24 de jan de 2008

Pipa Amarela


Naquela manhã ainda sem sol, Clara despertou com uma sensação muito estranha. Um pouco mais agitada do que o normal, não sabia bem porque, mas as coisas já começaram de uma forma errada quando a campainha estridente do despertador carregou consigo todas as cenas de seu sonho.

Aquilo para Clara era muito ruim, não só pelo susto, seu coração estava disparado como se tivesse corrido vários quarteirões, mas porque estava gostando muito de um exercício que aprendera recentemente com um professor da faculdade de psicologia.

- Anote todos os seus sonhos - ele sempre repetia a instrução em suas aulas - Esta anotação vai ajudar que você entenda a linguagem simbólica do seu inconsciente....
Desta vez ela sabia que tinha sonhado, sabia que o "recado" do inconsciente era importante, mas não conseguia lembrar-se de nada.... Restava apenas levantar da cama e correr, porque a esta altura, ela já estava atrasada.

Correu até o banheiro e de lá, para o trabalho; sem tempo nem para o café, mais um longo e tedioso dia se apresentava com uma chuvinha fina e gelada batendo contra a janela do ônibus lotado.

- Inferno! Todos os dias, a cena era a mesma e Clara se perguntava mais uma vez por que fazia isso e para quem.

Mas a manhã até que passou rápido e para sorte de Clara, com poucos incidentes. Apenas seu chefe passou por ela, com cara de poucos amigos, anunciando que a reunião no Rio de Janeiro com a diretoria da empresa havia sido cancelada porque o aeroporto estava fechado mais uma vez.

- O que mais falta acontecer? pensava Clara, quando viu o homem molhado e meio desgrenhado, atravessar sua sala bufando.

A sua pergunta foi respondida rápido; na hora do almoço, mal chegou ao restaurante, não demorou mais de um minuto para perceber seu ex-namorado se aproximando no meio de um grupo de amigos barulhentos que "abaixaram o volume" da conversa quando a notaram por perto.

Enquanto entrava na fila para escolher sua refeição no buffet, Clara pensava em como sua vida vinha mudando nos últimos tempos, primeiro foi seu final de namoro, ao mesmo tempo em que saiu o financiamento de seu apartamento e finalmente ela estava morando sozinha.

No trabalho, Márcia, sua melhor amiga, tinha mudado há duas semanas para o Rio de Janeiro; elas ainda mantinham contato por celular e pela Internet, mas ela fazia muita falta, especialmente, em momentos como este.

A hora do almoço passou muito rápido, e quando já estava saindo do restaurante, Clara viu uma mulher carregando um lindo arranjo de orquídeas amarelas e isso trouxe imediatamente para sua cabeça uma imagem do sonho da noite anterior, aquele que ela julgava perdido para sempre, e ela viu de novo a amiga Márcia olhando pela janela e apontando para uma pipa amarela enquanto na outra janela, uma onda gigantesca se aproximava pronta para destruir tudo.

- Nossa!? Mas não era só isso - pensava Clara no caminho de volta para o escritório.
E não era mesmo, quando o celular tocou, ela lembrou-se que o sonho continuava, mas em um cenário bem mais simples, ela andando pela calçada, enquanto conversava com a amiga no celular.

- Alô? Márcia, estava pensando em você agora mesmo.

- Oi Clara, tudo bem por aí?

- Oi Márcia, tudo... ah! Nossa! Que engraçado! Agora que você me ligou, acho que estou tendo um deja vu, sonhei que estava conversando com você no celular, na noite passada.

- É mesmo? Que sonho? Perguntou a amiga já rindo da coincidência.

- Não sei direito... primeiro você estava me mostrando uma pipa amarela voando no céu...

- Ah, fala sério Clara, pipa? É ruim, hein...

- É, mas tinha uma onda gigante, vindo do outro lado...

- Ah! Isso tem mesmo, estou em Copacabana, olhando para o mar...

- Isso! "Pisa"! Tem outra aqui, de lama, que eu preciso pular para atravessar esta rua...

- Bom, mas depois da pipa, tinha esse outro sonho?

- Ai meu Deus, espera, que eu estou lembrando agora... A ligação caia e....

- Marcia? Alô? Márcia?

- Que estranho, a ligação caiu, igual no sonho - dizia Clara para si mesma, meio espantada com a coincidência e discando o número do celular da amiga.

- Alô? Márcia?

- Alô - respondeu uma voz masculina no telefone da amiga - Quem está falando?

- Oi, aqui é a Clara, estava falando com a Márcia, este é o celular dela, não é?

- É sim... a senhora é parente dela?

- Não, ela é minha amiga, mas quem está falando?
- Aqui é o Carlos, moça, a senhora fica calma, porque estava tendo um tiroteio aqui e a moça do celular...

- Acabou de ser baleada.... interrompeu Clara, recuperando em um flash toda a memória de seu sonho.

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