26 de dez de 2008

A CHAVE (capítulo VIII)


A ansiedade de Ana era tão grande que a longa viagem de trem de Paris a Saint Jean Pied de Port quase não foi sentida.
As paisagens pareciam passar depressa demais pela janela, campos verdes, grandes montanhas azuis, animais em imensos pastos, aos seus olhos não eram mais do que manchas de tinta em uma imensa tela.

Abraçada ao caderno, ela só estava concentrada naquilo que estava por vir. Tão concentrada por sinal, que mal notou o movimento enorme e barulhento de turistas na pequena estação de trem onde desembarcou.

Andando por ruas que mais pareciam um cenário de algum filme sobre a Idade Média, ela só percebeu que as coisas seriam ainda mais complicadas do que ela esperava quando começou a ouvir música tocando ao longe.

Na tal praça principal, cenário em que esperava ver apenas alguns poucos turistas e mochileiros iniciando a peregrinação para Santiago de Compostela, uma multidão multicolorida dançava ao som hipnótico de DJs.

O volume parecia fazer tremer as pedras das antigas construções ao redor e por um momento, Ana sentiu-se tão desamparada que chegou a considerar retornar para a estação de trens e fugir dali naquele mesmo momento.

O pior é que ela nunca gostou de multidões, sentia-se mal quando tinha que enfrentá-las já que vivia em uma grande cidade e elas acabavam aparecendo sempre em seu caminho, apenas procurava evitar estas ocasiões.

Sentia que deveria atravessar a grande praça para chegar a um café com mesas na calçada, que ficava do outro lado, onde as coisas pareciam um pouco mais tranquilas.

Foi pelo fundo, atrás da multidão e bem lentamente. Ao chegar, sentou-se em uma mesa e pediu um refrigerante, enquanto esperava, tentava observar atentamente cada uma das pessoas, procurando algo de familiar nelas, já que Josef havia escrito que ela reconheceria seu mestre de imediato.

Enquanto ela buscava um olhar na multidão, uma explosão próxima ao palco, fez com que a multidão começasse a correr em todas as direções. Ela nem sabe muito bem o que aconteceu, mas o fato é que no espaço de alguns segundos, tudo escureceu.

Continua

4 de dez de 2008

A CHAVE (capítulo VII)


Nos dias que se seguiram, Ana sentia-se estranhamente tranqüila, no meio de um verdadeiro furacão.

Tudo mudava ao seu redor e inúmeros preparativos eram providenciados para que a próxima fase dos planos de Josef pudesse acontecer, a idéia era a de começar a estudar a tal ciência, que ela deveria desenvolver e passar adiante, como o legado de sua vida.

Mas ela teria apenas dez dias de prazo para deixar tudo em ordem em sua casa e partir para a Europa, onde vivia aquele que teria a missão de ensiná-la. O complicado seria chegar lá, já que nem mesmo um passaporte ela tinha e para piorar, a Polícia Federal já estava há mais de um mês em greve, e o documento só era fornecido em casos de urgência.

Embora para Ana existisse certamente uma urgência, dificilmente ela conseguiria provar isso para policiais grevistas mal humorados, que mantinham o serviço de emissão de passaportes funcionando precariamente.

Mas Ana sabia que isso não seria necessário, aos poucos ela percebia que a rede de pessoas que pertencia à "corrente subterrânea" estava em todos os lugares e em apenas dois dias, o seu documento estava emitido e pronto para a viagem.

Para Ana tudo ainda era muito estranho, mas todos os obstáculos de seu caminho desapareciam como se o universo inteiro estivesse em um esforço concentrado para que ela pudesse cumprir com seu compromisso.

Tudo foi muito rápido e na data combinada, Ana estava na poltrona de um avião, fazendo a primeira viagem internacional de sua vida, indo rumo a Paris, de onde seguiria por trem para um pequeno vilarejo na fronteira da França com a Espanha chamado Saint Jean Pied de Port.

Lá, uma pequena cidade, a primeira da rota do famoso "Caminho de Santiago", ela deveria encontrar o homem a quem Josef chamava apenas de "Mestre".

Estranhamente, naquele mundo de certezas que sua vida havia se tornado, o tal Mestre era a única coisa que deixava Ana insegura.

Não sabia seu nome ou seu endereço, sequer sabia se ele falava sua língua; no caderno apenas uma anotação que não dava muitas pistas:

"Dia 18/07 às 16 hrs, você deve ir ao encontro do Mestre, ele a espera em Saint Jean Pied de Port, na praça principal da cidade.

Lembre-se de que deve obedecê-lo cegamente, somente assim poderá aproveitar tudo o que ele tem para ensiná-la.
PS: Não se preocupe, você conseguirá reconhecê-lo assim que o vir."

Como? Não sabia, mas se o tal vilarejo era mesmo pequeno, talvez fosse quase deserto, se resumisse a apenas uma casinha e uma Igreja, como já ouvira falar de alguns lugares que faziam parte do famoso "Caminho de Santiago", uma rota medieval de peregrinação, que um escritor brasileiro havia popularizado.

Após o jantar a bordo, Ana adormeceu com o caderno de Josef nas mãos e teve um sono bastante agitado, imagens iam e vinham em sua mente, até que começou a sonhar com um enorme cão labrador amarelo, que se aproximava dela e roubava o caderno de suas mãos. Acordou assustada, ainda no meio da madurgada, quando percebeu que o caderno que segurava havia caído no chão.

Depois de acordar, teve dificuldade em pegar no sono novamente e apenas fechou os olhos até que o cheiro do café da manhã e o barulho dos comissários dessem a ela a chance de movimentar-se pelo avião novamente, sem achar que estaria incomodando o sono dos outros passageiros.

Assim que terminou o café da manhã, o comandante já anunciava que o pouso no aeroporto Charles de Gaulle aconteceria dentro de alguns instantes e agora era hora de concentrar-se para conseguir pegar o trem a tempo de encontrar o Mestre, quem quer que fosse ele, na hora marcada.

Continua

15 de ago de 2008

A CHAVE (capítulo VI)


O jantar transcorreu em clima tenso, com Dona Alma contando histórias que pareciam absolutamente sem importância para Ana, que não conseguia se concentrar na conversa.
E o vinho contribuiu para a sensação de que o mundo girava em alta velocidade, produzindo um zumbido desagradável em seus ouvidos.

Já na sobremesa e em uma última tentativa de buscar explicações para tudo o que estava acontecendo, Ana achou que era o momento de seguir o plano de Josef:

- Dona Alma, sobre o livro do Sr Josef...

- Sim, você acha que deve ser publicado, filha?

- Não... na verdade, ele pediu que não fosse.

- Como? Não entendi...

- Bom, tem um bilhete no caderno, escrito por ele, pedindo que esse livro não seja publicado e eu não gostaria de contrariar sua vontade.

- Está bem, filha. Antes de morrer, ele me disse que não abrisse este caderno por nada neste mundo, que apenas o entregasse a você e que aceitasse a sua decisão.

- Pois bem, Dona Alma, ele me deixou uma tarefa a ser cumprida e eu decidi cumprí-la. Eu nunca disse nada, mas não acredito nestas coisas; para mim, aquilo que a ciência não explica, simplesmente não existe.

- Não se preocupe, filha, eu sei exatamente do que você está falando... O Josef me disse tudo isso, em sonho, no dia em que te entreguei o caderno. Ele me falou que para você aceitar seu destino, seria necessária uma prova...

O coração de Ana pulou novamente. Como Dona Alma podia saber de todas estas coisas? Ela nunca havia dito nada disso para ninguém, eram preocupações que ela mantinha em segredo, precisava da imparcialidade em sua vida profissional.

- Ele me disse, que hoje, eu teria esta prova. Me pediu para preparar este jantar, fazer uma aposta na loteria e ligar a TV, exatamente às 22hrs, em um canal que eu nem conheço direito. Faltam cinco minutos, acho melhor ligar o tal canal.

- Filha, independente do que acontecerá agora, quero que você entenda uma coisa, se ele te escolheu para continuar este trabalho, é porque você é a pessoa certa. Não duvide de você...

As mãos de Ana tremiam na direção do controle remoto, o número do canal anotado em um papelzinho em seu bolso, junto com o bilhete da aposta.

Era um novo canal de notícias, mas naquele momento o programa exibido era sobre turismo: falava sobre Bled, a cidade natal dos Witzinger. Será que esta era a prova?

Mas o letreiro com as notícias do dia continuava passando no rodapé da página e logo ele indicava: "Apenas um ganhador na Mega-sena acumulada, o prêmio, de 20 milhões de reais vai para quem apostou nos números: 02 15 17 42 47 51."

Sem entender direito e com o coração na boca, Ana anotou os números em um papel rapidamente e com as mãos trêmulas, percebeu que estavam todos em sua aposta.

Continua

13 de ago de 2008

A CHAVE (capítulo V)


"Desculpe ter que usar este truque, mas sei que você, neste momento, quer e precisa de provas. Siga minhas instruções e você as terá."

Sem saber exatamente se deveria, seguiu cada uma das instruções escritas naquela página e quando finalmente voltou para casa, não podia deixar de sentir-se um pouco tola por isso.

Seguir instruções escritas em um caderno, por um velhinho que nunca disse "coisa com coisa" - Ah! Eu devo mesmo estar ficando maluca! - repetiu para si mesma, enquanto olhava ansiosamente para o relógio, pendurado na parede da cozinha.

A ansiedade havia levado completamente sua fome e embora ela tivesse comprado todos os ingredientes para fazer um bom jantar, seguindo as ordens de Josef, ela sabia que não conseguiria sequer pensar em comida naquele momento, quanto mais fazê-la.

Demorou mais alguns minutos, que mais pareceram horas, para que Ana finalmente decidisse que era hora de começar a preparar o jantar, nem que fosse para sair um pouco daquela confusão que rodava o tempo inteiro dentro de sua cabeça.

Começou cuidadosamente aquele ritual de preparar os ingredientes que mais tarde seriam apreciados por ela e sua convidada, Dona Alma, para quem havia ligado antes de sair de casa.

- Bom, se nada acontecer, pelo menos terei mais uma história maluca para contar - continuava numa tentativa de convencer a si mesma de que tomara a melhor decisão.

O jantar já estava quase pronto e Ana foi tomar um banho e preparar-se para receber Dona Alma, que pontual, como sempre, apareceu em sua porta carregando flores e uma garrafa de vinho.

- Oi, filha... Trouxe para você.

- Obrigada, Dona Alma. São lindas! Vou colocá-las em um vaso.

- Então, hoje é o dia, não é?

Enquanto caminhava até o armário para procurar um vaso, o coração de Ana saltou novamente diante da pergunta de Dona Alma. O que será que ela sabe?

- Não entendi, Dona Alma, o que a senhora disse?

- Falei com Josef nesta noite, em um sonho, e ele me disse que hoje é o dia.

- Não sei, Dona Alma. Mas tenho algumas coisas para contar para a senhora. Só preciso que, por enquanto, a senhora esqueça sobre este assunto. - Disse Ana, quase em pânico, com a certeza de que o que estava vivendo jamais poderia ser explicado.

Continua

7 de jul de 2008

A CHAVE (capítulo IV)


Depois de alguns dias, Ana agora já havia se acostumado novamente à presença constante de Dona Alma e seus convites para um chá e muita conversa, encontros que devolveram a ela uma sensação de “vida em família” que já não sentia há muito tempo.
Em uma destas ocasiões, Dona Alma entregou a Ana um caderno com mais escritos de seu marido, supostamente um livro inédito em que ele estava trabalhando na época de sua morte.

Junto com o livro, um pedido para que Ana desse sua opinião profissional sobre aquele material, afinal, Josef não teve tempo de decidir se deveria ou não revelá-lo ao mundo.

Por intuição, Ana preferiu esconder da editora a existência daquela obra inédita; tinha medo que a publicassem, independente de seu conteúdo, simplesmente por razões comerciais, já que as obras de Josef sempre vendiam muito bem.

Não era de seu feitio adiar as solicitações que recebia, especialmente as de Dona Alma, mas o fato é que ela não tinha vontade de iniciar aquela leitura naquele momento; guardou o caderno em seu guarda-roupas e passou a inventar compromissos inadiáveis, sempre que sua vizinha mencionava o livro.

O pior é que não havia uma razão concreta para este comportamento, apenas sentia que ainda não era o momento de abrir aquele caderno e que a hora certa estava se aproximando.

Uma nova semana de trabalho correu e ela nem teve muito tempo para pensar, mas notou que Dona Alma não havia entrado em contato nenhuma vez, talvez ela tivesse percebido que estava se esquivando da tarefa, sentiu vontade de devolvê-lo. Foi até o armário em que o guardava, pegou-o e naquele instante, seu coração deu um salto.

E ainda sem saber porque, sentiu que aquele era um sinal, estava na hora, aquele era o momento de finalmente abrir o caderno.

A Chave

"Ana, só você deve ler este livro, você foi escolhida para ser o novo elo da Corrente e deve, a partir de agora, comprometer-se com este conhecimento milenar, desenvolvê-lo a seu modo, e mais tarde, quando o momento chegar, buscar o próximo elo, que permitirá que a corrente siga adiante, após a sua morte.

Este é o livro necessário para a compreensão de todos os meus livros anteriores, sim, você estava certa quando os criticava, dizendo que parecia que faltava algo neles; aqui você tomará conhecimento das coisas que faltam e assim, terá condições de dar continuidade a Grande Obra.

E para que isto seja possível, é necessário antes que você saiba que junto com este legado de conhecimento, também existe um legado de poder.

Use-o quando for necessário, mas antes de usá-lo, compreenda-o, o que te entrego agora é o resultado de um estudo que já dura milhares de anos, uma tradição que custou a vida e o destino de muitos sábios e que se mal usado pode trazer verdadeiras catástrofes para a humanidade.

Você tem o discernimento, compreende como ninguém as necessidades humanas e por isso foi escolhida. Agora é sua vez de dar continuidade a este trabalho, o tempo irá te mostrar seu sucessor.

Escolha certo e o mundo continuará a salvo, escolha errado e, bem, você já sabe, já viu os resultados das escolhas erradas em seus estudos no mundo astral. Faça o seu caminho e trabalhe sempre no seu melhor, seu espírito sabe o que é seu melhor, use-o sempre que uma escolha se fizer necessária e estará tudo bem.

Sei que está agora olhando para este caderno estarrecida, sem compreender nada, mas posso te provar o que estou te dizendo com um truquezinho barato, mas que te dará duas coisas importantes: os meios para fazer o que é necessário e a prova de que digo a verdade.

Sei que está imaginando que este texto que agora está lendo é apenas um delírio de meus últimos momentos na Terra, mas tenho certeza de que sua intuição lhe diz que há muito mais do que seus olhos agora enxergam.

Respire fundo, feche os olhos e quando estiver pronta, vire esta página. Após fazer isso, siga passo a passo minhas instruções e verá com seus próprios olhos."

Com as mãos suando e sem saber exatamente o que fazer, ou pensar, Ana virou a página e quando o fez, sentiu seu coração disparar.

Continua

1 de jul de 2008

A CHAVE (capítulo III)


O cartãozinho, cor de rosa, com pequenas rosas douradas nos cantos, era inconfundível, uma lembrança imediata de seu início de carreira na editora e de Dona Alma, uma velhinha muito simpática, esposa de um de seus autores favoritos:

“Cara Ana,
Passei para vê-la hoje à tarde, mas você não estava em casa. Estou me mudando para o apartamento 514 e gostaria muito de recebê-la para um chá.
Abraços,
Alma Witzinger”

Ana, ainda carregando as sacolas, tocou a campainha no 514, o outro apartamento de seu andar, mas ninguém atendeu.

Resolveu então entrar em casa, ainda tentando ouvir algum barulho que denunciasse a presença de mais alguém naquele andar, mas não havia qualquer movimento e ela acabou adiando um novo contato para o dia seguinte.

Na manhã de domingo, novos ruídos a acordariam, vestiu-se rápido e no vai-e-vem de carregadores que faziam a mudança, finalmente, avistou Dona Alma.

Bem mais frágil do que se lembrava, a velhinha veio a seu encontro: - Querida! Que bom que você está aqui! Agora somos vizinhas!

- Dona Alma! Que surpresa! Como vai o senhor Josef?

- Ah! Querida... meu Josef faleceu no ano passado...

- Sinto muito, Dona Alma, não sabia...

- Avisei a editora, mas parece que você estava de férias na época, pelo menos, foi o que me disseram.

- Tiro férias sempre em junho, gosto de viajar e cheguei à conclusão de que este é o mês ideal para isso.

- Pois é, filha... o meu Josef se foi em junho do ano passado, morreu dormindo, o pobrezinho... passei aqui pelo seu prédio, mas me disseram que você não estava.

- Fui para o sul, Dona Alma, passei 20 dias na Serra Gaúcha, passeando e depois, quando voltei, fiquei em casa reformando minha cozinha que estava com problemas de encanamento. Que pena, ninguém me avisou...

- Mas ele está bem, filha, você se lembra do que ele sempre dizia? Ninguém morre...
Claro, Dona Alma...

Ana continuou ajudando Dona Alma com a mudança e a convidou para almoçar em seu apartamento; não tinha feito supermercado naquela semana, mas era muito criativa e sabia bem se virar, mesmo com poucos ingredientes.

Depois da sobremesa e do café, as duas sentaram-se na sala de visitas para continuar a conversa. Dona Alma gostava muito de falar, era a coisa que mais fazia, Ana lembrava-se de que aceitara alguns convites para tomar chá em sua casa, sempre ouvindo muito mais do que falando.

Dona Alma contava-lhe longas histórias sobre sua juventude na Europa Oriental, numa pequena vila chamada Bled. Foi lá que conhecera Josef, ela ainda era adolescente e ele, um jovem farmacêutico recém-formado e com fama de bruxo.

Seus pais nunca aprovaram o namoro e para conseguir se casar, os dois fugiram da vila, o que causou um razoável escândalo. Depois viria a guerra e o casal, com medo do que estava começando a acontecer na Europa, resolveu pegar um navio e veio para o Brasil.

Aqui, o rapaz conseguiu um bom emprego em um laboratório e pode ter um pouco mais de tranqüilidade. Tentaram ter filhos, mas nunca conseguiram e o tempo foi passando, até que Josef, já aposentado, resolveu começar a escrever livros.

Suas obras eram bastante complicadas, segundo ele, Manuais de Alquimia, que lidos com atenção, serviriam de base para que qualquer pessoa interessada conseguisse ingressar naquela arte.

Para Ana, não faziam qualquer sentido, menos ainda quando eram entregues em suas mãos, ainda no manuscrito original, para serem devidamente digitados e revisados.

Embora complicados, os tais manuais vendiam muito bem e estavam sempre na lista de best-sellers da editora, o que fazia com que todo o staff, Ana incluída, tivesse que seguir recomendações intermináveis dos editores para agradá-los.

Mas isso, para Ana que perdera seus avós muito cedo, nem era necessário, já que simpatizara com o casal, em seu primeiro contato, na editora.

Era sua primeira semana de trabalho e aqueles dois velhinhos, chegaram, apresentaram-se e deixaram em suas mãos um grosso caderno universitário, todo escrito em uma letra miúda, de difícil leitura.

Continua

27 de jun de 2008

A CHAVE (capítulo II)


Não demorou muito para Ana se acostumar com sua nova rotina pós-separação, afinal pouca coisa havia efetivamente mudado em sua vida.

Acordar cedo, fazer o impossível para chegar ao trabalho no horário, voltar para casa, preparar algo para comer, arrumar as coisas para o dia seguinte, dormir e no dia seguinte, tudo igual.

Seu trabalho, como revisora também andava desgastante, sua editora resolvera publicar uma linha de manuais técnicos traduzidos do inglês que além de ser de difícil compreensão significavam que ela precisava ter atenção redobrada para que tudo saísse perfeito.

Sem muitos horizontes nem na editora, sua semana terminava da mesma forma que a anterior e a nova semana começava sem mudanças e embora tenha sentido muitas vezes vontade de sair com sua turma de amigos, para quem sabe, conhecer outra pessoa; Ana não se sentia à vontade, achava que precisava de algum tempo para si mesma antes de partir definitivamente para um novo relacionamento.

A rotina dos últimos meses era completamente previsível, até que a manhã de um determinado sábado, no final de agosto, começou diferente.

O apartamento vizinho, desocupado desde que Ana havia se mudado, estava sendo ocupado novamente e o barulho da mudança despertou-lhe antes do horário de costume.

O pior era que parecia que mais um sábado frio e chuvoso se anunciava, Ana não tinha planos, exceto passar pelo mercado, locadora de filmes e depois, lá pelas 8 da noite, dar um telefonema para o pizza delivery.

Mas já que estava acordada, teve a idéia de aproveitar melhor o dia que, por sinal, dava mostras de que afinal não seria tão ruim, até pequenas frestas de sol se faziam ver e apesar do frio, ela decidiu ir até o centro da cidade, um dos seus programas favoritos.

Deixou o carro em casa, pegou o metrô e foi mais uma vez garimpar nos inúmeros sebos alguma coisa de seu interesse.

Leitora compulsiva, Ana conhecia todas as boas livrarias, onde com muito pouco dinheiro era possível montar uma boa biblioteca.

Tinha herdado aquele hábito de comprar muitos livros de sua mãe, também leitora compulsiva, que a havia apresentado à literatura através de uma irresistível coleção de livros do escritor Monteiro Lobato, que a acompanharam por toda infância.

Depois vieram os livros da escola, Machado de Assis, José de Alencar, todos aqueles escritores que seus colegas liam por obrigação, odiando cada página, Ana lia e relia pelo prazer de deixar sua imaginação viver aquelas tramas recheadas de palavras difíceis que já não se faziam ouvir mais no dia-a-dia.

Gostava tanto de ler, que quando chegou a hora de prestar vestibular optou por letras, já naquela época, um curso pouco concorrido, pois não oferecia muitas opções de emprego.

Ao sair da faculdade, deu algumas aulas em um cursinho, mas não gostava de ensinar e acabou conseguindo um trabalho temporário como revisora em uma conceituada editora.

Apesar do trabalho árduo e do salário pouco convidativo, Ana não tinha nenhuma vontade de mudar de emprego, pois no final das contas, era paga para ler livros, a coisa que mais gostava de fazer na vida.

Quando completou 30 anos sentiu a necessidade de mudar-se da casa dos pais, procurou um apartamento, fez um financiamento e mudou-se tão rapidamente que mesmo anos depois, seu pai ainda a olhava com uma certa estranheza, sem compreender o porquê daquela decisão que ele via como drástica.

Mais uma vez com uma sacola cheia de livros, Ana voltou para casa no final da tarde, pronta para terminar com os outros compromissos de sua “agenda” de final-de-semana, mas para sua surpresa, encontrou uma cesta com flores com um cartão na porta de seu apartamento.

Continua...

11 de abr de 2008

A CHAVE (capítulo I)


A chuva caia forte na tarde em que Ana decidiu ir embora, para ela era só mais um sinal que servia como reafirmação de seu propósito, ela sentia que o frescor do ar renovado pela água, parecia lhe dar razão: - A fila anda! Repetia para si mesma, enquanto colocava a mala no carro.

Abriu a janela, trancou a porta, jogou a chave para dentro pela janela e sem olhar para trás entrou no carro... - Chega! Tudo tem um limite e finalmente o dela havia sido atingido, não existia mais nenhuma razão para ela ficar naquela casa.

Estava deixando para trás algo importante, era a primeira vez que tinha tomado a decisão de viver com alguém, tinham uma boa relação, eram amigos que se transformaram em amantes, mas a rotina e a intimidade que envolve a vida a dois tornaram a convivência impossível.

A intimidade e a traição... para Ana, que sempre teve dificuldade em confiar em alguém, era a gota d'água; daquele momento em diante nada que os dois tinham vivido importava mais, só o fato de que o único homem em que já confiara na vida havia se mostrado indigno dessa confiança.

Mil imagens rodavam em sua cabeça enquanto dirigia sob a chuva, mas ela sentia que estava deixando tudo para trás, mais alguns dias, talvez umas férias, um tempo fora da cidade e ela estaria pronta para colocar novamente seu "currículo" no mercado.

E por falar em mercado, precisava ligar para a imobiliária com urgência, avisar que não tinha mais a intenção de alugar seu apartamento, precisava voltar a morar nele, agora que não morava mais com Roberto, mas isso ficaria para amanhã; com toda aquela chuva e com o trânsito dando sinais de que levaria horas para chegar a qualquer lugar, restaria para ela passar a noite na casa de uma amiga, que já tinha oferecido abrigo alguns dias antes, quando soube de toda a situação.

Pelo menos, não passaria aquela noite sozinha...

No dia seguinte, um feriado, Ana trabalhou o dia inteiro para tornar seu velho apartamento novamente habitável, uma terapia infalível para ajudar a limpar de sua mente a impressão dos últimos dias ao lado de Roberto, da descoberta acidental da traição à decisão final de acabar com a relação, tudo tinha acontecido muito rápido, nem parecia que eles se conheciam desde a infância.

Roberto era vizinho de Ana, os dois frequentaram a mesma pré-escola, depois a mesma escola e só se separaram na adolescência, quando o pai de Roberto foi transferido para o Rio de Janeiro. Perderam o contato e só se encontrariam novamente em um bar de rock, onde Roberto tocava guitarra com sua banda underground.

Ana estranhou os cabelos longos, mas o guitarrista daquela banda barulhenta, que a impedia de conversar com suas amigas tinha alguma coisa de familiar e não tinha parado de olhar para ela a noite toda.

Quando o show terminou, Ana foi até o banheiro e quando voltou, encontrou o músico já instalado em uma das cadeiras vagas ao redor de sua mesa, Clara, uma de suas amigas, parecia estar conversando animadamente com ele.

- Ana, por que você não disse que conhecia a banda?

- Eu? Não conheço... - respondeu na defensiva, já imaginando que a amiga estava caindo em algum tipo de golpe.


- Você não lembra mesmo de mim, Ana? Sou eu, o Roberto, filho da Dona Lúcia...

- Roberto? E na cabeça de Ana logo apareceu um garotinho sardento de cabelos louros, cacheados, sem os dentes da frente e com os olhos mais azuis que ela já tinha visto.

- É, sou eu... lembra? Eu mudei para o Rio...

- Claro... Nossa! Não esperava te encontrar!

De madrugada, quando finalmente saíram do bar, os dois combinaram que se encontrariam novamente e esse reencontro foi só o início do que seria o relacionamento mais sério de sua vida.

CONTINUA

12 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo final)


Quando desligou o telefone teve uma sensação estranha e, seguindo os conselhos de Ivan, decidiu concentrar-se apenas em organizar o material que levaria para as entrevistas do dia seguinte.

Depois de fazer uma checagem cuidadosa de cada item, programou o telefone para tocar às 6 da manhã, ligou a TV, programou o timer e decidiu relaxar.

Aquele final tinha sido muito chocante para ela, ter a consciência de que tinha sido capaz de tirar a própria vida deixou-a triste e decepcionada consigo mesma.

Sabia que estava longe de ser perfeita, mas suicida? Pelo menos sentia que desta vez nada conseguiria deixá-la chegar àquele ponto.

No dia seguinte, ela comeu um sanduiche com as sobras do seu jantar e esperou pelo micro-ônibus da produção na porta do hotel.

Mais um dia lindo estava amanhecendo e embora não deixasse transparecer, Clara sentia-se como uma criança pois estava indo ver de perto aquele mundo mágico do bruxinho inglês. Fez o que podia para parecer fria e crítica, mas por dentro estava em festa.

Voltou para o hotel só no final da tarde, ainda mais apaixonada por aquela profissão que havia escolhido como saída para sua vontade de escrever.

Algumas entrevistas que ainda estavam pendentes foram confirmadas para sexta-feira e o seu retorno para o Brasil já estava marcado para o sábado à noite, restava para ela decidir agora se tentaria encontrar a loja de antiguidades na Portobello Road ou se desistiria de vez de descobrir mais sobre aqueles personagens que estavam cada vez mais próximos dela e de Ivan.

O sábado chegou rápido, Clara foi até a feira de antiguidades e foi refazendo o roteiro da sua primeira passagem com Ivan. Desta vez, não teve dificuldade para encontrar a loja, que por sinal exibia em sua vitrine o candelabro dourado com o leão.

Lá dentro, um rapaz de cabelos ruivos e longos, amarrados em um rabo de cavalo veio prontamente atendê-la.

Horas depois, Clara estava aguardando o momento de seu embarque em Heathrow, escrevendo rapidamente em seu notebook. Agora sim, sua história estava completa.

Quando Clara chegou no domingo de manhã, Ivan a estava esperando no aeroporto. Tentando disfarçar sua preocupação, ele carregava um lindo arranjo de flores.

- Que saudades! Você está bem?

- Melhor do que nunca - respondeu Clara - com um sorriso que o deixou intrigado.

No caminho até o carro, ela comentava detalhes de suas entrevistas e de como tinha sido divertida aquela semana, Ivan por sua vez, contou que tinha finalmente achado o lugar ideal para seu consultório, só faltava ela dar uma olhada para fechar negócio.

Ela não disse nada, mas gostou daquela atenção, o momento era muito especial para ela. Só faltava saber como ele iria encarar as últimas descobertas dela.

Depois de um banho e de reorganizar sua bagagem, ela estava pronta para conversar. Nas mãos uma caixa de presente, para Ivan, rapidamente aberta.

- Não entendi? Você voltou naquela loja?

- Voltei... conversei com o vendedor, queria mais informações sobre os candelabros, não te disse nada, mas vi os dois nos meus sonhos, eles ficavam no palácio...

- No quarto, em cima da lareira...

- Você também viu?

- Claro! Bom, vou te explicar o que está acontecendo...

- Espera, deixa eu te contar o que descobri no antiquario. O rapaz que vendeu os candelabros para nós disse que pertenciam a família dele há anos. Chamou até o avô dele para conversar comigo sobre eles. Bem, ele disse que ficavam na casa da avó dele, na Escócia e que a avó dele sempre dizia como a mãe dela tinha ganho aqueles candelabros da Rainha Vitória, pouco depois da morte do príncipe Albert.

- Mas não me consta que ela tenha se suicidado e tenho certeza que ela teve vários filhos...

- Sim, depois eu procurei pela história dela na internet e vi que essa parte do sonho não se encaixava, foi aí que me ocorreu uma coisa.

- O que?

- Que o inconsciente é poderoso, mas que ele podia estar mostrando para mim uma idéia, uma vontade dela naquele momento de dor, algo que nunca aconteceu. E também tem a questão do tempo, não sei quanto a você, mas não senti como se anos tivessem se passado, nem vi nada sobre filhos e olha que ela teve nove!

- Isso é verdade, pareceu que tudo aconteceu muito rápido, talvez meses após a cena na casa perto do lago...

- Sandrigham... eu pesquisei...

- E você? O que tinha para me dizer?

- Depois que você me contou sobre o sonho do suicídio, fiquei preocupado e conversei com o Dr Marco Aurélio, lembra dele?

- Seu velho "guru"...

- Sim, ele me disse que não me preocupasse, estávamos resgatando aquilo tudo porque éramos muito teimosos e precisávamos de uma razão sobrenatural para admitirmos que queríamos ficar juntos e que isso provocou esse monte de sincronicidades, mas que se fosse tudo analisado como deve, se nós tivessemos a capacidade de fotografar tudo o que vimos, notaríamos que tudo não passa de uma criação de nossas mentes.

- Pode ser... mas quer saber? Não importa, a vida continua! Se nós estávamos mesmo lá, se éramos aqueles dois e vivemos tudo aquilo, tanto faz! O que interessa mesmo é o agora.
Não temos como provar o que aconteceu, como o maluco do Dr Marco disse, não podemos fotografar, nem filmar tudo o que vimos e mesmo que tivessemos, as pessoas ainda iam achar que era algum truque, iriam tentar empurrar suas crenças e dogmas e distorcer tudo o que mostrássemos.

- Então, o que você vai fazer?

- Nada... vou publicar o livro como ficção e pronto... a história vai estar lá, como se fosse um produto da minha imaginação.

- Mas vai chamar atenção...

- Espero mesmo que chame, quero que seja um sucesso, mas como ficção e se alguém me perguntar, como perguntavam sobre os personagens do rockstar, eu respondo que é ficção.

Clara passou os próximos meses aperfeiçoando sua ficção, quase não saia do escritório, não sabia como aquela história terminava, mas sabia que no quarto ao lado, alguém que tinha escolhido há muito tempo, continuava por perto, compartilhando novamente sua vida.

11 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XV)


Clara deu uma olhada no relógio e percebeu que eram só duas da tarde, pegou o mapa da cidade e procurou a estação de metrô mais próxima, tinha tido uma idéia, não sabia muito bem se daria certo, mas era um começo.

Comprou uma passagem, conferiu novamente onde precisaria trocar de linha e seguiu para Portobello Road, onde tentaria encontrar a loja onde Ivan comprou o candelabro.

Como nunca tinha pensado nisso antes? Só naquele instante ela tinha percebido que ele estava presente em vários daqueles sonhos, talvez fosse esse o elemento que faltava para compreender completamente aquilo que estava acontecendo.

Encontrar a loja de onde saiu o candelabro seria uma tarefa um pouco mais complicada do que ela imaginava, mesmo com as ruas livres, sem as barracas da feira, era difícil tentar localizar um entre diversos antiquários que funcionavam naquela área.

Para piorar a situação, alguns estavam fechados, porque só abriam nos finais de semana. Clara acabou desistindo, tinha agora duas opções: ligava para checar se Ivan ainda tinha o cartão da loja com o endereço ou voltava no final de semana para ver se conseguia encontrar a loja sozinha.

Preferiu a segunda, já que não queria deixar Ivan preocupado, nem chamar a atenção dele para o fato dela ter se lembrado do candelabro.

Andou mais um pouco, entrou em duas ou três lojas de antigüidades e decidiu voltar para o hotel, tinha que ficar em contato com sua revista porque algumas das solicitações de entrevistas ainda estavam pendentes.

Passou no mercado, comprou algumas coisas para jantar e sentou-se na cama, com o notebook no colo. Resolveu pesquisar na internet e jogou algumas palavras aleatórias nos sites de busca como candelabro, 1840, unicórnio, Londres.

A única coisa que descobriu foi que o unicórnio estava, ao lado do leão, no brasão das armas inglês e que lá simbolizava a Escócia.

Buscou por mais informações, mas nada surgiu de concreto; olhou para o relógio, abriu a última página de seu livro, fechou os olhos e procurou relaxar, enquanto procurava em sua memória: - Ele está morto, o que acontece agora?

Ela não conseguiu ir ao funeral, seu médico aconselhou que descansasse, ou também acabaria pegando a febre. Voltou em seguida para Londres, foi a pior viagem de toda a sua vida, ao voltar para casa, mandou doar todas as suas roupas, encomendou novas, todas na cor preta.

Passaram-se semanas, meses e ela continuava ali, como anestesiada, nem conseguia perceber tudo o que acontecia à sua volta. Deixou de sair de casa, passava seus dias entre a biblioteca, onde sentava-se na poltrona à frente da lareira e o jardim, onde podia passar horas a fio próxima das roseiras.

A cada dia mais calada, os empregados temiam por sua sanidade, sem filhos, os parentes próximos tentavam uma aproximação de olho na herança e naquele ponto, não encontrariam qualquer resistência.

Foi assim, que um primo distante de seu marido arrumou argumentos legais para tomar o palácio de Londres. Sem forças para lutar, ela mudou-se para a casa do lago.

Até que em uma madrugada de janeiro, ela levantou-se no meio da noite, foi até a biblioteca, escreveu uma carta e antes que qualquer um pudesse impedir, atirou-se em suas águas geladas.

Com lágrimas nos olhos, Clara procurou pelo telefone e ligou imediatamente para sua casa, Ivan, que estava chegando naquele momento demorou a atender.

- Eu sei como termina!

- Sério? O passeio no parque então deu certo?

- Não, não escrevi nenhuma linha no parque, tive que voltar para o hotel e agora eu vi o final da história.

- E?

- Bom, ela ficou muito triste depois que ele morreu, só vestia luto e largou mão de tudo, até perdeu o palácio de Londres.

- Sério?

- Daí ela foi morar naquela outra casa, na beira do lago, até que numa noite, ela se atirou no lago e morreu.

- Nossa! Que trágico! Você viu tudo isso?

- Vi, foi horrível!

- Você está bem?

- Estou, não se preocupe, tenho muito trabalho por aqui, amanhã vou ao set de filmagem do Harry Potter, entrevistar a JK.

- Não gostei desse seu sonho de hoje. Você tem certeza que está bem?

- Por que?

- Por nada – disfarçou Ivan – não esquece de pedir para ela autografar os livros.

- Claro que não! Você sabe que a gente podia ficar rico vendendo esses livros autografados pela internet?

- É mesmo! Não tinha pensado nisso. Mas voltando ao seu sonho, me promete uma coisa?

- O que Ivan?

- Esquece seu livro por enquanto, não tenta escrever o que você viu, nem mexe com isso enquanto estiver aí. Ok?

- Ok... você vai me explicar o porquê?

- Assim que você voltar, eu te explico.

CONTINUA

10 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XIV)


Mas esse era seu maior problema, Ivan tinha se mudado para seu apartamento e os dois passaram os últimos dias de férias procurando por um consultório para alugar, já que pela primeira vez, depois de formado, ele tinha decidido começar a trabalhar como analista.

Clara estava feliz, mas ainda tinha um livro para terminar, como não conseguia, aceitou voltar para sua rotina de freelas e colaborações em revistas, jornais e sites. Não era o ideal, mas pelo menos, não deixava muito tempo livre para preocupar-se.

A música tinha voltado ao seu cotidiano e, repentinamente, surgiu um convite para que Clara fosse até Londres fazer algumas entrevistas para inaugurar a sessão de vídeos online do site de uma das revistas em que colaborava. Aceitou no mesmo momento, embarcaria dali a dois dias e ficaria uma semana por lá.

Ivan não gostou muito da idéia, queria o apoio dela naquele momento especial que estava vivendo, finalmente tinha compreendido que a vida era muito curta para ser vivida correndo atrás de dinheiro.

Ao mesmo tempo, sua curiosidade em desvendar os labirintos da mente humana estava mais aguçada do que nunca, todas as expectativas que tinha desde a adolescência e que o levaram a cursar a faculdade de psicologia ressurgiram em seu horizonte.

Clara tinha várias entrevistas marcadas para o próximos dias e não podia falhar. Ao mesmo tempo, voltava para a cidade onde tudo tinha começado.

Ela desceu do avião, pegou o metrô e foi correndo para o hotel onde seu primeiro entrevistado, o cantor Robert Plant recebia a imprensa.

A entrevista coletiva era sobre a decisão da banda Led Zeppelin se reunir para uma única apresentação, no final do ano. Além de participar da coletiva também estava acertada uma entrevista exclusiva, falando do evento, que ela gravaria em vídeo.

O encontro com o ídolo foi emocionante, mas Clara estava cansada, assim que a entrevista terminou, ela pegou sua bagagem e foi até o mesmo hotel em que tinha ficado com Ivan há poucos dias, fez o check-in, tomou um banho e deitou-se com o notebook nas mãos para conferir o material que tinha conseguido.

Respondeu alguns e-mails, estava muito cansada, mas ainda resolveu ligar para saber como tinha sido o dia de Ivan.

- Oi, tudo bem por aí?

- Tudo, e por aí? – respondeu Ivan rindo.

- Estou acabada! A minha entrevista ficou por último, na minha vez de gravar, o Plant já estava com uma bolsa embaixo dos olhos do tamanho da minha mão! Mesmo assim ele é lindo! Você ficaria chateado se eu pedisse ele em casamento?

- Ele é velho e não funciona mais!

- Pára! Ele é perfeito, meu sonho de consumo desde sempre!

- Escuta aqui, Clara, você ligou para mim só para dizer que quer dar para essa bicha velha? – respondeu Ivan entre gargalhadas que mal disfarçavam seus ciúmes.

- Há! Tá com ciúmes! Adorei! – riu Clara – Mas estou ligando só para te dizer que já cheguei ao hotel, o número do quarto em que eu estou é 517 e se você precisar entrar em contato comigo...

- Eu mando um e-mail que sai mais barato...

- Tá! Bom, agora vou dormir, estou muito cansada, avião sempre acaba comigo... Toda essa correria hoje e amanhã eu tenho o dia livre, só depois de amanhã é que vou entrevistar a JK Rowling.

- Ok! Pede umas dicas para ela para usar no seu livro.

- Que bonitinho! Está achando que é engraçado! – riu Clara – Mas falando sério, amanhã vou aproveitar para escrever um pouco, estava pensando nisso no caminho até aqui... Vou levar meu notebook no St James e ver o que acontece.

- Talvez dê certo, mas cuidado, não confio nem um pouco naqueles pelicanos. – brincou Ivan.

- Depois dessa, só desligando o telefone! Estou com saudades, queria que você estivesse aqui!

Colocando o fone no gancho, Clara também desligou o notebook e deitou-se para dormir. Ligou a TV na função timer, para tentar apressar um pouco o processo, truque infalível que ela tinha aprendido há muito tempo.

O sol já estava alto quando ela acordou, isso significava que tinha perdido o café da manhã do hotel e precisaria ir até alguma lanchonete para comer e de lá andou até o parque, estendeu um pano na grama e sentou-se. Como ela teve medo de carregar o notebook até lá, apenas tirou da bolsa a caneta e o bloco de anotações.

Ficou lá por horas e nada surgiu, nenhuma idéia, nenhuma lembrança; talvez ela estivesse precisando mesmo das tais dicas da Rowling ou pior, talvez ela estivesse precisando de uma nova história.

CONTINUA

8 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XIII)


A semana passou e como Clara tinha previsto, sem nenhum sinal de Ivan. Quando chegou ao Brasil, os sonhos realmente cessaram, parece que as portas da memória estavam fechadas mais uma vez.

O livro continuava a ser escrito, as anotações eram a base, mas em seu computador, a história ganhava cada vez mais cores. Enviou os primeiros capítulos ao seu editor e alguns dias depois, recebeu um telefonema marcando uma reunião, para o jantar do dia seguinte, em um restaurante próximo da casa de Clara.

Esse não era um bom sinal, só podia significar uma coisa, a editora não queria aquele livro e ela teria que encontrar outra história rapidamente, quem sabe alguma coisa mais contemporânea, falando de música.

Para não ficar maluca pensando, resolveu relaxar, descobriu que o músico que inspirou seu primeiro livro estaria fazendo um show em um barzinho próximo de sua casa e achou uma boa idéia ir dar uma olhada, já estava muito cansada.

Passou uma noite muito divertida, ao lado dos velhos amigos e quando finalmente voltou ao seu apartamento, o dia já estava amanhecendo.

Ela foi até a lareira, pegou o candelabro com o unicórnio, acendeu uma vela, desceu as escadas e seguiu para o jardim; seu palácio agora estava abandonado, vidros quebrados, cortinas rasgadas voavam embaladas pelo vento. O corredor era o mesmo, mas as paredes estavam escurecidas, entalhes e espelhos quebrados, folhas de árvores, brincavam na água suja empoçada no chão.

A porta para o jardim parecia ter sido arrombada e nuvens cinza chumbo eram o toque final naquela cena de devastação. O que antes era gracioso e cuidado, agora estava amarelado, queimado e tomado pelo mato. A fonte estava seca e esverdeada pelo limo, o banco onde sempre se sentava estava quebrado.

O interfone tocou, Ivan estava na porta, precisava conversar com ela imediatamente.

- Ok, deixa ele subir, Valdomiro.

- Oi Clara, a gente precisa conversar...

- Entra, eu fui pra balada ontem, acabei de acordar.

- Desculpa vir tão cedo! Andei conversando com o professor Souza e ele me deu umas dicas sobre o que aconteceu com a gente, disse que era bem incomum, mas que teoricamente poderia acontecer com qualquer um.

- Espera, Ivan, esse é aquele cara que você tinha ficado de agendar.

- É, estive no consultório dele e nós conversamos....

- E?

- Bom, ele achou a mesma coisa que eu, nossas memórias podem ser reais, coisas que aconteceram em uma vida anterior e que lembramos agora porque nós dois precisávamos de um empurrãozinho para deixar o medo de lado e ficarmos juntos...

- Não acho que seja isso - interrompeu Clara – deve ter alguma outra explicação, mas quer saber? Não me importa mais, quero esquecer de tudo isso, foi tudo uma enorme bobagem desde o princípio. Não importa mais, estamos aqui, vivendo no século XXI. Não somos mais aquelas pessoas. Elas estão mortas!

- Eu sei disso...

- Então, você não precisa se preocupar mais com elas, não tem nenhuma obrigação de ficar por aqui, se você não quiser...

- Mas... espera! E se eu quiser ficar?

- Como?

Ivan puxou Clara em sua direção e beijou-a. – Será que agora você entendeu que eu não quero ir para nenhum lugar?

Clara passou o dia inteiro com Ivan e resolveu levá-lo para o tal jantar com Roberto Antunes, se fosse para levar um chute da editora, ao menos ela teria o ombro de Ivan para chorar.

Quando os dois chegaram ao restaurante, o editor já estava lá.

- Boa noite, Antunes, demoramos?

- Não, eu é que estou adiantado.

- Você já conhece o Ivan, não é?

- Claro, meu futuro autor... você ainda está me devendo um livro sobre Jung.

- Deixa essa coisa de literatura para a Clara, eu estou pensando em abrir um consultório.

Sem conseguir conter mais a ansiedade, Clara interrompeu a conversa casual dos dois: - E aí? O que você achou do meu livro?

- Vou ser muito sincero, Clara, não é o que a editora esperava...

- Sabia! Viu o que eu disse, Ivan? Era tudo uma bobagem...

- Não, longe disso, o que eu quis dizer é que não esperávamos por uma história sobre reencarnação, mas o livro, até onde eu li é perfeito, vai vender até mais do que o primeiro. Vai já para casa e termina logo essa história!


CONTINUA

7 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XII)


Clara não disse nada, mas ficou chateada por Ivan ter sugerido a antecipação do retorno, para ela aquela idéia só poderia significar uma coisa, apesar de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, Ivan estava prestes a abandoná-la mais uma vez.

Ivan, por sua vez, estava mesmo impressionado com aquele fenômeno e buscava quase desesperadamente uma explicação racional. Não disse nada para Clara, foi até um cybercafe próximo ao hotel para enviar um e-mail a um professor de sua faculdade, pedindo ajuda para interpretar o ocorrido.

A resposta chegou no dia seguinte, na forma de um convite para os dois comparecerem juntos ao consultório do tal professor para que ele pudesse examinar melhor o caso.

O embarque para o Brasil foi bem complicado e os dois foram acomodados em lados opostos dentro da cabine.

Depois de tentar assistir o filme de bordo e ler alguma coisa dos livros que comprou em Londres, Clara resolveu tentar dormir um pouco, tarefa quase impossível nas diminutas poltronas da classe econômica.

Ivan também estava inquieto, mas Clara percebeu que ele já estava dormindo na metade do filme. Desembarcaram, passaram rapidamente pela alfândega e pela Free Shop e sem trocar muitas palavras chegaram ao saguão do aeroporto.

Clara teve a nítida impressão que aquela era a última vez que via Ivan, por isso, resolveu concentrar-se dali em diante em listar mentalmente todos os seus defeitos; enquanto que Ivan não entendia por que Clara estava tão distante. E o silêncio entre os dois durou quase toda a viagem de ônibus até o hotel na Avenida Paulista.

Se despediram, combinando que Ivan avisaria sobre o agendamento da consulta com o tal analista.

Clara foi andando até o seu apartamento, largou a mala no chão, tomou um banho e ligou o computador para dar uma olhada nas novidades.

Naquele momento, queria esquecer que Ivan existia, mas não podia, tinha um livro ainda para escrever sobre um casal que nem a morte separou, mas que naquele instante, o fantasma de lembranças distantes e suas implicações estavam separando.

Resolveu desfazer a mala, estava cansada da viagem, mas não suportava a idéia de ver seu apartamento todo bagunçado. A primeira coisa que veio parar em suas mãos foi o candelabro. Achou que ficaria bem sobre a mesa da sala de jantar.

Uma peça tão linda! Só aquele maluco mesmo para me dar um presente como esses... bom, fica de despedida, esse não volta nunca mais!

Ao mesmo tempo, ocorreu pela primeira vez para Clara a idéia de pesquisar sobre aquele fenômeno estranho na Internet.

Deixou momentaneamente a arrumação de casa e se jogou de cabeça nos sites de busca. Encontrou algumas coisas sobre TVP, Jung, muitas bobagens sobre almas gêmeas, mas nada parecido com aquilo que os dois tinham vivido.

- Vai ver a resposta é muito simples, vocês já estiveram juntos antes, não façam isso de novo! Acho que esse é o tal recado do inconsciente que o Ivan tanto fala – Clara dizia para si mesma tentando superar a revolta que estava sentindo naquele instante.

Tirou aquele dia para descansar e colocar a casa em ordem. Depois de dormir um pouco à tarde, decidiu passar no mercado e depois ligou para a mãe, para finalmente avisar que já estava em São Paulo.

À noite, foi jantar na casa dos pais, para levar os presentes que tinha comprado e contar sobre a viagem. Era óbvio que guardaria segredo sobre a história dos sonhos, não queria que sua família descobrisse que ela era uma maluca que, quando dormia, vivia a vida de outra pessoa no século XIX. E que ela tinha tido um caso com seu melhor amigo que tinha acabado muito mal, com ele correndo como o “diabo foge da cruz”, porque ela era maluca.

O jantar foi ótimo, reencontrar sua família foi o primeiro momento de alegria para Clara desde que tinha ficado com Ivan. Ela mostrou as fotos, distribuiu presentes e ficou de voltar no Domingo, para passar o dia todo.

Voltou para casa, sentou-se mais uma vez na frente do computador, mas desta vez ela estava com o primeiro de seus bloquinhos na mão.

Escreveu até de manhã, acrescentou detalhes, leu e releu o texto e cortou algumas bobagens. E por mais que aquilo tudo doesse, ainda era uma bela história de amor.

CONTINUA

6 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo XI)


O café da manhã foi rápido e logo seguiram para a exposição de Tutankamon. Uma fila enorme os aguardava, mas os dois ainda pareciam muito longe dali, cada um tentando compreender a seu modo tudo o que estava acontecendo.

Cenas do passado se misturavam com cenas do presente e os olhos de Clara pareciam cheios d’água quase o tempo todo. Ivan não estava muito diferente, embora buscasse algum tipo de explicação racional para o que estavam vivendo, também tinha que lutar contra o turbilhão de imagens que rodavam cada vez mais velozes em sua cabeça.

- Você está muito quieto hoje. - Clara comentou na esperança de tentar entender o que estava acontecendo com ele.

- Você também. Será que eu posso te ajudar de alguma forma? - respondeu Ivan em tom preocupado, enquanto acariciava os cabelos longos de Clara.

Clara suspirou, olhou nos olhos de Ivan e sorriu: - Está tudo bem! Não se preocupe!

Não era exatamente a verdade, ela ainda queria uma explicação, racionalmente falando, as coisas não poderiam estar melhores. Tinha conseguido as duas coisas que mais desejava no mundo, uma história para seu segundo livro e Ivan em seus braços.

Além disso, eles tinham mais alguns dias em Londres para conversar sobre aquelas experiências estranhas e isso significava nenhum tipo de interferência externa, só os dois, sem parentes, amigos, compromissos, horários e aquela lista infinita de desculpas que damos quando não queremos nos envolver.
Mas a intensidade dos sonhos continuava crescendo e mexendo muito com ela, algo estava muito errado e ela não sabia dizer o que era.

Depois de andar o que pareceram quilômetros de corredores, os dois pararam em uma lanchonete para almoçar, uma chuva forte começava a cair e eles decidiram voltar ao hotel.

Chegaram encharcados, tomaram banho, vestiram roupas secas e resolveram descansar um pouco no hotel. Clara, mais uma vez, decidiu que precisava abrir o jogo.

- Você ainda não leu este capítulo do livro – estendendo seu bloco de notas para Ivan
Ele pegou o bloco, começou a ler e parou. Colocou o bloco sobre a mesa e foi na direção de Clara. Sem dizer nada, ele a puxou pela mão e os dois sentaram-se em sua cama.

- Acho que a gente precisa conversar, tinha resolvido não te dizer nada, mas acho que seria errado te deixar no escuro. Ainda mais depois de tudo o que aconteceu aqui neste quarto.

La vem bomba! Pensou Clara, tinha certeza que não ia durar, sabia do pavor que Ivan tinha de compromisso, ainda mais com uma pessoa que estava às portas da loucura, como ela.

- É sobre os seus sonhos, retrocognições ou sei lá como chamar isso que está acontecendo com você.

- O que tem eles?

- Estão acontecendo comigo também, eu também tenho passado todas as minhas noites no século XIX.

- O que?

- No início, achei que era da minha cabeça, que estava ficando influenciado pelo que você me dizia, me mostrava do seu livro. Mas a impressão começou a ficar mais forte e esta cena que você me mostrou agora...

- Qual cena? A morte dele?

- É... eu a vivi. Estava muito doente, com muita febre e de repente me vi em um labirinto escuro, não sabia o que tinha acontecido, mas fez sentido agora, depois que li a sua descrição da morte dele.

- Mas como pode? Se nós somos eles, por que estamos revivendo isso tudo? Estou ficando com medo, acho que vou jogar fora todos esses bloquinhos, posso escrever outra coisa para o livro.

- Não faça isso! Pirou? Não joga nada fora, não precisa ter medo, nós estamos vivendo uma experiência estranha, mas não vejo nenhuma razão para ter medo. Como eu te disse antes, o nosso inconsciente quer nos mostrar alguma coisa, precisamos descobrir o que ainda não estamos vendo.

- Mas eu estou ficando apavorada!

- Não fica – disse Ivan suavemente, enxugando as lágrimas que começaram a cair dos olhos de Clara.

- Eu sou um terapeuta, mas não acho que vou poder ajudar desta vez, também estou envolvido. Estava pensando lá na exposição que tudo começou quando chegamos aqui nesta cidade.
Acho que seria melhor irmos embora, vamos voltar para o Brasil e acho que tudo vai voltar ao normal.

- Ok, então! Liga para a companhia e pergunta quando é o próximo vôo.

CONTINUA

5 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo X)


Cansados da viagem, os dois passaram ainda muitas horas conversando até que pegaram no sono e dormiram abraçados, na cama de Ivan.

Nos primeiros raios da manhã, uma luz tênue começou a tomar conta do quarto, ela deixou seu marido na cama e começou mais uma vez a caminhar sozinha pelos corredores largos do palácio. Desceu, de novo os degraus, descalça e descabelada, que levavam até o jardim e lá, esperando com um sorriso nos lábios estava Ivan.

Clara abriu os olhos e percebeu que Ivan estava lá, com os braços ao seu redor e quando seus olhos se encontraram ele se aproximou mais e beijou-a nos lábios.

De uma forma suave e apaixonada, enquanto a luz do dia ia aos poucos clareando e deixando ver todos os detalhes do quarto, os dois começaram a se despir e embora aquela fosse a primeira vez que seus corpos se encontravam, ela parecia reconhecer cada detalhe, como se já tivessem estado um nos braços do outro há muito tempo.

A emoção estava a flor da pele, cada um dos sentidos se ampliava, as palavras e os sons desapareciam e os dois se tornaram um só.

Sem olhar para o relógio, eles passariam o dia todo ali, não fosse a fome. Saíram no final da tarde para comer alguma coisa e seguiram para um dos melhores passeios que a cidade oferecia, a roda-gigante chamada London Eye, uma vista privilegiada e mais romântica que nunca no por-do-sol de mais um dia perfeito.

No retorno para o hotel, passaram pelo mercado e compraram champagne. Tinham ingressos para a exposição sobre o Faraó Tutankamon para o dia seguinte, mas não estavam preocupados, passaram mais uma noite em estado de graça.

O nevoeiro era muito espesso e a noite estava muito escura, sebes altas pareciam escurecer ainda mais a cena, apenas o candelabro em suas mãos permitia que enxergasse seus próximos passos.

A sensação era estranha, algo ou alguém o observava no escuro, mesmo assim, ele sentia que deveria seguir, mas antes precisava encontrar seu caminho através daquele labirinto vivo.

O vento começou a soprar o nevoeiro para longe e ele se esforçava para continuar mantendo a vela acesa. Logo, o céu começou a se abrir e ele podia ver as estrelas brilhando sobre o veludo do céu noturno e a lua cheia surgiu por cima das sebes, com sua luz branca prateada iluminando todos os detalhes.

Ele parou bem no centro do labirinto, onde existia um banco de jardim e de onde quatro diferentes corredores partiam, para quatro direções opostas.

Não sabia para onde deveria seguir, sentou-se no banco, apenas um daqueles corredores levaria à saída. Ao longe ouvia lágrimas, pela primeira vez em dias, tinha deixado de sentir as dores da febre que o acometia, sentia-se bem finalmente, mas estava triste por sentí-la triste.

Ivan levantou-se mais uma vez antes do despertador, com cuidado, para não despertar Clara. A tristeza que sentiu em seu sonho ainda o envolvia e sem saber por que, começou a chorar. Tudo era muito estranho naquele momento, não podia deixar que ela percebesse que seus sonhos também revelavam coisas de um passado distante, ao lado dela.

CONTINUA

3 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo IX)


O passeio por Londres continuou no mesmo ritmo pelos próximos dias, Clara e Ivan percorriam todos os pontos turísticos da cidade e aproveitavam para descobrir os segredos que estavam reservados só para quem a percorre sem pressa, com atenção.

Mas se o momento era feliz durante o dia, as noites traziam para Clara situações muito estranhas, agora, seus sonhos diários com aquele casal do século XIX, ao mesmo tempo que forneciam o material para que seu novo e romântico livro fosse escrito, deixavam-na cada vez mais confusa.

Enquanto ela enchia blocos de papel com o cotidiano do casal de amantes, Ivan parecia cada vez mais calado e distante. E este distanciamento deixava Clara ainda mais perdida.

Para o final de semana seguinte, os dois tinham reservado um passeio fora da cidade, para isso, compraram uma excursão de ônibus com o tema Castelos e Jardins da Inglaterra.

Lá fora o visual era deslumbrante, mas a tensão crescia entre os dois amigos e eles não trocavam mais do que dez palavras por dia. Ivan fez amizade com um grupo de brasileiros no ônibus e só via Clara na hora de dormir, enquanto que esta se isolava cada vez mais, escrevendo em ritmo frenético sempre que podia.

O percurso era longo, mas cada uma de suas paradas fazia tudo valer a pena, com o sol de verão brilhando constantemente naqueles três dias, as paisagens enchiam os olhos.

Chegaram em Londres, no final da noite de domingo, voltaram ao mesmo quarto que estava reservado para mais uma semana, tomaram banho, assistiram TV e nem conversaram. Clara agarrada a seus blocos de papel e Ivan, com a câmera nas mãos, conferia mais uma vez as fotos que havia tirado no final de semana.

Confusa e cansada do silêncio, Clara respirou fundo, colocou bloco e caneta sobre a cadeira, levantou-se e foi na direção de Ivan.

- O que houve?

- Não entendi.

- A gente não conversa mais, você me deixou de lado a semana inteira.

- Eu?

- É sim, você. Qual é o problema?

- Nenhum, te vi tão envolvida na sua história que não quis atrapalhar.

- Mas, você me deixou sozinha quase a semana inteira.

- Sozinha? Como sozinha? Eu estava aqui o tempo inteiro, tudo o que você precisava era falar comigo, mas parece que você não estava nem me enxergando mais.

- Eu preciso entender o que está acontecendo comigo, desde que viemos para cá parece que estou vivendo duas vidas diferentes e isso está me enlouquecendo.

- Você quer mesmo saber? Tem certeza?

Clara balançou a cabeça, abraçou Ivan e caiu em um choro compulsivo. Seu corpo todo agora tremia e ela sentia que o muro que havia crescido entre os dois nos últimos anos, estava começando a ruir.

Os dois sentaram-se na cama de Ivan e continuaram abraçados, em silêncio, até que Clara se acalmasse um pouco.

- No começo eu achei que estava inventando aquelas pessoas, aquela casa e por isso comecei a colocar no papel esperando que eles fossem a grande idéia que eu tanto precisava para cumprir o meu contrato com a editora.

- Eu também tive essa impressão, Clara, estava tudo naquele seu sonho com o jardim, o unicórnio, você saiu de dentro de si mesma e buscou a inspiração.

- Isso, mas eu comecei a ver aquele casal e de repente, eu estava lá, vivendo ao lado de um homem que eu nem sei quem é, mas que eu amo, quer dizer, a personagem, ah, não sei mais nada, acho que eu sou ela...

- E talvez seja, não queria te contar para não influenciar, mas acho que você está resgatando memórias de uma vida anterior.

- O que? Mas como? Por que?

- Alguma coisa, está trazendo estas memórias direto do seu subconsciente. Quando sonhamos o nosso inconsciente nos mostra, quase sempre em linguagem simbólica, o que fazer para resolver as situações que não estamos conseguindo solucionar quando estamos acordados.

- Sim, mas você não está entendendo, não são sonhos, é como se eu vivesse a vida de outra pessoa durante a noite.

- Mas e se esta outra pessoa fosse mesmo você, talvez em uma vida anterior e seu inconsciente estivesse agora colocando estas memórias diante de seus olhos para te ajudar a resolver seu conflito atual.

- Qual confilto?

- Não sei, é aí que entra o que está acontecendo de verdade, com você. O que se passa aqui - Ivan aponta pra seu coração - e aqui - aponta para sua cabeça.

- Então, eu estou ficando maluca.

- Não, ao contrário, você está se curando.

CONTINUA

2 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo VIII)


O domingo começou bem cedo, o telefone tocou antes do programado, uma ligação do irmão de Ivan acordou os dois um pouco antes das 7 da manhã.

Quando Clara percebeu do que se tratava, apenas virou-se na cama, decidida a continuar dormindo mais um pouco. Aliás a voz de Ivan, falando bem baixinho para não incomodá-la serviu para embalar seu sono.

Era necessário levantar-se, tinha muitos compromissos naquele dia, precisava de soluções e não podia contar com ninguém naquele momento. Ainda estava escuro, ergueu-se, foi até a lareira, pegou um candelabro, acendeu a vela e desceu até a biblioteca, usou a escada em espiral, não queria que ninguém a seguisse naquele momento.

O que posso fazer? Não posso contar com ninguém, só comigo.

Sentou-se mais uma vez na escrivaninha de mogno, pegou uma folha de papel em uma gaveta, retirou a pena do tinteiro e quis começar a escrever. Estava muito escuro, precisava de mais luz, foi até a lareira da biblioteca, precisava de mais velas, pegou mais um candelabro, levou-o até a escrivaninha e o acendeu; o ar estava muito frio, seus pés estavam descalços, seus cabelos longos presos em uma trança, não podia fazer barulho, ninguém poderia vê-la naquelas condições, mas ela precisava de uma saída.

A escada em espiral se iluminou, era seu marido vindo com outro candelabro na mão.

- O que houve? Problemas?

- Meu discurso de hoje é muito importante, preciso que aquele homem perceba que não pode fazer o que bem entender, ele não pediu meu consentimento e preciso deixar isso muito claro...

- Não se preocupe, tudo vai dar certo.

Ele estendeu sua mão na direção dela, que apenas sorriu, pousando a pena de volta em seu tinteiro. Soprou as velas e aceitou seu braço. Mesmo com o mundo ruindo sob seus pés, ela não podia deixar de sentir-se feliz ao lado daquele homem. Era tudo o que importava naquele momento.

- Bom dia! O telefone te acordou, né? Era o Júnior me pedindo para levar um CD para ele...

- Oi... Você?

- Quem você esperava o Harry Potter?

- Não... é que eu... ah... esquece!

- O que foi? Outro sonho estranho?

- Muito... Preciso do meu bloquinho, antes que me esqueça de algum detalhe, ele está por aí?

- Está em cima da cadeira, aí do lado.

- Obrigada... enquanto eu escrevo por que você não se prepara para o café?

- Hoje não tem pressa, pensei até em voltar para a cama, está chovendo.

- Droga! Íamos ao Jardim Zoológico hoje, mas vamos ter que mudar de planos. - disse Clara enquanto colocava no papel com muito cuidado, tudo o que tinha visto em seu sonho.

Os dois se arrumaram, vestiram jaquetas impermeáveis e como não tinham guarda-chuvas, correram até a estação de metrô. Desceram em Picadilly Circus, atrás do CD encomendado pelo irmão de Ivan. Nas proximidades do famoso cupido de Picadilly ficavam algumas das maiores e melhores lojas de CDs de Londres e esse seria um bom programa para aquele dia chuvoso.

Na hora do almoço, os dois optaram por uma lanchonete ali por perto. A manhã tinha sido bem divertida, Clara tinha aproveitado para comprar mais um bloquinho, o seu já estava terminando.

Aproveitou que estava em uma papelaria e comprou uma porção de cartões postais. Lembrou-se de outro lugar que era próximo dali que eles poderiam visitar à tarde, sem se molhar; o Rock Circus.

CONTINUA

O CANDELABRO (capítulo VII)


Depois de andar muito pela feira, os dois resolveram pegar o metrô para voltar para Victoria, não queriam chegar tarde, tinham intenção de passar no mercado para mais um jantar no quarto do hotel, quando avistaram em uma rua lateral, um lugar chamado Irish Pub.

Ficaram curiosos e decidiram passar por lá mais tarde, para comemorar seus achados na feira e a volta da inspiração de Clara.

Em pleno sábado à noite, o local estava cheio, mesmo assim, os dois conseguiram uma boa mesa. O pub não podia ser mais tradicional, com direito a bandeiras da Irlanda espalhadas por toda a casa.

Mas o que chamava mais atenção ali eram os vitrais coloridos, imitando janelas, em um deles, via-se Bono Vox retratado com seus famosos óculos pretos.

O ambiente "fervia", pelo jeito, haviam encontrado a melhor balada do bairro. Como faziam em São Paulo, pediram Guiness e uns sandwiches que pareciam muito apetitosos na foto do cardápio e simplesmente curtiram a noite.

- Sempre achei que não fosse gostar de Londres, mas estou adorando.

- Posso saber por que?

- Achei que seria sombria, monótona, chuvosa... sei lá, quando a gente não conhece um lugar acaba acreditando naquilo que os outros dizem.

- Nossa! Eu nem imagino quem seria capaz de achar Londres monótona, só poderia recomendar internação para um "ser" desses – respondeu Clara rindo.

- Com certeza! Eu assino embaixo da sua recomendação porque quem me disse isso foi a Márcia, minha ex.

- Não é possível! Os sintomas de esquizofrenia estavam lá para qualquer um ver e você nem percebeu, fico imaginando o que diria o Dr Jung nesta situação.

- Ele diria que somente um bom psicanalista credenciado pode recomendar internações, se bem que aquele ser humano precisava mesmo era de uma boa sala acolchoada e tratamento de choque a cada três horas.

- Às vezes eu fico pensando se eu também não preciso, fiquei tanto tempo sentanda na frente do computador em São Paulo, escrevia duas ou três páginas e depois apagava. Estava na minha casa, sozinha e não saía nada. Cheguei aqui e parece que as portas se abriram.

- Esse é o seu processo, não tem como brigar com ele, você precisa de um empurrãozinho externo para alcançar o que tem aqui dentro – disse Ivan enquanto passava as mãos pelos cabelos de Clara. Por exemplo, o que te fez escrever o primeiro livro?

Estava feita a pergunta que Clara não queria responder, em seu coração a vontade de responder simplesmente “você”, mas ela respirou fundo, disfarçou e respondeu de uma forma convincente: - Acho que foi o desemprego.

E continuou: - Quando eu saí da Fly Away queria voltar para minha área, escrever, fiz uns freelas para a Rolling Stone, fiquei meio chateada porque tive a impressão de que nunca mais conseguiria um emprego com carteira assinada na vida. Continuei tentando, escrevi para um montão de sites, fiz um blog e nada rolava, foi aí que comecei a colocar no computador minhas “memórias” do mundo do rock.

- Você gostava muito daquele cara, o tal rockstar, não é? - Ivan fez outra pergunta que Clara não tinha a intenção de responder.

- Hoje eu sei que não, mas naquela época em que o livro se passa, eu teria feito qualquer coisa por ele.

As noites em Londres terminavam cedo, não demorou muito para que o sino do bar, avisando que o serviço estava sendo encerrado soasse e logo, Clara e Ivan já estavam de volta ao hotel.

Clara, pegou novamente o candelabro tentando ver melhor seus detalhes.

- Ele é lindo, você é maluco Ivan, deve ter custado uma fortuna.

- Nem tanto, deve ser falso, como o gato egípcio que comprei para a Sandra.

- Mas parece verdadeiro, olha, aqui embaixo tem uma inscrição, 1840?

- Deixa eu ver. É mesmo.... e tem umas letras, você consegue ler?

- Não, ainda não consegui decifrar, mas devem ser as iniciais do artista que fez o candelabro.

- O vendedor tinha razão, devia ter comprado o par.

- Par? Tinha mais um igual a este?

- Não era igual, o outro tinha um leão ao invés do unicórnio.


CONTINUA

1 de mar de 2008

O CANDELABRO (capítulo VI)


Depois de um café da manhã britânico típico, os dois já estavam novamente nas ruas, tinham que pegar o metrô para ir até a feira de Antigüidades de Portobello.
Uma tarefa simples, mas que poderia ser complicada se não prestassem atenção e não fizessem a troca de linha na estação correta.

Aquela feira era uma “instituição” inglesa de pelo menos uns 200 anos, acontecia todos os sábados e cobria uma área vasta que se estendia por toda a Portobello Road e várias de suas travessas. Lá podia-se encontrar de tudo, de medalhas e condecorações militares a coleções de selos, latas de cerveja e caixas de fósforos.
Muitos objetos de decoração, louças e até jóias. A idade e o preço dos objetos variavam infinitamente.

Clara não gostava de comprar objetos usados, ela achava que junto com eles estava levando também um “pedaço” da energia de seus antigos possuidores, o que lhe causava uma certa aflição que ela não sabia explicar muito bem.

A única parte de que ela gostava na feira era a de “objetos” culturais, por assim dizer, livros, CDs, vinis, DVDs e até fitas VHS podiam ser encontrados em quantidade e com bons preços por lá.

Naquele dia, seu primeiro “achado” foi uma edição francesa do livro, “Memórias, Sonhos e Reflexões” de Carl Jung, que ela comprou imediatamente, e escondeu em sua mochila.

Enquanto isso, Ivan procurava por pequenos objetos de decoração que pudessem transformar-se em bons souvenirs para distribuir aos amigos quando voltasse ao Brasil.

Com as mochilas já carregadas de pacotes, os dois seguiram pela feira até encontrar um Pub onde serviam uma porção farta de fish'n’chips por apenas uma libra.

- E aí? Comprou muita coisa?

- Só uns CDs, e você?

- Tem muita coisa bonita, cara, mas bonita... comprei um gato para minha irmã.

- Gato? Ah! Aquela sua irmã maluca ainda coleciona gatos?

- Pois é, segundo o vendedor é uma antigüidade egípcia... acredito que ela vai gostar.

- Egípcia? Uau! Onde você achou?

- Em uma lojinha, do outro lado da rua. Vamos lá depois do almoço que eu preciso te mostrar algumas coisas que iam combinar muito bem com seu apartamento.

- Isso me lembra que você não apareceu mais lá, agora está bem mais bonitinho, tem até sofá.

- É, me enrolei demais naquela faculdade, só arranjei dor de cabeça, acho que não nasci para ser professor, nem para namorar a sério.

- Como assim?

- A Márcia era muito ciumenta, não me deixava nem respirar, você acredita que a gente terminou porque um dia, eu peguei ela me seguindo, depois que sai da casa dela?

- Nunca te disse nada, mas me afastei de você por causa dela, não gostava do jeito que ela me olhava. Então minha intuição estava certa, ela era mesmo uma psicopata?

- Pois é, só queria ter percebido isso antes de me envolver. Por isso, de agora em diante, não namoro mais, só fico.

Clara não queria ter ouvido aquela frase, mas ao mesmo tempo, ficou feliz por perceber o amigo, de novo, tão próximo.

- Sabe aquela história em que eu estava pensando ontem? Do casal, na época vitoriana?

- Sei, já escreveu alguma coisa?

- Já, peguei meu bloquinho e antes de dormir coloquei tudo no papel.

- Está aí?

- Sim, o que você acha? - Disse Clara estendendo o bloquinho para que Ivan pudesse pegá-lo.

- Ótimo! Você descreve essa casa tão bem que parece que a estou vendo, vai ser assim mesmo, em primeira pessoa?

- Ainda não te disse, mas eu sonhei com eles e no meu sonho, eu era a personagem.

- O que? Você?

- É, eu estava lá, bordando, dei ordens para a "criadagem", depois fui até a biblioteca e comecei a escrever uma carta.

- Hum! Interessante! Você vai aproveitar essa cena no livro?

- Não sei, você acha que eu devo continuar trabalhando nessa história?

- Acho que sim, me deu vontade de ler desde a primeira frase e você sabe que eu não ligo muito para ficção. Bom, eu comprei uma coisa para você, ia te dar só quando chegássemos no hotel, mas acho que este é o momento.

E depois de revirar sua mochila, estendeu uma caixa de papelão para Clara. Ela a abriu e tirou de lá de dentro o objeto mais lindo que já tinha visto, um delicado candelabro dourado, com certeza muito antigo que consistia em uma flor delicada ao lado de um imponente unicórnio.

Ela ficou alguns momentos sem saber o que dizer, não sabia explicar, era como se estivesse tendo um dejá vu, aquele objeto tinha um formato idêntico à escultura da fonte que viu em seu sonho, como isso era possível?

- Gostou? - Perguntou Ivan, parecendo preocupado.

- Amei! Nem sei o que te dizer, ele é idêntico a escultura da fonte, do meu sonho.

- Eu imaginei que fosse, por isso fiz questão de comprá-lo. O vendedor me disse que é do período vitoriano, não sei se é autêntico, mas achei que valia a pena.

CONTINUA

29 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo V)


O ônibus parou na frente da Victoria Station, de onde os dois caminharam até o hotel. Uma construção georgiana, originalmente, um conjunto de residências transformado em hotel que ainda mantinha uma boa parcela de seu antigo charme.

Os dois haviam escolhido aquele local por ser o mais próximo e prático para que pudessem curtir a cidade da forma que mais gostavam, andando a pé, como sempre fizeram em todas as suas viagens.

Se por fora a construção era muito antiga, por dentro tudo era muito moderno, e isso significava encontrar no apartamento um bom frigobar, televisão a cabo, máquina de café e internet wireless gratuita. E pensar que há poucos anos era tão difícil encontrar na Europa hotéis que sequer tivessem banheiro privativo.

Para aproveitar a facilidade, Clara chegou a pensar em trazer seu notebook, mas acabou desistindo no último momento, preferiu "viajar leve", sem muitos objetos com que se preocupar, além disso, todos os contatos e reservas já haviam sido feitos no Brasil e agora ela tinha uma coleção de vouchers impressos guardados na agenda que seriam trocados por ingressos para passeios, museus e tudo o mais que estava incluido no roteiro. Ainda bem que as coisas evoluem.

Ivan também apreciava a idéia de ter tudo a mão, os dois subiram para o quarto 870, para um banho e poucas horas depois, já vestindo roupas confortáveis e carregando um mapa da cidade, já estavam nas ruas, a procura de um bom restaurante, de preferência um Pub, para seu primeiro almoço em Londres.

Encontraram um restaurante vegetariano, algo meio inusitado por lá, quase surpreendente, já que tinha um ambiente claro, com mesinhas na calçada cercadas por floreiras. Até mesmo naquela cidade tão tradicional, a mudança na mentalidade de uma parte da população, na busca por uma vida mais saudável começava a desafiar os velhos padrões.

- E aí, personal tour guide, o que você planejou para hoje?

- Nada, na verdade. Achei que chegaríamos acabados e preferi deixar o dia de hoje para descansar e passear um pouco aqui por perto mesmo.

- Hum... E o que tem de bom aqui perto?

- Tudo!

Os dois saíram do restaurante para fazer um reconhecimento dos arredores, em ritmo lento e tranqüilo, passaram por algumas lojas de souvenirs, e "mergulharam" no St James's Park, que no sol do início da tarde parecia o ambiente mais convidativo do mundo.

Tiraram muitas fotos; esquilos, pelicanos, gansos e jardins muito bem cuidados adicionaram uma boa dose de graça àquele dia de descanso dos dois.

Clara esqueceu completamente de seu livro, seu contrato e apenas concentrou-se em relaxar; Ivan parecia estar lendo sua mente e nem tocou no assunto o dia todo. Ambos precisavam de um respiro e o verde envolvente daquela paisagem era o melhor remédio.

Já no final da tarde, encontraram um mercadinho muito charmoso no caminho de retorno ao hotel, onde compraram vinho, pães, frios, queijos e patês para o jantar.

- Você tinha razão, acho que tudo o que eu precisava era relaxar um pouco - disse Clara depois de um longo silêncio de Ivan.

- Hein?! - respondeu Ivan, como se tivesse sido despertado repentinamente.

- Bom, quando nós estávamos andando lá no Saint James, eu comecei a perceber que ainda tenho o dom da escrita.

- Como é que é? Você escreveu alguma coisa? Me mostra...

- Não, ainda não está no papel, mas acho que já tenho um começo.

- Ah! Me conta, pelo menos...

- Ok! A história se passa na época vitoriana, um casal está em uma casa, perto de um lago, o homem está sentado em uma sala muito bem mobiliada e a mulher está no quarto, perto da janela, aproveitando os últimos raios do sol para terminar seu bordado.

- E daí?

- Nada, só vi esta cena por enquanto, sei que tem alguma coisa aí, só preciso passar para o papel.

- História de época? Tem certeza? Acho que seus fãs não vão mais te pedir autógrafo - disse Ivan entre risos.

- Acho que sim - respondeu sorrindo - eles não sabem o que estão perdendo.

Os dois viram um pouco de TV e logo caíram no sono, o dia foi longo e o cansaço finalmente venceu. Clara caiu no sono vendo a imagem do lago de sua história refletindo os tons avermelhados do céu de final de tarde.

Ela decidiu deixar seu bordado de lado apenas quando não havia mais nem sinal do maravilhoso sol que iluminou aquele dia quente de verão.

Tinha decidido terminar sua borboleta azul naquele mesmo dia, na verdade, gostava de fazer esses pequenos trabalhos manuais, mas não tinha muita paciência para esperar até que ficassem prontos.

Quando escureceu, os lampiões que iluminavam seus aposentos foram acesos, mas ela não gostava da luz que eles emanavam, pelo menos para continuar trabalhando e resolveu colocar de lado sua caixa de costuras.

Deu mais algumas ordens aos criados e foi até a biblioteca, onde seu marido parecia muito entretido com um livro nas mãos. Sentou-se na escrivaninha e começou a escrever uma carta, quando um sino tocou.

Não era um sino, demorou um pouco, mas ela percebeu que o som vinha do telefone em seu quarto, tocando porque fora programado para despertar às 9 horas. Clara abriu os olhos e viu Ivan de pé, arrumando sua mochila e já quase pronto para o café da manhã.

- Bom dia!

- Ivan?! Já de pé?

- Vamos, dorminhoca... estou morrendo de fome....

Clara ergueu-se ainda meio zonza e começou a procurar pelas roupas que iria vestir.

- Está sol?

- Não muito...

- Então é melhor levar um moleton, ou coisa que o valha, porque essa cidade costuma ficar bem gelada quando o tempo está nublado assim.

- Já está na minha mochila, assim como os óculos de sol, a máquina fotográfica, o protetor solar e o mapa.

- Quanta eficiência! Acho que te ensinei muito bem, meu pupilo! – respondeu Clara, a caminho do banheiro.

CONTINUA

26 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo IV)


Uma semana depois, os dois se encontraram novamente na porta de um hotel, próximo do apartamento de Clara para pegar o ônibus até o aeroporto. Com medo de perder as malas, os dois optaram por um tipo de bagagem que pudesse ser levada à bordo.

Chegaram, e como de hábito, correram até a livraria. Os livros de Clara estavam na vitrine, um fato que ainda tinha a capacidade de colocar um grande sorriso em seu rosto. Uma sensação de calor que vinha diretamente de seu coração e chegava a deixar suas bochechas coradas.

Na livraria os dois conferiam os últimos lançamentos quando alguns adolescentes se aproximaram, pedindo por fotos e autógrafos. O livro havia rendido para Clara uma certa fama, principalmente entre os adolescentes, já que era totalmente ambientado no mundo do rock.

E quase sempre estes adolescentes e também a mídia, tentava saber com Clara quem foi a inspiração do livro. Ela nunca revelou esta informação e jurava que seus personagens eram pura ficção, mas o seu rockstar era um personagem bem real, que ela conheceu na adolescência.

Os dois saíram da livraria e entraram na fila para embarque, logo foram chamados por um funcionário da companhia aérea que os convidou a entrar em outra fila, a da classe executiva, Clara era uma celebridade para a empresa e os dois receberiam um upgrade.

Eles ficaram muito felizes, finalmente viajariam em grande estilo, já que nas vezes anteriores, tinham que esperar que todos embarcassem e muitas vezes, ainda correr para chegar a tempo no avião e sentarem-se longe um do outro, nas poltronas que sobravam.

Desta vez, poderiam fazer o que mais gostavam, conversar; e foi Clara quem começou a conversa, logo após o jantar.

- Preciso te contar... tive um sonho estranhíssimo, na véspera de ir te encontrar no pub.

- Sério? Me conta, quem sabe eu consigo decifrar. – respondeu Ivan, deixando de lado a revista com a programação do Canal de Filmes de Bordo.

- Eu estava em um lugar lindo, todo de mármore.

- Um túmulo?

- Não, seu bobo, um palácio, as paredes tinham muitos espelhos e entalhes em dourado, só podia ser um palácio.

- Só isso?

-Você está apressadinho hoje, hein? Bom, eu andava por um corredor lindo; de um lado, janelas enormes, do outro, os tais espelhos e os enfeites dourados na parede.

- Sei, e aí?

- Bom, eu continuava andando até chegar a uma porta.

- E esta porta, estava aberta ou fechada?

- Estava fechada, mas eu abri, tinha uma maçaneta também dourada, bem no meio dela e a própria porta era toda entalhada com detalhes em dourado.

- Hum, só isso?

- Não! Desmancha essa cara de Dr Freud e me deixa falar. – respondeu Clara caindo na risada.

- Ok, mas essa não é a minha cara de Dr Freud, que isso fique bem claro!

- Bom, quando a porta se abriu, desci uns poucos degraus e atravessei um gramado, nunca estive naquele lugar, mas parecia um daqueles jardins de Paris, só que era pequeno e tinha só uma fonte no meio.

- Fonte?

- É, tinha uma fonte com uma estátua também dourada de um unicórnio.

- E daí? O que aconteceu? Apareceu o homem do saco e levou a fonte embora.

- Não, você nunca vai esquecer mesmo essa história, né? Já te disse que...

- Não liga, estou tirando uma, o que aconteceu?

- Nada, eu só me sentei em um banco e me parece que fiquei horas olhando aquele unicórnio, que por sinal era muito lindo.

- Hum... Essa viagem promete!

- Como assim? Me conta, você sabe o que significa tudo isso?

- Acho que sei, seu notebook está na mala?

- Não, por que?

- Então vamos precisar de um bom caderno, a primeira loja em que vamos parar em Londres será uma papelaria.

- Pára de fazer mistério e me conta logo.

- Você não me disse que estava em crise criativa, que não conseguia escrever, pois é, todos os símbolos do seu sonho indicam que essa fase terminou e que você está pronta para voltar a escrever.

- Eu devo ter perdido alguma coisa...

- Não perdeu nada, o palácio todo branco, com espelhos é você, ele indica uma necessidade sua de continuar procurando o caminho mais correto, sem ceder a tentação de escrever qualquer coisa, fiel ao seu talento de escritora. Ao mesmo tempo, as janelas e a porta abrindo significam que você está abrindo o caminho para o novo.

- Faz sentido, mas eu não acho que esteja pronta.

- Espera, tem mais... o jardim, estava bem cuidado, não é?

- Sim, era lindo, não tinha nenhuma folha fora de lugar.

- Então, o jardim pode ser a sua criatividade e a tal fonte é de onde ela vem, o unicórnio é um animal mítico, não é?

- É, mas...

- Então, você presenciou no sonho o momento em que a sua criatividade voltava a dar sinais de vida, o unicórnio é um símbolo bem forte de renascimento, agora o que você deve fazer é relaxar e prestar alguma atenção no que aparecer em sua cabeça, você precisa de um caderno já.

Clara não pôs muita fé na interpretação que Ivan deu a seu sonho, mas mesmo assim, tirou da bolsa um bloquinho de anotações e o deixou à mão, caso surgisse alguma idéia ainda no avião.

Logo, os dois começaram a ficar cansados e acabaram cedendo ao apagar das luzes na cabine do avião. Como não sabia viver sem música, Clara primeiro verificou com a comissária se era permitido e depois tirou da bolsa seu MP3 para ouvir mais uma vez, sua seleção de favoritas, onde Led Zeppelin reinava absoluto.

Pegou no sono e só acordou quando os comissários já começavam a distribuir o café da manhã.

Logo, o avião pousou em Heathrow e os dois pegaram um double decker, aqueles ônibus vermelhos de dois andares, até Victoria Station. No caminho, Clara que ainda estava um pouco perdida e ansiosa, começou a sentir uma imensa alegria que ela atribuiu ao reencontro com seu lugar favorito no mundo.

CONTINUA

25 de fev de 2008

O CANDELABRO (capítulo III)


O Irish Pub era um barzinho simpático, daqueles onde a comida é muito boa e a bebida ainda melhor.

Na região dos Jardins, o bar era uma das escolhas mais frequentes de Clara e Ivan. Afinal, os dois eram "ratos de livraria" e cinéfilos apaixonados e o Pub ficava muito próximo de duas ótimas livrarias e de todos os bons cinemas da região.

Antes, Clara e Ivan podiam ficar horas no bar, mas ainda precisavam retornar para casa antes do horário de fechamento do Metrô, agora, que Clara havia se mudado para seu novo apartamento, há apenas duas quadras, não existia mais essa preocupação.

Mas, agora que podiam "curtir" a liberdade de ficar por lá até o horário de fechamento do bar, os dois estavam novamente distantes. Seu último encontro aconteceu dois dias depois do coquetel de lançamento de seu livro. Na verdade, o segundo lançamento, uma jogada de marketing para dar mais visibilidade a um livro que já estava no mercado há 3 meses e que naquele momento estava começando a se transformar em um best-seller.

E o encontro aconteceu no novo apartamento de Clara, ainda tinha poucos móveis e grandes almofadas jogadas sobre um velho tapete no chão eram os únicos confortos que sua sala de estar oferecia. Mas a geladeira tinha muitas garrafas de vinho, seu quarto já estava bem mobiliado e agora ela tinha um canto só dela, onde podia ficar a vontade para escrever seu segundo livro, aquele que já estava pago na forma de adiantamento, em seu contrato, mas que estava tão difícil de começar.

Quando abriu a porta, o perfume de Ivan trouxe de volta velhas lembranças de bons momentos que os dois tinham vivido, ele trazia nas mãos uma caixa pequena que entregou a Clara.

- Você precisa dele.

A caixa, apesar de pequena era pesada. Clara a abriu rapidamente e envolto em folhas de papel de seda, uma estátua de Ganesha, o Deus hindú que tinha cabeça de elefante,
brilhava em suas mãos.

- Você sabe, ele é o protetor dos escritores, conta a lenda que ele tirou uma de suas presas para ajudar o sábio Vyasa a escrever o Mahabarata.

- Obrigada, Ivan, estava mesmo precisando de uma mãozinha dos Deuses.

Ivan era formado em psicologia e falava com tanto entusiasmo sobre Carl Jung, que até o sisudo Roberto Antunes, editor de Clara, já havia sugerido que escrevesse um livro sobre o cientista. Mas Ivan nunca se animou muito com a idéia, havia voltado a estudar há alguns anos e conseguiu uma vaga de professor na mesma faculdade onde fez sua pós-graduação.

Estas aulas deixaram Ivan à beira de uma estafa, ele tinha pouco ou nenhum tempo livre, o que praticamente eliminou a vida social de sua agenda. Sua amizade com Clara, que também estava atravessando uma fase meio reclusa, agora se resumia a uma troca de e-mails semanal. O namoro de Ivan com a tal estudante não durou muito tempo, mas foi o suficiente para deixar Clara enciumada.

Mas naquela noite, ela não precisava ficar com ciúmes, os dois estariam juntos novamente e o melhor, para ela, pelo menos, desta vez, foi ele quem ligou.

O Irish Pub esperava pelos dois, com suas paredes escuras, de madeira, seu balcão que transportava qualquer um para o passado, as mesas pequenas, também de madeira escura e os muitos objetos espalhados pelo bar que lembravam a velha Irlanda. Até uma curiosa coleção de gnomos, desses que são usados pra decorar jardins, se alinhava divertida pelas janelas do bar.

Pontual, como sempre, Ivan já estava na mesa favorita dos dois, quando ela chegou apressada com sua sacola.

- Você está aqui faz tempo? Perguntou Clara, enquanto abraçava o amigo.

- Acabei de chegar. Que saudades!

- Pois é, você sumiu!

- É, estava trabalhando demais, pedi demissão na faculdade e agora, vou curtir minhas férias. Depois que voltar da Europa, arrumo outra coisa, dar aulas à noite é muito cansativo.

- Faça como eu, escreva um livro e convença todo mundo de que é um escritor. Depois assine um contrato, receba os adiantamentos, mas não escreva nenhuma linha... é pura adrenalina, toda vez que chega o dia 23, você senta e chora, porque é um mês de trabalho a menos que você terá para que sua grande idéia surja.

- Oi Zé, você já sabe o que nós queremos?

- Deixa ver - responde o velho garçom - Duas Guiness e uma porção de irish delights?

- Muito bem! Parabéns pela memória Zé! Você acredita nisso, Clara? Faz tanto tempo que a gente não vem aqui juntos.

- Mas eu venho aqui sempre, sozinha e com meus outros amigos. Você sabe que eu tenho muitos outros amigos, não é? Clara provoca esperando ver nos olhos do amigo os ciúmes de sempre. E atinge em cheio seu objetivo, pois Ivan solta um dos seus risinhos sem graça e muda rapidamente de assunto, para ela, uma de suas mais costumeiras "bandeiras".

- Espera um pouco, você estava me dizendo que ainda não escreveu nada? Falta quanto tempo para o prazo de entrega na Editora?

- Faltam exatamente nove meses e 29 dias, hoje é dia 24, certo?

- E nada ainda? Meu Deus, eu já estaria em pânico! Por que você não escreve qualquer coisa? Um livro de memórias? Sei lá!

- Já comecei pelo menos umas mil vezes, mas nada parece estar a altura do Rockstar, eu tenho a impressão de que nunca mais conseguirei escrever.

- Imagina, Clara, você só precisa se acalmar e encontrar o assunto certo. Aliás, já que você ainda nem começou, por que você não vem comigo?

- Como assim?

- Vem para Londres, vou ficar lá uns quinze dias, não estou exatamente bem de grana, mas assumo que necessito urgentemente dessa parada, antes de me enfiar em outra roubada como eram aquelas aulas na faculdade.

Com a cabeça já ficando leve, depois do segundo copo de Guiness, Clara começou a achar que a idéia de Ivan fazia todo sentido do Mundo. Antes que ficasse bêbada demais, ela resolveu que iria para Londres.

- Ok, você venceu! Você acaba de ganhar uma guia exclusiva na melhor cidade do mundo!

CONTINUA