10 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XIV)


Mas esse era seu maior problema, Ivan tinha se mudado para seu apartamento e os dois passaram os últimos dias de férias procurando por um consultório para alugar, já que pela primeira vez, depois de formado, ele tinha decidido começar a trabalhar como analista.

Clara estava feliz, mas ainda tinha um livro para terminar, como não conseguia, aceitou voltar para sua rotina de freelas e colaborações em revistas, jornais e sites. Não era o ideal, mas pelo menos, não deixava muito tempo livre para preocupar-se.

A música tinha voltado ao seu cotidiano e, repentinamente, surgiu um convite para que Clara fosse até Londres fazer algumas entrevistas para inaugurar a sessão de vídeos online do site de uma das revistas em que colaborava. Aceitou no mesmo momento, embarcaria dali a dois dias e ficaria uma semana por lá.

Ivan não gostou muito da idéia, queria o apoio dela naquele momento especial que estava vivendo, finalmente tinha compreendido que a vida era muito curta para ser vivida correndo atrás de dinheiro.

Ao mesmo tempo, sua curiosidade em desvendar os labirintos da mente humana estava mais aguçada do que nunca, todas as expectativas que tinha desde a adolescência e que o levaram a cursar a faculdade de psicologia ressurgiram em seu horizonte.

Clara tinha várias entrevistas marcadas para o próximos dias e não podia falhar. Ao mesmo tempo, voltava para a cidade onde tudo tinha começado.

Ela desceu do avião, pegou o metrô e foi correndo para o hotel onde seu primeiro entrevistado, o cantor Robert Plant recebia a imprensa.

A entrevista coletiva era sobre a decisão da banda Led Zeppelin se reunir para uma única apresentação, no final do ano. Além de participar da coletiva também estava acertada uma entrevista exclusiva, falando do evento, que ela gravaria em vídeo.

O encontro com o ídolo foi emocionante, mas Clara estava cansada, assim que a entrevista terminou, ela pegou sua bagagem e foi até o mesmo hotel em que tinha ficado com Ivan há poucos dias, fez o check-in, tomou um banho e deitou-se com o notebook nas mãos para conferir o material que tinha conseguido.

Respondeu alguns e-mails, estava muito cansada, mas ainda resolveu ligar para saber como tinha sido o dia de Ivan.

- Oi, tudo bem por aí?

- Tudo, e por aí? – respondeu Ivan rindo.

- Estou acabada! A minha entrevista ficou por último, na minha vez de gravar, o Plant já estava com uma bolsa embaixo dos olhos do tamanho da minha mão! Mesmo assim ele é lindo! Você ficaria chateado se eu pedisse ele em casamento?

- Ele é velho e não funciona mais!

- Pára! Ele é perfeito, meu sonho de consumo desde sempre!

- Escuta aqui, Clara, você ligou para mim só para dizer que quer dar para essa bicha velha? – respondeu Ivan entre gargalhadas que mal disfarçavam seus ciúmes.

- Há! Tá com ciúmes! Adorei! – riu Clara – Mas estou ligando só para te dizer que já cheguei ao hotel, o número do quarto em que eu estou é 517 e se você precisar entrar em contato comigo...

- Eu mando um e-mail que sai mais barato...

- Tá! Bom, agora vou dormir, estou muito cansada, avião sempre acaba comigo... Toda essa correria hoje e amanhã eu tenho o dia livre, só depois de amanhã é que vou entrevistar a JK Rowling.

- Ok! Pede umas dicas para ela para usar no seu livro.

- Que bonitinho! Está achando que é engraçado! – riu Clara – Mas falando sério, amanhã vou aproveitar para escrever um pouco, estava pensando nisso no caminho até aqui... Vou levar meu notebook no St James e ver o que acontece.

- Talvez dê certo, mas cuidado, não confio nem um pouco naqueles pelicanos. – brincou Ivan.

- Depois dessa, só desligando o telefone! Estou com saudades, queria que você estivesse aqui!

Colocando o fone no gancho, Clara também desligou o notebook e deitou-se para dormir. Ligou a TV na função timer, para tentar apressar um pouco o processo, truque infalível que ela tinha aprendido há muito tempo.

O sol já estava alto quando ela acordou, isso significava que tinha perdido o café da manhã do hotel e precisaria ir até alguma lanchonete para comer e de lá andou até o parque, estendeu um pano na grama e sentou-se. Como ela teve medo de carregar o notebook até lá, apenas tirou da bolsa a caneta e o bloco de anotações.

Ficou lá por horas e nada surgiu, nenhuma idéia, nenhuma lembrança; talvez ela estivesse precisando mesmo das tais dicas da Rowling ou pior, talvez ela estivesse precisando de uma nova história.

CONTINUA

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