2 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo VII)


Depois de andar muito pela feira, os dois resolveram pegar o metrô para voltar para Victoria, não queriam chegar tarde, tinham intenção de passar no mercado para mais um jantar no quarto do hotel, quando avistaram em uma rua lateral, um lugar chamado Irish Pub.

Ficaram curiosos e decidiram passar por lá mais tarde, para comemorar seus achados na feira e a volta da inspiração de Clara.

Em pleno sábado à noite, o local estava cheio, mesmo assim, os dois conseguiram uma boa mesa. O pub não podia ser mais tradicional, com direito a bandeiras da Irlanda espalhadas por toda a casa.

Mas o que chamava mais atenção ali eram os vitrais coloridos, imitando janelas, em um deles, via-se Bono Vox retratado com seus famosos óculos pretos.

O ambiente "fervia", pelo jeito, haviam encontrado a melhor balada do bairro. Como faziam em São Paulo, pediram Guiness e uns sandwiches que pareciam muito apetitosos na foto do cardápio e simplesmente curtiram a noite.

- Sempre achei que não fosse gostar de Londres, mas estou adorando.

- Posso saber por que?

- Achei que seria sombria, monótona, chuvosa... sei lá, quando a gente não conhece um lugar acaba acreditando naquilo que os outros dizem.

- Nossa! Eu nem imagino quem seria capaz de achar Londres monótona, só poderia recomendar internação para um "ser" desses – respondeu Clara rindo.

- Com certeza! Eu assino embaixo da sua recomendação porque quem me disse isso foi a Márcia, minha ex.

- Não é possível! Os sintomas de esquizofrenia estavam lá para qualquer um ver e você nem percebeu, fico imaginando o que diria o Dr Jung nesta situação.

- Ele diria que somente um bom psicanalista credenciado pode recomendar internações, se bem que aquele ser humano precisava mesmo era de uma boa sala acolchoada e tratamento de choque a cada três horas.

- Às vezes eu fico pensando se eu também não preciso, fiquei tanto tempo sentanda na frente do computador em São Paulo, escrevia duas ou três páginas e depois apagava. Estava na minha casa, sozinha e não saía nada. Cheguei aqui e parece que as portas se abriram.

- Esse é o seu processo, não tem como brigar com ele, você precisa de um empurrãozinho externo para alcançar o que tem aqui dentro – disse Ivan enquanto passava as mãos pelos cabelos de Clara. Por exemplo, o que te fez escrever o primeiro livro?

Estava feita a pergunta que Clara não queria responder, em seu coração a vontade de responder simplesmente “você”, mas ela respirou fundo, disfarçou e respondeu de uma forma convincente: - Acho que foi o desemprego.

E continuou: - Quando eu saí da Fly Away queria voltar para minha área, escrever, fiz uns freelas para a Rolling Stone, fiquei meio chateada porque tive a impressão de que nunca mais conseguiria um emprego com carteira assinada na vida. Continuei tentando, escrevi para um montão de sites, fiz um blog e nada rolava, foi aí que comecei a colocar no computador minhas “memórias” do mundo do rock.

- Você gostava muito daquele cara, o tal rockstar, não é? - Ivan fez outra pergunta que Clara não tinha a intenção de responder.

- Hoje eu sei que não, mas naquela época em que o livro se passa, eu teria feito qualquer coisa por ele.

As noites em Londres terminavam cedo, não demorou muito para que o sino do bar, avisando que o serviço estava sendo encerrado soasse e logo, Clara e Ivan já estavam de volta ao hotel.

Clara, pegou novamente o candelabro tentando ver melhor seus detalhes.

- Ele é lindo, você é maluco Ivan, deve ter custado uma fortuna.

- Nem tanto, deve ser falso, como o gato egípcio que comprei para a Sandra.

- Mas parece verdadeiro, olha, aqui embaixo tem uma inscrição, 1840?

- Deixa eu ver. É mesmo.... e tem umas letras, você consegue ler?

- Não, ainda não consegui decifrar, mas devem ser as iniciais do artista que fez o candelabro.

- O vendedor tinha razão, devia ter comprado o par.

- Par? Tinha mais um igual a este?

- Não era igual, o outro tinha um leão ao invés do unicórnio.


CONTINUA

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