1 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo VI)


Depois de um café da manhã britânico típico, os dois já estavam novamente nas ruas, tinham que pegar o metrô para ir até a feira de Antigüidades de Portobello.
Uma tarefa simples, mas que poderia ser complicada se não prestassem atenção e não fizessem a troca de linha na estação correta.

Aquela feira era uma “instituição” inglesa de pelo menos uns 200 anos, acontecia todos os sábados e cobria uma área vasta que se estendia por toda a Portobello Road e várias de suas travessas. Lá podia-se encontrar de tudo, de medalhas e condecorações militares a coleções de selos, latas de cerveja e caixas de fósforos.
Muitos objetos de decoração, louças e até jóias. A idade e o preço dos objetos variavam infinitamente.

Clara não gostava de comprar objetos usados, ela achava que junto com eles estava levando também um “pedaço” da energia de seus antigos possuidores, o que lhe causava uma certa aflição que ela não sabia explicar muito bem.

A única parte de que ela gostava na feira era a de “objetos” culturais, por assim dizer, livros, CDs, vinis, DVDs e até fitas VHS podiam ser encontrados em quantidade e com bons preços por lá.

Naquele dia, seu primeiro “achado” foi uma edição francesa do livro, “Memórias, Sonhos e Reflexões” de Carl Jung, que ela comprou imediatamente, e escondeu em sua mochila.

Enquanto isso, Ivan procurava por pequenos objetos de decoração que pudessem transformar-se em bons souvenirs para distribuir aos amigos quando voltasse ao Brasil.

Com as mochilas já carregadas de pacotes, os dois seguiram pela feira até encontrar um Pub onde serviam uma porção farta de fish'n’chips por apenas uma libra.

- E aí? Comprou muita coisa?

- Só uns CDs, e você?

- Tem muita coisa bonita, cara, mas bonita... comprei um gato para minha irmã.

- Gato? Ah! Aquela sua irmã maluca ainda coleciona gatos?

- Pois é, segundo o vendedor é uma antigüidade egípcia... acredito que ela vai gostar.

- Egípcia? Uau! Onde você achou?

- Em uma lojinha, do outro lado da rua. Vamos lá depois do almoço que eu preciso te mostrar algumas coisas que iam combinar muito bem com seu apartamento.

- Isso me lembra que você não apareceu mais lá, agora está bem mais bonitinho, tem até sofá.

- É, me enrolei demais naquela faculdade, só arranjei dor de cabeça, acho que não nasci para ser professor, nem para namorar a sério.

- Como assim?

- A Márcia era muito ciumenta, não me deixava nem respirar, você acredita que a gente terminou porque um dia, eu peguei ela me seguindo, depois que sai da casa dela?

- Nunca te disse nada, mas me afastei de você por causa dela, não gostava do jeito que ela me olhava. Então minha intuição estava certa, ela era mesmo uma psicopata?

- Pois é, só queria ter percebido isso antes de me envolver. Por isso, de agora em diante, não namoro mais, só fico.

Clara não queria ter ouvido aquela frase, mas ao mesmo tempo, ficou feliz por perceber o amigo, de novo, tão próximo.

- Sabe aquela história em que eu estava pensando ontem? Do casal, na época vitoriana?

- Sei, já escreveu alguma coisa?

- Já, peguei meu bloquinho e antes de dormir coloquei tudo no papel.

- Está aí?

- Sim, o que você acha? - Disse Clara estendendo o bloquinho para que Ivan pudesse pegá-lo.

- Ótimo! Você descreve essa casa tão bem que parece que a estou vendo, vai ser assim mesmo, em primeira pessoa?

- Ainda não te disse, mas eu sonhei com eles e no meu sonho, eu era a personagem.

- O que? Você?

- É, eu estava lá, bordando, dei ordens para a "criadagem", depois fui até a biblioteca e comecei a escrever uma carta.

- Hum! Interessante! Você vai aproveitar essa cena no livro?

- Não sei, você acha que eu devo continuar trabalhando nessa história?

- Acho que sim, me deu vontade de ler desde a primeira frase e você sabe que eu não ligo muito para ficção. Bom, eu comprei uma coisa para você, ia te dar só quando chegássemos no hotel, mas acho que este é o momento.

E depois de revirar sua mochila, estendeu uma caixa de papelão para Clara. Ela a abriu e tirou de lá de dentro o objeto mais lindo que já tinha visto, um delicado candelabro dourado, com certeza muito antigo que consistia em uma flor delicada ao lado de um imponente unicórnio.

Ela ficou alguns momentos sem saber o que dizer, não sabia explicar, era como se estivesse tendo um dejá vu, aquele objeto tinha um formato idêntico à escultura da fonte que viu em seu sonho, como isso era possível?

- Gostou? - Perguntou Ivan, parecendo preocupado.

- Amei! Nem sei o que te dizer, ele é idêntico a escultura da fonte, do meu sonho.

- Eu imaginei que fosse, por isso fiz questão de comprá-lo. O vendedor me disse que é do período vitoriano, não sei se é autêntico, mas achei que valia a pena.

CONTINUA

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