram-se semanas, meses e ela continuava ali, como anestesiada, nem conseguia perceber tudo o que acontecia à sua volta. Deixou de sair de casa, passava seus dias entre a biblioteca, onde sentava-se na poltrona à frente da lareira e o jardim, onde podia passar horas a fio próxima das roseiras.

A cada dia mais calada, os empregados temiam por sua sanidade, sem filhos, os parentes próximos tentavam uma aproximação de olho na herança e naquele ponto, não encontrariam qualquer resistência.

Foi assim, que um primo distante de seu marido arrumou argumentos legais para tomar o palácio de Londres. Sem forças para lutar, ela mudou-se para a casa do lago.

Até que em uma madrugada de janeiro, ela levantou-se no meio da noite, foi até a biblioteca, escreveu uma carta e antes que qualquer um pudesse impedir, atirou-se em suas águas geladas.

Com lágrimas nos olhos, Clara procurou pelo telefone e ligou imediatamente para sua casa, Ivan, que estava chegando naquele momento demorou a atender.

- Eu sei como termina!

- Sério? O passeio no parque então deu certo?

- Não, não escrevi nenhuma linha no parque, tive que voltar para o hotel e agora eu vi o final da história.

- E?

- Bom, ela ficou muito triste depois que ele morreu, só vestia luto e largou mão de tudo, até perdeu o palácio de Londres.

- Sério?

- Daí ela foi morar naquela outra casa, na beira do lago, até que numa noite, ela se atirou no lago e morreu.

- Nossa! Que trágico! Você viu tudo isso?

- Vi, foi horrível!

- Você está bem?

- Estou, não se preocupe, tenho muito trabalho por aqui, amanhã vou ao set de filmagem do Harry Potter, entrevistar a JK.

- Não gostei desse seu sonho de hoje. Você tem certeza que está bem?

- Por que?

- Por nada – disfarçou Ivan – não esquece de pedir para ela autografar os livros.

- Claro que não! Você sabe que a gente podia ficar rico vendendo esses livros autografados pela internet?

- É mesmo! Não tinha pensado nisso. Mas voltando ao seu sonho, me promete uma coisa?

- O que Ivan?

- Esquece seu livro por enquanto, não tenta escrever o que você viu, nem mexe com isso enquanto estiver aí. Ok?

- Ok... você vai me explicar o porquê?

- Assim que você voltar, eu te explico.

CONTINUA

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