6 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XI)


O café da manhã foi rápido e logo seguiram para a exposição de Tutankamon. Uma fila enorme os aguardava, mas os dois ainda pareciam muito longe dali, cada um tentando compreender a seu modo tudo o que estava acontecendo.

Cenas do passado se misturavam com cenas do presente e os olhos de Clara pareciam cheios d’água quase o tempo todo. Ivan não estava muito diferente, embora buscasse algum tipo de explicação racional para o que estavam vivendo, também tinha que lutar contra o turbilhão de imagens que rodavam cada vez mais velozes em sua cabeça.

- Você está muito quieto hoje. - Clara comentou na esperança de tentar entender o que estava acontecendo com ele.

- Você também. Será que eu posso te ajudar de alguma forma? - respondeu Ivan em tom preocupado, enquanto acariciava os cabelos longos de Clara.

Clara suspirou, olhou nos olhos de Ivan e sorriu: - Está tudo bem! Não se preocupe!

Não era exatamente a verdade, ela ainda queria uma explicação, racionalmente falando, as coisas não poderiam estar melhores. Tinha conseguido as duas coisas que mais desejava no mundo, uma história para seu segundo livro e Ivan em seus braços.

Além disso, eles tinham mais alguns dias em Londres para conversar sobre aquelas experiências estranhas e isso significava nenhum tipo de interferência externa, só os dois, sem parentes, amigos, compromissos, horários e aquela lista infinita de desculpas que damos quando não queremos nos envolver.
Mas a intensidade dos sonhos continuava crescendo e mexendo muito com ela, algo estava muito errado e ela não sabia dizer o que era.

Depois de andar o que pareceram quilômetros de corredores, os dois pararam em uma lanchonete para almoçar, uma chuva forte começava a cair e eles decidiram voltar ao hotel.

Chegaram encharcados, tomaram banho, vestiram roupas secas e resolveram descansar um pouco no hotel. Clara, mais uma vez, decidiu que precisava abrir o jogo.

- Você ainda não leu este capítulo do livro – estendendo seu bloco de notas para Ivan
Ele pegou o bloco, começou a ler e parou. Colocou o bloco sobre a mesa e foi na direção de Clara. Sem dizer nada, ele a puxou pela mão e os dois sentaram-se em sua cama.

- Acho que a gente precisa conversar, tinha resolvido não te dizer nada, mas acho que seria errado te deixar no escuro. Ainda mais depois de tudo o que aconteceu aqui neste quarto.

La vem bomba! Pensou Clara, tinha certeza que não ia durar, sabia do pavor que Ivan tinha de compromisso, ainda mais com uma pessoa que estava às portas da loucura, como ela.

- É sobre os seus sonhos, retrocognições ou sei lá como chamar isso que está acontecendo com você.

- O que tem eles?

- Estão acontecendo comigo também, eu também tenho passado todas as minhas noites no século XIX.

- O que?

- No início, achei que era da minha cabeça, que estava ficando influenciado pelo que você me dizia, me mostrava do seu livro. Mas a impressão começou a ficar mais forte e esta cena que você me mostrou agora...

- Qual cena? A morte dele?

- É... eu a vivi. Estava muito doente, com muita febre e de repente me vi em um labirinto escuro, não sabia o que tinha acontecido, mas fez sentido agora, depois que li a sua descrição da morte dele.

- Mas como pode? Se nós somos eles, por que estamos revivendo isso tudo? Estou ficando com medo, acho que vou jogar fora todos esses bloquinhos, posso escrever outra coisa para o livro.

- Não faça isso! Pirou? Não joga nada fora, não precisa ter medo, nós estamos vivendo uma experiência estranha, mas não vejo nenhuma razão para ter medo. Como eu te disse antes, o nosso inconsciente quer nos mostrar alguma coisa, precisamos descobrir o que ainda não estamos vendo.

- Mas eu estou ficando apavorada!

- Não fica – disse Ivan suavemente, enxugando as lágrimas que começaram a cair dos olhos de Clara.

- Eu sou um terapeuta, mas não acho que vou poder ajudar desta vez, também estou envolvido. Estava pensando lá na exposição que tudo começou quando chegamos aqui nesta cidade.
Acho que seria melhor irmos embora, vamos voltar para o Brasil e acho que tudo vai voltar ao normal.

- Ok, então! Liga para a companhia e pergunta quando é o próximo vôo.

CONTINUA

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