29 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo V)


O ônibus parou na frente da Victoria Station, de onde os dois caminharam até o hotel. Uma construção georgiana, originalmente, um conjunto de residências transformado em hotel que ainda mantinha uma boa parcela de seu antigo charme.

Os dois haviam escolhido aquele local por ser o mais próximo e prático para que pudessem curtir a cidade da forma que mais gostavam, andando a pé, como sempre fizeram em todas as suas viagens.

Se por fora a construção era muito antiga, por dentro tudo era muito moderno, e isso significava encontrar no apartamento um bom frigobar, televisão a cabo, máquina de café e internet wireless gratuita. E pensar que há poucos anos era tão difícil encontrar na Europa hotéis que sequer tivessem banheiro privativo.

Para aproveitar a facilidade, Clara chegou a pensar em trazer seu notebook, mas acabou desistindo no último momento, preferiu "viajar leve", sem muitos objetos com que se preocupar, além disso, todos os contatos e reservas já haviam sido feitos no Brasil e agora ela tinha uma coleção de vouchers impressos guardados na agenda que seriam trocados por ingressos para passeios, museus e tudo o mais que estava incluido no roteiro. Ainda bem que as coisas evoluem.

Ivan também apreciava a idéia de ter tudo a mão, os dois subiram para o quarto 870, para um banho e poucas horas depois, já vestindo roupas confortáveis e carregando um mapa da cidade, já estavam nas ruas, a procura de um bom restaurante, de preferência um Pub, para seu primeiro almoço em Londres.

Encontraram um restaurante vegetariano, algo meio inusitado por lá, quase surpreendente, já que tinha um ambiente claro, com mesinhas na calçada cercadas por floreiras. Até mesmo naquela cidade tão tradicional, a mudança na mentalidade de uma parte da população, na busca por uma vida mais saudável começava a desafiar os velhos padrões.

- E aí, personal tour guide, o que você planejou para hoje?

- Nada, na verdade. Achei que chegaríamos acabados e preferi deixar o dia de hoje para descansar e passear um pouco aqui por perto mesmo.

- Hum... E o que tem de bom aqui perto?

- Tudo!

Os dois saíram do restaurante para fazer um reconhecimento dos arredores, em ritmo lento e tranqüilo, passaram por algumas lojas de souvenirs, e "mergulharam" no St James's Park, que no sol do início da tarde parecia o ambiente mais convidativo do mundo.

Tiraram muitas fotos; esquilos, pelicanos, gansos e jardins muito bem cuidados adicionaram uma boa dose de graça àquele dia de descanso dos dois.

Clara esqueceu completamente de seu livro, seu contrato e apenas concentrou-se em relaxar; Ivan parecia estar lendo sua mente e nem tocou no assunto o dia todo. Ambos precisavam de um respiro e o verde envolvente daquela paisagem era o melhor remédio.

Já no final da tarde, encontraram um mercadinho muito charmoso no caminho de retorno ao hotel, onde compraram vinho, pães, frios, queijos e patês para o jantar.

- Você tinha razão, acho que tudo o que eu precisava era relaxar um pouco - disse Clara depois de um longo silêncio de Ivan.

- Hein?! - respondeu Ivan, como se tivesse sido despertado repentinamente.

- Bom, quando nós estávamos andando lá no Saint James, eu comecei a perceber que ainda tenho o dom da escrita.

- Como é que é? Você escreveu alguma coisa? Me mostra...

- Não, ainda não está no papel, mas acho que já tenho um começo.

- Ah! Me conta, pelo menos...

- Ok! A história se passa na época vitoriana, um casal está em uma casa, perto de um lago, o homem está sentado em uma sala muito bem mobiliada e a mulher está no quarto, perto da janela, aproveitando os últimos raios do sol para terminar seu bordado.

- E daí?

- Nada, só vi esta cena por enquanto, sei que tem alguma coisa aí, só preciso passar para o papel.

- História de época? Tem certeza? Acho que seus fãs não vão mais te pedir autógrafo - disse Ivan entre risos.

- Acho que sim - respondeu sorrindo - eles não sabem o que estão perdendo.

Os dois viram um pouco de TV e logo caíram no sono, o dia foi longo e o cansaço finalmente venceu. Clara caiu no sono vendo a imagem do lago de sua história refletindo os tons avermelhados do céu de final de tarde.

Ela decidiu deixar seu bordado de lado apenas quando não havia mais nem sinal do maravilhoso sol que iluminou aquele dia quente de verão.

Tinha decidido terminar sua borboleta azul naquele mesmo dia, na verdade, gostava de fazer esses pequenos trabalhos manuais, mas não tinha muita paciência para esperar até que ficassem prontos.

Quando escureceu, os lampiões que iluminavam seus aposentos foram acesos, mas ela não gostava da luz que eles emanavam, pelo menos para continuar trabalhando e resolveu colocar de lado sua caixa de costuras.

Deu mais algumas ordens aos criados e foi até a biblioteca, onde seu marido parecia muito entretido com um livro nas mãos. Sentou-se na escrivaninha e começou a escrever uma carta, quando um sino tocou.

Não era um sino, demorou um pouco, mas ela percebeu que o som vinha do telefone em seu quarto, tocando porque fora programado para despertar às 9 horas. Clara abriu os olhos e viu Ivan de pé, arrumando sua mochila e já quase pronto para o café da manhã.

- Bom dia!

- Ivan?! Já de pé?

- Vamos, dorminhoca... estou morrendo de fome....

Clara ergueu-se ainda meio zonza e começou a procurar pelas roupas que iria vestir.

- Está sol?

- Não muito...

- Então é melhor levar um moleton, ou coisa que o valha, porque essa cidade costuma ficar bem gelada quando o tempo está nublado assim.

- Já está na minha mochila, assim como os óculos de sol, a máquina fotográfica, o protetor solar e o mapa.

- Quanta eficiência! Acho que te ensinei muito bem, meu pupilo! – respondeu Clara, a caminho do banheiro.

CONTINUA

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