12 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo final)


Quando desligou o telefone teve uma sensação estranha e, seguindo os conselhos de Ivan, decidiu concentrar-se apenas em organizar o material que levaria para as entrevistas do dia seguinte.

Depois de fazer uma checagem cuidadosa de cada item, programou o telefone para tocar às 6 da manhã, ligou a TV, programou o timer e decidiu relaxar.

Aquele final tinha sido muito chocante para ela, ter a consciência de que tinha sido capaz de tirar a própria vida deixou-a triste e decepcionada consigo mesma.

Sabia que estava longe de ser perfeita, mas suicida? Pelo menos sentia que desta vez nada conseguiria deixá-la chegar àquele ponto.

No dia seguinte, ela comeu um sanduiche com as sobras do seu jantar e esperou pelo micro-ônibus da produção na porta do hotel.

Mais um dia lindo estava amanhecendo e embora não deixasse transparecer, Clara sentia-se como uma criança pois estava indo ver de perto aquele mundo mágico do bruxinho inglês. Fez o que podia para parecer fria e crítica, mas por dentro estava em festa.

Voltou para o hotel só no final da tarde, ainda mais apaixonada por aquela profissão que havia escolhido como saída para sua vontade de escrever.

Algumas entrevistas que ainda estavam pendentes foram confirmadas para sexta-feira e o seu retorno para o Brasil já estava marcado para o sábado à noite, restava para ela decidir agora se tentaria encontrar a loja de antiguidades na Portobello Road ou se desistiria de vez de descobrir mais sobre aqueles personagens que estavam cada vez mais próximos dela e de Ivan.

O sábado chegou rápido, Clara foi até a feira de antiguidades e foi refazendo o roteiro da sua primeira passagem com Ivan. Desta vez, não teve dificuldade para encontrar a loja, que por sinal exibia em sua vitrine o candelabro dourado com o leão.

Lá dentro, um rapaz de cabelos ruivos e longos, amarrados em um rabo de cavalo veio prontamente atendê-la.

Horas depois, Clara estava aguardando o momento de seu embarque em Heathrow, escrevendo rapidamente em seu notebook. Agora sim, sua história estava completa.

Quando Clara chegou no domingo de manhã, Ivan a estava esperando no aeroporto. Tentando disfarçar sua preocupação, ele carregava um lindo arranjo de flores.

- Que saudades! Você está bem?

- Melhor do que nunca - respondeu Clara - com um sorriso que o deixou intrigado.

No caminho até o carro, ela comentava detalhes de suas entrevistas e de como tinha sido divertida aquela semana, Ivan por sua vez, contou que tinha finalmente achado o lugar ideal para seu consultório, só faltava ela dar uma olhada para fechar negócio.

Ela não disse nada, mas gostou daquela atenção, o momento era muito especial para ela. Só faltava saber como ele iria encarar as últimas descobertas dela.

Depois de um banho e de reorganizar sua bagagem, ela estava pronta para conversar. Nas mãos uma caixa de presente, para Ivan, rapidamente aberta.

- Não entendi? Você voltou naquela loja?

- Voltei... conversei com o vendedor, queria mais informações sobre os candelabros, não te disse nada, mas vi os dois nos meus sonhos, eles ficavam no palácio...

- No quarto, em cima da lareira...

- Você também viu?

- Claro! Bom, vou te explicar o que está acontecendo...

- Espera, deixa eu te contar o que descobri no antiquario. O rapaz que vendeu os candelabros para nós disse que pertenciam a família dele há anos. Chamou até o avô dele para conversar comigo sobre eles. Bem, ele disse que ficavam na casa da avó dele, na Escócia e que a avó dele sempre dizia como a mãe dela tinha ganho aqueles candelabros da Rainha Vitória, pouco depois da morte do príncipe Albert.

- Mas não me consta que ela tenha se suicidado e tenho certeza que ela teve vários filhos...

- Sim, depois eu procurei pela história dela na internet e vi que essa parte do sonho não se encaixava, foi aí que me ocorreu uma coisa.

- O que?

- Que o inconsciente é poderoso, mas que ele podia estar mostrando para mim uma idéia, uma vontade dela naquele momento de dor, algo que nunca aconteceu. E também tem a questão do tempo, não sei quanto a você, mas não senti como se anos tivessem se passado, nem vi nada sobre filhos e olha que ela teve nove!

- Isso é verdade, pareceu que tudo aconteceu muito rápido, talvez meses após a cena na casa perto do lago...

- Sandrigham... eu pesquisei...

- E você? O que tinha para me dizer?

- Depois que você me contou sobre o sonho do suicídio, fiquei preocupado e conversei com o Dr Marco Aurélio, lembra dele?

- Seu velho "guru"...

- Sim, ele me disse que não me preocupasse, estávamos resgatando aquilo tudo porque éramos muito teimosos e precisávamos de uma razão sobrenatural para admitirmos que queríamos ficar juntos e que isso provocou esse monte de sincronicidades, mas que se fosse tudo analisado como deve, se nós tivessemos a capacidade de fotografar tudo o que vimos, notaríamos que tudo não passa de uma criação de nossas mentes.

- Pode ser... mas quer saber? Não importa, a vida continua! Se nós estávamos mesmo lá, se éramos aqueles dois e vivemos tudo aquilo, tanto faz! O que interessa mesmo é o agora.
Não temos como provar o que aconteceu, como o maluco do Dr Marco disse, não podemos fotografar, nem filmar tudo o que vimos e mesmo que tivessemos, as pessoas ainda iam achar que era algum truque, iriam tentar empurrar suas crenças e dogmas e distorcer tudo o que mostrássemos.

- Então, o que você vai fazer?

- Nada... vou publicar o livro como ficção e pronto... a história vai estar lá, como se fosse um produto da minha imaginação.

- Mas vai chamar atenção...

- Espero mesmo que chame, quero que seja um sucesso, mas como ficção e se alguém me perguntar, como perguntavam sobre os personagens do rockstar, eu respondo que é ficção.

Clara passou os próximos meses aperfeiçoando sua ficção, quase não saia do escritório, não sabia como aquela história terminava, mas sabia que no quarto ao lado, alguém que tinha escolhido há muito tempo, continuava por perto, compartilhando novamente sua vida.

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