7 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XII)


Clara não disse nada, mas ficou chateada por Ivan ter sugerido a antecipação do retorno, para ela aquela idéia só poderia significar uma coisa, apesar de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, Ivan estava prestes a abandoná-la mais uma vez.

Ivan, por sua vez, estava mesmo impressionado com aquele fenômeno e buscava quase desesperadamente uma explicação racional. Não disse nada para Clara, foi até um cybercafe próximo ao hotel para enviar um e-mail a um professor de sua faculdade, pedindo ajuda para interpretar o ocorrido.

A resposta chegou no dia seguinte, na forma de um convite para os dois comparecerem juntos ao consultório do tal professor para que ele pudesse examinar melhor o caso.

O embarque para o Brasil foi bem complicado e os dois foram acomodados em lados opostos dentro da cabine.

Depois de tentar assistir o filme de bordo e ler alguma coisa dos livros que comprou em Londres, Clara resolveu tentar dormir um pouco, tarefa quase impossível nas diminutas poltronas da classe econômica.

Ivan também estava inquieto, mas Clara percebeu que ele já estava dormindo na metade do filme. Desembarcaram, passaram rapidamente pela alfândega e pela Free Shop e sem trocar muitas palavras chegaram ao saguão do aeroporto.

Clara teve a nítida impressão que aquela era a última vez que via Ivan, por isso, resolveu concentrar-se dali em diante em listar mentalmente todos os seus defeitos; enquanto que Ivan não entendia por que Clara estava tão distante. E o silêncio entre os dois durou quase toda a viagem de ônibus até o hotel na Avenida Paulista.

Se despediram, combinando que Ivan avisaria sobre o agendamento da consulta com o tal analista.

Clara foi andando até o seu apartamento, largou a mala no chão, tomou um banho e ligou o computador para dar uma olhada nas novidades.

Naquele momento, queria esquecer que Ivan existia, mas não podia, tinha um livro ainda para escrever sobre um casal que nem a morte separou, mas que naquele instante, o fantasma de lembranças distantes e suas implicações estavam separando.

Resolveu desfazer a mala, estava cansada da viagem, mas não suportava a idéia de ver seu apartamento todo bagunçado. A primeira coisa que veio parar em suas mãos foi o candelabro. Achou que ficaria bem sobre a mesa da sala de jantar.

Uma peça tão linda! Só aquele maluco mesmo para me dar um presente como esses... bom, fica de despedida, esse não volta nunca mais!

Ao mesmo tempo, ocorreu pela primeira vez para Clara a idéia de pesquisar sobre aquele fenômeno estranho na Internet.

Deixou momentaneamente a arrumação de casa e se jogou de cabeça nos sites de busca. Encontrou algumas coisas sobre TVP, Jung, muitas bobagens sobre almas gêmeas, mas nada parecido com aquilo que os dois tinham vivido.

- Vai ver a resposta é muito simples, vocês já estiveram juntos antes, não façam isso de novo! Acho que esse é o tal recado do inconsciente que o Ivan tanto fala – Clara dizia para si mesma tentando superar a revolta que estava sentindo naquele instante.

Tirou aquele dia para descansar e colocar a casa em ordem. Depois de dormir um pouco à tarde, decidiu passar no mercado e depois ligou para a mãe, para finalmente avisar que já estava em São Paulo.

À noite, foi jantar na casa dos pais, para levar os presentes que tinha comprado e contar sobre a viagem. Era óbvio que guardaria segredo sobre a história dos sonhos, não queria que sua família descobrisse que ela era uma maluca que, quando dormia, vivia a vida de outra pessoa no século XIX. E que ela tinha tido um caso com seu melhor amigo que tinha acabado muito mal, com ele correndo como o “diabo foge da cruz”, porque ela era maluca.

O jantar foi ótimo, reencontrar sua família foi o primeiro momento de alegria para Clara desde que tinha ficado com Ivan. Ela mostrou as fotos, distribuiu presentes e ficou de voltar no Domingo, para passar o dia todo.

Voltou para casa, sentou-se mais uma vez na frente do computador, mas desta vez ela estava com o primeiro de seus bloquinhos na mão.

Escreveu até de manhã, acrescentou detalhes, leu e releu o texto e cortou algumas bobagens. E por mais que aquilo tudo doesse, ainda era uma bela história de amor.

CONTINUA

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