25 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo III)


O Irish Pub era um barzinho simpático, daqueles onde a comida é muito boa e a bebida ainda melhor.

Na região dos Jardins, o bar era uma das escolhas mais frequentes de Clara e Ivan. Afinal, os dois eram "ratos de livraria" e cinéfilos apaixonados e o Pub ficava muito próximo de duas ótimas livrarias e de todos os bons cinemas da região.

Antes, Clara e Ivan podiam ficar horas no bar, mas ainda precisavam retornar para casa antes do horário de fechamento do Metrô, agora, que Clara havia se mudado para seu novo apartamento, há apenas duas quadras, não existia mais essa preocupação.

Mas, agora que podiam "curtir" a liberdade de ficar por lá até o horário de fechamento do bar, os dois estavam novamente distantes. Seu último encontro aconteceu dois dias depois do coquetel de lançamento de seu livro. Na verdade, o segundo lançamento, uma jogada de marketing para dar mais visibilidade a um livro que já estava no mercado há 3 meses e que naquele momento estava começando a se transformar em um best-seller.

E o encontro aconteceu no novo apartamento de Clara, ainda tinha poucos móveis e grandes almofadas jogadas sobre um velho tapete no chão eram os únicos confortos que sua sala de estar oferecia. Mas a geladeira tinha muitas garrafas de vinho, seu quarto já estava bem mobiliado e agora ela tinha um canto só dela, onde podia ficar a vontade para escrever seu segundo livro, aquele que já estava pago na forma de adiantamento, em seu contrato, mas que estava tão difícil de começar.

Quando abriu a porta, o perfume de Ivan trouxe de volta velhas lembranças de bons momentos que os dois tinham vivido, ele trazia nas mãos uma caixa pequena que entregou a Clara.

- Você precisa dele.

A caixa, apesar de pequena era pesada. Clara a abriu rapidamente e envolto em folhas de papel de seda, uma estátua de Ganesha, o Deus hindú que tinha cabeça de elefante,
brilhava em suas mãos.

- Você sabe, ele é o protetor dos escritores, conta a lenda que ele tirou uma de suas presas para ajudar o sábio Vyasa a escrever o Mahabarata.

- Obrigada, Ivan, estava mesmo precisando de uma mãozinha dos Deuses.

Ivan era formado em psicologia e falava com tanto entusiasmo sobre Carl Jung, que até o sisudo Roberto Antunes, editor de Clara, já havia sugerido que escrevesse um livro sobre o cientista. Mas Ivan nunca se animou muito com a idéia, havia voltado a estudar há alguns anos e conseguiu uma vaga de professor na mesma faculdade onde fez sua pós-graduação.

Estas aulas deixaram Ivan à beira de uma estafa, ele tinha pouco ou nenhum tempo livre, o que praticamente eliminou a vida social de sua agenda. Sua amizade com Clara, que também estava atravessando uma fase meio reclusa, agora se resumia a uma troca de e-mails semanal. O namoro de Ivan com a tal estudante não durou muito tempo, mas foi o suficiente para deixar Clara enciumada.

Mas naquela noite, ela não precisava ficar com ciúmes, os dois estariam juntos novamente e o melhor, para ela, pelo menos, desta vez, foi ele quem ligou.

O Irish Pub esperava pelos dois, com suas paredes escuras, de madeira, seu balcão que transportava qualquer um para o passado, as mesas pequenas, também de madeira escura e os muitos objetos espalhados pelo bar que lembravam a velha Irlanda. Até uma curiosa coleção de gnomos, desses que são usados pra decorar jardins, se alinhava divertida pelas janelas do bar.

Pontual, como sempre, Ivan já estava na mesa favorita dos dois, quando ela chegou apressada com sua sacola.

- Você está aqui faz tempo? Perguntou Clara, enquanto abraçava o amigo.

- Acabei de chegar. Que saudades!

- Pois é, você sumiu!

- É, estava trabalhando demais, pedi demissão na faculdade e agora, vou curtir minhas férias. Depois que voltar da Europa, arrumo outra coisa, dar aulas à noite é muito cansativo.

- Faça como eu, escreva um livro e convença todo mundo de que é um escritor. Depois assine um contrato, receba os adiantamentos, mas não escreva nenhuma linha... é pura adrenalina, toda vez que chega o dia 23, você senta e chora, porque é um mês de trabalho a menos que você terá para que sua grande idéia surja.

- Oi Zé, você já sabe o que nós queremos?

- Deixa ver - responde o velho garçom - Duas Guiness e uma porção de irish delights?

- Muito bem! Parabéns pela memória Zé! Você acredita nisso, Clara? Faz tanto tempo que a gente não vem aqui juntos.

- Mas eu venho aqui sempre, sozinha e com meus outros amigos. Você sabe que eu tenho muitos outros amigos, não é? Clara provoca esperando ver nos olhos do amigo os ciúmes de sempre. E atinge em cheio seu objetivo, pois Ivan solta um dos seus risinhos sem graça e muda rapidamente de assunto, para ela, uma de suas mais costumeiras "bandeiras".

- Espera um pouco, você estava me dizendo que ainda não escreveu nada? Falta quanto tempo para o prazo de entrega na Editora?

- Faltam exatamente nove meses e 29 dias, hoje é dia 24, certo?

- E nada ainda? Meu Deus, eu já estaria em pânico! Por que você não escreve qualquer coisa? Um livro de memórias? Sei lá!

- Já comecei pelo menos umas mil vezes, mas nada parece estar a altura do Rockstar, eu tenho a impressão de que nunca mais conseguirei escrever.

- Imagina, Clara, você só precisa se acalmar e encontrar o assunto certo. Aliás, já que você ainda nem começou, por que você não vem comigo?

- Como assim?

- Vem para Londres, vou ficar lá uns quinze dias, não estou exatamente bem de grana, mas assumo que necessito urgentemente dessa parada, antes de me enfiar em outra roubada como eram aquelas aulas na faculdade.

Com a cabeça já ficando leve, depois do segundo copo de Guiness, Clara começou a achar que a idéia de Ivan fazia todo sentido do Mundo. Antes que ficasse bêbada demais, ela resolveu que iria para Londres.

- Ok, você venceu! Você acaba de ganhar uma guia exclusiva na melhor cidade do mundo!

CONTINUA

2 comentários:

Julyany disse...

tipo assim, continua aeeeeeeeeeeeeee! hehehehe
muito bom o teu conto, ou melhor, o começo dele né? rsrsrs

:*

Drika disse...

Oi Julyany,

Obrigada pelos elogios, estou continuando!
Abs,
Drika