28 de dez de 2014

Rockstar - Capítulo Final



- Bom dia, querida... - Mick aproximou-se dela, assim que percebeu que tinha terminado sua meditação, no quarto que mantinha como academia. - Teve uma boa noite?

- Bom dia, Mick... - ela levantou-se  da esteira, tirou os fones de ouvido e beijou-o no rosto. - Foi muito boa, querido... e a sua?

- Só não foi perfeita porque você não estava comigo... mas sonhei a noite toda conosco... sei que você não está mais na mesma página que eu, mas...

- Ah, Mick... me desculpa... talvez seja melhor eu ir embora... voltar para o Brasil...

- Não, meu amor... você não pode ir... prometi ao seu marido que não permitiria isso...

- Como? Você prometeu?

- Sim... quando ele veio me dizer que se afastaria para nos dar a chance de vivermos o que precisávamos viver, eu prometi a ele que não te deixaria partir daqui... nós dois tínhamos muito medo de que você fugisse de nós e voltasse para o Brasil...

- E o que mais você prometeu em meu nome? Tem algum prazo para me devolver para ele ao final do contrato? - ela secava as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

- Clara... por favor... me perdoa... nós dois apenas queremos vê-la bem...

- Eu sei... me desculpa... mas você sabe o quanto eu o amo...

- Ele também sabe, meu amor... - Mick abraçou-a. - Vamos passear um pouco? Fazer umas compras para o natal? Acho que você precisa relaxar...


- Não posso... tenho medo que algum paparazzo nos fotografe juntos...

- Não se preocupe com isso, minha vida... você sabe que não costumo deixar espaço para o acaso...

- Está bem, querido... vou me arrumar... mas antes vou dar uma olhada na internet... sonhei com  o Jack e no meu sonho, ele chorava muito, na frente do computador...

- Ah, querida... faça isso na volta... quero te fazer relaxar um pouco agora... - Mick disse, tirando o notebook das mãos dela e beijando-a.

- Está bem...

Clara teve alguma dificuldade para encontrar as roupas certas para sair, mas decidiu-se por uma calça jeans agarrada ao corpo, um suéter de lã, um par de botas e seu casaco longo de couro.

- Você está linda, querida... - Mick, que também estava usando roupas quentes e casuais, disse ao encontrá-la na sala de estar. - Espera... acho que você deve proteger mais a garganta... vou pegar um cachecol para você...

- Está bem, querido... - Clara sorriu, deixando que ele trouxesse para ela uma paximina cinza, que ele ajeitou ao redor de seu pescoço.

- Pronto... embrulhadinha para sair no frio... - Mick sorriu.

Os dois desceram pelo elevador e sentaram-se no banco detrás de um mercedes preto. E quando Mick disse que nunca deixava espaço para o acaso, ele falava sério. Um carro com 4 seguranças acompanhava de perto o carro de vidros  escuros em que estavam.

Apesar do sol e do céu azul naquela manhã sem nuvens, fazia muito frio. E as pessoas que caminhavam pelas ruas, andavam rapidamente, bem agasalhadas com seus casacos, luvas e gorros.

Logo os dois desciam do carro nas melhores lojas da cidade e faziam suas compras; basicamente presentes de natal para toda a família de Clara e para seus amigos, bem como os presentes que Mick distribuiria para sua família e amigos.

- Querida, estava aqui pensando... podemos chamar seus parentes e amigos para passarem as festas conosco...

- Não posso, Mick... tinha combinado outra coisa com eles, faria as festas na minha casa em Londres... eles nem sabem que estou separada do Jack...

- Mas você não está... podemos mudar as festas para meu apartamento e recebemos todo mundo, inclusive o Jack...

- Você faria isso por mim?

- Não há nada que eu não faça por você, meu amor...

- Ah, Mick... você é mesmo muito gentil comigo... mas ainda estou muito confusa...

- Fica tranquila, meu amor... não precisa decidir nada agora... quer saber o que faremos? Vamos almoçar? Estou com uma vontade enorme daquela torta de trufas negras do Cinq...

- Não podemos... lá tem sempre muita gente... vão nos reconhecer...

- Está bem... vamos para casa, então... vou ligar para o meu mordomo e mandar que ele encomende com o restaurante o que queremos comer... está melhor assim?

- Perfeito, querido... o Dr Lanee pediu que eu coma carne em todas as refeições...

- Eu sei... eles têm aquele cordeiro maravilhoso lá...

- Pode pedir, querido... me perdoa... sei que estou atrapalhando a sua vida...

- Atrapalhando? De jeito nenhum, meu amor... você me faz tão feliz...

- Não faço e você sabe disso...

- Eu te amo... só isso me importa...

- Também te amo, mas...

- Isso basta, meu amor... sabe... estes sonhos que tenho tido conosco, no castelo...

- Sim...

- Sabe o que mais nos vejo fazendo?

- O que?

- Conversando, querida... você era a minha melhor amiga e ficávamos falando sobre nossos sonhos e nossas aspirações como falamos hoje em dia e éramos muito felizes...

- Eu te adoro, Mick... - Clara beijou-o e os dois percorreram o restante do caminho de volta ao apartamento abraçados, no banco detrás da Mercedes.

Chegaram ao apartamento, distribuíram o conteúdo das muitas sacolas de compras sob a árvore de natal, almoçaram os pratos sofisticados que já esperavam por eles,  e ainda em clima de paz, foram descansar no quarto de Mick, assistindo a um filme na TV, deitados em sua cama, Clara lembrou-se de olhar seus e-mails, pegou o notebook e logo começou a chorar.

- O que foi, querida? - Mick aproximou-se dela, assustado com suas lágrimas.

- Olha isso, Mick... - ela disse, colocando o computador no colo dele.

Enquanto Mick lia, seu celular começou a tocar. - É o Jack, querida... - ele disse ao ver o nome do amigo piscando na tela.

- Jack? Preciso falar com ele...

- Acho melhor eu falar com ele antes...

- Está bem...

-  Olá Jack, tudo bem com você?

- Tudo, amigo... e com você?

- Está tudo bem... estou em Paris... na casa do Mike... vocês ainda estão na cidade?

- Que bom... nós estamos sim... vem aqui, no meu apartamento... a Clara está muito ansiosa para te ver...

- E eu preciso vê-la... sei que estou interrompendo algo importante para vocês...

- Não, Jack... você não está interrompendo nada... somos amigos... estou aqui apenas apoiando minha melhor amiga, neste momento em que ela espera que o grande amor de sua vida volte para ela...

Clara ouvia o que Mick dizia para Jack e chorava, com a cabeça pousada no ombro do amigo.

- Diga a ela que preciso dela...

- Você quer falar com ela? - Mick perguntou, ao sentir a voz do amigo embargada de emoção do outro lado da linha.

- Está bem...

Mick entregou o celular nas mãos de Clara, o que a fez chorar ainda mais. - Jack, meu amor...

- Menininha...  - ele também chorava do outro lado da linha. - Que bom ouvir sua voz... me perdoa por atrapalhar... mas estou com muitas saudades...

- Você não está atrapalhando nada, meu amor... onde você está?

- No apartamento do Mike...

- Fica aí... eu vou até você...

- Está bem, meu amor... estou te esperando...

- Mick querido...

- Eu sei... não precisa dizer nada... vai lá vê-lo... vocês dois merecem essa felicidade... sofreram tanto...

- Eu vou... sim... olha, Mick... eu não estou deixando de te amar... o Jack me ensinou isso... amar é para sempre...

- Eu sei... não se preocupe, querida... estaremos bem... eu sei disso... mas você precisa estar com ele de novo... vai tranquila, meu amor...

Clara beijou Mick no rosto, levantou-se da cama, vestiu as mesmas roupas que estava usando antes, desceu de elevador, deixou o prédio e caminhou, em prantos, até o próximo quarteirão.

Não sabia o que diria, quando chegasse lá. Apenas se concentrava em continuar caminhando, enquanto o vento frio fazia seu rosto doer.

- Boa tarde, Madame Noble... está muito frio hoje, não? - o porteiro do prédio de Michael Silver conversava em um inglês cheio de sotaque com Clara, visivelmente embaraçado por vê-la chorando. - A senhora precisa de alguma coisa?

- Não Louis... obrigada... o senhor Noble me espera...

- Sim... suba por favor...

- Obrigada...

No elevador, Clara sentia as mãos tremendo ainda mais. Sua ansiedade provocando uma crise de asma pesada, estava quase sufocando quando conseguiu alcançar o remédio no bolso de sua calça jeans e usá-lo, antes que o elevador chegasse ao andar do apartamento de Michael Silver.

Jack a esperava do outro lado da porta do elevador, pegou-a em seus braços e a beijou. Um beijo apaixonado, doce, carregado de um amor que existia desde sempre.

Estavam juntos de novo, sempre tinha sido assim e para sempre seria.

FIM

7 de jun de 2014

Rockstar - Capítulo CXLVIII


Seu plano era razoável, mas não tinha pensado em tudo. Paris já decorada para o Natal estava mais linda do que nunca e seu desejo de dividir toda aquela beleza com ela era cada vez maior.

Queria vê-la novamente, mas não tomaria a iniciativa. Não sabia o que estava acontecendo com ela naquele momento, mas se ela estivesse feliz, ao lado de Mick, não seria ele quem estragaria aquela felicidade, mesmo que isso custasse o fim de sua própria felicidade.

Jennifer e Cindy ligavam a toda hora, queriam saber como ele estava e segundo elas, cuidavam dele a pedido de Clara.. Elas também já tinham dado muitos conselhos sobre como ele deveria procurar por ela, mas ele não achava que isso o ajudaria.

E depois de instalar-se no apartamento do amigo Michael Silver,  ele  achou melhor colocar seu próprio plano em funcionamento.

Já era alta madrugada, Clara e Mick dormiam, cada um em seu quarto, enquanto ele, de frente para seu computador, tentava escrever o texto mais difícil de sua vida. Tinha decidido que libertaria Clara até de sua obrigação como ghost writer e, para isso, seguiria com a elaboração de sua autobiografia do ponto em que ela tinha parado.

Mas não sabia nem como começar, a dor que sentia em seu peito cada vez que começava a escrever alguma coisa... precisava dela, se ela estivesse ali tudo estaria bem e as lembranças da morte de seu amigo Richard Donovan não o fariam mais chorar, como chorava.

Mais uma vez puxava seu notebook para mais perto e começava a escrever...

"Meu amor, me perdoe... sei que prometi me afastar para que você pudesse viver completamente seus sentimentos, mas está muito difícil.
Estou escrevendo depois de tentar muitas e muitas vezes terminar minha autobiografia, queria libertá-la da obrigação de ter que continuar lidando comigo e com meus problemas, pelo menos como ghost writer, mas não estou conseguindo. A dor imensa da perda do meu melhor amigo agora se alia a uma ainda maior e me paralisa diante do teclado.
Sem você é impossível... e eu quero que você saiba disso... mas não quero com isso  pressioná-la a retomar o trabalho, estou apenas pedindo perdão por ser incapaz de terminar de contar minha história e reconhecendo que preciso de você... se bem que preciso de você, não só por isso...
Mas não quero pressioná-la... Continuo te amando muito... Fique bem...  Jack."

Leu e releu o texto que tinha escrito,  depois, sem querer pensar muito, copiou-o para seu e-mail e enviou-o a Clara. Arrependeu-se disso, no segundo seguinte, mas pelo menos assim, ela saberia o que estava acontecendo com ele.

E pensar que ela estava muito perto dele agora, na mesma rua, no mesmo quarteirão, apenas alguns prédios distante,  nos braços de seu amante, no apartamento dele.

Se ao menos ele conseguisse fazer com que ela o esquecesse; mesmo que tudo indicasse que ele tinha feito parte de sua vida anterior. Teriam até tido um filho juntos, não fosse o trágico desfecho, teriam tido anos felizes de vida em comum, naquele maldito castelo ou em qualquer outro lugar em que vivessem.

Ele também fez parte do passado dela, uma vida em comum, há muitos séculos, pelo menos ele achava que teve. Quando ele era Berthold, o segundo filho do senhor de toda a região e ela era Ceridwen, sua pequena Ceridwen e dividiam um casebre construído por suas próprias mãos, no alto da montanha.

Foram muito felizes lá, mas por pouco tempo e novamente naqueles poucos meses que conviveram. Que ela o amava, nunca teve dúvida, quando estavam juntos tudo ficava perfeito, mas agora ele precisava reconquistá-la.

Seria difícil, muito difícil, mas estava disposto a fazer qualquer coisa para tê-la de novo.

Continua
 

22 de fev de 2014

Rockstar - Capítulo CXLVII

 

A manhã seguinte chegou logo e com ela a preocupação de enfrentar todos os amigos reunidos para gravar no estúdio daquele castelo.

Mas ou Mick tinha chegado antes e pedido para não comentarem ou todos ainda estavam chocados demais para falar e por isso, Clara encontrou um cenário bem diferente do que esperava.

- Bom dia, Princesa! - David fez festa assim que a viu chegando à sala de jantar onde todos tomavam café da manhã. - Então... hoje vamos ao estúdio?

- Vamos sim, querido... -  Clara sorriu. - Obrigada...

- Por que querida? Não estou fazendo nenhum favor... você é uma estrela...

- Não... obrigada por me apoiar neste momento tão difícil para mim... o Jack é a minha própria vida e perdê-lo agora... - Clara tentava controlar as lágrimas que escorriam em seu rosto. - Meu coração está destruído... me sinto abandonada... mas sei que vou me reerguer porque tenho vocês aqui ao meu lado...

- Ah, querida... - Mick abraçou-a. - Vai dar tudo certo...  todos aqui te amam muito...

- Mas não é isso o que eu quero falar... quero pedir a todos vocês para ajudar o Jack... sei que ele agora deve estar muito triste e sozinho...por favor... não o abandonem...

- Nós vamos ajudá-lo, querida... - Cindy, olhava agora com muita pena da tristeza da amiga. - Estamos do seu lado...

- Pode contar conosco, Princesa... - Keith sorriu para ela. - Vamos cuidar do Jack para você...

- Obrigada meus queridos... - ela disse, enquanto Mick pegava-a pela mão e a levava até o banheiro para lavar o rosto e recuperar-se.

- Vem, amor... vou cuidar de você... fica tranquila, vou ligar para o Jack assim que terminarmos o café da manhã...

- Obrigada, meu amor... e me perdoa...

- Vai ficar tudo bem... eu te garanto...

- Me desculpa, eu não consigo deixar de me preocupar com ele...

- Eu entendo, meu amor... vamos para o estúdio, eu sei que lá você vai se sentir melhor...

- Vou tentar... mas não prometo nada... estou muito triste com tudo o que aconteceu...

- Eu sei, querida... calma... você vai ficar bem... eu tenho certeza...

Sentindo seu coração em frangalhos, Clara não tinha muita alternativa naquele dia, a não ser concentrar-se na música,  recusando-se a pensar no que tinha acontecido,  ela passou o restante da semana dentro do estúdio com seus amigos músicos e o resultado foi um disco solo, seu primeiro disco, acompanhada por alguns dos maiores astros da música e produzido por eles.

Na quarta-feira seguinte, como combinado, o grupo se dispersou, a maioria dos músicos e suas esposas voltaram para Londres, enquanto Clara, um pouco mais calma, seguiu com Mick, em seu avião particular até Paris.

Ela desejava estar com Jack, tê-lo novamente em seus braços, mas aconselhada por Cindy e Jennifer, não tomou a iniciativa de entrar em contato com ele.

A turnê da Crossroads seguia em frente e ela acompanhava tudo o que acontecia  pela internet, já sabendo que no momento de sua participação, na música "The Light", Jack agora fazia um dueto com sua voz gravada, enquanto imagens do videoclipe apareciam no telão.

Alguns jornalistas especulavam sobre os motivos de sua ausência, mas uma nota oficial emitida pelo escritório de Michael Peters apenas dizia que ela estava com uma forte laringite provocada pelo frio e que precisava de descanso para recuperar-se.

E Clara chorou muito ao ver a gravação do momento em que Jack apresentava "Unexpectedly" durante o show extra na O2 arena, o primeiro desde que estavam separados: "Ela está doentinha agora, mas sei que voltará para os meus braços em breve... Menininha... esta é para você... nunca se esqueça que eu te amo e mesmo depois que o mundo terminar, eu ainda estarei te amando... "

Mick não saía do seu lado e  percebendo-a mais fraca, convocou o Dr Lanee e sua equipe, que com muito esforço e algumas transfusões de sangue, durante uma internação de três dias, conseguiu que seu organismo reagisse o que possibilitou um significativo ganho de peso de dois quilos.

O mês de novembro tinha terminado e a cada dia que passava, Paris ficava mais fria, mas também mais bonita, decorada para o Natal, que se aproximava rapidamente no calendário.

Para evitar comentários, ela só saia do apartamento de Mick para ir ao médico, checar a evolução de seu tratamento; mesmo assim, não conseguia deixar de admirar a beleza da cidade, que naquela época do ano conseguia ficar ainda mais linda.

Com o final da primeira perna da turnê, ela parecia estar mais deprimida e numa tentativa de alegrá-la, Mick voltou para casa naquela tarde, trazendo um enorme pinheiro e muitas caixas com enfeites para decorarem o apartamento para o natal.

- Que lindo, querido... vamos fazer isso juntos, então? - Clara abraçou Mick assim que ele revelou seus planos.

- Vamos... Minha querida... - ele a beijou. - Eu quero ver você feliz de novo... me diz... o que você quer... o que eu posso fazer por você?

- Você já fez, querido... se você não estivesse aqui, ao meu lado, provavelmente eu já estaria morta...

- Você está sentindo muita falta dele, não?

- Muita... e acho que não vai passar... vai? - Clara começou a chorar e Mick abraçou-a novamente.

- Ah, meu amor... - Mick beijou-a e passou a acariciá-la de uma forma mais ousada. Não tinham mais transado e naquela temporada em Paris, dormiam em quartos separados, mas isso não significava que o desejo entre eles estava completamente extinto, pelo contrário, por baixo de uma fina camada de cinzas, aquele amor ainda ardia em brasas e podia incendiar-se novamente a qualquer instante.
- Não... - ela o empurrou e fugiu dos seus braços, porque por mais que o desejasse, estava triste e confusa demais para permitir-se ceder a seus próprios desejos. - Por favor, querido... eu não consigo...

-  Está bem, meu amor... quero te fazer feliz.. vem, meu anjo... vamos montar a árvore de natal juntos...

Pacientemente, os dois foram espalhando os enfeites e lâmpadas pelos galhos da árvore e em poucas horas, tinham terminado e já podiam ligá-la na tomada.

Penduraram festões e meias de pelúcia na lareira e depois de todo o trabalho, relaxaram sentados no tapete, admirando a beleza do que tinham feito, com as luzes da árvore de natal iluminando a sala, enquanto xícaras de chocolate quente e cremoso ajudavam a aquecê-los.

- Ficou lindo, meu amor... - Clara esforçava-se para parecer feliz, mas seu sorriso triste denunciava seus reais sentimentos. - Me perdoa...

- Não tenho o que perdoar, meu anjo... eu quero apenas vê-la feliz novamente... mas acho que você não me ama mais...

- Não, querido... é claro que eu o amo... mas ainda sinto muita dor... quando me lembro dele...

- Eu sei, meu amor... eu sei... você ainda o ama muito e se sente abandonada  e cansada depois de tudo o que aconteceu...

- Tem razão, estou muito triste, nunca imaginei que ele me abandonaria desse jeito...

- Por que você não telefona para ele?

- Porque assim, enquanto não nos falarmos, continuarei tendo a impressão de que ele pode voltar para mim a qualquer momento... estou com medo  que ele me diga que não quer mais me ver... 

- Ele não faria isso, meu amor... tenho certeza que não...

- Não sei... ele foi embora e me deixou...

- Mas ele disse que estava fazendo isso para que nós dois pudéssemos viver o que precisamos viver...

- Eu sei querido... eu sei... mas eu achava que ele voltaria para mim...

- Não, meu anjo... acho que você vai precisar ir atrás dele... se é isso o que você quer...

- Eu não sei o que eu quero, Mick...

- O destino foi muito cruel conosco... você, eu e ele... não merecemos essa dor... por que tudo isso se tudo o que sinto é amor?

- Eu também... por que eu tinha que me apaixonar por dois homens?

- Tenho sonhado com nossa vida no castelo, querida... foi uma tragédia o que nos aconteceu, mas fomos muito felizes juntos...

- Eu sei, querido...  me perdoa por isso... o David Mersey disse que tenho esse poder de ver minhas vidas anteriores... e as pessoas que fizeram parte dessas vidas, acabam vendo também, quando estão perto de mim...

- Perdoar? Perdoar o que? É maravilhoso descobrir que eu te amo há tanto tempo... nunca amei ninguém assim... - Mick beijou-a novamente, os dois tentavam buscar nos braços um do outro a felicidade há muito tempo perdida.

Enquanto isso, Jack tentava relaxar em Heathrow, esperando seu voo ser chamado. Tinha decidido passar uns dias longe de tudo, seus amigos tinham oferecido a ele diversas possibilidades, mas a proposta que mais o agradou foi a de passar uns dias em Paris, no apartamento de Michael Silver, que estava a caminho de Los Angeles, com Jennifer.

Sabia que Clara estava lá, mas não ia com a intenção de encontrá-la. Tinha decidido que esperaria pacientemente que ela voltasse para ele, porque sabia que ela voltaria, era apenas uma questão de tempo.

Continua

18 de fev de 2014

Rockstar - Capítulo CXLVI



Em clima de namoro, Mick e Clara saíram da academia e desceram a escadaria do castelo, rumo ao salão de jantar, onde o afresco que retratava o drama de uma das vidas anteriores de ambos decorava o teto.

- Precisamos conversar com o Jack... onde será que ele está?

- Deve ter descido para o estúdio, querida... vamos lá?

- Vamos... - Clara sorriu e acariciou o rosto de Mick. - Espera, lá embaixo é sempre mais frio, vou pegar um casaco e a minha câmera...

Clara subiu os degraus rapidamente e abriu a porta do quarto, onde encontrou Jack arrumando as malas.

- Querido... o que você está fazendo?

- Vou embora... preciso fazer as malas...

- Embora? Como assim? - Clara sorria, imaginando que Jack estivesse brincando.

- Vou até Nice e de lá pego um voo para Londres... acho que até o fim do dia consigo chegar na nossa montanha...

- Espera... você está falando mesmo sério? Quer dizer... você está me abanonando?

- Não estou te abandonando, estou apenas saindo de cena para que você e  ele tenham a chance de viver isso que vocês estão sentindo agora...

- Por favor, Jack não faça isso...

- Já me decidi, Menininha... demorei demais para entender,  mas acho que será melhor assim... Você precisa ser feliz... e eu não estou te fazendo feliz... 

- Mas...

- Meu amor... eu acabei de ver vocês juntos, naquela sala de ginástica, senti dentro do meu coração a tua felicidade e entendi o que devo fazer... você precisa viver isso que sente por ele primeiro e depois... bem... depois, você sabe onde vai me encontrar...

- Jack... por favor...

- Querida... fica tranquila... de verdade...não estou te abandonando... sou seu... só vou te dar um pouco de espaço para você e para ele... não estou com ciúmes, só tenho amor e carinho por você... mas acho que você será mais feliz se puder viver isso que eu senti dentro de mim... Você o ama muito... não pode simplesmente deixá-lo para trás...

- Mas Jack... - Clara aproximou-se do marido e abraçou-o. Os olhos dos dois cheios de lágrimas. - Não me abandona... se você quer que eu esqueça dele, eu vou me esquecer...

- Não precisa... quero que você seja feliz e se isso significa que você precisa ficar com ele, eu aceito... me afasto e vocês ficarão bem...

- Para mim, é impossível viver sem você...

- Não é, meu anjo... não é... descansa esse seu coração... você não pode ser feliz de verdade comigo por perto... e é isso o que eu quero... te ver feliz de verdade...

- Mas como eu posso ser feliz sem você?

- Continuo sendo seu, meu amor... só vou me afastar um pouco para que você possa viver esse seu outro sentimento...  não suporto mais te ver assim, cheia de culpas, doente... não... você fica com ele, volta a ser feliz e depois, se você ainda me  quiser...

- Por favor, Jack... meu amor... - Clara já começava a sentir-se sem forças, enquanto Jack continuava a andar pelo quarto, juntando suas coisas em uma mala menor, tentando manter-se forte em seu propósito, concentrando-se apenas no que estava fazendo, enquanto sentia seu coração estraçalhado pelo sofrimento dela.

- Fica bem, meu amor... - Jack beijou Clara na testa e saiu do quarto com sua mala, deixando-a deitada na cama, chorando descontroladamente.

Apesar da dor que sentia no peito, Jack não recuou, conversou rapidamente com Mick e em poucos minutos já estava a caminho do aeroporto de Nice e depois, em um jatinho particular, rumo a Londres.

- Jack... - Clara acordou com o barulho de um trovão, que iluminou o quarto.

- Calma, querida... - Mick, sentado na cama, ao lado dela, com seu iPad em mãos, agora a abraçava. - Está tudo bem...

- Não, não está... o Jack me abandonou...

- Não, querida... ele só quer que você fique bem... me explicou tudo antes de ir...

- Meu casamento acabou...

- Não, meu amor... ele só quer nos dar espaço para conversarmos direito e vivermos o nosso amor sem culpa... sem pressão... relaxa, minha vida... eu e o Jack queremos a mesma coisa, te fazer feliz...

- Ele me abandonou, querido... não estou mais viva... morri por dentro...

- Meu amor... não faz isso com você... - Mick puxou-a para seus braços, acariciando seus cabelos, na tentativa de acalmá-la. - Eu te amo, me dá uma chance de te fazer feliz, minha querida... por favor...

- Está bem... não tem nada mais que eu possa fazer, agora que ele não me quer mais... - Clara agora tentava secar as lágrimas de seu rosto. - Você me ajuda?

- Ah, meu amor... - Mick segurava-a em seus braços, enquanto a sentia desvanecendo, de tanta tristeza. - Calma... vai dar tudo certo... vem querida... vamos lavar o rosto e descer, vou preparar alguma coisa para você comer... aliás, para nós dois comermos, porque eu também estou com fome... Vou cuidar de você... me deixa te fazer feliz... por favor...

- Está bem, querido... me perdoa... eu não esperava isso... estou muito triste agora... e os nossos amigos? Eles ainda estão aqui no castelo?

- Sim, meu amor... já é madrugada e estão todos lá embaixo, no estúdio trabalhando... estive lá e todo mundo está ainda um pouco perdido com o que aconteceu... mas todos estão preocupados com você... eu te dei um calmante, porque achei melhor que você descansasse um pouco...

- Ah, querido... você é tão maravilhoso comigo... eu te amo tanto...

- Casa comigo... peço um tempo para os Stones e vamos para longe, onde você quiser ir... Brasil, Tahiti, Paris... você escolhe...

- Ah, meu amor... eu não sei se vou conseguir...

- Vai sim... eu vou cuidar de você e te fazer feliz...

- Meu querido... - Clara sentiu uma onda de carinho enorme por Mick e beijou-o. Ele reagiu, puxando-a para seu colo e acariciando todo o seu corpo. Logo, ela não chorava mais, completamente entregue ao prazer intenso que ele a fazia sentir.

Depois do sexo, os dois desceram juntos na cozinha do castelo, completamente silencioso, enquanto seus amigos dormiam ou continuavam dentro do estúdio, no porão.

- Dizem que tem muitos fantasmas neste castelo... - Mick sorriu, enquanto preparava sanduiches para ele e para Clara com restos de um rosbife que encontrou na geladeira. - Eu nunca vi nada, mas o antigo proprietário do castelo me disse que via sempre uma mulher, andando pelos corredores...

- Mesmo? Engraçado... a única coisa que realmente mexeu comigo aqui foi aquela pintura no salão de jantar...

- Também mexeu comigo... chamei o Laurent para ver porque queria cobrir aquilo... mandar pintar... mas depois me disseram que era uma obra de arte importante e acabei desistindo... mas ela ainda me dá arrepios...

- O seu sonho... com a gaveta... como foi?

- Ah, querida... acordei chorando naquele dia... estava tão triste, escrevendo naqueles diários... sentia muita falta da mulher que eu amava...

- Meu querido... sofri tanto na noite passada, quando vi a morte dela... ela te amava muito e a pior dor,  foi perceber que meu filho... o filho dela... morria comigo... ela morreu muito triste por isso...  - Clara chorava, enquanto Mick secava suas lágrimas com os dedos...

- Meu amor... calma... não chora... - ele disse, também com os olhos molhados. - Estamos bem... estamos juntos... o tempo vai curar tudo, querida... tudo... Agora eu entendi... estou aqui para cuidar dessa dor.... curar seu coração....

- Mick... meu amor... é tão bom que você esteja comigo agora que o Jack me abandonou...

- Ele não te abandonou, meu amor... agora mesmo ele está esperando que você melhore... ele me disse isso... que ia se afastar para que você parasse de sentir culpa...

- Mas eu sinto... aqui dentro... meu coração está despedaçado. O Jack sempre foi um sonho para mim... e eu consegui perdê-lo...

- Você não o perdeu... de verdade... sabe o que ele me disse?

- O que?

- Mick, não sei mais o que fazer... eu a amo muito e não consigo mais vê-la sofrendo assim... acho que você pode ajudá-la, mas só se eu não estiver por perto... porque eu só a faço sentir-se culpada...

- Eu o amo muito... e mesmo entendendo a intenção dele, estou me sentindo abandonada... e culpada por isso... eu errei em me apaixonar por você... sinto meu coração morrendo aqui dentro do meu peito...

- Amor... você vai ficar bem... eu sei que vai... fica tranquila porque eu vou te ajudar... se você quiser podemos passar um tempo na Suiça... o doutor Lanee me mostrou fotos de um spa que ele tem por lá... vou com você e te ajudo a melhorar... e quando você estiver bem... eu estarei feliz... e você pode voltar para ele...

- Eu não sei... será que vou conseguir fazer isso? Estou tão triste...

- Vou te fazer feliz, meu amor... me dá uma chance... sabe...  nos últimos dias vi a vida inteira do Duque Jacques e foi tudo tão triste... acho que merecemos viver um pouco... só se você não me ama mais...

- Eu te amo, querido... - Clara sorriu e pegou a mão dele, sobre o balcão da cozinha. - Não duvide disso, meu amor...  se eu não te amasse, não estaria mais viva...

- Então... descansa em mim... relaxa... se cura e quando estiver bem, eu te levo até ele... onde ele estiver...

- Ah, querido... você faria isso por mim?

- O que você quiser, meu amor...

- Então vou lutar muito para ficar boa... Obrigada, meu amor por acreditar em mim...

Mick puxou-a para perto de seu corpo e beijou-a com paixão. Os dois choravam novamente, emocionados com os sentimentos que sentiam fluir, agora mais livremente de seus corações.

Continua

9 de jan de 2014

Rockstar - Capítulo CXLV



- Bom dia, Princesa, bom dia Velhão.... - David disse assim que os viu chegando ao salão de jantar. - Então? Prontos para o estúdio?

- Bom dia, Dave... - Jack sorriu para o amigo. - Acho que estamos prontos... e o nosso anfitrião? Onde está?

- Lá fora, despedindo-se da Doutora Hubllot... disse que já volta... e então, passaram muito frio nesta noite?

- Bastante... - Clara sorriu. - Mas meu amor, me aqueceu...

- Muito bem, Velhão... cuida da Princesa porque ela merece. Incrível essa história do sonho do Mick, não?

- É... - Jack apenas suspirou, não estava disposto a falar sobre aquele assunto,  sentia muito mais ciúmes do que gostaria de admitir. - Então, vamos fazer o que no estúdio hoje?

- Ainda não sei, Velhão... estou esperando conversar com o Mick e o Keith para saber...

- E o Keith?

- Ainda não acordou, Velhão... o Ron e o Charlie já levantaram e foram dar uma olhada na torre lá em cima, agora que parou de chover...

- E o Mike?

- Estava aqui, mas o celular dele tocou e ele foi para a sala de estar atender... a Cindy e a Jenni estão na sala de ginástica... você sabe como elas são...

- Sala de ginástica? - Clara sorriu. - Querido, você se importa se eu for até lá encontrá-las?

- Acho melhor você comer um pouquinho antes, amor... sua noite foi tão difícil...

- Mas não vou me exercitar, querido... sei que não posso ainda... só pensei em ir até lá para conversar mesmo...

- Eu sei, meu amor... eu só quero que você se alimente um pouco antes... preciso que você se cuide...

- Está bem, querido... vou comer alguma coisa, então...

- Bom dia, meus querido... - Mick sorriu ao ver que Jack e Clara já estavam no salão de jantar. - Então, vamos brincar um pouco lá no estúdio hoje?

- Vamos... - Jack sorriu. -  Vamos gravar aquela música que você nos mostrou na outra noite, Mick?

- Aquela e umas outras que eu tenho e que vocês ainda não ouviram... Clarinha, meu amor... você está bem hoje? Está pronta para cantar um pouco?

- Estou...

- Hum... este "estou" não me pareceu exatamente animado... o que foi, minha querida?

Clara não sabia o que responder, apertou a mão de Jack, que a ajudou. - Ela ainda está se recuperando, Mick... um dia ela está melhor, no outro, nem tanto...

- Mas você vai cantar, meu amor e tudo vai melhorar... eu te prometo... - Mick pegou a mão de Clara e beijou-a.

- Obrigada, querido... - ela sorriu para ele, ainda preocupada com uma possível reação de Jack. - Acho que você tem razão...

- Então, Princesa... Vamos lá cantar um pouco... acordei com a cabeça fervilhando de ideias e acho que hoje faremos músicas lindas...

- Que bom, David... - Clara sorriu para ele. Sua cabeça também fervilhava, estava ainda mais confusa, agora que tinha entendido que Mick também tinha feito parte de uma de suas vidas passadas.

Depois de comer tudo o que Jack e Mick serviram a ela, Clara levantou-se da mesa e foi até a academia completa que Mick mantinha no segundo andar do castelo.

- Bom dia, amigas... - ela disse assim que chegou. - Nossa! Que academia linda essa aqui...

- Oi Clara... - Cindy sorriu para ela, parando a esteira em que corria. - Que tal isso aqui, amiga? Vamos fazer um pouco de Yoga?

- Bom dia, querida... - Jennifer sorriu, também parando a bicicleta. - Lindo isso aqui, não?

- Lindo mesmo... - Clara sorria e examinava o enorme salão com piso de madeira, uma grande  parede espelhada e os mais modernos aparelhos de ginástica, além de uma grande área, próxima do espelho, coberta por um tatame, onde seria possível ensaiar passos de dança. - É a cara do Mick... olha só...

- Então, querida... ficou com ciúmes ontem? - Jennifer caminhou até ela, pegando uma garrafinha de água mineral e seu celular que estavam em uma bela mesinha, em um dos cantos da academia. - O Mick não deixa mesmo passar nada...

- Só um pouco... mas já passou... sabe... acho que ter ciúmes do Mick seria mesmo uma perda de tempo... - Clara sorriu. - Queria tanto conseguir deixar de amá-lo...

- Você me parece abatida hoje, querida... você está bem? - Cindy disse, enquanto regulava os pesos de outro aparelho para exercitar-se.

- Tive um pesadelo horrível na noite passada... eu era a Anne de Bretagne, estava grávida, com uma barriga enorme e tinha saído do meu esconderijo para respirar um pouco, quando soldados da duquesa me encontraram, me perseguiram entre a praia e a floresta, aqui ao lado e me mataram...

- Meu Deus! Você está bem, querida? - Jennifer aproximou-se dela e abraçou-a. - Então...

- É... acho que eu era ela...

- E o Mick era o Duque, certo?

- Era... será que todas as vezes em que eu encontrar o amor será assim?

- Querida... não fica assim... puxa... isso explica muita coisa... vocês se gostam tanto, não?

- Eu o amo... e vai me doer muito ter que deixá-lo...

- Mas você vai mesmo separar-se dele?

- Vou... o Jack não disse nada, mas eu sinto que ele está muito abalado... não posso perdê-lo...

-Ah, querida... calma... acho que o Jack está tranquilo com isso...

- Não está... eu sinto aqui dentro do meu peito, é uma dor horrível... ele está muito decepcionado...

- Calma, querida... vem aqui, bebe um pouco de água... - Cindy puxou Clara pela mão e levou-a até o banheiro da academia, para lavar o rosto e beber água. - Isso, querida... relaxa... vai dar tudo certo...

- Espero que sim... Obrigada por me ouvir, por me ajudar... amo muito vocês...

- E nós te amamos amiga... - Jannifer abraçou Clara, que tentava parar de chorar.

- O Mick já sabe disso? - Cindy perguntou preocupada.

- Não... e não sei se devo contar para ele... tenho medo de magoar ainda mais o Jack... não tenho intenção de contar...

- Meninas, cadê vocês? - Mick disse ao abrir a porta da academia, procurando pelas três amigas. - Clara, querida... onde você está?

- É o Mick... vou lá fora falar com ele... - Jennifer ajeitou-se no espelho e saiu rapidamente do banheiro. - Oi, querido... tudo bem?

- Oi Jenni... onde a Clara está?

- No banheiro... ela já vem...

- Está tudo bem com ela?

- Está, querido...

- Preciso falar com ela... o Jack acabou de me contar uma coisa... estou preocupado com ela agora...

- Oi Mick... - Clara disse ao sair do banheiro, ainda lutando com suas lágrimas.

- Queridas... será que vocês podem nos deixar conversar um pouco?

Jennifer e Cindy pegaram seu material e deixaram a academia, enquanto Mick e Clara olhavam um para o outro, parados, esperando.

- Meu amor... - Mick caminhou na direção de Clara e abraçou-a. - O Jack me contou tudo...

Clara apenas voltava a chorar nos braços de Mick. Estava cansada, pela noite mal dormida e ainda chocada por tudo o que tinha visto em seu sonho.

- Ah, querido... foi tão horrível...

- Eu sei, meu amor... eu sei... eu queria muito que isso tudo nunca tivesse acontecido... a ignorância pode mesmo ser uma bênção... eu... o que eu posso fazer para te ajudar, minha vida... preciso te fazer feliz...

- Você me faz feliz, querido... muito... e eu te amo tanto...

Mick beijou-a apaixonadamente, envolvendo-a em seus braços, aquele era um reencontro diferente, de dois amantes que passaram séculos separados.

- Ah... querida... - Mick também chorava, segurando-a. - Meu amor... você sabe que essa coisa mística nunca me seduziu, mas... quando o Jack veio me contar... tudo fez sentido... esse amor que eu sinto...

- Eu sei querido... para mim também fez sentido... o que vamos fazer sobre isso?

- O que você decidir, minha querida... eu estou nas suas mãos...

- Não sei, meu amor... você vai precisar me ajudar... estou completamente perdida agora...

- Mas tudo vai ficar bem, meu amor... você vai continuar tomando seus remédios, vai recuperar o peso, vai fazer a turnê com seu marido e se precisar de mim, você me terá por perto... basta me chamar...

- Ah, Mick... eu te amo tanto...

- Também te amo, querida... nada para mim é mais lindo do que ter você nos meus braços...

- Meu amor... - Clara beijou-o novamente, sentindo-se derreter mais e mais em seus braços.

No momento exato em que Jack abria a porta da academia. Sem fazer qualquer som, ele simplesmente fechou a porta e foi até o quarto que dividia com ela no castelo. Tinha tomado uma decisão e sabia que iria doer muito, mas que a faria feliz e fazê-la feliz era a única coisa que importava para ele.

Continua 

28 de dez de 2013

Rockstar - Capítulo CXLIV



A estrada para chegar ao castelo também não foi fácil. A tempestade, com ventos que sopravam do mar, varria a pista estreita e a tornava escorregadia, condições que deixaram os três quietos, apenas sentados no banco detrás da limousine, de mãos dadas,  apavorados também em terra, enquanto circundavam a montanha.

Entraram rapidamente no castelo e reuniram-se aos outros convidados, também assustados com a inclemência daquela tempestade.

- Desculpem queridos, parece que a natureza não tem qualquer respeito pelas nossas agendas... mas não deixaremos essa tempestade horrível estragar todo o nosso final de semana... teremos nosso descanso, nossa diversão e nossa música; como merecemos... - ele sorriu simpaticamente. - Quero meus convidados felizes, como estou feliz em tê-los todos aqui... Tomei a liberdade de reservar a vocês os quartos que vocês usaram da outra vez que estiveram aqui... meus empregados irão ajudá-los com a bagagem... me perdoem, mas preciso agora localizar o Charlie e minha convidada especial madame Hublot... Nos reunimos daqui a pouco, às 6 da tarde aqui neste salão para um cocktail... Obrigado por estarem aqui...

- Obrigado por nos convidar, Mick... - David sorriu de volta, liberando todos para seguirem para suas suítes.

Clara e Jack subiram as imensas escadarias e seguiram até o belo quarto com sua imensa cama com dossel, tinha seus vasos cheios de muitas rosas cor de lavanda e tinha recebido um novo quadro, um original de Monet, da fase de Giverny, retratando um belo campo de lavandas, na frente do qual Clara parou imediatamente, boquiaberta.

- O que foi, amor?

- Este quadro.. mais um Monet...

- É um original? - Jack perguntou aproximando-se dela e abraçando-a por trás, com os olhos na tela. - Claro que é um original, ele faz tudo o que pode para te impressionar, não é?

- Ah, meu amor... me perdoa...  eu não tenho intenção de te magoar quando faço isso... eu e o Mick temos isso em comum, nós dois amamos a arte e...

Jack calou-a com um beijo, puxando-a pelas mãos até a cama, enquanto a despia. -  Eu preciso ter você agora...

Os dois se amaram com o desespero de quem acabou de ver a morte bem de perto, há poucas horas, naquele avião, que lutou tanto para escapar inteiro da tempestade que o cercava. Precisavam comemorar o fato de estarem vivos e ainda juntos, apesar de tudo.

- Menininha... - Jack quebrou o silêncio, enquanto descansavam depois da total entrega. - Eu sei que você me ama... sinto isso quando estamos juntos...

- E está certo... eu sou sua... Jack... você sabe disso... e é isso o que eu quero... ser sua...

- Você quer dizer que esqueceu dele definitivamente?

- Não... eu quero dizer que você me tem inteira com você, aqui, agora... como te sinto inteiro comigo...

- Mas isso significa...

- Isso significa o que disse... sempre que estou com você, estou inteira com você... e isso significa que você não precisa ter ciúmes de ninguém... ok?

- Eu estou tentando, querida... de verdade... - Jack deu um sorriso sem graça enquanto dizia isso. - Eu te juro que tento entender como você pode amar nós dois ao mesmo tempo... eu não consigo pensar em mais ninguém, nem em mais nada... já te disse que até a música me parece uma coisa tão pequena diante do que temos...

- Mas eu não quero isso, querido... nunca quis... quando você me fala esse tipo de coisa eu me sinto uma monstra que está te destruindo... eu estou aqui para te fazer feliz, lembra?

- E me faz, Menininha... muito...

- Não seria capaz de te tirar da música... sei que é ela que te mantem vivo, meu amor...

- Não... não é mais... é você...

- Ah, meu amor... não fala assim... vem... vamos nos arrumar, já são quase 6 da tarde... estou tão ansiosa para conhecer a história desse lugar...

- Você gosta dessas coisas, não Menininha? Arte, história...

- E você não gosta?

- Gosto... mas gosto muito mais de você...

- Vem amor... não gosto de deixar nossos amigos esperando...

Os dois vestiram roupas bonitas e quentes e desceram para o salão onde todos já estavam reunidos, em dois grupos, como de hábito, Cindy e Jennifer um pouco mais distantes da grande roda de músicos, falando de música, como sempre.

. - Querida... - Mick disse ao ver Clara aparecendo nos últimos degraus. - Quero apresentá-la ao Charlie...

- Senhora Noble! Finalmente! - Charlie levantou-se e caminhou até ela, beijando sua mão. - O Mick fala tanto de você que sinto que já a conheço...

- O Mick é um amigo muito querido... é uma honra conhecê-lo finalmente...

- Ah Jack, meu caro... sua esposa é mesmo uma princesa como os rapazes me disseram...

- Oi Charlie, meu velho, como vai? - Jack beijou-o no rosto. - Ela é sim... a mulher mais linda do mundo...

- Sei que não sou, queridos... - Clara sorriu. - Mesmo assim, fico muito feliz de ouví-los dizendo isso...

- Adorável... não? - Mick aproximou-se do grupo novamente.

- Tem razão...

- Ah, senhor Watts, o senhor é muito gentil... - Clara sorriu, um pouco encabulada e beijou-o no rosto. - Obrigada...

- Prefiro ser chamado de Charlie, querida... - ele sorriu e beijou mais uma vez a mão de Clara. 

Depois de pegar uma taça de champagne, Clara caminhou até onde suas amigas já estavam reunidas, conversando sobre o terror que sentiram no voo. - Querida, hoje você não estava sozinha em seu medo.... - Jennifer sorriu. - Quase morri também... acho que foi o pior voo da minha vida...

- Da minha também... - Cindy mostrou as mãos ainda trêmulas. - Acho que vou precisar de muito champagne para conseguir dormir esta noite...

- Estou um pouco mais calma agora, graças ao meu amor... - Clara suspirou. - Vou precisar muito dessa calma, amigas... o momento em que eu e o Jack teremos uma conversa definitiva com o Mick se aproxima, minha saúde está mais equilibrada, é a nossa melhor chance... o que é uma pena... porque ainda o amo muito...

- Você tem sorte de tê-lo tão apaixonado por você, querida... - Jennifer sorriu. - Antes de você descer, ele me disse que sabe da sua intenção de afastar-se e entende e respeita o seu relacionamento com o Jack, mas que vai doer muito ficar longe... Me deu muita pena...

- Ah, Jenni... - Clara suspirou já com os olhos cheios d'água. - Eu sei disso tudo... quero muito ter um tempo sozinha com ele para conversarmos direito... ele é tão carinhoso comigo e eu não consigo deixar de amá-lo...

Mick percebeu o olhar dela através da sala e sorriu. Desejava tê-la em seus braços, mas sabia qual era a sua intenção. Pressionada pelo marido, certamente ela pediria que se afastasse e ele o faria, mesmo que isso o destruisse. Assim, a teria ainda como amiga e poderia voltar a vê-la e com o tempo, quem sabe, poderia tê-la novamente nos braços, quando tudo se acalmasse.

Clara acompanhou Mick com os olhos, quando ele se afastou do grupo para atender o celular, voltando alguns minutos depois, de braço dado com uma bela mulher. Loura, alta, com enormes olhos azuis, a  historiadora Susan Hubllot, poderia ser facilmente confundida com uma modelo, mas era  professora de História Francesa na Universidade de Sorbonne, pesquisadora e autora de inúmeros livros sobre o assunto.

Sua maior especialidade era a nobreza francesa, duques, príncipes, reis; como  historiadora ela fazia pesquisas profundas e publicava biografias completas de muitos  personagens da época anterior à revolução, que transformou a França em uma república. E, a pedido de um dos antigos donos do Chateau St Jordan, ela também pesquisou longamente a história do castelo e da família nobre que lá tinha vivido por tantas gerações.

Foi por causa desse livro que Mick teve a ideia de convidá-la. Mais especificamente o capítulo dentro dele que tratava da história do Duque Jacques de Grimaldi, o homem que encomendou a pintura do afresco "O Idílio" para Rafaello Santucci, um promissor pintor renascentista que teria desaparecido logo após terminar o trabalho no castelo.

Mick caminhou dramaticamente até a frente da gigantesca lareira acesa do salão principal do castelo e apresentou a Doutora Hubllot para cada um de seus outros convidados. - Querida Clara, esta é a Doutora Susan Hubllot... Madame Hubllot, esta é Clara Noble... - Mick sorriu ao perceber nos olhos de Clara, um lampejo bem maior de ciúmes do que ele esperava. Estava muito feliz com sua sorte, além de profunda conhecedora da história de toda a região, aquela era mesmo uma mulher suficientemente bela para deixar Clara insegura.

- Muito prazer... - Clara disse em francês para a mulher que sorriu timidamente. Provavelmente sentindo-se embaraçada diante de tantas celebridades reunidas na mesma sala. - Então é a senhora que conhece a história completa deste lugar...

- Sim... - a mulher sorriu timidamente. - Fiz uma descoberta incrível, ontem, aqui, que mudará completamente os rumos de minha pesquisa...

- Mesmo? - Clara arregalou os olhos, curiosa. - Que descoberta?

- É uma surpresa, querida... - Mick sorriu. - Depois do jantar, todos vocês saberão...

Clara queria continuar a conversa, mas Mick levou a historiadora adiante, para apresentar às suas amigas que estavam reunidas no sofá, relatando para Patti Richards, que acabara de chegar com Keith Richards e Ron Wood, todo o sofrimento que tinha sido a viagem delas até o castelo.

- Clara, querida... - Jack chamou-a para perto dele. - O que vocês estavam falando?

- A doutora Hubllot me disse que fez uma grande descoberta, ontem, aqui no castelo... - Clara sorriu. - O Mick disse que ela escreveu um livro sobre a história dele. E eu estou morrendo de curiosidade agora...

- E o fato da doutora Hubllot ser linda, não te afeta nem um pouco, afeta?

- Não sei do que você está falando, querido... - Clara disfarçou.

- Você está com ciúmes agora porque o Mick a está levando para conhecer todos os seus amigos... ela é mesmo linda, não é?

- Ah, querido... sou assim tão transparente?

- É... - Jack sorriu. - Mas isso não é ruim... não se preocupa, meu amor... ele ainda te ama...

- É tão estranho ouvir você dizendo isso... - Clara pegou Jack pela mão. - Me perdoa por ter estragado tudo para nós querido...

- Ah, meu amor... - Jack agarrou-a e beijou-a. - Você não estragou nada... você é a melhor coisa que já aconteceu em minha vida...

- Eu te amo...

Enquanto os dois namoravam, o cocktail que antecederia o jantar continuava a ser servido. Mick conversava com Keith e Ronnie, enquanto a Doutora Hubllot respondia as muitas questões feitas a ela por David Mersey e Charlie Watts.

Como não podia deixar de ser, quando se tratava de Mick Jagger, o jantar foi sofisticado, combinando perfeitamente com o maravilhoso cenário daquele salão e seu teto ocupado pelo lindo afresco pintado por Rafaello Santucci.

Clara agora estava mais quieta, prestando muita atenção a tudo o que  a Doutora Hubllot dizia sobre sua pesquisa, tentando advinhar a tal surpresa que ela tinha prometido aos convidados de Mick para aquela noite.

Mick por sua vez parecia apreensivo, como se aguardasse o momento para dizer algo muito importante e estivesse ensaiando  mentalmente, sem parar, ainda com medo de perder a coragem.

Depois da sobremesa, uma mousse de chocolate, com calda de cerejas; foi servida junto com o melhor champagne, os convidados foram chamados por Mick para acomodarem-se na sala de televisão, no segundo andar do castelo, onde a Doutora Hubllot faria sua aguardada palestra especial sobre a história do castelo e finalmente revelaria a tal surpresa.

Acomodada em uma pequena sala com cadeiras de cinema, Clara agora segurava a mão de Jack o tempo todo, não sabia dizer o que era a tal surpresa, mas ficava mais preocupada a cada minuto que passava.

- O que foi, querida? Está com frio? Me dá essas mãozinhas que vou esquentá-las.... - Jack pegou as duas mãos de Clara e prendeu-as entre as suas. - Mick... será que não tem como aumentar um pouco o aquecimento? A Clara está congelando...

- Claro... vou providenciar... - ele disse caminhando até um dos cantos da sala e abrindo os controles do sistema de climatização. Além disso, pediu a um empregado para trazer uma manta para ela, que chegou apenas alguns segundos antes das luzes da sala se apagarem.

- Meus queridos amigos... - Mick sorria agora no pequeno palco, na frente da tela de cinema. - É um prazer recebê-los todos neste final de semana aqui nesta casa. Há alguns dias, eu tive um sonho que muito me intrigou... ele se relacionava a este castelo e à fascinante história do belo afresco de sua sala de jantar. Pesquisei então na internet atrás de mais pistas e foi lá que encontrei o nome da Doutora Susan Hubllot, que depois descobri ser a autora de um livro sobre este lugar e a família nobre que o ocupou através dos séculos... convidei-a para vir até aqui e depois que conversamos um pouco e contei a ela sobre o meu sonho e ela ficou tão curiosa com o que disse, que veio imediatamente para cá, ver se as informações que dei a ela por telefone estavam corretas... bem... mas acho que seria mais adequado que ela nos contasse sobre suas descobertas... com vocês, a Doutora Susan Hubllot!

Clara e seus amigos aplaudiram a doutora, enquanto Mick caminhava até a poltrona ao lado dela e do marido. - Continua com frio, querida? - ele sussurrou no ouvido de Clara discretamente, pegando sua mão e beijando-a.

- Melhorou, querido, obrigada... - ela respondeu com um sussurro também.

A doutora Hubllot aproximou-se de um púlpito que foi colocado sobre o pequeno palco por um dos empregados do castelo, apresentou-se e disse que antes de tudo, mostraria a eles um documentário feito pela BBC, há aproximadamente um ano,  e que tinha tido a colaboração dela no roteiro. E depois de falar brevemente sobre o documentário, a Doutora pediu que o projetor fosse ligado e ela sentou-se para assistí-lo junto com eles.

Clara estava agora tensa, olhava para a tela, sem conseguir sequer absorver todas as informações e a história que ela acompanhava, que ainda tinha cenas dramatizadas mostrando o drama completo do romance entre o Duque Jacques de Grimaldi e a pequena imigrante britânica Anne de Bretagne.

A versão dramatizada era a da lenda que parecia a mais aproximada daquilo que os historiadores tinham encontrado na documentação daquela região, livros, registros e a história contada de boca-a-boca através dos séculos.

O duque Jacques Grimaldi, depois de passar alguns anos em Versalhes, voltou para suas terras e como as encontrou em uma profunda crise, após um longo período de secas e invernos gelados, aceitou o casamento arranjado desde sua infância por seus pais, com Catherine de Villeneuve, a rica filha do Duque de Villeneuve.

Mas neste retorno, reencontrou sua namorada de infância, Anne de Bretagne, a filha do velho cavalariço de seu pai, um homem que tinha emigrado da Inglaterra, com a filha ainda muito pequena nos braços, depois de ver sua mulher queimada por bruxaria em uma fogueira.

Com pena da pequena e bela menina de cabelos vermelhos, a Duquesa de Grimaldi, decidiu criá-la junto com seus filhos e demais crianças nobres que viviam no castelo, por isso, ela recebeu a educação que apenas as damas nobres recebiam e estava pronta para frequentar até mesmo os salões de Versalhes.

Na adolescência, ela passou a ser a dama de companhia da Duquesa e o então Príncipe Jacques, em uma das muitas festas que aconteciam no castelo, começou a sentir-se cada vez mais atraído pela jovem e os dois criaram uma bela amizade, que com o tempo, transformou-se em um romance com consequências trágicas.

Quando a Duquesa soube do amor que seu filho tinha por sua dama de companhia, ela expulsou a garota e seu pai do castelo e há razões para acreditar que colocou um preço na cabeça dos dois, o que fez com que ambos passassem alguns anos escondidos em um vilarejo distante do castelo.

Inconformado com a atitude de sua mãe e acreditando que Anne estivesse morta, Jacques forjou uma carta de convocação do rei e partiu para Versalhes, onde passou muitos anos.

Com o tempo, e o patrimônio cada vez mais magro, pelas dificuldades econômicas causadas por uma longa seca na região, a Duquesa desistiu de seus planos e Anne e seu pai  passariam a ocupar novamente uma pequena fazenda, na estrada do castelo, onde cuidariam de uma grande plantação de lavandas, que o pai de Anne comercializava com os muitos perfumistas da região e que Anne tinha começado ela mesma a transformar em deliciosos perfumes... 

Clara agora não conseguia acreditar no que via e ouvia... o campo de lavandas, ela já o tinha visto em um sonho e agora, tinha a impressão forte de que sabia de tudo o que teria acontecido na curta vida de Anne de Bretagne, dali em diante e começou a chorar, quieta e discretamente, enquanto Jack a abraçava.

Os amigos de Mick aplaudiram o final do documentário, mas ainda não tinham ideia do que esperar das tais novas descobertas que a Doutora Hubllot tinha feito nos últimos dias, em que passou no castelo pesquisando.

- Obrigada, senhoras e senhores... - ela disse em um inglês com um forte sotaque francês. - Bem, não sei se todos aqui  perceberam que este documentário apenas reproduz a história oral que permaneceu, de personagens que viveram aqui neste castelo.
Até então, preenchíamos com a história oral, tudo o que nos faltou de documentação sobre a vida destas pessoas, que aqui viveram esse drama, cujo maior documento histórico ainda era a pintura feita no teto do salão de jantar deste castelo.

Conhecido como "O Idílio", este afresco, agora sabemos, foi encomendado a Rafaello Santucci, pelo Duque de Grimaldi, no ano de 1763; exatamente no mês de abril, quando o pintor terminou uma pintura encomendada pela igreja do vilarejo de St Jordan, o mais próximo daqui, naquela época e assim estava livre para assumir  seu novo encargo.
Que começou a ser realizado, exatamente no dia 23 de Abril de 1763. E esta exatidão é a grande e maravilhosa surpresa que o senhor Jagger me proporcionou.

Estava eu, prestes a dar mais uma aula na Universidade de Sorbonne, na manhã de ontem, quando um recado me foi entregue por uma das minhas auxiliares. Era um pedido para entrar em contato com o senhor Jagger, que eu sabia, havia adquirido recentemente o  castelo St Jordan.

Quando liguei para ele, desisti da aula que tinha para dar. Deixei tudo para trás e vim correndo para cá. Ele me perguntou especificamente sobre um dos móveis da biblioteca deste castelo, uma escrivaninha, que eu tinha usado por muitos dias, durante a pesquisa que fiz aqui, há seis anos, quando escrevi meu livro.

Mas a informação que ele me deu era diferente daquela que eu tinha. Ele me perguntou especificamente sobre um compartimento secreto, que podia ser encontrado no fundo falso da última gaveta do móvel. Naquele momento, o senhor Jagger não me disse que se tratava de um sonho dele, então imaginei que talvez o tivesse encontrado acidentalmente e corri para cá, chegando ontem, no final da tarde.

Mal cheguei aqui, corri até a biblioteca e exatamente na posição descrita pelo senhor Jagger finalmente encontrei o compartimento secreto e dentro dele, uma coleção sem preço de documentos históricos.

Este conjunto de diários, do Duque de Jacques de Grimaldi e este pequeno livro de capa vermelha, uma raríssima edição da "Lenda de Ceridwen e Berthold", que por sinal, está retratado no Idílio... é o pequeno livro vermelho nas mãos de Anne de Bretagne... - ela mostrou o detalhe na foto do afresco, usando a tela de cinema e uma caneta laser.

Bem... o senhor Jagger só me disse como soube do compartimento escondido na escrivaninha, quando chegou aqui e posso então concluir que foi pura sorte, para mim, como pesquisadora, que ele tenha sonhado com tal coisa. Assim... a partir destes diários, sei que poderei escrever minha melhor biografia de um homem nobre francês até hoje. E assim... só posso agradecer ao nosso anfitrião desta noite, por esta que é uma das mais importantes descobertas documentais da minha carreira de historiadora.

- Eu que agradeço, Doutora Hubllot... - Mick disse, levantando-se de sua poltrona, caminhando até o palco e apertando as mãos da historiadora. - Bem... como a doutora disse, tive um sonho muito vívido, na noite após a estreia do show da Crossroads e, porque ele me intrigou, decidi procurar mais dados sobre o castelo e encontrei na internet seu livro, doutora.

- Interessante, senhor Jagger... e viu então a escrivaninha em seu sonho?

- Vi mais... em meu sonho, entrava na biblioteca, abria o compartimento secreto e passava algumas horas escrevendo, à luz de velas nestes diários...

- Impressionante, Mick... - David decidiu que deveria falar. -  Isso só pode significar uma coisa, meu velho...

- Sei onde você quer chegar, Dave, mas não sei se acredito nestas coisas...

Depois do final da palestra da Doutora Hubllot, todos os convidados desceram para a sala de estar para aproveitarem a noite, com um fondue à beira da lareira. Para o desespero da historiadora, que temia que vinho e os petiscos servidos para os convidados, acabassem por destruir um dos frágeis cadernos, de onde ela aceitou ler algumas páginas, desde que continuasse usando luvas, com muito medo dele ser destruído, antes que pudesse tirar dele todos os textos.

A longa narrativa em um francês polido, emocionou Clara e Mick, que mesmo distantes um do outro, em lados opostos da sala, faziam um grande esforço para conter suas lágrimas, disfarçando-as para que ninguém percebesse.

- Que história linda... - Patty Richards também chorava quando a narrativa da Doutora Hubllot terminou. - Meu francês não é o mais perfeito do mundo, mas dá para perceber que ele a amava muito... que achado, o seu, doutora...

-  Verdade, senhora Richards... - Susan Hubllot era só sorrisos, depois de levantar-se das almofadas jogadas no chão, onde todos se sentavam e colocar seu precioso caderno a salvo em uma grande caixa de plástico, junto com os outros livros e documentos que tinha encontrado. Agora ela podia relaxar e aproveitar o vinho e a conversa perto da monumental lareira. - É uma história e tanto esta que tenho em mãos agora, graças ao senhor Jagger e será uma imensa oportunidade para mim... só tenho a agradecê-lo por me ajudar desta forma...

- Imagina, doutora Hubllot... - Mick sorriu simpaticamente. - Eu fico feliz em poder ser de alguma ajuda para a senhora...

- Me chame de Susan, por favor... acho que é o mais adequado nesta situação, sentada ao redor desta lareira tão agradável, no meio de pessoas tão notáveis... estou muito feliz de estar aqui...

- Está bem... Susan, meu nome é Mick... - Mick sorriu para sua convidada. - Mais vinho?

Aos poucos, as conversas em grupo, foram tornando-se mais íntimas e alguns dos convidados, resolveram aproveitar a noite fria para descansar da longa e penosa viagem até lá. Inclusive o anfitrião Mick Jagger, que discretamente, subiu para sua luxuosa suíte, levando pelas mãos sua mais nova amiga íntima, Susan Hubllot.

- Você ouviu o que a doutora disse, Menininha? - Jack e Clara eram os últimos ainda bebendo vinho, sentados na frente da lareira. - Então Berthold e Ceridwen são lendas...

- Você acha isso, Jack?

- Não sei mais o que eu acho, querida... Mas se não aconteceu...

- Se não aconteceu naquela época, está acontecendo agora... eu te amo tanto...

- Mas você também ama ele...

- Eu não sei mais, querido... sabe o casal da pintura?

- Sei... é uma outra história trágica...

- Tenho sonhado com eles... a história que a doutora Hubllot contou... eu a tenho visto em meus sonhos...

- Você acha que pode ter sido a tal Anne de Bretagne?

- Talvez...

- E o Mick era o tal do duque, não era?

- Não sei, querido... mas acho que sim...

- Faz sentido... quero dizer... vocês talvez tenham se reencontrado para terminar o que começaram...

- Não sei... mas acho que isso ajudaria a explicar muita coisa, não?

- Acho... aliás... vocês dois deveriam conversar sobre isso agora... o que ele está fazendo na cama com a tal da doutora?  Você está com ciúmes agora, não está?

- Não... seria uma tolice ter ciúmes dele... eu preciso esquecê-lo... só isso... - Clara não conseguia mais conter as lágrimas, estava muito magoada por tudo o que estava acontecendo naquele castelo e Jack carinhosamente se calava e a abraçava, oferecendo seu apoio.

- Vamos subir, querida? - Jack levantou-se e ajudou-a a levantar-se do chão. - Vamos descansar... amanhã tudo será melhor...

- Vamos, querido... - ela agarrou-se em Jack e com ele subiu lentamente a imensa escadaria do castelo, estava com medo de cair depois de beber bem mais do que sua cota do delicioso vinho vermelho encorpado que tinha sido servido no castelo por toda a noite.

Jack ajudou-a a trocar de roupas e abrigou-a com seu próprio corpo do frio que vinha das paredes de pedra do castelo.

As ondas do mar batiam violentas contra as pedras da praia, naquela manhã cinzenta e ela sentia muito frio e mais do que isso, sentia a falta dele, seu amado duque estava longe,  em Paris. E apesar de seus pedidos, para ficar escondida até seu retorno, ela não conseguia mais respirar dentro daquele pequeno quarto oculto atrás da parede, em uma casa qualquer da vila, que seu pai tinha arrumado para eles.

Precisava respirar e já que não conseguiria ir ao seu lugar favorito no mundo, o carvalho no meio do gramado, no jardim do castelo, ela caminhava na areia da praia próxima, mesmo sentindo que estava arriscando-se a ser vista por um dos assassinos da duquesa.

E assim que conseguiu caminhar até uma das pedras em que costumava sentar-se na praia, ela pegou o pequeno livro de capa vermelha e o abriu. As lágrimas corriam abundantes em seu rosto, de saudades e de solidão. Tanto tempo separados, sua gravidez já estava bem adiantada e logo ela daria a luz a um filho e aquele estava sendo um dos raros momentos de paz que tinha depois da partida de seu amado.

O livro a fazia sonhar, de repente, diante de seus olhos, a majestade das montanhas verdes de sua terra se erguiam, e os ventos quentes do verão traziam no ar o perfume do campo de lavandas em que Ceridwen se deitava, como ela, esperando pela volta de seu amado.

Como ela, Anne agora ouvia o som de cavalos aproximando-se ao longe; nem se preocupou muito, continuando com os olhos presos a beleza da história de amor que lia mais uma vez, achando que o som que escutava era apenas mais um delírio de seu coração já pesado de saudades.

Mas seu delírio parecia estar ficando mais e mais real, a medida que o som aproximava-se. Tirando finalmente os olhos do livro, ela viu dois cavaleiros aproximando-se, usando as cores do castelo da duquesa Catherine. Ela precisava agora de um esconderijo e rápido.

Lembrou-se da caverna de cristal, na ilha adiante, mas não tinha um barco e por isso, decidiu correr para entrar na mata, que rodeava o castelo, onde sua carroça estava escondida. Correu até ficar sem fôlego, chegou à carroça e pegou a pequena estrada que atravessava o campo de lavandas, onde tinha vivido com seu pai e a marca queimada de onde antes ficava seu casebre, servia para lembrá-la que estava correndo um enorme risco agora.

Seu cavalo era bom, mas os cavaleiros continuavam aproximando-se, cada vez mais rápidos. Desta vez não haveria escapatória, seu destino estava selado... e seu coração sucumbia de tristeza por saber que jamais veria de verdade o rostinho do filho de seu amado, com quem conversava todas as noites em seus sonhos... estava partindo da vida com o coração partido...

- Jack! - Clara acordou em prantos, assustada quando um raio caiu próximo do castelo fazendo um enorme estrondo. - Querido...

- Calma, meu amor... foi só um raio...

- Não... querido... não foi o raio... eu... eu... tive um pesadelo horrível...

- Vou pegar um copo de água para você... calma...

- Não... Jack... por favor... só me abraça...

- O que foi? O que você sonhou?

- Com a minha morte... eu era Anne de Bretagne... eu fui assassinada por dois soldados da duquesa... eles mataram meu filho... Jack... eu estava grávida...

- Calma, querida... já passou...

- A dor que eu senti, quando eu percebi que nunca o teria nos meus braços...

Jack a abraçava e chorava junto com ela. Seu coração estava em frangalhos, por ver a mulher que amava sofrendo tanto e por finalmente entender as ligações anteriores que ela tinha com seu rival. Para seu azar, elas eram muito mais profundas do que ele gostaria que fossem e ele agora sentia ainda mais ciúmes dos dois juntos.

- Calma, meu amor... vou buscar um copo de água para você... vai ficar tudo bem... - Jack levantou-se da cama e foi até o banheiro, onde pegou um copo de água para Clara. - Calma... respira fundo... acho melhor você tomar um daqueles comprimidos que o médico receitou...

- Ah... querido... me desculpa... eu não queria...

- Amor... fica tranquila... está tudo bem... estou aqui para cuidar de você... relaxa... deita em mim... eu quero te envolver no meu amor...

- Jack... - Clara beijou Jack com paixão e  envolveu-a com seus braços, como se quisesse distanciá-lo daquela dor.

- Querida... vou pegar seu comprimido...

- Não... não quero ficar dopada... me deixa sentir minha tristeza, Jack...  eles me mataram, mas o que mais me doeu, foi não ter tido a chance de ver meu filho nascer...

- Não pensa mais nisso, meu amor... Que tal irmos embora daqui, assim que amanhecer?

- Não precisa, amor... podemos ficar... eu prometo que não vou te incomodar mais... vou ficar bem quietinha no meu canto, lá no estúdio...

- Não, amor... não suporto te ver assim triste... vamos passar o resto da semana na nossa montanha...

- Vou melhorar... por você... pelo Mick e por nossos amigos que estão aqui também para ajudar a minha carreira... eu devo isso a eles...

- Meu amor... você não deve nada a ninguém... quero que agora você pense só no que é melhor para você... no que vai te fazer bem...

- Estar com você aqui, do meu lado, me faz bem, Jack... eu te amo...

- Ah, Menininha... se eu pudesse, arrancaria com as minhas mãos toda essa dor que você sente... acho que você precisa conversar com o Mick sobre esse sonho... é uma coisa que vocês viveram e precisam superar juntos...

- Você tem razão... mas não quero pensar sobre isso agora... Estou tentando organizar a minha cabeça e acalmar meu coração... esse sonho me deixou muito triste...

- Deita em mim... descansa, Menininha... vou te ninar, até que você pegue no sono novamente...

Com os olhos inundados de lágrimas, Clara beijou-o com paixão. Ela atirou-se nos braços dele e tentou relaxar, precisava distanciar-se da dor que estava sentindo. O carinho dele acalmou-a e os dois pegaram no sono  juntos e sonharam com um por do sol perfeito na sua montanha.

Acordaram emocionados e se amaram, lenta e apaixonadamente, afastando toda a dor que sentiram para longe.

Juntos tomaram um longo banho de banheira e desceram abraçados bem tarde, prontos para o brunch que já estava sendo servido no salão de jantar, sob o afresco, que Clara agora sabia, retratava o drama de sua vida anterior ao lado do Duque Jacques de Grimaldi.

Continua