20 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo I)


FIM
As três letrinhas brilhavam no meio da tela do notebook quando Clara finalmente encontrou forças para levantar-se da cadeira do escritório, ambiente que ela mais freqüentara nos últimos três meses e de onde só saia para ir à cozinha e ao banheiro, na última semana.

Mas aquelas três letrinhas na tela significavam que agora ela poderia relaxar, quem sabe até dormir novamente em seu quarto, já que na última semana, vinha dormindo no sofá do escritório para ficar mais perto do computador, pois nunca sabia quando surgiria a inspiração para terminar seu segundo livro.

O primeiro tinha vendido muito bem, graças a uma estranha propaganda boca-a-boca, aquela história que rodava em sua cabeça desde sempre, havia conquistado o coração do público em cheio.

E mais ainda, uma relação de muita boa vontade e cordialidade em sua editora. Tanta boa vontade, que Clara passou vários meses lutando contra sua culpa por aceitar um contrato muito vantajoso, por algo que ela nem sabia se seria capaz de fazer.

Ninguém, nem mesmo Clara acreditava que algum dia fosse possível para alguém como ela viver de suas histórias, não por falta de fé, mas porque esta verdade estava escrita em muitas páginas que versavam sobre a literatura brasileira, principalmente naquelas que tratavam da profissão de escritor; não eram poucos os que tinham a admiração de todos, mas mesmo no meio destes grandes, era raro aquele que vivia unicamente do rendimento de seus livros.

Mas era o que ela estava conseguindo fazer há pelo menos dois anos, quando seu primeiro trabalho começou a vender como “pão quente” em todas as livrarias do Brasil e seus editores resolveram se assegurar da exclusividade dos direitos de suas próximas histórias.

Clara ficou quieta, aceitou o acordo, mas na verdade, não tinha a mínima idéia de como seria seu próximo livro, nem mesmo se teria, no prazo dado pela editora para a entrega dos originais, alguma coisa escrita.

Muitas idéias a atormentavam naquele momento, e se ninguém gostasse? E se o livro encalhasse nas prateleiras?

Aquela sensação era a pior que havia sentido em toda a sua vida, a insegurança e a necessidade que tinha de uma resposta positiva de seus leitores apareciam até em seus sonhos.

Ela sempre sonhava que chegava a uma livraria muito conhecida de São Paulo, perguntava aos vendedores por seu livro e eles apontavam para uma grande lata de lixo, no meio da loja, dizendo que o gerente havia mandado jogar tudo fora.

Intercalado com este, havia um outro bem pior em que as portas se fechavam em sua cara e ela não tinha mais nada... até a roupa de seu corpo havia sido tomada pela editora.

Mas a vida continuava e mesmo completamente insegura, ela havia assinado um contrato e precisava cumpri-lo.

Os sonhos e a insegurança a deixaram à beira de um ataque de nervos e depois de quase uma semana sem dormir, um velho amigo, da época em que Clara trabalhava em uma companhia aérea ligou para pedir algumas dicas sobre Londres.

Ele planejava viajar pela primeira vez para a cidade e sabia que Clara poderia ajudá-lo, já que era seu destino favorito e ela havia estado por lá inúmeras vezes.

- E aí? Você pode me encontrar para me ajudar a fazer um roteiro? - dizia Ivan do outro lado da linha.

Clara, por sua vez, enfrentando sua pior crise criativa, resolveu "dar um tempo" para si mesma e começou a olhar ao redor, tentando lembrar onde estavam suas anotações sobre Londres.

- Ok! Me encontre amanhã, lá pelas cinco, no Irish Pub. Vou levar meus mapas e anotações.

CONTINUA

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