26 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo IV)


Uma semana depois, os dois se encontraram novamente na porta de um hotel, próximo do apartamento de Clara para pegar o ônibus até o aeroporto. Com medo de perder as malas, os dois optaram por um tipo de bagagem que pudesse ser levada à bordo.

Chegaram, e como de hábito, correram até a livraria. Os livros de Clara estavam na vitrine, um fato que ainda tinha a capacidade de colocar um grande sorriso em seu rosto. Uma sensação de calor que vinha diretamente de seu coração e chegava a deixar suas bochechas coradas.

Na livraria os dois conferiam os últimos lançamentos quando alguns adolescentes se aproximaram, pedindo por fotos e autógrafos. O livro havia rendido para Clara uma certa fama, principalmente entre os adolescentes, já que era totalmente ambientado no mundo do rock.

E quase sempre estes adolescentes e também a mídia, tentava saber com Clara quem foi a inspiração do livro. Ela nunca revelou esta informação e jurava que seus personagens eram pura ficção, mas o seu rockstar era um personagem bem real, que ela conheceu na adolescência.

Os dois saíram da livraria e entraram na fila para embarque, logo foram chamados por um funcionário da companhia aérea que os convidou a entrar em outra fila, a da classe executiva, Clara era uma celebridade para a empresa e os dois receberiam um upgrade.

Eles ficaram muito felizes, finalmente viajariam em grande estilo, já que nas vezes anteriores, tinham que esperar que todos embarcassem e muitas vezes, ainda correr para chegar a tempo no avião e sentarem-se longe um do outro, nas poltronas que sobravam.

Desta vez, poderiam fazer o que mais gostavam, conversar; e foi Clara quem começou a conversa, logo após o jantar.

- Preciso te contar... tive um sonho estranhíssimo, na véspera de ir te encontrar no pub.

- Sério? Me conta, quem sabe eu consigo decifrar. – respondeu Ivan, deixando de lado a revista com a programação do Canal de Filmes de Bordo.

- Eu estava em um lugar lindo, todo de mármore.

- Um túmulo?

- Não, seu bobo, um palácio, as paredes tinham muitos espelhos e entalhes em dourado, só podia ser um palácio.

- Só isso?

-Você está apressadinho hoje, hein? Bom, eu andava por um corredor lindo; de um lado, janelas enormes, do outro, os tais espelhos e os enfeites dourados na parede.

- Sei, e aí?

- Bom, eu continuava andando até chegar a uma porta.

- E esta porta, estava aberta ou fechada?

- Estava fechada, mas eu abri, tinha uma maçaneta também dourada, bem no meio dela e a própria porta era toda entalhada com detalhes em dourado.

- Hum, só isso?

- Não! Desmancha essa cara de Dr Freud e me deixa falar. – respondeu Clara caindo na risada.

- Ok, mas essa não é a minha cara de Dr Freud, que isso fique bem claro!

- Bom, quando a porta se abriu, desci uns poucos degraus e atravessei um gramado, nunca estive naquele lugar, mas parecia um daqueles jardins de Paris, só que era pequeno e tinha só uma fonte no meio.

- Fonte?

- É, tinha uma fonte com uma estátua também dourada de um unicórnio.

- E daí? O que aconteceu? Apareceu o homem do saco e levou a fonte embora.

- Não, você nunca vai esquecer mesmo essa história, né? Já te disse que...

- Não liga, estou tirando uma, o que aconteceu?

- Nada, eu só me sentei em um banco e me parece que fiquei horas olhando aquele unicórnio, que por sinal era muito lindo.

- Hum... Essa viagem promete!

- Como assim? Me conta, você sabe o que significa tudo isso?

- Acho que sei, seu notebook está na mala?

- Não, por que?

- Então vamos precisar de um bom caderno, a primeira loja em que vamos parar em Londres será uma papelaria.

- Pára de fazer mistério e me conta logo.

- Você não me disse que estava em crise criativa, que não conseguia escrever, pois é, todos os símbolos do seu sonho indicam que essa fase terminou e que você está pronta para voltar a escrever.

- Eu devo ter perdido alguma coisa...

- Não perdeu nada, o palácio todo branco, com espelhos é você, ele indica uma necessidade sua de continuar procurando o caminho mais correto, sem ceder a tentação de escrever qualquer coisa, fiel ao seu talento de escritora. Ao mesmo tempo, as janelas e a porta abrindo significam que você está abrindo o caminho para o novo.

- Faz sentido, mas eu não acho que esteja pronta.

- Espera, tem mais... o jardim, estava bem cuidado, não é?

- Sim, era lindo, não tinha nenhuma folha fora de lugar.

- Então, o jardim pode ser a sua criatividade e a tal fonte é de onde ela vem, o unicórnio é um animal mítico, não é?

- É, mas...

- Então, você presenciou no sonho o momento em que a sua criatividade voltava a dar sinais de vida, o unicórnio é um símbolo bem forte de renascimento, agora o que você deve fazer é relaxar e prestar alguma atenção no que aparecer em sua cabeça, você precisa de um caderno já.

Clara não pôs muita fé na interpretação que Ivan deu a seu sonho, mas mesmo assim, tirou da bolsa um bloquinho de anotações e o deixou à mão, caso surgisse alguma idéia ainda no avião.

Logo, os dois começaram a ficar cansados e acabaram cedendo ao apagar das luzes na cabine do avião. Como não sabia viver sem música, Clara primeiro verificou com a comissária se era permitido e depois tirou da bolsa seu MP3 para ouvir mais uma vez, sua seleção de favoritas, onde Led Zeppelin reinava absoluto.

Pegou no sono e só acordou quando os comissários já começavam a distribuir o café da manhã.

Logo, o avião pousou em Heathrow e os dois pegaram um double decker, aqueles ônibus vermelhos de dois andares, até Victoria Station. No caminho, Clara que ainda estava um pouco perdida e ansiosa, começou a sentir uma imensa alegria que ela atribuiu ao reencontro com seu lugar favorito no mundo.

CONTINUA

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