3 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo IX)


O passeio por Londres continuou no mesmo ritmo pelos próximos dias, Clara e Ivan percorriam todos os pontos turísticos da cidade e aproveitavam para descobrir os segredos que estavam reservados só para quem a percorre sem pressa, com atenção.

Mas se o momento era feliz durante o dia, as noites traziam para Clara situações muito estranhas, agora, seus sonhos diários com aquele casal do século XIX, ao mesmo tempo que forneciam o material para que seu novo e romântico livro fosse escrito, deixavam-na cada vez mais confusa.

Enquanto ela enchia blocos de papel com o cotidiano do casal de amantes, Ivan parecia cada vez mais calado e distante. E este distanciamento deixava Clara ainda mais perdida.

Para o final de semana seguinte, os dois tinham reservado um passeio fora da cidade, para isso, compraram uma excursão de ônibus com o tema Castelos e Jardins da Inglaterra.

Lá fora o visual era deslumbrante, mas a tensão crescia entre os dois amigos e eles não trocavam mais do que dez palavras por dia. Ivan fez amizade com um grupo de brasileiros no ônibus e só via Clara na hora de dormir, enquanto que esta se isolava cada vez mais, escrevendo em ritmo frenético sempre que podia.

O percurso era longo, mas cada uma de suas paradas fazia tudo valer a pena, com o sol de verão brilhando constantemente naqueles três dias, as paisagens enchiam os olhos.

Chegaram em Londres, no final da noite de domingo, voltaram ao mesmo quarto que estava reservado para mais uma semana, tomaram banho, assistiram TV e nem conversaram. Clara agarrada a seus blocos de papel e Ivan, com a câmera nas mãos, conferia mais uma vez as fotos que havia tirado no final de semana.

Confusa e cansada do silêncio, Clara respirou fundo, colocou bloco e caneta sobre a cadeira, levantou-se e foi na direção de Ivan.

- O que houve?

- Não entendi.

- A gente não conversa mais, você me deixou de lado a semana inteira.

- Eu?

- É sim, você. Qual é o problema?

- Nenhum, te vi tão envolvida na sua história que não quis atrapalhar.

- Mas, você me deixou sozinha quase a semana inteira.

- Sozinha? Como sozinha? Eu estava aqui o tempo inteiro, tudo o que você precisava era falar comigo, mas parece que você não estava nem me enxergando mais.

- Eu preciso entender o que está acontecendo comigo, desde que viemos para cá parece que estou vivendo duas vidas diferentes e isso está me enlouquecendo.

- Você quer mesmo saber? Tem certeza?

Clara balançou a cabeça, abraçou Ivan e caiu em um choro compulsivo. Seu corpo todo agora tremia e ela sentia que o muro que havia crescido entre os dois nos últimos anos, estava começando a ruir.

Os dois sentaram-se na cama de Ivan e continuaram abraçados, em silêncio, até que Clara se acalmasse um pouco.

- No começo eu achei que estava inventando aquelas pessoas, aquela casa e por isso comecei a colocar no papel esperando que eles fossem a grande idéia que eu tanto precisava para cumprir o meu contrato com a editora.

- Eu também tive essa impressão, Clara, estava tudo naquele seu sonho com o jardim, o unicórnio, você saiu de dentro de si mesma e buscou a inspiração.

- Isso, mas eu comecei a ver aquele casal e de repente, eu estava lá, vivendo ao lado de um homem que eu nem sei quem é, mas que eu amo, quer dizer, a personagem, ah, não sei mais nada, acho que eu sou ela...

- E talvez seja, não queria te contar para não influenciar, mas acho que você está resgatando memórias de uma vida anterior.

- O que? Mas como? Por que?

- Alguma coisa, está trazendo estas memórias direto do seu subconsciente. Quando sonhamos o nosso inconsciente nos mostra, quase sempre em linguagem simbólica, o que fazer para resolver as situações que não estamos conseguindo solucionar quando estamos acordados.

- Sim, mas você não está entendendo, não são sonhos, é como se eu vivesse a vida de outra pessoa durante a noite.

- Mas e se esta outra pessoa fosse mesmo você, talvez em uma vida anterior e seu inconsciente estivesse agora colocando estas memórias diante de seus olhos para te ajudar a resolver seu conflito atual.

- Qual confilto?

- Não sei, é aí que entra o que está acontecendo de verdade, com você. O que se passa aqui - Ivan aponta pra seu coração - e aqui - aponta para sua cabeça.

- Então, eu estou ficando maluca.

- Não, ao contrário, você está se curando.

CONTINUA

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