8 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XIII)


A semana passou e como Clara tinha previsto, sem nenhum sinal de Ivan. Quando chegou ao Brasil, os sonhos realmente cessaram, parece que as portas da memória estavam fechadas mais uma vez.

O livro continuava a ser escrito, as anotações eram a base, mas em seu computador, a história ganhava cada vez mais cores. Enviou os primeiros capítulos ao seu editor e alguns dias depois, recebeu um telefonema marcando uma reunião, para o jantar do dia seguinte, em um restaurante próximo da casa de Clara.

Esse não era um bom sinal, só podia significar uma coisa, a editora não queria aquele livro e ela teria que encontrar outra história rapidamente, quem sabe alguma coisa mais contemporânea, falando de música.

Para não ficar maluca pensando, resolveu relaxar, descobriu que o músico que inspirou seu primeiro livro estaria fazendo um show em um barzinho próximo de sua casa e achou uma boa idéia ir dar uma olhada, já estava muito cansada.

Passou uma noite muito divertida, ao lado dos velhos amigos e quando finalmente voltou ao seu apartamento, o dia já estava amanhecendo.

Ela foi até a lareira, pegou o candelabro com o unicórnio, acendeu uma vela, desceu as escadas e seguiu para o jardim; seu palácio agora estava abandonado, vidros quebrados, cortinas rasgadas voavam embaladas pelo vento. O corredor era o mesmo, mas as paredes estavam escurecidas, entalhes e espelhos quebrados, folhas de árvores, brincavam na água suja empoçada no chão.

A porta para o jardim parecia ter sido arrombada e nuvens cinza chumbo eram o toque final naquela cena de devastação. O que antes era gracioso e cuidado, agora estava amarelado, queimado e tomado pelo mato. A fonte estava seca e esverdeada pelo limo, o banco onde sempre se sentava estava quebrado.

O interfone tocou, Ivan estava na porta, precisava conversar com ela imediatamente.

- Ok, deixa ele subir, Valdomiro.

- Oi Clara, a gente precisa conversar...

- Entra, eu fui pra balada ontem, acabei de acordar.

- Desculpa vir tão cedo! Andei conversando com o professor Souza e ele me deu umas dicas sobre o que aconteceu com a gente, disse que era bem incomum, mas que teoricamente poderia acontecer com qualquer um.

- Espera, Ivan, esse é aquele cara que você tinha ficado de agendar.

- É, estive no consultório dele e nós conversamos....

- E?

- Bom, ele achou a mesma coisa que eu, nossas memórias podem ser reais, coisas que aconteceram em uma vida anterior e que lembramos agora porque nós dois precisávamos de um empurrãozinho para deixar o medo de lado e ficarmos juntos...

- Não acho que seja isso - interrompeu Clara – deve ter alguma outra explicação, mas quer saber? Não me importa mais, quero esquecer de tudo isso, foi tudo uma enorme bobagem desde o princípio. Não importa mais, estamos aqui, vivendo no século XXI. Não somos mais aquelas pessoas. Elas estão mortas!

- Eu sei disso...

- Então, você não precisa se preocupar mais com elas, não tem nenhuma obrigação de ficar por aqui, se você não quiser...

- Mas... espera! E se eu quiser ficar?

- Como?

Ivan puxou Clara em sua direção e beijou-a. – Será que agora você entendeu que eu não quero ir para nenhum lugar?

Clara passou o dia inteiro com Ivan e resolveu levá-lo para o tal jantar com Roberto Antunes, se fosse para levar um chute da editora, ao menos ela teria o ombro de Ivan para chorar.

Quando os dois chegaram ao restaurante, o editor já estava lá.

- Boa noite, Antunes, demoramos?

- Não, eu é que estou adiantado.

- Você já conhece o Ivan, não é?

- Claro, meu futuro autor... você ainda está me devendo um livro sobre Jung.

- Deixa essa coisa de literatura para a Clara, eu estou pensando em abrir um consultório.

Sem conseguir conter mais a ansiedade, Clara interrompeu a conversa casual dos dois: - E aí? O que você achou do meu livro?

- Vou ser muito sincero, Clara, não é o que a editora esperava...

- Sabia! Viu o que eu disse, Ivan? Era tudo uma bobagem...

- Não, longe disso, o que eu quis dizer é que não esperávamos por uma história sobre reencarnação, mas o livro, até onde eu li é perfeito, vai vender até mais do que o primeiro. Vai já para casa e termina logo essa história!


CONTINUA

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