24 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo II)


Naquela noite, não foram os pesadelos de perseguição que apareceram para abalar seu sono, mas Clara se viu percorrendo um longo caminho, entre largos e iluminados corredores, de um lado, grandes janelas deixavam a luz do sol entrar e iluminavam espelhos com molduras douradas que sugeriam sofisticação e nobreza.

Tudo indicava que estava em um palácio, o piso de mármore era atravessado com muita leveza por Clara e embora ela estivesse descalça, nada lhe causava a mínima estranheza, sentia-se muito à vontade, mesmo naquele ambiente imponente, como se estivesse em sua própria casa.

Ela continuou seguindo pelos corredores e finalmente chegou a uma porta de madeira branca, também toda entalhada, com detalhes em ouro e uma linda e alta maçaneta, bem no centro.

Quando a porta se abriu, ela pode ver que alguns degraus levavam até um bem cuidado gramado, também banhado por um delicioso sol da manhã.

Pássaros entoavam sua melodia e o ar da manhã batia fresco em seu rosto, lá fora também a sensação era de familiaridade, ela sabia que além daquelas sebes altas e bem cuidadas se escondia o mais belo de todos os jardins, a mais perfeita combinação entre plantas e flores que alguém poderia desejar, a inspiração era francesa, e no centro de toda aquela beleza, uma fonte dominava toda a cena, e como todos os detalhes ali e na casa era dourada, um altivo unicórnio se erguia em suas patas traseiras.

Aquele era o seu lugar, o seu jardim e lá dentro, ela procurou um banco de onde tinha a sensação de que sempre apreciava aquela visão paradisíaca.

A magia daquele momento desapareceu quando o despertador começou a tocar, teria um longo dia pela frente e isso incluía continuar procurando seus guias de Londres para ajudar um velho amigo.

A ausência de um pesadelo naquela noite ajudou a melhorar um pouco seu estado, afinal, dali há exatos 10 meses, ela seria definitivamente desmascarada como a pior escritora do mundo, aquela que vendeu um livro à editora que nunca seria escrito.

Mais uma tentativa frustrada estava começando, seu ritual de sentar-se à frente do computador, dar uma olhada na internet, responder e-mails, abrir o programa de textos e terminar como sempre, batendo o recorde de pontos na Paciência, naquele dia tinha que ser um pouco mais breve, já que iria sair com Ivan, a quem não via há quase um ano.

Clara sempre gostou de tê-lo por perto, gostava de suas longas conversas que costumavam varar a noite, sempre ao redor de uma boa garrafa de vinho. Viajavam juntos sempre que podiam, muitas pessoas até achavam que eram amantes, mas sua relação era totalmente platônica.

Antes de escrever seu primeiro livro, Clara começou a sentir-se atraída por ele, mas não tomou nenhuma iniciativa, com medo de perder sua amizade.
Sofreu bastante quando algumas semanas depois, Ivan começou a namorar uma garota que conheceu na faculdade onde lecionava, mas decidiu afastar-se por um tempo do amigo e foi neste período que resolveu passar para o computador uma história que vinha elaborando desde a sua adolescência, quando decidiu que a única profissão que poderia ter era a de escritora.

Por insistência dos pais, Clara acabou cursando a Faculdade de Comunicação, mas como não conseguia emprego em sua área, terminou aceitando trabalhar em uma empresa aérea internacional.

O salário era bom, mas o trabalho só se mostrava compensador nas férias, quando ela aproveitava os descontos nas passagens para rodar pelo mundo afora.

- Cinco horas! Não posso me atrasar - disse para si mesma enquanto pegava a sacola cheia de mapas e livros.

Quando ela chegou a portaria do prédio onde morava, caia uma chuva fina, o Irish Pub ficava há duas quadras de seu apartamento e era um dos poucos lugares em São Paulo onde Clara se sentia em casa.

CONTINUA

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